Colorado
4 Capítulo 03
— É só manter as pernas firmes. — Piper conseguia sentir os dedos de Nico segurando seus pulsos como se a vida dependesse disso, olhava para os patins parados no gelo, a face pálida e brilhante de suor lhe dava a impressão de que a superfície racharia a qualquer momento e ambos seriam tragados para o Tártaro. — Olhe para mim, vamos começar a andar. — O charme foi empregado sem remorso algum para que os danos a sua paciência não fossem permanentes, ele acatou seu pedido de imediato, passando a acompanha-la devagar.
Piper se perguntava se aquele medo todo era por estarem nos domínios semelhantes ao de Poseidon.
"Isso seria engraçado se ele me soltasse um pouquinho."
Nico deveria ter chamado Will também!
O filho de Hades olhou para a direita de forma irritadiça: Reyna estava desenhando um 8 a alguns metros de distância sem qualquer problema ou desequilíbrio.
— Como você conseguiu aprender tão rápido?! — A pretora não deixou de se movimentar sobre o gelo quando o fitou com a sobrancelha arqueada, ela girou sobre o próprio eixo para continuar a olha-los, patinando de costas.
— Do que está falando? Isso não é difícil. — Piper pensou a princípio que fosse alguma piada, mas o tom era verdadeiro demais para tal. Reyna voltou-se para os próprios movimentos quando ninguém disse nada.
— Exibida. — O murmúrio ressentido a fez fingir não tê-lo escutado.
Mesmo que concordasse.
A grega e seu aluno deslizaram e baixa velocidade pelas margens do lago congelado, — mesmo com o charme convencê-lo a ir mais adiante foi em vão, — como a pretora dissera no dia anterior o bosque era apenas neve e pinheiros, tão frio quanto os arredores da casa, mas o vento não poderia alcança-los com toda sua potência, o que agradecia por ser um fato.
Sem permissão seus pensamentos a levaram até o acampamento, naquela época do ano ele sempre ficava um pouco mais frio e vazio.
Mesmo em seus dias de crise a fogueira sempre era acessa, um meio-sangue aleatório era posto para lavar pratos ao desafiar o horário de voltar ao chalé, filhos de Hermes pregando peças, filhos de Ares tentando matar alguém, sátiros correndo atrás de dríades acabando por beijar árvores e talvez perder um dente, seus irmãos fugindo da detestável Drew Tanaka. Seus amigos estavam lá, quase como se fossem uma espécie de família grande demais.
O Acampamento Meio-Sangue era divertido, agitado, alegre, engraçado e simplesmente um dos lugares mais incríveis da terra.
Mas ele não podia lhe proporcionar paz.
O ar úmido que lhe enxia os pulmões era estagnado, como se estivesse ali a muito tempo, intocado e puro, o azul esbranquiçado do lago congelado, antes dos sulcos feito pelas lâminas dos patins, estava intocado. Enquanto caminhavam pela floresta Piper teve a leve sensação de não deveria tocar em nada, sequer as pegadas deveriam ficar, que estava ali apenas como uma observadora sem importância, os únicos sons que ouvia eram produzidos por eles, os cortes no gelo, uma respirar fundo, ou por uma brisa ocasional entre galhos.
Era como as vezes em ela e seu avô acampavam sozinhos nas florestas do Kansas.
Observou com atenção cada detalhe que os raios de sol da manhã lhe proporcionavam, o silvo suave da brisa invernal, tentando decidir se aquilo que vira saltar de um galho era um esquilo ou não.
Respirou profundamente tentando voltar a realidade, se Nico caísse nunca mais confiaria nela.
— Foi muita sorte esses patins estarem aqui. — Murmurou para o filho de Hades enquanto faziam uma curva, tentando continuar com a cabeça no local. — Ok, a irmã da Reyna deve usar esse lugar para férias, mas ter três no número certo é muita sorte. — Um galho de pinheiro balançou ao alto, chamando a curiosidade de Piper sobre que animal poderia estar ali.
Estava ponderando se devia continuar a apostar nos esquilos até Nico soltar um riso sem graça e rouco.
— O que? — Indagou, já desconfiada.
