Collonys
2 Winnie Cratt
Notas iniciais
WINNIE CRATT
Mesmo com o refeitório cheio, não foi difícil encontrá-la. Eu reconheceria aqueles longos cabelos ruivos em qualquer lugar.
— Pai, mãe, vou ali sentar com a Winnie. — Digo. Eles não protestam. Não vou negar, não passo muito tempo com meus pais, e nem com Merly, minha irmã. Os compartimentos da nave usados para que possamos dormir são divididos por faixa etária e sexo — exceto as gravidas, que ficam em compartimentos com a gravidade sempre ligada para não afetar a saúde dos bebês. Como a diferença de idade entre os membros de minha família é grande demais, nunca dormimos no mesmo grande aposento. Em meu compartimento tenho alguns primos como companhia, mas eu realmente não tenho nenhuma amizade tão grande quanto a de Winnie. Além do mais, a relação dos pais com os filhos parece se perder cada vez mais. Isso provavelmente deve ser resultado do modo de reprodução adotado, onde acontece a inseminação artificial. Digamos que engravidar de outro modo é mais complicado e raro de acontecer.
Deposito minha bandeja de comida ao lado da de Winnie na mesa oval para até 12 pessoas. Ela se vira para mim, não muito entusiasmada. Seu olhar está carregado de tristeza.
— Winnie! O que foi? — É realmente estranho ver que seus olhos verdes estão avermelhados, indicando que chorou. São raras as vezes que isso acontece, e eu não tenho lembranças totalmente concretas da última vez em que isso ocorreu.
— Não tenho boas notícias... — Diz ela com uma voz chorosa que eu não reconheço. Ela se vira para seu prato de comida vegetariana. Mesmo tendo privilégios por ser a filha de um dos Borps¹ da nave, Winnie preferiu optar pelos vegetais. Embora ache algo meio engraçado, sei que Winnie tem um coração bom demais e nunca conseguiria comer carne, imaginando o sofrimento do animal a quem aquele pedaço de carne pertenceu. Sim, por mais estranho que pareça nós temos animais. Os bichinhos estão espalhados em outras 3 naves do nosso sistema de 36 naves. Quando saímos da terra não pudemos levar conosco todos os animais, mas levamos a variedade suficiente para um pequeno (porém funcional) ecossistema. Winnie morde um pedaço de seu waffle quando percebe que eu ainda a observo esperando respostas. Ela engole o pedaço de seu café da manhã e limpa a garganta. — Meu pai, ele... ele foi convidado.
Meu olhar se torna confuso, pois não faço a mínima ideia do que Winnie quer dizer.
— Convidado? — repito a palavra usada por ela. — Mas convidado por quem... pra onde? — Winnie fita meus olhos castanhos enquanto aprecio os seus, verdes. Seu rosto começa a se contrair e avermelhar, indicando que irá chorar novamente. — Espera Winnie, pra que isso tudo? — Pergunto enquanto deito sua cabeça confortavelmente em meu colo. Ela leva a mão aos olhos para pararem as lágrimas que ameaçam chegar. — Não fica assim, porque senão eu não faço ideia de como reagir. — Olho para os lados e percebo que as pessoas já começam a nos observar ao perceber a agitação de Winnie. — Vamos para ouro lugar Winnie.
Tirando sua cabeça de meu colo passo minhas mãos pelas costas de Winnie e junto dela saio em direção a um dos corredores da nave, mas não sem antes levar um pedaço de bolo da minha bandeja. Já fora do refeitório, sento junto com Winnie no chãodo corredor, encostando minhas costas na parede contrária a das janelas, me permitindo ver o vácuo lá fora.
— A nave-mãe... — Winnie diz com a voz ainda meio chorosa.
— O quê? — Ela começa a levantar a cabeça antes caída pesadamente para baixo e olha para mim, usando uma das mãos para tirar o véu de cabelo que separa seus olhos dos meus. Minha boca tritura um pedaço do bolo de chocolate que eu pegara de minha bandeja. Ainda com a boca meio cheia falo com uma voz meio engraçada: — O que a nave-mãe tem a ver com isso, Winnie?
Ela consegue dar um sorriso fraco, talvez porque eu pareça um idiota falando de boca cheia, mas logo seu rosto se fecha novamente em pesar.
— Hoje, pela manhã, meu pai me contou que estabeleceu contato com um dos Borps da Nave-mãe. — Ela passa delicadamente a manga de seu macacão azul — idêntico ao meu e ao de todos a bordo da nossa nave – em seu nariz e, após uma pequeno suspiro, volta a falar. — O Borp disse que ele foi convidado para uma visita na nave-mãe, embora pareça mais um recrutamento do que um convite, já que o meu pai não recebeu segunda opção.
