Colors
2 Capítulo 1- Lysa.
Lysa.Após o treino de hoje, Senhor Heartlinne, o instrutor de Ballet do Instituto Educacional de Oxford, mais conhecido como a escola em que frequentei a vida toda, parou a minha saída questionando-me se estava tudo bem indagando o porque de estar tão dispersa; eu lhe dei, provavelmente a desculpa mais esfarrapada que conseguia, como sempre.— Sim, eu só preciso praticar mais, senhor. — E tentei sorrir sutilmente abaixando a cabeça, quase pronta para deixar a sala novamente, senti a mão enrugada do coreógrafo no meu queixo me fazendo olhar para o horizonte da sala cheia de espelhos e barras, ele murmurou que dançava como Odette de Tchaikovisky e eu neguei suspirando, olhando para o senhor de fios grisalhos, aqueles olhos verdes cansados eram tão doces que parecia que tinham o dom de fazer qualquer um olhar para dentro de sua alma, olhei-os antes de respondê-lo. — Eu consigo fazer melhor.
— Não seja tão dura consigo mesma. — O velho senhor retrucou, e o respondi, o que talvez, todas as outras bailarinas teriam respondido se estivessem no meu lugar: "Eu só quero ser perfeita"; era simplesmente o que todo o aglomerado de dançarinas ao redor do mundo quer, ser perfeita, aquela era a chave para o meu sucesso como profissional. Eu o escutei suspirar pesadamente antes de se por a falar. — E o que acontece quando você atinge a perfeição, Lysa? Você simplesmente vai parar? São as nossas imperfeições que nos mantém vivos, é a nossa gasolina, nossa motivação. Venha aqui, vamos tentar desde o Développé. Musica por favor. — Ele disse entusiasmado caminhando para a direção de minhas costas, segurou minhas mãos com firmeza, embora seus braços tremiam cansados pela idade.E naquele momento, eu fiz o de costume, tentei dançar o mais perfeito possível, Heartlinne me alertou para não me preocupar com a técnica, eu parei a dança no momento, estava tão intrigada que meu rosto tomou cor pela inquietação enquanto o instrutor fazia um sinal negativo com as mãos, assenti positivamente com a cabeça engolindo as palavras que Alyssa com certeza deixaria escapar, começando a coreografia novamente, e mais uma vez Richard me parou.— Esse é o problema Andderson, pare de tentar dançar— Ele disse ainda calmo me chamando pelo sobrenome. — Mas eu sou uma dançarina, senhor.— respondi indignada com o que teria escutado de Richard Heartlinne, o homem que eu mais idolatrei a minha vida toda. — Não não não, você não é. Você é um pássaro, você é forte, orgulhoso e tem beleza em cada movimento, você me entendeu? Vamos fazer isso mais uma vez. — Ele disse esperançoso com seu encorajamento, escutei aquelas palavras com atenção, e mesmo não entendendo se quer o que o homem de espirito juvenil e corpo fadigado pela idade disse tentei aplicar aos meus movimentos, a partir daquele momento eu não era mais a dançarina eu era um pássaro e a cada pirueta eu era forte e orgulhosa, quase como um cisne, como Odette. E então eu senti, eu não estava tentando dançar, até chegar a hora do meu solo, me libertei das mãos tremulas do meu instrutor, eu senti, flutuando sobre meus próprios pés eu pude sentir a liberdade, a segurei, até a ultima nota do piano, eu, finalmente consegui entender o que Heartlinne queria com toda aquela metáfora, e com esse sentimento eu soube qual era o sabor da verdadeira perfeição que eu tanto almejava antes. Mal vi o tempo passar, estava perdida em meu próprio mundo que orbitava na velocidade de minhas piruetas, escutei Richard aplaudir brevemente antes de cessar a musica, dizendo com toda a calma do mundo que já tínhamos feito muito por hoje, realmente estava ficando muito tarde, e era quinta, como tinha me esquecido! Hoje era o jantar de irmãos, eu nunca estive tão ansiosa por este dia desde que me entendia por gente, entretanto hoje era mais que só o dia do almoço entre irmãos; era o dia em que todos nós iríamos estar reunidos novamente. Quando me lembrei deste fato já era tarde demais, tive de correr logo a pegar a mochila, mas francamente, correr com sapatilha de ponta sempre foi um pé no saco, o gesso ficou batendo no chão e ecoando o caminho todo, as tirei com pressa, jogando as sapatilhas rosa-bebê dentro da mochila de colo esportiva nada chamativa — rosa pink — que eu tinha. Tirando de lá dentro também, um par de sapatos, não daria tempo nem de me trocar, com certeza já estavam a minha procura. Calçados no pé me virei com os mesmos desamarrados, saí correndo, já estavam a minha espera impacientes, como sempre. — Andderson! Não corra na sala de ensaios!— Escutei o Senhor Heartlinne me alternando o tom de sua voz, não dando muito ouvidos ao velho, já estava quase na porta de qualquer forma; eu tentava soltar o coque ao mesmo tempo que corria sem ver muito o que estava além da porta. E foi por não ver quem estava a porta que acabei me esbarrando e caindo ao chão, escutei uma risada baixa do garoto em quem eu trombei, ele estava ao chão também, meus fios loiros cobriam o rosto tapando a minha visão, naquele momento eu não pude vê-lo, talvez havia perdido a grande chance de ter a minha primeira paixão a primeira vista. —Me desculpa. — Eu disse um tanto constrangida, me levantando e arrumando o collant, ele se levantou também e ajeitou os fios que caíram sobre meus olhos, então eu pude ver quem era o garoto, ele tinha cabelos loiros muito parecidos com ouro e olhos verdes, como esmeralda lapidada. Quem era aquele garoto?
— Faça das suas palavras as minhas, senhorita. — Que voz era aquela? Era como a sinfonia da valsa das flores; a minha sinfonia favorita por sinal, com uma mistura de Bach. Inexplicável, era certamente uma belíssima voz. Escutei Richard chamar um nome logo depois que o garoto sorriu ao terminar de falar. — Thom, vejo que já conheceu a Lysa, nossa melhor dançarina. — Heartlinne disse.— Pai! Aparentemente tivemos um encontro chocante. — O garoto riu graciosamente cessando os olhos, vendo de perto Richard e o outro garoto eram realmente parecidos, eu soltei um sorriso desajeitado ainda com certa vergonha pelo tombo, ele me olhava paralisado por alguns momentos, não entendi o porque, e então mexeu a cabeça voltando para si, sorrindo desconcertado e pondo-se a falar. — Então você é a famosa pequena Andderson, de quem o velho Heartlinne tanto fala? É um prazer, eu me chamo Thomas... Heartlinne... Sou o filho mais novo. — E sorriu novamente, eu nunca tinha visto alguém tão sorridente como Thomas, quase incomodativo se não fosse tão encantador.Eu sorri e escutei a conversa de pai e filho dos dois, Thomas era da Alemanha e teria vindo para passar um semestre, havia acabado de iniciar seus estudos no instituto; mal vi o tempo passar e acabei me esquecendo mais uma vez do jantar, em contraponto descobri que Thom e eu tínhamos mais em comum do que qualquer um poderia imaginar, seríamos grandes amigos e, particularmente, era tudo o que eu mais queria era a companhia Heartlinne Junior e descobrir todos os seus segredos.— Por acaso eu estou atrapalhando algo? — Eu me virei rapidamente com um frio na espinha, aquela voz era muito mais que conhecida, agora tinha me lembrado, estava atrasada! Eles não mandaram alguém como Ethan ou Collin, mandaram Satã. E ele estava furioso, ou melhor, Ela!
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