— Eu pedi para ela deixar aqui. — Seu aluno medroso olhava fixamente para as pedras da margem, fez outra curva para leva-lo ao centro do lago, vê-lo engolir em seco arrancou um sorriso satisfeito de seus lábios. — Q-qual é? Todo mundo precisa de férias, estou cansando daquele lugar ensolarado. — Nico soltou seus pulsos, equilibrando-se e arriscando seus primeiros passos sozinho. — Você sabe que ninguém precisa atravessar meio país para deixar alguém em quarentena. — Completou em um sussurro quase sem voz.
Seu colega de acampamento deu de ombros e voltou para margem fingindo uma calma que não tinha. Piper apenas suprimiu o riso e a vontade de soltar um obrigada.
Nico era simplesmente fofo.
Distanciou-se mais dele, fitando o outro ser humano presente.
Reyna patinava como se não tivesse aprendido apenas há duas horas, não se arriscava a fazer qualquer manobra ou salto, porém a segurança com que se movia pela paisagem era sem dúvida impressionante, olhava para a floresta iluminada pelos raios mansos de sol de forma concentrada, Piper pode reconhecer o que ela sentia pelo local, ela própria estava se esforçando para não ser tragada por toda aquela beleza simples e inspiradora.
Mesmo com a lembrança de Quione ainda viva em sua memória.
Aproximou-se dela sem razão aparente, apenas patinando ao seu lado por algum tempo, Reyna não lhe dirigiu o olhar, mas sabia que havia a notado.
— É bonito, não é? — Murmurou de forma respeitosa como fazia quando criança ao ouvir vovô Tom sobre as lendas cherokee.
— É tranquilo. — Seria estranho sentir um alívio ao notar um tom semelhante na fala dela? — Faz tempo que não me sinto assim.
A filha de Afrodite deixou de encara-la para olhar o céu, límpido em um azul sedoso sem interferência de poluição, tão lindo que lhe arrancou um suspiro.
O céu no acampamento era assim também, não era?
— Por que não se sente tranquila? — Ninguém precisava lhe dizer que Reyna era uma pessoa ocupada, entretanto a guerra acabou, já não cuidava do Júpiter sozinha.
— Sempre estou alerta. — Piper encarou os sulcos finos pelo lago congelado, sem entender ao certo qual era o sentimento na voz da pretora. — Acho que se tornou um reflexo.
Piper mordeu o lábio inferior.
Reflexo?
— Isso é horrível. — Se pegou dizendo, sem realmente estar se referindo a Reyna ou querendo uma resposta. — É como se você não precisasse mais pensar no que fazer, tudo já está na sua cabeça, memorizado como uma equação de matemática ou alguma música pop nova e grudenta. — Rolou os olhos, irritada com as próprias palavras. — Se tem algo mais bizarro do que ser um meio-sangue é ser uma meio-sangue com uma vida chata.
Sua fala foi ranzinza, porém conseguiu arrancar um riso suave da romana, surpresa, deixou de encarar o gelo para fita-la.
— Você é engraçada, McLean. — Continuou a olha-la se divertir, sem saber ao certo o porquê, ela também o fez, os olhos primordialmente castanhos continuavam com o brilho avermelhado e, que pela primeira vez não foi um presságio de dias ruins. — Mas não deixa de ser verdade. — Reyna deu de ombros e voltou a encarar o bosque, com um humor melhor que vira após a guerra, ou na noite anterior, enquanto lhe fazia um sanduíche.
Férias?
— Ei, vocês duas! — Ambas olharam para a outra ponta do lago, onde um Nico irritado gritava, patinando em círculos. — Como se para isso?!
Piper tossiu em uma tentativa de esconder o riso enquanto se dirigia até ele.
"Talvez isso seja o que você precisa."
***
— E então... — A pausa dramática de Nico foi exagera e obviamente sem intenção de ser assustadora. — Ele abriu o armário da cozinha e encontrou o irmão mais velho com uma filmadora na mão! — O garoto continuou com o enfoque teatral até o fim, fitou a Reyna e ela por um instante, de forma séria e quase preocupada, apenas para um segundo depois rir e quase queimar o marshmallow na fogueira.
Como era bom ter um filho de Hades preferindo piada a histórias de terror.
