Colorado
5 Capítulo 04
Batatas fritas congeladas, duas caixas de suco, uma lata de leite em pó, bombons, três barras de chocolate e dois pacotes de Doritos.
Ao menos a casa de Hylla estava abastecida de legumes e verduras o suficiente para não morrer comendo apenas porcarias.
— A cidade é minúscula, mas esse lugar tem muita coisa. — Nico sussurrou ao seu lado com a cesta em mãos, Piper fingia prestar atenção nas pastas de dente para evitar o olhar demorado do caixa a sua pessoa.
Por que os donos de Jun também tinham que ser donos do posto de gasolina?!
— Já pegou tudo? — Queria ir embora o mais rápido possível, conhecia um olhar de quero te convidar para sair quando o via.
— Só vou pegar uma Coca, pode ir para o caixa. — O filho de Hades virou o corredor antes de seu olhar recheado de ódio pudesse alcança-lo.
Respirou fundo e colocou sua melhor cara de paisagem ao andar para o tão temível momento.
A noite dormindo no sofá lhe rendeu uma dorzinha nas costas e uma expressão de estranheza na face de Nico na manhã seguinte, embora tenham sido motivos muito rasos para se arrepender, a viagem até Grand Lake não durou mais de 15 minutos, achar os donos da cadela foi mais fácil ainda visto que um garoto de aproximadamente 10 anos de idade entregava panfletos com a foto dela no posto de gasolina onde pararam para abastecer.
Agora Jun, junto a seus recém-batizados filhotes Gold, Silver e Copper, — obviamente a criança ficaria impressionado com Aurum e Argentum, — descansava na casa da família aos fundos da loja de conveniências. Teria sido um começo de dia lindo se Tim fosse filho único.
Jerry tentou dar um sorriso confiante e legal quando colocou o cesto no balcão, mas as espinhas eram um lembrete constante de Zetes, o irmão magrelo e convencido de Quione.
Deuses...
— Parece que vocês vão fazer uma festa. — Juntou toda a força de vontade ainda disponível e tentou ser agradável, nunca mais o veria na vida.
— Noite de filmes, sabe como é. — Na realidade Nico era apenas exagerado, mesmo que chocolate quente e um bom filme fossem uma excelente pedida.
Olhou para os lados a procura do garoto, sumido entre os corredores abarrotados de produtos, lá fora Reyna estava conversando com o irmão mais velho do trio, obviamente sem notar os flertes toscos e desajeitados. Passou a acelerar sua retirada dos produtos da cesta, afim de ajuda-lo e sair o quanto antes daquele lugar, entretanto Jerry não parecia preocupado com isso, passando a compra com uma lentidão extrema enquanto tagarelava sobre o choro constante do irmão por causa de Jun, agradeceu pela milésima vez olhando-a fixamente, em uma provável tentativa de flerte: incrivelmente assustador.
— Pronto. — A simples palavra quase a fez chorar de alívio.
O filho de Hades dispôs uma garrafa de Coca-Cola de três litros na frente de seu pretendente indesejado, toda a boa vontade e humor vacilaram um pouco, mas o sorriso cortes e automático para clientes continuava lá.
— Vou esperar lá fora. — Murmurou para seu salvador e acenou em despedida para Jerry antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
O vento frio arrepiou a pele do rosto quando deu seu primeiro passo para fora, mas foi de bom grado que o recebeu. A pretora se encontrava junto à bomba enchendo o tanque do Mustang ainda falando com o mais velho dos irmãos.
Quase como se os deuses quisessem testar sua paciência, colocou as mãos nos bolsos do casaco e se pôs a avaliar a cena ao caminhar até eles.
Diferente do irmão mais novo, Peter parecia ser um cara legal, — ao menos na última hora, — porém era impossível descartar o fato de que ele parecia ter trinta anos e por mais que Reyna aparentasse ser mais velha, falava como uma autoridade e blábláblá: mas não o era.
"Tecnicamente isso é pedofilia."
Principalmente no momento delicado que passava.
Quando chegou perto o suficiente pode ouvir qualquer coisa sobre como galgos eram bons para caçar, Piper apenas rezou para que seu rosto não demonstrasse o nojo que sentia.
