Collateral Beauty

9 Capítulo 9. Tridente Dois


paul blofis

O som era alto, a batida forte ecoava em minha mente e o gelo seco fazia meus olhos arderem. A boate seria até legalzinha se não tivesse o cheiro de cigarros e maconha barata. Bebo a vodka barata e ela desce queimando minha garganta, arranhando-a com força. Até que era bom estar ali. A música, os cheiros, as pessoas desconhecidas e a bebida ruim. Era relaxante estar no meio do caos, me fazia esquecer de muitos problemas.

A boate estava quase cheia. Homens e mulheres dançavam e alguns estavam no bar, pegando bebidas coloridas cheias de corantes e sabe-se Deus mais o quê. Era engraçada observar pessoas na boate. Algumas estavam bebendo mais do que deviam, na falha tentativa de esquecer algo ou de se sentirem vivas. Umas riam, outras, dançavam, outros se beijam, e alguns choravam. Era engraçado reparar nisso.

Bebo um gole grande e esvazio o copo. Faço o sinal para o barman trazer mais um e ele pisca o olho, já retirando a tampa da garrafa e pegando outro copo. Eu suspiro olhando para frente, para o espelho sujo e respingado do bar.

Eu estava uma merda. A barba estava por fazer, tinha orelhas em meus olhos e vestia com uma calça jeans amarrotadas, tênis normais e uma blusa preta de manga comprida. Estava quente dentro da boate, mas mesmo assim, eu sabia que depois que eu saísse do encontro, estaria o frio do caralho me esperando lá fora. Eu não queria estar nessa boate, mas também não queria estar dentro da academia.

A academia que tinha sido atacada. A academia que eu passei as informações. A academia que eu tanto amei por muitos anos.

Depois do ataque que Luke e Will, a perda de seus agentes era consideravelmente pouca comparado aos alunos da Deadly Force Academy. O gosto da traição era quase tão amargo quanto essa vodka barata. Mas era o preço que eu tinha a pagar. Ou era a traição da academia que eu tanto amei ou ver meu filho falecer de câncer porque não tinha plano de saúde que cobrisse o tratamento. Eu fiz o que qualquer pai desesperado faria. E não me orgulho disso.

O barman coloca o copo com uma boa quantidade de vodka na minha frente e já volta para atender um grupo de garotas calouras ao meu lado. Eu bebo a vodka em um gole e deixo uma nota de trinta no balcão, sentindo meus pulmões arderem pelo ar quente e pelo gelo seco, enquanto minha garganta parecia estar em fogo. Pego meu celular e vejo o horário. 04h43min.

— Desculpe-nos pela demora — Luke se senta do meu lado e as garotas calouras olham para ele, e dão aquelas risadas cochichadas. Ele nem percebe. Solace senta-se do meu lado esquerdo e logo pede um dos drinks para o barman, que o dá uma secada rápida.

— Ainda bem que eu sou pago para esperar por vocês.

— Então, como foi o massacre?

A música abafa qualquer possibilidade de algum enxerido ouvir nossa conversa, por isso não me desesperei. Ele estava com uma blusa de frio grossa, bege, que deixava seus cabelos mais claros e seus olhos mais duros. Will estava com uma blusa vermelha, que fazia seus músculos saltarem.

— Todas as alunas mortas – senti a bile consumir minha garganta. Engoli em seco, olhando para o copo à minha frente – Seus agentes deixaram alguns alunos seriamente feridos, mas sem baixas masculinas.

— A chefe está feliz com isso, parecia uma maníaca no telefone — Will pega o drink do Barman com um sorriso sedutor, e o barman fica corado.

— Ela é doida, Will — Luke o corrige e me olha. — E ela quer que de alguma forma ataquemos Zeus, para que ele se desespere mais.

— Ele estava no aeroporto de Cancún quando aconteceu o ataque, não sabia de nada até o Nico ligar uma hora atrás — falo e peço mais uma vodka. — Ele perdeu três alunos bons, dez feridos que ele não poderá vender por um bom tempo.