Meu rosto se enche de pura surpresa. A Nave-mãe é o centro de todos o nosso sistema. Todas as outras 35 naves são controladas por ela. É lá que se decide as nossas rotas, além de toda comida e suprimentos passarem por lá antes de chegarem a qualquer outra nave. Dizem que não há mais luxuosidade e conforto do que se pode encontrar na Nave-mãe. No entanto, minha admiração começa a diminuir a medida que me olho para o rosto triste de Winnie. Meus pensamentos se confundem completamente.
— Winnie, isso é fantástico! — Digo segurando suas mãos. — Por que você está chorando? Sabe como é raro ser escolhido para visitar a Nave-mãe. Todos os passageiros nas outras naves-transporte² desejam visitá-la e...
— MAS EU NÃO DESEJO, PÍOTSY! — Winnie grita me interrompendo e eu me calo instantâneamente pelo comportamento anormal. Lágrimas começam a brotar de seus olhos, mas desta vez ela não tenta contê-las. — Eu não vou voltar, tá? Não é como um realocamento³! Nós não vamos mais nos ver!
Minha cara de espanto toma conta de meu rosto rapidamente. A respiração de Winnie está mais forte. Desviando o olhar, ela se contrai contra a parede, abraçando os joelhos. Também paro de olhar para ela e fito a janela que exibe o nada lá fora. No canto direito da janela posso ver a ponta vermelha de uma nave começando a se materializar devagarinho. Nenhuma outra nave tem a ponta vermelha senão a grande Nave-mãe. Meus olhos estão pesados.
— E o pior não é isso... — Quem assustadoramente quebra o silêncio é Winnie. — Eu e meu pai fomos escolhidos como colonizadores... sabe, de Collonys...
Meu rosto se vira tão rápido para Winnie que fico com um medo momentâneo de quebrar meu pescoço. Mas isso não importa muito. Apenas saber que a família de Winnie foi recrutada para ser uma das primeiras a viver no planeta me deixa com um vazio no estômago. Mesmo assim, tento tranquilizá-la.
— Olha, não deve ser tão terrível assim. — Digo, tentando mostrar coragem, mas não sei se estou desempenhando muito bem este papel.
— Eu me sinto uma cobaia, Pío. — Não digo nada, pois não quero que ela deixe de ficar calma como acabou de demonstrar me chamando pelo meu apelido. Além do mais, a única coisa que eu poderia dizer seria “Realmente você é mesmo uma cobaia, Winnie. Você se ferrou!”. — Não faço a mínima ideia de como vai ser lá. A contagem das horas será diferente agora que temos novamente um... Como se chama...? Ah, sol! — Demoro um pouco para perceber que ela fala de uma das grandes bolas de fogo que queimam no espaço mesmo sem oxigênio. — E também tem o fato de conviver pra sempre com a gravidade ligada... Não sei se vou ser forte o bastante.
— Não se preocupe Winnie, eu vou estar lá com você... Bem, não ao mesmo tempo que você, eu vou chegar um pouco mais tarde, depois que vocês confirmarem que é seguro... — Vejo que a minha frase mostra realmente como eles são cobaias e pego mais uma vez nas mãos dela, tentando me consertar. — Eu vou te achar. Sei que eles vão nos espalhar mas... eu vou achar você. É uma promessa.
Seus olhos verdes que até agora olhavam tristemete para o chão, focam os meus, parecendo felizes pela primeira vez desde o início da conversa. Fico agradecido quando ela retribui meu sorriso.
— Senhores passageiros a bordo da nave Everd13, — A sempre presente voz feminina sai pelos auto-falantes da nave — o horário de alimentação foi encerrado. Por favor se dirijam aos seu afazeres diários. Obrigada.
Levanto e ajudo Winnie a fazer o mesmo.
— Pra mim é hora dos exercícios semanais, e pra você? — Pergunto. Ela dá de ombros.
— Por causa do recrutamento, fui permitida a abandonar as tarefas. — Ela sorri, mas sei que não é um sorriso totalmente alegre. — Parece que essa é a única coisa boa em ser uma das colonizadoras. — Winnie ri junto comigo, enquanto passa as mangas do macacão pelos olhos marejados. Ela sai em direção ao corredor, mas eu permaneço, olhando pela janela para a Nave-mãe lá fora que agora mostra muito mais de sua grandiosidade. — Você não vem?
Balanço minha cabeça me livrando dos pensamentos ruins, embora pareça impossível. Sem responder nada, eu apenas corro em direção a Winnie, e juntos andamos pelo corredor.
Tenho a impressão de que isso não voltará a se repetir.
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