Collateral Beauty
7 Capítulo 7. Tempestade Cinza
— nico di angelo
Suspirei enquanto olhava pela janela do jato, o céu negro da madrugada sem nenhuma estrela aparente. A luz da cabine era amena, confortável aos olhos. Na mesa de apoio à minha frente estava meu notebook terminando de rodar um programa de segurança. Senti um bocejo coçar o fundo de minha garganta, mas o sufoquei assim que o comunicador deu um apito no bolso da mochila ao meu lado. Antes mesmo de pegá-lo eu já sabia o que seria.
Meu telefone vibrou no bolso da calça 2 segundos depois. Um sorriso encontrou meus lábios quando apareceu o número e o nome da pessoa que me ligava.
— Boa noite, querido sobrinho – a voz de Poseidon ecoou na ligação e eu fechei meus olhos, encostando a cabeça na poltrona confortável. – Recebeu minha mensagem no seu comunicador?
— Sim, senhor. Aguardando o programa terminar para poder acessar.
— Perfeito – a ligação ficou muda por 2 segundos. – Como está o voo?
— Tranquilo, senhor. Chegarei na Deadly em menos de 1 hora. – estiquei minhas costas e ouvi ele dizer “muito bom” – Depois, só precisarei do relatório para podermos seguir com a fase 2 do plano.
— Encaminharei o relatório assim que a Chase sair da enfermaria. Apollo estava cuidando dela até meia hora atrás.
Abri os olhos, encarando o teto do jato sem entender.
— O que aconteceu, senhor?
— Ares levou uma surra da garota – eu estava incrédulo – Levou uma contusão feia no pescoço, está com o ombro quebrado e o orgulho gravemente ferido.
Eu gargalhei. A risada inesperada fez com que Poseidon ficasse mudo por um instante na ligação, mas acompanhasse baixo.
— Já transferi o dinheiro para sua conta.
— Adoro fazer apostas com o senhor, tio – eu ri encarando o céu negro — Eu falei que ela seria problema.
— De fato, sobrinho. — a risada baixa de Poseidon era acolhedora. — Quanto tempo para vir à Force?
— Amanhã de noite pretendo pegar o jato, Zeus queria que fosse breve minha visita, de qualquer forma.
— Ligue quando conseguir algo – e assim, Poseidon desligou e eu joguei o telefone na poltrona ao lado.
Peguei o comunicador, brincando com meus dedos e aguardei o programa no notebook terminar de rodar. Quando concluído, digitei o código de números e letras. Em questão de segundos, eu estava com acesso à rede da Deadly Academy e do notebook pessoal de Zeus.
Estralei os dedos e comecei a fazer minha mágica. Era óbvio que antes mesmo de atender o acordo que fiz com Poseidon, eu iria atender aos meus próprios interesses. E por isso acessei a pasta de Annabeth Chase. O mais engraçado era que Zeus tinha colocado senha para acesso à pasta. Ri quando a decodifiquei em cinco segundos.
Quais seus pequenos segredos, tio Zeus?
— piper mclean
A luz do banheiro estava ligada e iluminava fracamente o quarto. Encarei o teto, ouvindo meu coração bater em meus tímpanos e a agonia apertar meu estômago. O alarme em cima da mesa tocou baixinho, indicando que era quatro horas da madrugada.
Ao meu lado, Jason dormia ressonando baixinho. Os cabelos loiros precisavam de um corte e estavam descabelados. Eu conseguia ver um pouco da barba, mas seu rosto estava completamente imóvel no travesseiro. As costas fortes e macias, sem cicatrizes, estavam expostas para a luz fraca do quarto. Eu suspirei, sentindo a ansiedade e culpa corroendo meu ser de dentro para fora.
Levantei da cama e me vesti com as roupas cinzas da academia. Calcei meus chinelos estofados e antes de pegar meu comunicador e o cartão do meu quarto, dei uma olhada para o loiro dormindo suavemente. Meu estômago estava embrulhado. Peguei a coberta que tapava suas pernas e a puxei até as costas, lentamente.
Não olhei para trás quando abri a porta e saí.
Três portas depois, eu estava no meu próprio quarto. A mala estava ao lado da cama, intocada com as roupas da missão que eu tinha retornado no final da tarde. Fui direto para uma ducha e deixei a água escorrer por meu corpo por um longo tempo, querendo que ela me limpasse da sujeira que eu tinha por dentro.
Suja. Eu estava imunda.
Puta. Vadia. Traidora.
Os pensamentos me traíram e eu tive a covardia de chorar.
Depois de me secar, não me olhei no espelho, com medo de ver o que meu reflexo mostraria. Não vesti roupa íntima, o quarto estava quente o suficiente para só colocar um blusão de manga comprida por cima do meu corpo seco. Sentei-me na minha escrivaninha e abri o notebook para acessar ao relatório e começar a preenchê-lo.