Respirei fundo, bebi mais um gole e continuei encarando o copo vagabundo em minhas mãos. — Os patrocinadores estarão com medo de ir para a Force a partir de agora. Consoante ao plano de contingência, eles irão fazer uma reunião em Dubai, onde Poseidon e Hades estarão presentes para discutir sobre a Deadly e os alunos.

— Atacamos a Force enquanto ele estiver fora — Will comenta e bebe um gole do seu drink. Olho-o com repulsa.

— Claro, boa sorte com esse ataque senhores — falo ironicamente e Luke franze o cenho, a música da boate muda e alguns gritos abafam a resposta dele. Devia ser uma música famosinha.

— Mas podemos usar isso contra ele. Se ele viajará para fora do país, provavelmente irá deixar seus melhores alunos em algum lugar.

— E ele vai — pego a vodka que o barman trouxe e tomo um gole pequeno. — O plano de contingência declara que o subsolo será usado para que os melhores alunos treinarem. Os melhores, ou seja, aqueles que já estão comprados, e os melhores que eles não podem comprar — coloco o copo na mesa e olho para Luke. — O irmão de Thalia, Piper McLean, Annabeth Chase, Reyna Avila Ramírez-Arellano, filha do casal de espiões falecidos, e é claro, seu primogênito. Desses eu tenho certeza que estarão lá.

— Réia quer que você prepare a filha de Zeus para o abate. — Will comenta e eu e Luke o encaramos. — Logo. Ela sabe que ela irá para Califórnia em dezembro e quer aproveitar a brecha.

— Mas é claro que somente um ingresso para uma nova vida não irá fazê-la esquecer do abuso. – falo com desgosto em minha língua, seja pelo meu patrão ou pela vodka — Ele irá mimá-la. Ele precisa conquistá-la. Logo ele precisará passar a empresa e a Deadly para alguém de sangue, fiel, e Thalía é a primeira na lista. Logo depois de Jason, ele vai bancar o papai perfeito. Mas se ela falhar, decidir que não quer a agência de aviões e nem a academia, Jason a terá. E a fortuna irá com ele.

— Mas Réia quer a fortuna dos três grandes e quer destruí-los — Luke fala e fica sério. — Ela sabe como retirar o legado do marido que foi dado a Zeus por ele ser o mais velho, mas não o mais inteligente dos três. Com Poseidon, precisa de um plano infalível, ele sabe de muita coisa e usará muitos dos seus contatos para ajudá-lo. Com Hades, aí sim quero ver. Ele é o cara mais foda do seu ramo. Não tem como.

— Réia culpa seus filhos pela morte de seu ex-marido. Ela quer vingança. — falo e bebo mais um gole. — E vingança ela terá. Não importa o método utilizado.

Will se remexe desconfortavelmente demonstrando que tínhamos companhia. Um grupo de homens e mulheres se aproximam no bar, mas um deles nos olhava disfarçadamente pelo canto do olho, com a mão no bolso da calça folgada. Luke olha significativo para Will...

— Não é mais seguro — me levanto e coloco uma nota qualquer em cima do balcão e sussurro para os dois. — Fiquem atentos na saída. Esperem pela minha ligação.

Eu caminhei em direção a saída, esbarrando em algumas pessoas bêbadas que dançavam. A fumaça no local fez com que meus pulmões e olhos ficassem irritados, e eu tentei sair rapidamente daquele lugar.

Eu fiquei com raiva. De nada valeu aquele encontro. De nada valeu aquela noite, nem para encher a cara com aquela porra de vodka.

Entrei no carro tentando me proteger do frio e dei partida. Solace e Castellan logo saem da balada, e assim que eu dou a partida, ouço o som de tiros. Estava tudo bem. Enquanto seguia para a avenida principal, me questionava quem que tinha disparado o tiro.

strangers in paradise

Poseidon não tinha muito tempo para agir. Quando atendeu a ligação de Nico, achou que o seu sobrinho favorito contaria todos os segredos sujos de seu irmão, quando na verdade, contou um dos piores acontecimentos que poderiam acontecer com a Deadly Fights Academy. E pela primeira vez em muito tempo, seu coração batia forte no peito com angústia e ansiedade.