— Onde está o Nico? — A romana indagou assim que encostou no capô do carro.
— No caixa, vim tomar um ar. — Deu de ombros, fitando disfarçadamente as reações do outro presente, pela forma como sua face contorceu em dúvidas desconfiava do verdadeiro motivo.
— Demos sorte de você e seus irmãos terem encontrado a Jun, Tim mal dormiu noite passada. — Como Peter falava diretamente para Reyna, Piper não se incomodou em sorrir abertamente, abriu a boca para contradize-lo, todavia a pretora foi mais rápida.
— Não somos irmãos. — O que era bem óbvio, não é como se o trio fosse parecido. — Posso dizer que Nico e Piper são primos, mas eu nem isso sou. — Foi uma afirmativa, mas Reyna a fitou para se certificar.
E Piper não poderia ter pedido um presente melhor.
— É. — Confirmou sorrindo com toda a malícia que pode juntar para homem com o dobro de sua idade. — Nós não temos parentesco nenhum. — A coloração do rosto de Peter passou por uma palheta de cores do vermelho, surpreso, embora tentasse disfarçar.
Ouvir a voz do filho de Hades a fez perder o resto do espetáculo, a grega ajudou a acomodar as comprar e entrou no carro, dessa vez sentando no banco do passageiro, — coisa que Nico entranhou, — diferente de antes o irmão mais velho não se demorou com conversas mesmo quando Reyna disse que iria pensar em vir para a festa de aniversário da cidade.
Partiram em seguida com uma satisfação extrema: tinha se livrado de dois problemas de uma vez, talvez os conselhos de Drew não fossem tão estúpidos assim.
***
Piper tinhas séries dúvidas se amava ou odiava tomar banho no inverno.
A água quente em contato com a pele era prazerosa e relaxante, poderia muito bem dormir debaixo dela se não tomasse cuidado: mas sair era horrível. Quase como se um boréadas estivesse à espreita, quem sabe não seria o próprio Jack Frost?
Assim que deixou o banheiro tratou de calçar as pantufas e se enrolar no cobertor grosso antes de sair do quarto, rumando até a cozinha. Seu desejo por chocolate quente precisava ser sanado.
Ver Nico com metade no corpo para dentro da geladeira lhe rendeu um arrepio e murchou a graça por vê-lo comendo novamente.
— Oi. — Cumprimentou-o brevemente, já a procura dos ingredientes nos armários. O grego murmurou uma resposta inteligível, também concentrado em sua tarefa.
Mexendo o que se tornaria parte de seu antigo ritual nas noites mais frias de Malibu, quando o pai não tinha tempo para ela ou havia feito alguma besteira, deixou que seu olhar recaísse na grande janela, dando vista para as partes mais baixas da região, já passava das dez horas da noite e o único ponto visível era o pequeno vilarejo de Grand Lake, a luz da cozinha lhe dava a impressão de que lá fora começava a nevar.
Era engraçado como uma paisagem tão simples e corriqueira poderia ser tão estranha a seus olhos.
Exceto os momentos em que passou em colégios internos, — horríveis, — em dias de inverno, quase não tivera contato com a neve, não nevava na Califórnia e no Acampamento Meio-Sangue isso sequer era lembrado. Um inverno rigoroso nunca fez parte de sua rotina, era como se a estação fosse apenas um lugar que visitava raramente e logo a esquecia.
O estranho era a sensação de familiaridade que nunca possuiu estar impregnando seus sentidos.
— O que vocês estavam assistindo? — A indagação chegou em seus ouvidos abafada, Piper não precisou se virar para saber que Nico já tinha encontrado o que procurava.
— Vocês quem? — Tentou puxar na memória algo que respondesse à pergunta, em vão.
— Vocês duas ontem, dormindo no sofá. — Se a filha de Afrodite estive bebendo algo teria engasgado, agradeceu a si mesma por continuar de olho no chocolate quente.
Sim, ambas haviam pegado no sono, dormindo no sofá e acordado na manhã seguinte, para ela não havia qualquer tipo de problema nisso, mas saber que Nico as viu dormindo amontoadas sob o cobertor lhe deu uma sensação estranha na boca do estômago, como se estivessem fazendo algo errado.