Enquanto os meus dedos preenchiam o formulário com a maior riqueza de detalhes que eu podia me lembrar, um lembrete subiu no canto esquerdo da tela do notebook. Pânico tomou meu peito e eu esqueci como se respirava.
“Em dois dias estarei aí, baby.”
Faltava pouco para finalizar meu relatório e encaminhar pelo sistema para Poseidon, Ares e Apollo. Faltava somente preencher a parte médica, do qual meus dedos tremeram e a culpa assolou meu coração.
Puta. Vadia. Traidora. Mentirosa.
Sem dignidade, preenchi e encaminhei.
Abri meu roupeiro e peguei a roupa preta que era designada para o dia. Olhei o relógio, dando quase que cinco da manhã. Assim que me vesti, fechei o notebook sem responder à mensagem, e fui até a enfermaria.
Não havia uma alma viva nos corredores. Meu comunicador sem novas notificações e não havia ninguém no refeitório quando passei.
Quando cheguei à enfermaria, a sala inicial onde ficam as macas estavam prontamente ajeitadas, mas vazias. Na primeira porta, da sala de cirurgia equipada com os aparelhos de alta qualidade, as luzes estavam apagadas. Essa sala era grande o suficiente para que duas cirurgias acontecessem ao mesmo tempo, apesar de que em todos os 3 anos que eu estava ali, nenhuma vez isso aconteceu.
Na segunda porta, vi pela pequena janela uma sala estreita de suprimentos. Luzes desligadas, também. Na terceira estava a sala de recuperação, especializada para os alunos que tivessem recém-saído de cirurgia, ou precisavam de atenção mais especial para sua recuperação. Vi as luzes acesas, e pela janela, Arec estava mexendo em seu tablet enquanto olhava nos monitores de algum paciente que as cortinas tampavam.
Dei uma espiada para a quarta sala, de Apollo, mas as luzes estavam desligadas. Bati na porta da sala que Arec estava, e se olhou para mim pelo vidro. Com um sorriso sincero, pediu com um gesto para que eu aguardasse.
Aguardei sentada em uma das macas, o coração pulando pela boca.
— Miss Piper – Arec saiu da sala retirando luvas brancas de suas mãos, descartando-as em seguida – Fico feliz que retornou inteira de sua missão. Como foi?
— Encaminhei o relatório pelo sistema agora pouco, já deve ter chegado.
Arec se sentou na pequena mesa perto da janela onde tinha um computador e impressora. Ao lado, um armário enorme cheio de suprimentos bem como duas prateleiras. Arec abriu o relatório em seu tablet e começou a ler. Ao terminar, pegou alguns frasquinhos no armário. Meu coração começou a entrar em pânico e eu me levantei antes da fala dele.
— Muito bem, Miss Piper – indicou a sala que tinha acabado de sair – Você sabe o protocolo.
Arec foi na frente e eu o segui. Passamos a sala e fomos até o final. Poucas vezes estive em alguma maca dessa sala, mas sempre havia um ou outro aluno de recuperação aqui. Quando passamos pela maca que estava o paciente, Arec puxou a cortina e não me permitiu ver quem era. A do lado, estava já fechada. Respeitei e permaneci calada, tem coisas que não cabem a mim, mesmo sendo Líder Tipo II.
— Retire a roupa e permanece de pé, Miss Piper – Arec puxou as cortinas e sentou-se no banquinho, de costas para mim, preenchendo os papéis que imprimiu.
— É sutileza sua virar de costas ao me ver tirar a roupa mesmo tendo que me ver nua depois, Arec – comentei ao tirar o suéter preto grosso. A sala estava mais fria que o costume, mas estávamos no pico do inverno. Havia uma janela grande, de vidro reforçado e insulfilme fosco, permitindo uma luz branca fraca entrar na sala.
— Sou um cavalheiro – enquanto retirava a calça, reparei que seus cabelos pretos estavam cortados retamente, o jaleco branco reluzia sua pele amendoada, escondendo os músculos fortes. Nunca o vi sem aquele jaleco, sempre educado e simpático. Na maca atrás de mim, já estava um jaleco de hospital com a logo da Force. Deixei minhas roupas ao lado e avisei que estava pronta.
Arec se virou e olhou meus pés descalços primeiro. Se levantou e olhou diretamente me meus olhos. Ele tinha olhos azuis intensos, fizeram um arrepio se instalar na base de minha coluna e subir. Ele pegou o scanner e colocou perto de meu pescoço. Após o pequeno som, ele guardou-o no bolso do jaleco e a seus dedos dançaram no tablet. E assim foi o começo da avaliação.
