Collateral Beauty
8 Capítulo 8. Roxa
— arec sadler
Piper estava terminando de vestir seu uniforme do dia enquanto eu terminava de preencher o formulário de dispensa. Poseidon com toda certeza ficará feliz pela missão bem-sucedida da Líder tipo II. Do relatório médico faltava somente o exame de sangue. De resto, tudo excepcionalmente perfeito, exceto pelos 2kg que a mulher à minha frente tinha perdido. Talvez a culpa nos consuma de formas diferentes ao mesmo tempo.
— Assine, Miss Piper – entreguei-a o tablet. Ela lia enquanto seu rosto ficava cada vez mais pálido, mas agora sem tantas olheiras devido às duas horas de sono que a concedi até os resultados voltarem do laboratório. Ela foi ávida pela parte final do relatório que constava os exames laboratoriais.
Senti uma pontada de nojo quando vi seus olhos verdes-castanhos estampados de culpa e remorso, se aliviarem quando viram que os exames voltaram negativos. Ela assinou rapidamente com a caligrafia fina e me entregou o tablet.
Piper tinha apenas três anos na Force, mas tínhamos criado certa amizade devido ao fato que eu adorava os filmes do pai dela. Eu costumava pegar no seu pé por ser o único na academia por saber de sua vida lá fora, mas desde a sua ida na missão há quatro meses, eu sabia que tinha acontecido algo. E com os testes, apesar de terem dado negativo para atividade sexual, foi inegável a culpa quando fiz o exame íntimo na garota.
Enquanto eu me voltava para a mesa e deixava o tablet, Piper permaneceu onde estava, aguardando ser dispensada. Quando encontrei seus olhos, contive o veneno em minha língua.
— Cuidado na próxima missão, Miss Piper – os olhos da garota quase se regalaram, mas eu vi suas mãos tremerem levemente — Nós dois sabemos que os resultados deveriam ter sido diferentes.
Dispensei-a com um aceno singelo, e vi a garota seguir em direção à porta sem olhar para trás. Não era de minha conta com quem ela transasse, fosse o namorado dela, ou Jason ou quem quiser que fosse. Entretanto, se mentisse no relatório e os exames voltassem positivos para atividade sexual, ah minha querida... Deixaria esse vexame para Poseidon com todo o prazer.
Dei uma fungada e passei as mãos nos olhos cansados. Eu tinha trabalhado ontem o dia todo na Chase e ainda tinha que terminar esse plantão. Meu pai precisava cumprir horas de descanso e minha mãe estava na floresta no treinamento de paintball deste mês.
Assinei o formulário da Líder II, encaminhando-o no sistema. Peguei minha xícara de café e tomei um longo gole, aproveitando o gosto amargo em minha língua. Olhei para o relógio em meu pulso, 7h14min. Eu estava terminando de tomar meu café, para olhar os exames da Chase quando escutei o barulho de bip constante se tornar irregular.
Levantei rapidamente e segui passos firmas para a maca da loira, que agora estava tentando a todo custo levantar-se da maca.
— Calma, devagar – segurei-a pelos ombros e costas e senti seu corpo frio e levemente trêmulo se contrair ao meu toque. Ela conteve um gemido de dor e eu segurei o peso de seu corpo, sentindo que ela tinha se escorado totalmente em mim – Devagar.
A mulher estava de cabeça baixa, os olhos fechados. Ela deu duas respiradas profundas, o monitor ainda ecoava irregularmente, mas seus níveis de saturação estavam bons e o batimento cardíaco forte. Ajudei ela a se sentar melhor, colocando suas pernas de volta na cama e escorei seu corpo contra o travesseiro mais inclinado. Não estava sentada do jeito que queria, mas pelo menos não estava mais deitada.
— O que aconteceu? – sua voz era um mero sussurro rouco. Quando me afastei o suficiente para ver seu rosto, levemente pálido, vi que curativo em seu lábio tinha sido aberto, mas não saia sangue. Ajeitei a coberta até seus ombros, e vi seu braço que ainda estava com a agulha. Fui até o outro lado da cama desligar o som sonoro do monitor e ver se estava conectado ao soro. Quando me virei para a mulher, vi seus olhos abertos levemente, ainda pesados... E me apaixonei pela cor cinza clara que vi.