Foi com prazer que Piper pode observar o céu abundante de estrelas e a lua cheia brilhando intensamente, sem a ameaça velada de nuvens despejando sua fúria invernal em forma de neve. O vento dera uma pausa no final da tarde e, por mais que a temperatura não fosse alta, a fogueira tinha tamanho suficiente para que não tivessem vontade de voltar para a casa e se embrulhar em um cobertor.
O chocolate quente também era de grande ajuda.
— Isso não foi uma história de terror. — A pretora pontuou antes de morder o marshmallow tostado. Nico olhou para Piper por alguns instantes, indagando se sua amiga falava tão sério quanto aparentava.
— Foi divertido de qualquer forma. — A grega disse de modo banal, Reyna também a encarou com dúvida em sua expressão, apenas deu de ombros e sorriu antes de voltar a atenção ao próprio assado.
A filha de Afrodite ainda não sabia exatamente quais eram os efeitos do veneno como um todo, mas era como se inibisse o sarcasmo. Reyna parecia não ter capacidade de ler as entrelinhas ou piadas, entendia tudo de forma literal, também parecia mais aberta a falar, olhava para tudo com curiosidade e não tinha vergonha ao expor suas dúvidas e ideias em geral, era de alguma forma puro.
Quase como uma criança.
Sorriu para o fogo, como se ele também compartilhasse de suas opiniões.
— Já acabaram os marshmallows? — O desespero na voz de Nico soou cômico, dificultando sua tarefa de não rir.
— Tem mais lá na cozinha. — Tinha certeza que no armário havia ao menos mais um saco. — Está no armário em cima da geladeira. — O filho de Hades fincou o galho de pinheiro no chão e se levantou, indo até a casa em passos largos.
Ou estava ao lado da pia?
— Nico comeu metade dos marshmallows sozinho. — Reyna pontuou se servindo de mais chocolate quente na garrafa térmica, Piper apenas observou com um sorriso sarcástico crescendo em sua face.
"E você quase todo o chocolate."
Aqueles dois tinham mais coisas em comum do que Piper poderia imaginar.
— Annabeth me disse... — Reyna começou, a puxando de seu divertimento particular. — Que você estava pensando em entrar para a universidade em Nova Roma, já tem algum curso em mente? — A filha de Afrodite abaixou os olhos para o fogo amarelado, carbonizando um pedacinho da massa branca que de repente já não parecia tão gostosa.
— Não exatamente. — Deu de ombros, pensado em como mudar de assunto. — Só me parece o certo, sabe, — balançou a massinha fumegante e completamente tostada, fingindo interesse em sua obra, — depois do ensino médio vem a faculdade.
— Se não tem interesse específico é melhor que tire um tempo para você, pode se arrepender se for impulsiva. — Mordeu o lábio inferior, sem ideias do que mais poderia distrai-la dos olhos que a sondavam sem descanso.
— Se não fosse por impulso eu nem estaria aqui. — Sussurrou para si mesma, fitando o céu em busca de qualquer constelação.
Por que Nico estava demorando?
— Como assim? — A indagação de Reyna fez com que encarasse por reflexo, a clara dúvida em sua expressão provocou um debate interno entre sua consciência e ela mesma.
Talvez fosse justamente aquela teoria que o filho de Hades contara.
Por que não desabafar com ela? Estavam em um local isolado que conseguia trazer paz a sua mente atormentada.
— Jason e eu brigamos. — Murmurou voltando ao fogo. — Eu não queria encarar as fofocas ou falar com ele, por isso vim.
— Não consigo acreditar nisso. — Sorriu sem humor, até para ela era difícil. — O que aconteceu?
Crispou os lábios com incerteza, por onde começar a explicar se nem mesmo ela sabia qual o início?
— É meio complicado. — Jogou o galho no fogo e cruzou as pernas, tentando ganhar tempo e organizar as ideias. — A um tempo tenho me sentido estranha em relação a ele, nos estávamos juntos, mas não era a mesma coisa. — Esfregou as mãos e se aproximou mais da fogueira, Héstia bem que poderia ajuda-la. — Eu disse isso ao Jason mais de uma vez, só que ele sempre me olhava como se estivesse procurando coisas que não estavam ali, isso foi me irritando e na última briga eu acabei terminando com ele.