O médico olhava cada centímetro de meu corpo, analisando e anotando. Procurando por arranhões, machucados, cicatrizes, chips. Ele ia confirmando as informações que eu tinha colocado no formulário. Quando chegou na parte do exame físico, não fiquei tensa. O toque de Arec com as luvas era suave, sem malícia. O único comentário que fez foi quando eu saí da balança e ele disse que eu tinha perdido dois quilos.
Após coletar meu sangue e fios de cabelo, Arec disse o meu pesadelo em voz alta:
— Pode deitar-se na ponta da maca e encaixar as pernas aqui.
Eu gelei por um mero segundo, mas fui e me deitei. Ele reparou. Seus olhos azuis intensos brilharam. Ele sabia.
De luvas ainda, ele pegou o Papanicolau e inseriu-o com delicadeza extrema por minha vagina. Eu gelei quando o cotonete deslizou, gerando uma leve cólica. Depois disso, comentou que eu poderia me levantar e colocar o roupão enquanto aguardássemos ele voltar com os resultados do laboratório.
— Deite-se e durma, Miss Piper – Arec colocou os frascos em uma caixinha térmica e não me olhou enquanto tirava a luva – Considere isso como uma ordem médica.
O olhar de Arec quando puxou a cortina e me deixou sozinha me fez sentir como se um buraco abrisse em meu estômago e meu peito explodisse de agonia. E eu fui covarde novamente em deixar as lágrimas saírem.
Puta. Vadia. Traidora. Mentirosa.
— strangers in Paradise
Poseidon andava de um lado para o outro em sua sala. Inquieto.
Nico ainda não deu notícias sobre a Force Academy.
Ares estava na floresta com os alunos tendo uma partida de caça de paintball na floresta.
Percy e Annabeth estavam sendo tratados por Apollo.
Percy... O coração de Poseidon pesou quando viu o relatório dos médicos sobre o garoto. Tinha permitido que ele sofresse na solitária mais do que devia nessa última vez. Estava ocupado demais com a Chase e sua sobrinha... Se Sally soubesse o que ele tinha permitido ao garoto... Ele iria se redimir com o filho. Abandonou-o por tempo demais.
Tinha lido o relatório de Piper e Jason, Líderes tipo II após a missão na Capital e tudo tinha ido conforme o planejado. Aguardava somente a confirmação médica para os dois retornarem às suas atividades.
Thalia já estava no trem indo para uma cidade chamada York. Ela tinha compreendido sua missão e era obediência que Poseidon precisava da sobrinha.
Tudo conforme o planejado, exceto o conflito de Ares e Annabeth. Poseidon olhou a gravação da câmera de segurança por mais de dez vezes, admirando cada movimento da loira. Ela tinha sido treinada quase que perfeitamente, faltando aprimoramento de alguns detalhes. Annabeth teria sido perfeita, se Zeus não tivesse negligenciado o verdadeiro conhecimento que ela precisava ter em todos aqueles anos na Deadly. Culpa cabia à Quíron também, por ter amado a garota como a filha que nunca teve.
Foi estupidez de Poseidon por acreditar que Ares teria auto-controle sobre apanhar de uma garota com um histórico perfeito. Magra apesar de musculosa, forte e linda. Mortal. Mas tinha que aplaudir de pé pela loira ter sido a primeira aluna a ter desmaiado o treinador sub-diretor.
Um trovão ecoou pela academia, fazendo com que os pelos de Poseidon se esticassem. O homem de terno cinza escuro impecável caminhou até sua enorme janela de vidro reforçado e olhou a tempestade cinza escura que se aproximava da academia. Sabia que a chuva não atrapalharia os jogos acontecendo na floresta e o treinamento não seria cancelado.
O que restava a Poseidon era esperar.
Esperar por Nico com informações da Deadly Academy.
Esperar pela recuperação do filho e pelo seu perdão.
Esperar Thalia realizar a missão perfeitamente.
Esperar os Investidores ligarem.
Esperar chegar a hora do jantar para ir para casa, para Sally.
Esperar pelo ataque, pois sabia que era questão de horas até a Deadly ser atacada também.
— percy jackson
Mais um raio cortou o céu e eu me arrepiei com o estrondo.
Eu sabia que Piper estava na última maca do quarto e eu tinha certeza de que estava dormindo. Assim como a loira que estava ao meu lado.
Bip. Bip. Bip.
O seu monitor era o único ligado, e eu sabia que era para que Apollo e Arec queriam monitorá-la de perto, apesar de terem outros afazeres mandados pelo meu pai. Mas estavam prevenidos para que não tivessem mais surpresas iguais à manhã passada, quando a garota teve uma parada cardíaca depois de falar em libras que tinha alergia à penicilina.
Eu sorri de lado. Nunca na vida vi alguém seminua, coberta de sangue e ser tão bonita e foda. O melhor foi ter sabido que ela tinha quase quebrado o pescoço de Ares. Eu mal dormi esta noite, ansioso para saber mais, somente apaguei quando Arec colocou sedativo no meu soro para poder descansar.