Sabia de cara que Zeus não tinha vendido as duas garotas por mera ameaça ou por qualquer hipótese de paranóia ou medo que sua academia seria atacada. Seu irmão não seria negligente com os demais alunos, tinha responsabilidade com eles. E por mais que estava em um avião para encontrar-se com o presidente da Rússia, tal viagem já estava marcada havia meses.

Havia algo de muito errado. E não saber merda nenhuma a não ser o que estava escutando de seu sobrinho pelo telefone, fazia Poseidon querer socar a parede.

— Esqueça o plano de contingência que temos – Nico rugiu furioso na ligação – Se eles tiveram acesso ao sistema por dentro, eles têm conhecimento dos arquivos digitais mas não do físico. Se eles tiveram acesso ao meu sistema, eu não faço ideia do quanto eles tiveram de acesso.

— Seus sistemas são independentes, Nico, eles não tem nada da Force – Poseidon pisava fortemente enquanto seguia no corredor frio em direção à sala de segurança. Ares, ainda machucado, tentava manter o passo para acompanhar o diretor.

— Eu não faço ideia de quem nos traiu, tio — Nico cuspiu a última palavra. – Meus sistemas são independentes, mas eu não faço ideia do que caralhos o filho da puta que nos traiu sabe ou acessou. Eu não identifiquei nada até agora, nada. Tudo estava do jeito que eu projetei.

— Nico, eu tenho que honrar com o protocolo do plano de contingência...

— Você tem que executar o plano dois, Poseidon. — a ligação ficou muda dos dois lados. — Zeus entenderá mas precisará argumentar com meu pai.

Poseidon ouviu alguém gritando o nome de seu sobrinho no telefone. Sabia que o sobrinho de nada ajudaria sem antes proteger a academia que já chamou de lar uma vez. Mas também sabia que ele devia à Poseidon mais do que devia a Zeus.

— Eu tenho que ajudar Zeus com as baixas da Deadly e fazer o meu trabalho – Poseidon entrou na sala de segurança e os alunos efetivados, digitando freneticamente códigos e aparecendo nas telas câmeras de segurança e sistemas de controle. Não se dignaram a se levantar para o diretor, pois assim foram treinados. O trabalho vinha primeiro. — Assim que eu terminar aqui eu entro em contato. Ligue para meu pai. — e encerrou a ligação.

Poseidon segurou ainda o telefone na mão ao lado do corpo, olhando para os monitores. Não havia conversa na sala, somente os sons de cliques do teclado ou dos mouses. A cabeça de Poseidon doía com tantos pensamentos furiosos. Foi quando Ares ousou falar.

— Se não ligar agora senhor, as equipes de Hades chegarão na Deadly em uma hora e aqui em três.

A cabeça do diretor girava em teorias e possibilidades. Sabia que Nico mandaria um relatório, sabia que haveria detalhes do ataque com o sobrinho.

— Eu quero discrição, Ares — Poseidon acompanhava os monitores de vigilância, agoniado. — Eu não quero nenhum aluno da Force sabendo sobre o ataque da Deadly. Especialmente a Chase. — Poseidon suspirou fortemente, e olhou para os olhos negros do sub-diretor. — Eu converso com Hades. Tem minha autorização para executar.

Poseidon ao mesmo tempo que queria pegar no avião e ir para a Rússia consolar o irmão, queria não ter que conversar com Hades e muito menos ter que executar uma defesa tão inesperada. Mas o diretor sabia que tinha que agir antes de qualquer possibilidade de ataque à sua segunda casa.

Sally. Tinha que ligar para a esposa e explicar que por um tempo não iria para casa.

Ares se posicionou ao lado de seu diretor e anunciou com a voz grave e firme. — Alunos, preparar o plano de contenção Tridente Dois.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.