Piper não soube ao certo porque sua voz foi sumindo aos poucos, porém rezou para que a pretora tivesse escutado e não precisasse repetir. Ela ficou em silêncio por mais tempo do que poderia esperar, ergueu os olhos até os dela, apenas para dar de cara com eles, a encarando profundamente, como se quisesse extrair o significado do que dizia de sua parte mais profunda, o brilho amarelado que a fogueira proporcionava apenas piorava a situação.
— Você disse que estar com ele já não era o mesmo de antes. — Mesmo a voz dela saindo baixa e suave, Piper engoliu em seco, nervosa com o momento. — O que está faltando?
Por que seu coração estava batendo tão rápido?
— Eu... — Murmurou sem fôlego e, sem qualquer ideia do que estava acontecendo. — Eu não sei...
— Uma emoção incerta é o bastante para terminar o namoro? — Piper piscou por três vezes, absorvendo a pergunta.
E a irritação que viera com ela.
— Como é que é? — Reyna realmente estava lhe questionando sobre isso?
— Você está jogando um relacionamento fora sem saber o porquê, isso é injusto até com o Grace, que nem sabe o que está acontecendo. — A leveza com que a acusação foi feita fez com que a grega exalasse de pura indignação, Reyna apenas bebeu um pouco de chocolate casualmente.
— É mesmo, pretora? — Indagou com deboche, o olhar de dúvida vindo dela foi um combustível excelente para sua raiva. — E quem é você para me dar conselho sobre namoro? Acho que a minha mãe não concordaria com isso.
Mal as palavras sairiam de sua boa a romana baixara o olhar para fogo e Piper sentiu vontade de estapear a própria cara.
— Desculpe. — Ela sussurrou para a fogueira, como se tivesse levado um murro no estômago. — Estava só estava tentando ajudar.
Engoliu em seco também com os olhos nas labaredas, tentando achar um motivo plausível para ter sido babaca.
E idiota.
"Imbecil."
Estupida.
— Os marshmallows estavam debaixo do banco da cozinha. — A voz de Nico soou acusadora ao longe, a filha de Afrodite ainda procurava por forças para levantar a cabeça. — Eu não sei quem foi, mas alguém vai pagar por ter escondido... — Ele se sentou no mesmo lugar de antes, sentindo o clima denso e não muito amigável. — Aconteceu alguma coisa?
"Sim, eu estou virando uma cópia da Drew."
Piper respirou fundo e fitou-a novamente, a filha de Belona olhava para algum lugar a sua esquerda, obviamente não querendo mais conversar.
— Reyna. — Ao menos tinha que tentar. — Desculpe por...
— Shh... — Cortou. — Fique quieta. — Mordeu o lábio inferior tentando se concentrar no remorso e não nos xingamentos.
— É sério, me... — A pretora levou dois dedos a boca e assoviou, em questão de instantes seus cães metálicos estavam apostos no começo da trilha do bosque, metros à frente, Reyna se levantou, séria.
— Esperem aqui. — Sem qualquer outra explicação rumou para as árvores, Nico e Piper ficaram parados, absortos pelo que acabara de ocorrer, encararam-se por mais alguns segundos até sacarem as armas e seguirem a pretora.
— O que aconteceu? — O filho de Hades indagou em um sussurro exasperado.
— Não faço ideia. — Disse no mesmo tom, deixou Katoptris ao alto para conseguir ver algo no breu do bosque. — Que ideia é essa de sair assim no escuro?
— Só vamos tentar encontrá-la. — Suspirando, Piper teve que concordar.
Eles continuaram a caminhar em meio as árvores devagar, temendo um tropeço nas armadilhas formadas pela neve fofa. A dúvida se deveriam chamar por Reyna ou apenas tentar seguir as pegadas era grande e desprovida de solução, a noite longe do calor do fogo era ainda mais fria do que a grega pensou a princípio, evidenciando a característica fumaça branca sendo expulsa por sua respiração pesada e tensa, a pele exposta de seu rosto queimava com a brisa suave, crispou os lábios, prevendo as rachaduras futuras.
— Você ouviu alguma coisa lá atrás? — Seu parceiro indagou ainda mais baixo, atento a qualquer armadilha.