Ou estranho.
O tom dele estava diferente ou era impressão sua?
— Nada de mais, só umas reprises de jogos. — Deu de ombros. — Acho que acabamos dormindo sem querer. — Desligou o fogo e finalmente virou-se para ele e, obteve sua resposta ao pensamento anterior.
Nico a encarava fixamente, parecia sondar seus movimentos e os olhos se estreitaram quando notou o pequeno susto, o que para Piper era desleal: quem não ficaria assustado com um filho de Hades olhando daquele jeito?!
Por algum tempo que não pode contar a troca de olhares se seguiu, ele obviamente tentava achar algo em sua expressão enquanto a mente da grega trabalhava em obter algum motivo para aquilo.
O que havia feito de errado?
"Será que a Reyna falou alguma coisa?"
O que poderia ser?
"Será que foi por que deixei ele carregar as comprar sozinho?"
Apenas se fosse uma piada.
"Ou..."
Deuses...
Talvez ele tivesse visto o episódio no posto de gasolina.
"Pode não ter ouvido tudo, mas saiu da loja a tempo de ver, quem sabe não notou o clone mortal do Zetes."
E ela ainda tinha sentado no banco da frente.
Sabia que tinha terminado com Jason.
Ok.
— Nico... — Começou, sem saber se usaria o charme ou não.
— As coisas estavam esquisitas quando voltei para a fogueira, mas parece que está tudo bem agora. — Ele deu de ombros e se voltou para o sanduiche a sua frente, sem se preocupar com as consequências a outra presente no recinto.
Suas pernas quase vacilaram de alívio.
"Nico, seu filho da..."
No final das contas aquilo era um absurdo.
"Você é tão idiota por pensar em algo assim."
Passou o líquido para uma garrafa térmica enquanto o grego terminava seu lanche.
— Acha que neve interfere no sinal de Íris? — Fitou-o novamente, incerta se ouviu bem.
— Acho que ser noite é um problema maior. — Embora não fosse nada que uma lâmpada e um prisma ou torneira não pudessem resolver. — Vai tentar falar com quem?
— Com o Will. — Ok, ainda estava confusa. — Ele está em casa com a mãe, sem toque de recolher. — Foi a vez de ele dar de ombros, acenou como um boa noite e deu meia-volta em direção às escadas.
"Mas por que você não ligou de dia?"
Suspirou para expulsar o pensamento da cabeça, não era da sua conta.
O que importava é que o velho Nico tinha deixado de ser um lobo solitário.
Pegou uma caneca, a garrafa de chocolate, surrupiou um Doritos e atravessou a sala de jantar para se aconchegar no conforto do sofá, diferente da maioria das vezes em que se sentava a frente da Netflix: Piper sabia o que queria ver.
De fato, seu orgulho pestanejou um pouco sobre o filme em questão, mas o adorava, por que deveria deixar ver o que amava por causa de um ex-namorado?
"Por que vai desidratar de tanto chorar?"
Às vezes Piper odiava sua consciência.
— Quem é Ela? — Virou-se de supetão e quase caiu do sofá por causa da pergunta simples e banal.
— Por que você nunca faz barulho?! — Indagou exasperada para a garota pouco atrás de si.
Reyna arqueou a sobrancelha, como se estranhasse sua fala, porém logo depois sorriu divertida.
— É um velho truque. — Abanou com a mão, não dando importância ao fato, mas a voz cheia de presunção contribuiu para que o susto se transformasse em irritação. A pretora deu a volta no sofá e sentou ao seu lado, olhando para a TV. — Quem é Ela?
— Um programa de computador. — Respondeu, se perguntando se a recém-chegada faria o que achava que faria.
"Eu não vou poder chorar igual a uma idiota com você aqui."
Não era só Annabeth que tinha orgulho.
— É engraçado como nós estamos tão longe dessa realidade. — A filha de Afrodite a encarou, Reyna sequer pareceu notar, perdida em pensamentos. — Somos metade humanos, mas quase não vivemos nesse mundo, pelo menos não os romanos. — Piper reconheceu humor em suas últimas palavras, as falas de sua mãe vieram com facilidade a cabeça.
