Collateral Beauty
3 Capítulo 3. Velho Carvalho Marcado
— rachel elizabeth dare
Eu já passei muito tempo na floresta nas minhas horas livres e nas férias... Afinal, quem não tem casa para ir no Natal ou não tem condições de pagar as férias, fica na academia. Como eu não tinha nem um nem outro, a academia era minha prisão desde os 14 anos. E tudo o que consegui foi ser segurança de um senador enquanto ele visitava uma galeria de arte. Não sou ingrata pelo trabalho, muito pelo contrário: foi a melhor noite da minha vida estar naquela exposição de arte. Contudo, recebendo pouco e tendo que dar praticamente tudo a Zeus, a raiva ferve o sangue fácil fácil. Eu conhecia cada posição de câmeras, conhecia as armadilhas e os locais onde estavam escondidas as armas. Eles nunca mudavam pois ora, quem conheceria a floresta tão bem à ponto de lembrar-se onde tudo estaria escondido?
Era mais do que óbvio que neste campeonato, Ethan iria atrás de Annabeth, Lee iria atrás de Ethan para defender Annabeth, e Annabeth derrotaria ambos. Simples. A questão ficaria só entre eu, Jake e a Katie. Eu só precisava da arma que estava escondida no coração da floresta que o jogo estaria ganho para mim, e eu finalmente sairia daquela merda de academia. Poderia ser efetivada, guardar dinheiro o suficiente para ir embora. Recomeçar. Trabalhar num restaurante pequeno talvez, fazer minha faculdade, e viver dos meus quadros e da minha arte.
Parei de correr quando um grito forte ecoou pelas árvores, e alívio percorreu em cada veia do meu ser quando percebi que a dona da voz era Katie. O problema disso era que o grito foi perto, e eu ainda estava longe do meio da floresta. Eu tinha toda a motivação e força para ganhar este campeonato, e nada poderia me impedir de alcançar o que eu quero.
Eu amo a Annie, e amo a cuzona da Thalia. Ambas me acolheram quando cheguei na Deadly e sou grata por nossos momentos. Parte-me o coração em pensar que quero deixá-las, contudo, eu tenho minha vida para considerar. E por isso eu corri o mais rápido que minhas pernas conseguiam, com cada passo firme nas grossas raízes das árvores. Corri pelo o que parecia ser quilômetros de distância e meus pulmões estavam cansados, minhas pernas pareciam de chumbo.
E quando finalmente cheguei no velho carvalho com uma marca vermelha em seu tronco, eu sabia que tinha chegado ao coração da floresta. As raízes da árvore eram exaltadas, velhas e fortes. Contudo, havia um espaço entre elas que continha uma caixa preta como tamanho perfeito para esconder uma Pistola Taurus PT838 e sua munição. Peguei a caixa e tirei rapidamente a terra em volta. O problema, quando abri, era que não havia nada dentro.
— Procurando isto aqui, ruiva? – fiquei em pé em um susto quando a voz de Ethan veio de trás. Ele estava apontando a arma para mim, e em sua mochila, havia duas fitas brancas amarradas. – Um passarinho me contou que havia um presente maravilhoso no velho carvalho marcado – ele deu dois passos em minha direção – Não foi difícil encontrar.
— Sua perna deve estar doendo muito por ter chegado aqui antes de mim – argumentei e levantei as mãos acima da cabeça. Droga, droga, droga. — Não é fácil correr quando se é manco.
A raiva nos olhos de Ethan era mais do que visível. Eu sabia que ele estava atrás de Annie e ia me usar para conseguir ela. A rixa dos dois tem mais de anos de um campeonato de luta livre que, Annabeth, em pedido de Zeus, para terminar a luta tinha que literalmente quase matar Ethan asfixiado depois de tê-lo vencido ao quebrar sua perna em dois lugares e deslocado seu ombro e clavícula.
— Cala a boca, sua vadia – Ethan aproximou-se depressa, apontando a arma em direção à minha cabeça, e eu só soube recuar com as mãos para cima. Olhei para sua mochila e havia três fitas ali firmemente amarradas. Ele tinha pegado Jake provavelmente também— Eu quero saber onde que sua amiga está se escondendo nessa floresta.