O pio de uma coruja soou pelo bosque, ecoando entre os galhos e arrepiando a nuca de Piper.
— Nada. — Respondeu em um suspiro. — Acha que pode ser um monstro?
— Muito difícil, esse lugar tem uma barreira e a Reyna não lutaria sozinha. — A filha de Afrodite concordou com um aceno.
— Mas por que ela saiu assim? — Nenhuma hipótese que pensava parecia ser a certa.
Ela poderia ter ficado chateada, todavia não causaria medo se só quisesse ficar sozinha, toda a sinceridade de suas ações deixava claro que não podia mentir.
— Não sei, Piper. — A preocupação na voz dele era tão evidente que conseguiu deixá-la mais apreensiva. — Não sei.
O brilho pálido e distante da lua se fez presente assim que alcançaram o lago visitado horas antes, a filha de Afrodite buscou por pegadas na neve com a ajuda de sua adaga.
Sem sucesso.
— Reyna! — Nico gritou ao seu lado enquanto embainhava a espada negra, ela andou até as margens do lago, tentando filtrar qualquer movimentação na relva do outro lado, prendeu o suspiro de frustração mordendo o lábio inferior.
"Que porcaria, pretora."
Deu meia volta enchendo os pulmões de ar, se a digníssima romana não queria dar as caras, a obrigaria a fazer, porém deixou que o oxigênio preso fosse liberto junto a surpresa quando viu algo brilhando na bifurcação da trilha.
Algo que se parecia muito com um cachorro.
— Nico. — Chamou sem encara-lo, se pondo a correr até Aurum, que trotava novamente por entre os pinheiros.
Ouviu os passos apressados do grego pela neve atrás de si, não muito diferente dos seus, puxou Katoptris novamente e seguiu o bichinho de Reyna até uma clareira. Uma claridade semelhante à anterior foi a chave para reconhece-la alguns metros à frente com a espada fincada no chão, agachada ao lado de uma árvore morta com Argentum sentado olhando para os recém-chegados com seus olhos de rubi.
— O que foi tudo isso?! — Ainda a metros dela Nico perdeu a paciência, não que Piper pudesse culpa-lo. — Você...
— Fique quieto, Nico. Está atrapalhando. — Ordenou ainda virada de costas, o filho de Hades arfou, e se aproximou mais, todavia Piper segurou a manga de sua blusa para impedi-lo, ele encarou-a aborrecido, Piper apenas o arrastou mais para o lado e apontou para o buraco no tronco da árvore.
Sem palavras, a grega observou uma cadela de pelo curto, marrom e branco, menor que os galgos, deitada sobre a neve, seu tronco estava inchado e ao seu lado, quase sem que se notasse, repousavam três filhotes recém-nascido.
— Se ela ficar aqui na neve os filhotes vão morrer. — A pretora começou a retirar o casaco preto, em nenhum momento desviando os olhos da cadela, tão pouco ela o fez. — Mas vai ser difícil tira-la daqui. — Reyna suspirou, como se imaginasse o trabalho que teria pela frente. — Me deem suas roupas. — Piper fitou Nico, esperando protestos, porém o garoto apenas obedeceu.
Fez o mesmo, rezando a mãe que o charme também funcionasse com animais.
E que não pegasse um maldito resfriado.
***
Não funcionava, mas falar de forma calma e suave pareceu fazer efeito sobre o instinto materno desperto há pouco tempo.
Já o resfriado: saberia apenas na manhã seguinte.
Acomodaram a cadela na sala de estar dentro de uma caixa grande que o grego achou no porão, acenderam a lareira, mesmo com Piper tomando o cuidado de forrar a caixa com um cobertor extra que havia em seu quarto, Nico resolveu voltar para o próprio para que a nova visitante da casa pudesse descansar, já que animais não gostavam de filhos de Hades.
Ou apenas porque estava incomodado com o olhar dela, o que parecia mais plausível a Piper.
Agora ela e Reyna se encontravam sentadas no sofá com um único cobertor para ambas fingindo assistir a reprise do Super Bowl.
Ao menos aquela era uma verdade para a filha de Afrodite.
