Collonys
1 Prólogo - A Terra já não existe
Notas iniciais
A TERRA JÁ NÃO EXISTE

Ainda deitado na cama, estico meus braços, me espreguiçando. Olho para o relógio digital na cabeceira próximo aos meus pés e fito o horário que está abaixo de Píotsy Hunt, o meu nome. Faltam menos de 15 minutos para as 8:00 AM. Sim, ainda usamos relógios. Mesmo a centenas de anos-luz da Terra, nós, seres humanos, optamos por continuar a sincronizar as horas do nosso dia. Não que as 24 horas exatas estejam realmente certas. Já tivemos muitos problemas desde a nossa saída da Terra. Apagões na nave não apenas nos resultaram algumas horas vagando sem rumo no vácuo do espaço, como também nos fizeram perder muitas informações. Em alguns dos apagões as horas foram alteradas, mas apenas fingimos que nada aconteceu e estabelecemos um novo horário. O sol já não nasce mais no leste para nos indicar que é manhã, e a lua que vinha acompanhada das várias estrelas indicando aproximadamente algum horário já não pode nos ajudar. Mesmo assim precisamos estabelecer horários. Caso contrário, ficaríamos perdidos no tempo como os animais ficam. Sem nenhum senso de hoje e amanhã. É. Preferimos fingir que ainda existe algo a seguir, e é assim que conseguimos viver organizadamente.
Desafivelo as pequenas tiras que me prendem a cama e com um pequeno movimento começo a flutuar. Usando as mãos me puxo para sentar no colchão — uma almofada finíssima — e olho para o resto do grande aposento. Exatamente 200 camas enchem o lugar. Não podem ser chamadas de beliches, pois as fileiras verticais tem muito mais do que apenas duas camas. Esticando meu braço para cima posso encostar no teto sem muito esforço. Tenho o maravilhoso "privilégio" de ficar em uma das camas-topo. Obviamente, ninguém quer estar nelas, pois se você não acordar cedo o bastante, a gravidade na nave é ligada e você tem o azar de ter que descer as escadas laterais, o que, posso afirmar, é muito cansativo.
Fito o relógio mais uma vez e posso ver a rápida mudança de 7:58 para 7:59. Em exatamente um minuto a gravidade será ligada. Enrolo meu cobertor de qualquer jeito e o enfio no compartimento abaixo de minha cama. Meio minuto deve ter se passado. Sem cerimônia, saio da proteção da minha cama e encontro abaixo de mim vários metros até o chão. Algumas pessoas já estão usando a escada para descer, mas sei que se eu for fazer o mesmo, vou demorar muito para chegar ao chão e perderei alguns preciosos minutos do café da manhã. Ainda usando a minha cama ao meu lado como apoio, me viro de cabeça para baixo encostando meus pés no teto da nave, e me impulsiono. A pouca força usada me faz descer rapidamente a distância que me separada do chão. A voz de uma mulher invade o compartimento como em todas as manhãs...
A gravidade será ativada em Dez segundos... Nove... Oito... Sete...
Meu corpo começa a se endireitar, me deixando novamente com a cabeça pra cima.
Quatro...Três... Dois...
Meus pés tocam o chão e eu rapidamente me contraio, colocando o joelho próximo de minha barriga e com as minhas duas mãos abertas apalpo o chão. Um barulho é ouvido indicando que a gravidade foi ligada. Sinto o verdadeiro peso de meu corpo cair sobre mim, mas sou pouco afetado graças a minha posição: Meus joelhos, assim como minhas mãos tocam o chão, me dando o apoio que preciso.
Me levanto cuidadosamente e me estico novamente. É sempre estranho sentir o peso dos músculos. Vejo que os outros no aposento também se espreguiçam. Fazemos algumas filas para sair de forma organizada pelas várias portas do lugar em direção aos banheiros onde nos arrumaremos para as atividades do dia.
Ao passar pela batente da porta não posso deixar de perceber o recado ali digitalizado:
COLLONYS — 65 HORAS E 33 MINUTOS PARA CHEGADA
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