Engoli em seco, ainda segurando o soro em minhas mãos. Meu cérebro pareceu congelar por um segundo, até a parte racional de meu cérebro gritar e eu despertei. Ela me acompanhou com os olhos semiabertos, mas duvidei muito que conseguisse focar em mim.
— Você está no hospital da Force, Annabeth – respondi e retirei meu estetoscópio ao redor de meu pescoço. Ela fechou os olhos e suspirou, como se lembrasse do que tinha acontecido. – Como está se sentindo?
A garota abriu novamente os olhos. – Pesada – sua voz ainda era um sussurro, mas seus sinais vitais no monitor estavam excelentes. Deveria ser efeito do Néctar, afinal de contas, foi uma dosagem muito mais alta do que costumamos dar para os demais alunos. – Meus olhos estão doendo e cabeça parece ter sido amassada.
Aquela mulher era um cavalo de saúde e força. Definitivamente, nossa cirurgia significou pouco pela força de vontade de viver dela, e da sua estrutura física. Tudo que fizemos foi parar o sangramento, costurar o corte no baço e fixar o osso da costela o suficiente para que o Néctar fizesse o resto de cura. Fiquei em parte surpreso por ela simplesmente falar que estava com dor de cabeça e olhos doendo.
— Como está seus pulmões e estômago? – perguntei, tirando do bolso do jaleco duas luvas descartáveis e colocando-as.
Annabeth demorou um pouco para responder, provavelmente analisando o que sentia – ou não sentia.
— Sinto só uma leve pressão quando respiro fundo, mas não é falta de ar.
O mais desafiado da cirurgia era que seu chip ainda não estava instalado para sabermos sua ficha básica e histórico médico. Tudo que meu pai sabia era devido à uma reunião semanas antes quando Poseidon comentou sobre a loira, que seria a melhor aluna que ele teria na sua academia desde Bianca di Angelo, irmã de Nico. Então o que ele sabia era seu nome e sua idade. E claro, depois de a mulher seminua toda ensanguentada ter falado em libras quase morrendo, sabíamos que era alérgica a penicilina.
— Se me permitir, vou começar os procedimentos padrões, Annabeth – me aproximei mais da garota, seus olhos tentando me acompanhar – Primeiro te examinar com o estetoscópio e já te ajudo com as dores.
Ela assentiu e fechou os olhos quando levantei levemente a gola da blusa de seu pijama e encostei o estetoscópio no seu peito. Depois, quando a virei levemente de lado para escutar seus pulmões, ela gemeu baixinho de dor e pedi desculpas. Por mais que eu fosse gentil, seu corpo ainda estava sob o efeito do Néctar e levaria mais uns dois dias para que se curasse completamente e estivesse liberada para quebrar a cara de outro sub-diretor, se quisesse.
Quando a deitei de volta na maca, respirou fundo. Fui até o carrinho de metal pegar o colírio que já tinha separado, bem como equipamentos para troca de seus curativos faciais. Ainda bem que tinha deixado prontas as seringas com as dosagens de remédio para injetar no soro.
— Vou pingar colírio em seus olhos, vai ajudar com a visão pesada e embaçada – e quando toquei na bochecha de Annabeth para pingar o colírio em seus olhos, sua boca carnuda rosada virou em uma linha, mas eu sabia que o colírio não arderia ou doeria em seus olhos – Não abra os olhos ainda.
— O que aconteceu? – perguntou de novo, sua voz agora um pouco mais forte, mas ainda assim baixa e rouca.
— Qual a última coisa que se lembra? – vi que ela não gostou que fiz uma pergunta no lugar de sua resposta. Injetei o remédio para dor no soro e apertei um pouco para fluir na seringa. Annabeth demorou uns segundos, escolhendo as palavras antes de falar algo. Respeitei isso.
— Lembro que alguém me pegou no tatame – sua voz morreu no meio da frase quase, e respeitei isso novamente. Não a conhecia suficientemente para forçar a barra ou para demonstrar que queria me importar.
— Meu pai, Apollo. Médico principal da academia – respondi, escolhendo olhar a cortina azul do que para ela. Não posso negar que, primeiramente meu foco era salvar sua vida; mas em segundo plano, eu fiquei deslumbrado pela beleza e anatomia daquela mulher. Pareceu errado ficar encarando-a tanto na mesa de cirurgia quanto ali, agora desperta....