Espiou o animal, que finalmente dormia no recipiente virado de lado, os filhotes estavam aninhados a ela, também dormindo e acompanhando a ondulação que o ato de respirar fazia ao tronco da mãe, tinha uma coleira avermelhada no pescoço com uma medalhinha onde a grega achava que estava escrito Jun, porém chegar perto o bastante para ter certeza poderia lhe custar marcas de dentes permanentes no rosto.
— Amanhã a gente poderia ir até a cidade. — Murmurou com hesitação a palpitar em seu peito, sem encarar a garota sentada junto de si.
Estava envergonhada demais para fazer diferente.
— Os donos dela devem ser de lá. — Reyna completou seu pensamento. — Provavelmente estão preocupados. — A empatia na voz dela era tanta que Piper inconscientemente procurou por Aurum e Argentum na sala.
— Como você sabia? — Talvez a romana tivesse ouvidos biônicos.
— Achei que tinha ouvido um uivo. — Sentiu o dar de ombros dela antes de vê-lo. — Estava esperando encontrar um filhote de lobo, não uma basenji dando à luz.
— Basenji? — Questionou, mais concentrada em manter uma conversa por tempo suficiente para que a coragem usada em suas missões ressurgisse.
— É a raça dela. — Respondeu simplesmente, aconchegando-se mais ao cobertor com os olhos a fitar a TV, a filha de Afrodite sorriu.
— Você gosta mesmo de animais. — Murmurou mais para si mesma do que para Reyna. — E tem razão. — Confessou em um suspiro, tendo seus olhos novamente em choque com os dela, curiosos sobre o tom firme e contraditoriamente hesitante. — Terminei com Jason por impulso, não sei exatamente o porque e isso me frustra muito. — Sua voz soou mais certa e forte do que em tempos não ouvia. — Me desculpe por descontar os meus problemas em você.
A pretora apenas a encarou por incontável e apreensivos segundos que se negavam a passar com a velocidade normal, a encarava com algo semelhante a curiosidade, porém a intuição de Piper lhe dizia que não era isso, — de qualquer forma, ela falhou tanto nos últimos dias que era difícil confiar novamente, — por fim um sorriso curto, embora satisfeito e suave, iluminou o rosto de Reyna.
Sentiu o suspiro de alívio se projetar em sua boca, todavia o susto de notar o braço da pretora a envolver pelo ombro e traze-la para si impediu que seus sentimentos anteriores fossem expulsos definitivamente.
— Não se preocupe com isso. — Seu rosto se encontrava levemente pressionado ao tecido da blusa que a romana usava, deitado em seu ombro, a voz dela soou reconfortante e diferente do medo que mostrava-se presente sempre que Reyna estava consigo.
Ínfimo e distante, como se nunca houvesse acontecido.
Piper fichou os olhos e expulsou o ar dos pulmões, a tensão em seus ombros cedeu, ela sequer pareceu notar o peso que depositou de forma um tanto egoísta, sem que soubesse ao certo o porquê o cheiro suave do cobertor surgiu para seu olfato, como um convite irresistível para que simplesmente fechasse os olhos e se permitisse descansar.
Estava tão cansada dos olhares de cobrança e ressentidos de seus irmãos, como se terminar um namoro fosse o crime mais atroz que um ser humano pudesse cometer, dos pitacos curiosos e maldosos que o acampamento dava sobre seu relacionamento, quase apostando no final trágico, em um possível pivô da separação, como se sua vida estivesse na Peaple dos semideuses ou se Jason e ela quisessem comentários.
Tudo isso irritava, mas o pior era ouvir da boca do próprio — ex — namorado que tudo era coisa de sua cabeça, que não havia problema na relação dos dois, como se tivesse inventado o peso vazio em seu coração.
"Não, o pior é você ser filha da deusa do amor e não saber o que está sentindo."
Um dia aquela ironia seria engraçada.
— Está tudo bem. — A pretora murmurou suavemente, sem saber o quanto as três palavrinhas lhe faziam bem.
Algo em sua cabeça, — possivelmente a consciência, — sussurrou para que se desgrudasse dela e fosse dormir, já havia se desculpado e provavelmente sairiam cedo no dia seguinte, entretanto seus movimentos foram apenas puxar mais o cobertor e se ajeitar melhor ao aconchego que o colo cedido de bom grado proporcionava.
E Reyna não pareceu se importar.
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