— A Katie? – eu sabia que estava brincando com fogo, mas vendo essa situação, eu tinha acabado de dizer adeus para o meu futuro – Ora, aquela fita ali é dela. Você a estuprou antes ou depois de ter pego a arma?
Eu juro que senti a dor antes mesmo de ter ouvido o disparo da arma de Ethan. Caí no chão úmido e fofo da floresta, com minha coxa direita sangrando logo acima do joelho. Gritei de dor e coloquei as minhas duas mãos no ferimento enquanto ouvia o riso doentio do tapa olho.
— A única vadia que morre hoje é a Chase, e se continuar nesse joguinho, princesa, vai ser você depois dela – Ethan se aproximou e me puxou pelo braço, me levantando do chão – E se comportar, não vou te estuprar como fiz com a Gardner. – o nojo revirou meu estômago e eu senti ânsia de vômito pela dor. — Agora, onde ela estaria escondida? – disse ao encostar a arma fria em minha bochecha.
— Devia ter acertado na cabeça, seu cuzão – cuspi em sua cara. O frio da arma me apavorava de medo, e o machucado na perna latejava, doía, e jorrava sangue. Eu queria chorar mas não vou dar essa satisfação. Se eu morrer, vou morrer com minha dignidade. – Vai pro inferno.
— Ah Dare, eu vou gostar de sentir você, sua putinha – Ethan me jogou no chão e começou a chutar meu estômago, meu peito, meus braços, o que ele conseguisse alcançar menos meu rosto. Ele pegou do bolso do meu moletom as duas fitas brancas e amarrou-as sem pressa na sua alça da mochila. Cuspi sangue, segurando firmemente as lágrimas que ameaçavam a cair. Tudo doía. E doía muito. – Mas antes vai dizer onde está sua amiga – disse ao fincar o dedo no machucado da minha perna.
E eu não consegui segurar nem o grito e nem as lágrimas.
— annabeth chase
O grito de Rachel ecoa pela floresta e meu coração bate mais forte.
— Você abaixa a espada que eu abaixo o arco – Lee fala olhando profundamente em meus olhos – Você ouviu o grito, ele já pegou ela. Ajude-me a derrubá-lo que eu não luto contra a ruiva. Eu prometo.
Eu nunca confiei em ninguém. Principalmente em homens. Mas o segundo grito de Rachel foi mais forte e carregado de dor e agonia. Eu não podia deixar ela sofrer nas mão daquele tapa olho estuprador. Abaixei rapidamente a espada e ele fez o mesmo. Comecei a correr em direção aos gritos com meu coração batendo forte, e minhas pernas firmes no chão escorregadio cheio de raízes grossas. Lee me acompanha no mesmo ritmo no que parecia estarmos correndo milhares de quilômetros em direção ao grito.
Mais um. E depois outro. E outro.
— Eu vou matá-lo, Fletcher! – prometi aos berros ao sentir a raiva ferver meu sangue só pelo pensamento de Nakamura estar tocando ela. Os gritos eram de dor, pura dor.
Chegamos em uma clareira com um velho e enorme carvalho marcado com tinta vermelha em seu tronco. Á frente, estava Ethan segurando Rachel com um braço, apontando uma arma contra sua cabeça.
— Que porra é essa de arma, Ethan?! – Lee gritou ao puxar a flecha e o arco rapidamente – Ficou maluco?! Solta ela!
— Cala a boca, Fletcher! – o tapa olho gritou apertando Rachel em seu braço, fazendo-a gemer de dor. Ela estava toda machucada. O moletom rasgado e ensanguentado em vários lugares. Quando vi o tiro em sua coxa, Ethan riu – Gostou do furo na sua amiga? Vai ter um em cada lindo olho dela se você não fizer o que eu mandar, Chase!
— Ela não tem nada a ver com isso, Ethan! – segurei a espada firme nas duas mãos. A raiva agindo sobre cada célula do meu ser, mas eu tinha que permanecer calma. A vida de Rachel dependia disso. – Vamos resolver eu e você. Eu sei que é sobre o torneio.
— E é por isso que hoje você vai pagar! Ah, você vai pagar, sua puta! – Ethan riu doentiamente e Piper soluçou – Você devia ter me matado quando tinha a chance!