Apesar de pequena, seus músculos eram definidos, delineando suas curvas graciosamente. Sua beleza era extraordinária... Se eu não amasse Medicina, teria ficado bobo olhando para ela seminua durante toda a cirurgia. Se eu não amasse Medicina, poderia ter acariciado seu corpo enquanto a limpava de todo o sangue que a banhava. Mas eu amava minha profissão e respeitava todos os meus pacientes.
— E ele está bem? – sussurrou rouca, ainda de olhos fechados. Coloquei a seringa no carrinho de metal e ajeitei a outro de antibiótico. Eu sorri. Era quase irônico. Ela poderia ter matado Ares mas escolheu só nocauteá-lo no último momento. Eu vi a filmagem da segunda câmera de segurança do ginásio com meu pai e Poseidon depois da cirurgia. Ela tinha sido impecável.
— Está de atestado e afastado de você, por enquanto – e eu teria parado ali, se achasse que ela não merecia saber mais – Você quebrou o ombro, deu uma contusão no pescoço e feriu gravemente o orgulho dele.
Geralmente eu esperaria uma risadinha em resposta, mas ela permaneceu quieta, agora mordendo a parte interna de sua bochecha. Fui pegar meu tablet em cima da mesa, ao lado da xícara de café. Abri seus exames e deixei na parte de acompanhamento cirúrgico para preencher.
— Preciso verificar sua costela, Annabeth.
Ela não questionou ou perguntou o motivo. Quando levantei a blusa do pijama, Annabeth enrijeceu, mas seus batimentos cardíacos permaneceram no mesmo ritmo, reparei. Não levantei sua blusa até seu peito, deixando-o coberto... Ela estava sem sutiã, mas não deixaria qualquer malícia ou pensamento indesejado afetar minha relação médico-paciente. Quando encostei na costela, Annabeth não expressou dor. Quando perguntei o que sentia, ela dizia que sentia uma leve pressão como se tivesse batido somente. Realmente, estava só o hematoma, assim como outras partes de seu corpo. Em parte, me surpreendi à resposta do corpo de Annabeth ao Néctar. Ela estava se curando muito bem.
— Muito bem, Annabeth – comentei, ajeitando sua blusa novamente e cobrindo-a com a coberta. Seu corpo ainda estava frio mas não tremia mais. – Ainda sentindo dor de cabeça?
— Não... – ela mordeu levemente seu lábio.
Desviei a atenção dos lábios dela e guardei o tablet em meu bolso e olhei meu relógio. – Pode abrir os olhos se quiser.
Eu estava de costas propositalmente, mexendo no carrinho de metal para trocar seus curativos faciais. Assim que terminei de ajeitar, me virei para ver a cor do céu antes de uma leve chuva encontrar meus olhos. Sua pele estava pálida ainda, boca rosada clara.
— Preciso que olhe reto, por favor – retirei a caneta de luz do meu bolso e com um clique a luz leve apareceu. Fiz o exame de visão e as pupilas reagiram corretamente, um alívio na verdade. E meu Deus... que olhos intensos... Guardei a luz no bolso e Annabeth piscava um pouco agora. — Vou trocar seus curativos faciais agora – somente anunciei e cheguei perto com a bandeja, deixando-a perto do seu braço na cama.
Annabeth fechou os olhos quando coloquei o cotonete com produto sob sua sobrancelha, retirando levemente a gaze antiga e limpando o corte que agora era pequeno e seco. Ficamos em silêncio enquanto trocava o de sua bochecha também. Sua respiração era um fio e só notei um leve deslize do batimento cardíaco quando toquei em seu lábio com o dedo, gentilmente para ver o corte e em seguida mexer com o cotonete. Ela não gostava de ser tocada.
Quando me afastei, retirei as luvas em silêncio jogando-as no lixo junto com os materiais que usei de limpeza, e o comunicador em meu bolso bipou. Já era 8h.... Vejo você somente daqui a 24h, vá para casa, meu caro – P.
Fiquei levemente frustrado..., mas não podia desobedecer a meu chefe. Fechei o relatório no tablet e coloquei-o em meu bolso. Retirei a bandeja e o carrinho silenciosamente; fui até o computador desligar o sistema. Olhei para o frigobar debaixo de minha mesa e sorri de lado.