— Reyna... — Começou, sem ideia nenhuma do que dizer.
— Por que você quer assistir um filme triste de romance quando acabou de terminar com o namorado? — Dessa fez exasperação saiu dos lábios dela, os olhos estavam ligados aos seus, realmente irritados.
— Você nem sabe se é triste. — Tentou se defender, mesmo que não precisasse.
"Ela é um ótimo filme, ganhou até um Oscar."
— Ele namora um computador, não tem como isso acabar bem. — Sentenciou, com a mesma imponência de quem comandava um exército, tirou o controle remoto de suas mãos e voltou a atenção para a infinidade disposta no catálogo.
Dizer que seu queixo tinha caído era um eufemismo.
Talvez a pretora estivesse entediada.
— O que você... — Quem Reyna achava que era para invadir sua noite melancólica e solitária?
"Todo mundo precisa de uma fossa depois de terminar com alguém!"
Mesmo que fosse ela a principal causadora da trama.
— Se insistir com isso vou usar meus poderes em você. — Não era uma brincadeira, ameaça ou irritação da parte dela, lhe deu a sensação de que a fala era uma previsão do futuro.
— Não se eu usar os meus antes. — Sussurrou encarando a TV, parecia o resmungo de uma criança irritada, entretanto não reclamar soou inevitável.
Ouviu um riso contido e baixo que afundou seu amor próprio no limbo.
— Eu queria ver você tentar. — Arfou, encarando-a de imediato, a pretora apenas lhe sorriu e apertou um botão do controle. — Se não gostar deixo você em paz. — E virou-se novamente para a tela, Piper a imitou.
— Santa Clarita Diet? — Nunca tinha ouvido falar.
— É sobre uma mulher que vira zumbi do nada e ela e o marido precisam lidar com isso. — Semicerrou os olhos para as cenas iniciais e sinopse dada.
Obviamente era uma comédia pastelona.
— Não sabia que gostava dessas coisas. — Comentou, lembrando-se do chocolate quente e do Doritos.
— É bom para esvaziar a cabeça, nem sempre quero ela cheia. — Ofereceu seus lanchinhos a romana, com a frase ecoando em seus pensamentos.
Parou de comer quando Drew Barrymore começou a vomitar loucamente na TV.
— Usou seus poderes em mim? — A pergunta saiu propositalmente baixa, o suficiente para que a garota ao seu lado não escutasse.
Tinha medo da resposta.
— Não, só uso em casos extremos. — Reyna puxou o cobertor para que pudesse aproveita-lo também, semelhante à noite passada.
Tão semelhante.
— Você está fazendo de novo. — Murmurou encostando a cabeça em seu ombro, Reyna não se importou.
Outra vez.
— O que? — Ela respondeu no mesmo tom, embora a Piper fosse óbvio que a pretora tinha a atenção focada na tela.
— Me mimando. — Uma centelha leve de irritação pode ser lida em sua voz.
Não a entendia, não era a mesma garota que conhecera em meio a uma guerra, ou a que veio pedir conselhos sobre as palavras de sua mãe, a determinação e certeza de vitória continuavam ali, porém de forma diferente, mais suave as vezes e direta em outras de forma tão inconstante que lhe arrancava um suspiro.
Mesmo tento absoluta crença de que aquela Reyna era uma estranha, seus sentimentos para com ela eram divergentes, estar em uma casa chique desconhecida com um clima rigoroso, assistindo a uma série aleatória no sofá da sala era deveras desconhecido, todavia o coração quente e tranquilo poderia contradizer até a lógica de Athena.
Por que o momento parecia tão familiar e íntimo, se não o era?
Talvez só estivesse cansada do marasmo absoluto que decorreu após a guerra, algo que sempre buscou na vida e que de alguma forma não fosse o que esperava. Ou...
Seu ombro foi apertado levemente.
Era a primeira vez em sua vida que entender os sentimentos em seu coração se mostrava uma árdua tarefa, muito mais trabalhosa e impossível que derrotar uma deusa sozinha a bordo do Argos II. O fato constatado ardia em sua garganta, amargo e humilhante.
Reyna lhe puxou para que recostasse nela: Drew Barrymore tinha enfim parado de vomitar.