— Zeus mandou eu te asfixiar! Eu que escolhi não te matar, Ethan! – gritei, me aproximando lentamente, um passo de cada vez. A arma dele estava apontando para a arma para a bochecha de Rachel. De seus olhos escorriam grossas lágrimas e de sua boca saía um rastro vermelho de sangue. – Eu salvei sua vida, seu pedaço de merda!
— Salvou sua reputação, sua vagabunda! – ele gritou e mirou a arma para o pescoço de Rachel pois ela tinha quase caído – Eu fiquei conhecido como o cara que apanhou de uma mulher e nunca mais fui nem cogitado para ser contratado! Essa é minha revanche! Matar você, estuprar essa puta ruiva e sair com meu dinheiro para uma nova vida!
E tudo aconteceu em câmera lenta.
Lee disparou uma flecha contra Nakamura, acertando-o no ombro. Meu grito ficou preso na garganta, meus olhos se arregalaram e meu corpo todo se arrepiou. Rachel gritou em desespero e eu corri em sua direção quando tentou se soltar do braço de Ethan assim que foi atingido. Ela se libertou, Lee disparou outra flecha no peito e Nakamura caia no chão. Meus passos pareciam ser puxados pela gravidade, eu estava lenta demais. Eu só conseguia olhar nos olhos de Rachel e correr em sua direção.
Até que o estrondo do disparo da arma me deixou surda, e uma fração de segundo, eu vejo o peito de Rachel encher-se de sangue, enquanto seu corpo perdia o equilíbrio e ela caía no chão da floresta.
O grito finalmente escapou minha garganta. E o mundo saiu de câmera lenta.
— Rachel! – joguei-me no chão, pegando seu corpo machucado e colocando-o em meu colo. Seus olhos azuis estavam em choque, seu corpo todo tremia. Ela não conseguia respirar, saia muito sangue de sua boca. – Rachel, não! Não!
— Faça alguma coisa! – Lee berra ao meu lado enquanto eu fazia compressão em seu peito ensopado de sangue. – Salva ela!
Rachel engasga em seu próprio sangue, e seus olhos azuis tristes e apavorados olham profundamente os meus. Eu não sentia meu corpo. Eu não conseguia respirar. Minha amiga estava morrendo e era por minha culpa.
— Está tudo bem, Rach. – e uma lágrima escorre pela minha bochecha – Eu não vou te abandonar aqui. Não vou te deixar.
Lee se levanta e começa a berrar por ajuda. Seus gritos são ecos distantes em minha mente. O corpo de Rachel tremia e estava frio, cheio de terra, cheio de sangue. – Eu sinto muito, minha Rach. – um soluço escapa de minha garganta, apertando-a mais ainda. – Eu sinto muito.
Rachel não conseguia mais respirar. Abracei-a fortemente, enquanto sentia seu corpo tremer, e ela tentando lutar contra o sangue que inundava seus pulmões. E o pior de tudo, foi que ela me puxou mais forte ainda. Eu só conseguia chorar abraçando minha amiga que pouco a pouco, foi morrendo em meus braços, até que depois do que pareceu uma eternidade, ela finalmente parou.
Os gritos de Lee não passavam de sussurros. O corpo de Rachel ficou pesado e imóvel. Tudo ficou em silêncio. Não sei quanto tempo depois vi luzes brancas me ofuscando a visão já turva das lágrimas. Meu nome soava finamente da boca de alguém, mas não sabia quem. Algo me levanta do chão e eu não sinto mais o corpo de Rachel contra o meu.
Vejo sangue em minhas mãos, em meu corpo.
Eu não sinto mais nada.
— strangers in Paradise
— Uma pena, Zeus, que tenha terminado assim – disse um dos homens de terno sentados à mesa, enquanto olhavam na grande televisão a cena da morte de uma das acadêmicas da Deadly Fights Academy – Uma tragédia, realmente.
— Eu estava torcendo pelo loiro do arco já que a Chase não está disponível novamente. – disse outro enquanto se levantava – Talvez na próxima consigamos realizar um acordo, meu caro amigo, mas hoje não.
E cada um dos patrocinadores foi-se embora, deixando Zeus sozinho em sua sala, bebendo de seu copo de whisky, olhando pela grande televisão Jim e Quíron, juntamente com outros agentes a levarem Annabeth Chase, Lee Fletcher e os corpos de Ethan Nakamura e Rachel Elizabeth Dare para longe da floresta.
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