Quando voltei para Annabeth, ela já estava mais sentada. Os olhos cinza curiosos acompanharam o pequeno pote vermelho e uma colher de plástico que eu segurava em minha mão. Sorri sem mostrar os dentes.
— Gelatina de morango?
— Aceito – comentou baixinho, sem expressar nada em seu rosto. Observei ela comer devagar por um instante e olhei o relógio novamente.
— Meu turno acabou, Annabeth – seus olhos encontraram os meus, enquanto mastigava lentamente a gelatina – Vejo você depois de amanhã, pois se tudo ocorrer bem, ficará aqui por mais dois dias.
Vi que ela não estava feliz com ideia, pois seus olhos se fecharam levemente e ela olhou para o pote, brincando com a borda da colher.
— A médica Angélica e Apollo já devem estar chegando para te acompanhar no dia de hoje – botei as mãos no meu jaleco e dei um passo para trás – Até Annabeth.
— Obrigada... – Annabeth olhou para cima – Eu não sei o seu nome, doutor.
— Arec – respondi sorrindo, olhando naqueles olhos lindos da mulher que eu ajudei a salvar a vida horas atrás. Ela sabia meu sobrenome, estava estampado no meu jaleco no bolso de cima. Não vi o sorriso ser correspondido, mas seus olhos brilharam por um instante.
E com o tablet em meu bolso, fui em direção à porta, ansioso para chegar em casa, tomar banho, dormir e ler os exames que não consegui ler mais cedo.
— nico di angelo
O cheiro de morte era insuportável.
A arma em minha mão estava quente do tanto que disparei. Devia ter matado trinta agentes, todos de uniforme preto, armados e com estoque de cartuchos até os dentes.
Eu tinha só mais um cartucho de munição em meu bolso. As luzes do corredor estavam piscando. Eu sentia o sangue em meu rosto esfriar contra a corrente de ar gélido que vinha das janelas quebradas. Sangue que não era meu.
As costas de Will estavam levemente encostadas nas minhas, ele de frente para o corredor e eu cobrindo nossos rastros. Seguimos na sincronia que temos desde o nosso treinamento quando crianças.
Will estalou a língua e paramos ao mesmo instante. O único som que se ouvia era das luzes piscando. Will estalou duas vezes a língua, e seguimos no corredor. E ele não excitou ao desviar pelos corpos imóveis no chão, sujos de sangue.
Alunos com o uniforme branco da Deadly manchados de sangue. Agentes de máscara pretas no chão.
Will não ousou em nenhum momento pegar o rádio e se comunicar com os outros. Fizemos o caminho por todos os corredores da Deadly. Não vimos nenhum aluno vivo.
Quando chegamos no ginásio, havia armários dispostos contra as grandes portas. Will ficou de frente e eu cobri a entrada. Sangue para todo lado, espirrado, com marcas de mão... A carnificina que o ataque surpresa fez.
— Solace, 1-3-2. – Will disse no rádio. Silêncio – Solace, 1-3-2, alguém no ginásio?
— Grover, 1-4-3 – alguém respondeu – Abrindo.
E assim, os armários foram arrastados e as portas abertas o suficiente para que passássemos. O ginásio estava escuro demais, as luzes desligadas propositalmente, deixando somente a iluminação de uma luz de emergência no canto esquerdo.
Will permitiu sentar-se em um banco de metal e eu permaneci em pé. Olhei ao redor pela pouca luz que havia e meu coração se apertou de leve no meu peito. Dos duzentos e cinquenta alunos de Zeus, havia no máximo setenta no ginásio. Estreitei os olhos.
— Relatório, Grover – Will limpou o rosto com a manga do moletom branco e um cara de pijama da Deadly me trouxe uma garrafa de água que sequei em dois segundos.
— Eles invadiram pelo refeitório – a voz de Grover era baixa, como se não quisesse que os demais alunos espalhados pelo ginásio soubessem – Devem ter entrado pelos fundos da academia.
— Não havia identificação nos uniformes – Will comentou.
— As armas tiveram os códigos riscados – Grover comentou. O moreno de olhos escuros, corpulento, me olhou e reconheceu quem eu era – Eles desligaram seu perímetro de defesa, senhor.