Onde estava o incômodo? Quanto começou? Por que estava insatisfeita com um namoro tão bom?
Por que o filme de terror não era mais um filme de terror?
A respiração dela amorteceu na têmpora antes que pudesse se dar conta, permaneceu quieta enquanto os lábios de Reyna pousavam no local delicadamente, se demorando no contato, dando-lhe chance de notar e absorver o calor que passou a irradiar do local, sua própria respiração estava pausada quando a pretora decidiu findar o contato.
— Faço isso porque gosto de você. — Murmurou em um fio de voz próxima a sua orelha, as palavras em um tom desajeitado. A mente de Piper demorou a decodificar os sons mesmo tão perto. — Isso é ruim?
Com a romana finalmente se afastando pode respirar novamente, seus olhos não desgrudavam da TV, embora não houvesse nada além do silêncio em sua cabeça.
A filha de Afrodite engoliu em seco e virou-se devagar para ela, em choque com a reação exagerada e o pensamento que parecia bizarro, porém difícil de ignorar. Acenou negativamente e deu de ombros em uma tentativa de expulsar a surpresa do rosto e da cabeça.
Algo estava acontecendo.
"Mas não é só comigo."
***
Ou talvez fosse apenas coisa de sua cabeça.
— Então quer dizer que isso tudo é normal? — Sussurrou para Nico sentado ao seu lado na varanda, olhando para a trilha branca da floresta fixamente, perdida na cena que se desenrolou minutos atrás.
Talvez fosse apenas preconceito de sua parte, todavia ver uma autoridade máxima que matava Gigantes e comandava exércitos vestindo um avental de oncinha era sim, muito esquisito. Pior ficava quando essa mesma autoridade olhava para ambos e os mandava para fora de casa para que pudesse fazer seu macarrão com queijo especial em paz.
— Segundo o Will a Reyna ficaria um pouco mais solta e faria coisas que normalmente acharia estranho. — Respondeu no mesmo tom e, Piper tinha a certeza de que também estava surpreso. — Ele usou a palavra transparente quando conversamos.
"Transparente demais."
— Acha que ela está melhorando? — Indagou com hesitação, em dúvida se o ponto era sensível ou não.
— Como assim? — Quando notou o olhar em seu rosto também o encarou, deu de ombros, se controlando para não torcer as mãos por puro receio.
— Não acha que a Reyna está meio... — Grudenta? Emotiva? — Ontem ela me beijou no rosto e disse que gostava de mim.
Nico arqueou a sobrancelha e a fitou por alguns segundo sem dizer nada, por fim voltou a olhar para o carro.
— Hoje de manhã ela me parou na escada e disse que era grata por ter me conhecido. — Piper também fitou o Mustang, um pouco surpresa demais para comentar. — A gente normalmente não diz esse tipo de coisa por um monte de motivos, agora esses motivos estão barrados. — Ele deu uma pausa e a filha de Afrodite agradeceu pelo tempo extra para se recompor. — É só efeito do veneno.
— E o remédio? — Suspirou a pergunta, afundando nos incontáveis xingamentos pela estupidez.
"Ela também gosta dos cães dela, Piper McLean."
Seus ombros murcharam levemente, pensar assim era depressivo demais.
E idiota.
— Bem... — Nico coçou a cabeça e se remexeu inquieto no banco. — Deve fazer efeito logo.
"Ótimo, você não faz ideia se está funcionando."
— É, isso tem que passar um dia. — Comentou sem dar atenção a própria fala.
Quantos dias ainda teria para aproveitar a calmaria que a permitia ficar se questionando sobre respostas que não tinha?
— Ela vai surtar quando voltar ao normal. — O filho de Hades soltou o pensamento no ar, o riso em sua voz arrancou um sorriso divertido de seu rosto.
— Tipo o cara da gangue, as conversas estranhas e o macarrão com queijo? — Dessa vez ambos acabaram por rir.
Jogaria aquele aventar na cara dela para sempre, por que não tinha tirado uma foto?
— Reyna teve muita sorte por ter sido só de raspão. — Piper odiava, odiava, quando Nico resolvia voltar a ter aquela aura sombria novamente. — Will disse que em casos piores pessoas envenenadas fazem todo tipo de coisa. — Ele continuava a olhar para a floresta como se falasse sozinho, sua intuição lhe dizia que a expressão neutra e calma eram controladas.