Ela passou a noite sedada, estável, mas isso não impediu que Arec passasse a noite toda do seu lado, monitorando-a. Eu não sabia seu nome, apenas seu sobrenome: Chase. Não me era estranho, mas eu sabia que não conhecia ela. Arec não permitiu que eu falasse ou perguntasse algo sobre a garota. Ela não tinha olhado para mim em nenhum momento ontem quando entrou sendo carregada nos braços de Apollo.
Assim que Arec saiu da sala de recuperação com os exames da Piper, eu aguardei cinco minutos e levantei-me lentamente da cama. Arrastei silenciosamente um pouco da cortina que nos separava, o suficiente para que quando eu deitasse, eu conseguisse ver seu rosto. Cuidei para que meu soro não arrebentasse e lá estava ela.
Os cabelos loiros, cacheados e compridos de ontem, estavam limpos e tinham sido presos em um coque bem-feito por Arec. Não havia sangue em seu corpo. A roupa rasgada tinha sido trocada por uma roupa hospitalar com a logo da Force e agora estava coberta até os seios com a manta da maca, e o braço direito que estava para fora, com os soros conectados.
Seu nariz era pequeno e arrebitado. Os lábios eram perfeitamente desenhados e cheios, estando em um tom rosa, mas que com toda certeza deveriam ser mais escuros com a tonalidade de pele correta. Havia um curativo no lábio inferior. Estava pálida. Suas sobrancelhas eram desenhadas e também tinham um curativo no lado direito. Os cílios loiros eram cheios. As bochechas finas, mas eram molduras perfeitas para seu rosto.
Ela era linda, uma obra de arte mortífera. E pela primeira vez em muitos anos, eu tive algo desperto em mim que eu tinha sufocado, e pensava que tinha morrido.
Antes de voltar para a maca, vi que perto de seus pés, estava o tablet preto de Arec.
Eu não pensei duas vezes.
Arrastei meu soro silenciosamente e peguei o tablet. Deitei-me novamente na maca, deixando o lençol como estava antes. Antes de abrir, olhei para a mulher mais linda ao meu lado e desbloqueei o tablet. A tela principal era a ficha médica dela.
Annabeth Chase.
Annabeth. O nome dela parecia mel em minha língua. E a curiosidade era que não havia nenhum dado, nenhum histórico médico, nem mesmo sua idade. Por isso o chip dela não estava funcionando, ela ainda não tinha passado pela triagem. Não estava preenchido nenhum dado pessoal a não ser do dia de ontem, da cirurgia, o que na verdade, foi um desastre consoante ao relatório de Arec e Apollo.
Os dois médicos utilizaram 4 bolsas de sangue até descobrir de onde vinha a hemorragia, que foi causada por causa de uma fratura na costela, perfurando o uma parte do baço e rasgando o pulmão esquerdo. Foram 3 horas de cirurgia depois de descobrirem a fonte de tudo.
Olhei novamente para ela. Não ouvia nem sequer sua respiração. Eu só sabia que ela estava viva pois o monitor continuava com o bip.
Vi que a dosagem de Nectar utilizado foi altíssimo, por isso o fato de ela estar sedada. Só utilizamos o Nectar para casos específicos. Este é um elixir poderoso de cura que Apollo desenvolveu, mas altamente perigoso. Se eu saí da solitária e precisei de 150g para conseguir me recuperar, imagino o estrago que estava na mulher ao meu lado por ter tomado 1L sozinha.
Rolei até embaixo e vi que Arec tinha feito exames de sangue e DNA. À princípio, ela estava completamente saudável, mas magra. Senti uma pontada de desgosto quando vi que tinham feito até mesmo os exames íntimos, aguardando retorno do laboratório. Mas como ontem foi uma surpresa para todos, não posso julgar os médicos por quererem antecipar o trabalho.
Eu não fazia ideia do que ela estava fazendo ali. Foi contratada? Estaria de passagem? Veio visitar? Ou pior... invadiu? Sei que pelo código de ética e conduta prometido na faculdade e do contrato que vincula os médicos à academia, eles nunca negariam auxílio médico a ninguém, mesmo que fosse inimigo.
Quem era você, Annabeth Chase?
Olhei duas vezes a ficha da garota e não encontrei nada. Fiquei sentado, olhando para ela até que decidi levantar e colocar o tablet na mesma posição que eu encontrei. E assim que eu coloquei o tablet na maca, ouvi um gemido de dor vindo da loira e os batimentos cardíacos começaram a oscilar.
Ela abriu os olhos lentamente, e eu vi uma tempestade cinza nos olhos da mulher mais linda que eu já tinha visto.
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