— Não – comentei, ainda olhando o ginásio com a pouca luminosidade disponível. Três, sete, quinze... – Alguém replicou o cartão de acesso e deixou que entrassem. Ninguém sem o cartão codificado pode passar pelos perímetros sem que o alarme dispare, seja por terra ou ar.
Will e Grover continuaram a conversar, Will contou que estávamos perto do arsenal quando o alarme tocou e as luzes se desligaram... Ambos começaram a discutir sobre os invasores, os alunos se voltando para nós. Feridos, muitos feridos... Passei minha mão congelada de frio na testa, sangue seco saiu.
— Irei confirmar com os batedores assim que... – Grover respondeu Will.
— Líder – chamei, interrompendo. A conversa dos dois tenentes se calou – Ligue mais uma luz.
Grover pediu a um garoto que não parecia ter mais de quinze anos para ligar um disjuntor. E quando a luz do meio da se ligou, eu fiquei pasmo.
— Quantas alunas temos na academia?
Will que respondeu, se levantando. Seus olhos demonstraram choque, entendendo minha linha de raciocínio – Cento e sessenta.
De aproximadamente setenta alunos naquele ginásio, todos eram homens.
— Eles vieram pelas alunas – ele sussurrou.
Mais precisamente, por duas que tinham sido transferidas um dia antes. A raiva consumiu minhas veias.
Quais seus pequenos segredos, tio Poseidon?
— strangers in Paradise
Thalia Grace agora estava em seu novo apartamento. Era aconchegante, neutro. Paredes cor bege, móveis em tons de marrom. A cozinha não era moderna, mas possuía vários utensílios. Havia pouquíssima decoração na sala e o banheiro pelo menos tinha uma banheira grande. Na mesa de centro da sala de estar, estava sua ficha contendo os detalhes da sua missão.
A punk se aproximou da janela e viu neve caindo, tapando tudo de branco. Ela continha um grito dentro de si preso desde o momento em que seu tio tinha conversado com ela na Force. Mas entendia seu papel, entendia sua importância. Só queria que Annabeth estivesse junto.
Depois de um banho quente, sentou-se no sofá e puxou para si a cerveja long neck e a pasta volumosa de sua missão. Quando a abriu, se surpreendeu ao ver uma pequena foto de um loiro alto, corpulento com roupa de exército e com uma cicatriz no rosto com olhos azuis claros.
— Quem é você, Luke Castellan?
[...]
Arec, depois de longas horas de sono, sentou-se à mesa de sua cozinha e abriu o tablet com a ficha médica e o histórico completo de Annabeth Chase que seu pai o mandara. Rodou o vinho na taça enquanto carregava no tablet.
Era meia noite em ponto. E estava sozinho em seu apartamento, com o fogo crepitando na lareira. O frio de Londres nunca fora bondoso.
Tomou um gole e quase cuspiu de volta na taça quando a viu a cor da ficha de Annabeth.
Roxa. Confidencial.
Era por isso que eles ainda não tinham a ficha completa de Annabeth. Estavam aguardando o relatório e documentos completos da ala psiquiátrica da Deadly sobre a loira.
Annabeth Chase assistiu o assassinato dos pais aos seis anos.
Passou um ano no internato até Quíron adotá-la e leva-la para a Deadly Fights Academy.
Aos onze anos, foi brutalmente estuprada e assassinou o estuprador. Passou tempo na solitária até a psiquiátrica descobrir como tratar a menina.
Nunca saiu em missão, nunca saiu da Deadly até dois dias atrás. Arec riu desacreditado da enorme lista de investidores interessados na jovem desde os treze anos, os valores absurdos para comprarem ela... Todos recusados por Zeus.
Treinamento perfeito. Diversos relatórios sobre capacidades de combate, habilidades, condicionamento físico.
Terapia desde os sete, e acompanhamento com protocolo de remédios intensamente administrados. Arec leu cada palavra que a psiquiátrica escreveu sobre seu tratamento com Annabeth, e tinha que admitir que esta realizou um belo trabalho em conter a verdadeira natureza de garota trancada e controlada, porque Annabeth Chase era uma psicopata.