Piper ainda não havia parado para pensar no quanto a situação poderia ter sido pior, ou o quanto o grego estava preocupado. Talvez Belona não tivesse qualquer parentesco com Hades, porém isso não impedia em nada a formação de uma família ali.
Se levantou, descendo as escadas sem pressa alguma.
— Acha que a nossa nova cozinheira vai demorar? — Distinguiu um risinho baixou e disfarçado antes do provável, abaixou-se de costas para ele e apalpou a neve por alguns instantes, decidindo se os hematomas e o frio valeriam a pena mais tarde. — Sabe que a Reyna vê você como um irmãozinho, não é? — Um tsc foi sua única resposta, pegou um punhado da manta branca do chão e se levantou ainda de costas. — É bem fofo ver você preocupado desse jeito. — Virou-se de supetão e jogou a bola de neve na direção em que Nico...
Não estava?
Sua dúvida teve solução assim que a massa fria despedaçou dolorosamente em suas costas.
Aparentemente não era só a pretora que sabia se mexer sem fazer barulho.
— Que ideia é essa de atacar por trás?! — Gritou correndo para o Mustang, uma bola de neve passou zumbindo por sua orelha.
— Você que começou querendo bancar a espertinha! — Seu mais novo adversário respondeu, parecia não estar tão longe, Piper olhou pelos vidros do carro a tempo de ver um vulto preto correr até a lateral da varanda, sorriu.
"Agora você não me escapa."
Juntou um punhado maciço de neve nas mãos e andou devagar para o local. Respirava devagar, atenta aos sons de passos de sua futura vítima, parou a poucos centímetros da parede, tomou fôlego e deu um passo adiante.
Mas parou ao sentir a neve explodir em seu braço.
Aquilo era trapaça!
— Eu não acredito que está usando as sombras para...! — Engoliu a bronca e a mão pairou acima da cabeça, pronta para jogar sua obra-prima, porém o olhar quente de irritação da pretora não a deixou concluir a tarefa.
Nem o avental de oncinha conseguiu algum efeito.
— Como ousam... — Ela andou em sua direção sem pressa alguma, a ameaça na voz não tinha velocidade, parecia saber que a filha de Afrodite não iria a lugar nenhum. — Começar uma guerra de bolas de neve sem me chamar? — A indagação veio baixa e ofendida: Piper se negava a acreditar. — Sou filha de uma deusa da guerra! Não me chamar é quase blasfe...
Mais neve havia explodido, dessa vez na perna da pretora, ambas olharam para a esquerda, a tempo de ver Nico na entrada da floresta, com um sorriso tão convencido que até Frank teria se irritado.
— Por que está chorando se a brincadeira mal começou? — O deboche a fez arquear a sobrancelha em dúvida. — Está com medinho? — O que aconteceu a seguir foi rápido a ponto de a grega precisar de um segundo a mais para processar.
Sentiu uma pancada leve nas costas da mão ainda levanta soltando a bola de neve por puro susto, sendo pega desprevenida, ouviu um escorregão, — de Nico, — ao mesmo tempo em que virou o rosto a tempo de ver a pretora em uma perfeita pose de lançador de baseball, seguiu a bola com o olhar até o crânio indefeso do filho de Hades, que corria a toda para dentro da floresta com uma romana muito determinada em seu encalço.
— Piper! — Ouviu-o gritar com certo desespero na voz. — Faz alguma coisa!
Suspirou olhando para o céu limpo, avaliando suas opções.
Poderia muito bem segui-los e fazer Reyna parar com o charme, — algo que calaria a boca dela e amaciaria seu ego, — talvez levasse boladas, — fortes, — no processo, ou demorasse para encontrar os dois, não sabia se ela tinha terminado de cozinhar ou lembrado de desligar o fogão.
Pôs-se a andar até a casa, com toda a certeza a pretora se irritaria se seu macarrão com queijo especial queimasse e, Piper não poderia perder a chance de provar a iguaria.
Sabia muito bem que jamais teria outra chance.
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