Annabeth seria a perfeita máquina de guerra, se desbloqueada do padrão de segurança que a psicóloga desenvolveu em sua mente. Annabeth seria a perfeita assassina.
Zeus tinha a arma perfeita sob sua posse por todos esses anos, e tentou escondê-la à todo custo, somente para seu resguardo.
Por medida de segurança, a psiquiátrica sugeriu que o controle de remédios fosse mantido, administrado uma vez a cada seis meses junto com a sessão de terapia para verificar os bloqueios mentais estavam fortes e seguros.
Arec soltou a taça de vinho na mesa, e sentiu-se triste pela mulher mais linda que já conhecera. Mas isso não impediu de apagar a pequena chama que Annabeth tinha acendido em seu peito.
— annabeth chase
Acordei com o som de risos abafados ao lado de minha cama.
— E Jason levou um no meio da testa de Piper, foi hilário! HEADSHOT! — ouvi a voz de Apollo – Ares ficou furioso, Angélica apostou contra ele que a garota ganharia!
O médico gentil e doce tanto quanto seu filho. Ambos eram muito parecidos, mas Arec tinha puxado algumas fisionomias da mãe morena. Jamais agradecerei o suficiente por Angélica me permitir tomar um longo banho, lavando-me carinhosamente, como uma mãe.
— Sinto falta de ganhar esse torneio – a voz masculina soou melancólica, mas a cortina não me permitiu ver.
— Não pensei que não intervi em seu nome, meu querido – Apollo agora estava falando mais baixo. A alegria em sua voz sumiu totalmente. – Essa última solitária...
— Toda vez que chega perto da data ele fica assim – a voz era firme, mas havia um resquício de raiva. – Não pode culpá-lo.
— Posso culpá-lo por não ser um pai melhor.
Silêncio reinou na sala. Até que passos harmoniosos em saltos altos ecoaram na sala.
— Jantar, meninos – a voz de Angélica soou delicadamente. Ouvi o barulho de prato sendo colocado em uma bancada e os passos pararam. – Apollo meu bem, preciso que me acompanhe até a sala de Poseidon para o relatório dos líderes tipo II.
— Achei que ele iria esperar até Arec voltar – o tom em sua voz era de surpresa mas também de preocupação.
— Nunca questione o chefe – os passos voltaram a andar, agora em minha direção.
Fechei os olhos, e acalmei minha respiração.
— Ah querida, dormindo novamente – Angélica falou mais baixo e deixou o que parecia ser uma bandeja na escrivaninha ao lado de minha cama. O cheiro de galinhada veio e inundou meus pulmões, fazendo que meu estômago quase, quase roncasse. – Tinha que vê-la no banho, magra demais e toda roxa.
— Nunca vi nem mesmo Bianca fazer o que ela fez – Apollo comentou e Angélica retornou para seu lado – Juro por Deus meu amor, que se não tivesse me obrigado a fazer aquele curso de libras na faculdade, a pobre garota tinha morrido na mesa de cirurgia.
— Como sempre, eu salvando a sua bunda – e o riso amável de Angélica ecoou, acariciando meus ouvidos. Mas eu estava agoniada. O que foi que eu fiz? — Voltaremos mais tarde, Percy. Coma por favor, é o seu favorito.
O homem, Percy, se despediu silenciosamente dos dois e ouvi os passos deles se tornarem distantes. O quarto ficou silencioso por uns segundos e eu abri meus olhos, encarando o teto. A última lembrança que eu tinha era de me afogar em meu próprio sangue, enquanto alguém me carregava nos braços.
— Você ronca baixinho quando dorme – a voz me dispersou e senti meu corpo ficar duro igual pedra – Podia fingir o quanto quisesse para Angélica mas sei exatamente o momento em que acordou e ouviu a conversa com Apollo.
E assim, a cortina foi puxada para o lado e eu vi olhos verde-mar que pareciam estar encarando minha alma, segurando um prato que parecia ter lasanha. Ele indiciou com o garfo em sua mão o prato de sopa ao meu lado.
— Se eu fosse você, comeria antes que esfriasse – e deu uma garfada na lasanha. Os olhos verde-mar agora estavam com brilho divertido, provavelmente rindo por dentro do meu espanto – O caldo de Angélica é uma das melhores coisas que comerá enquanto estiver na enfermaria.
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