Collateral Beauty
4 Capítulo 4. Molho de tomate e macarrão
— strangers in paradise
Jim, sentado no banco de metal perto da pia, encarava a loira que estava sentada no chão frio do banheiro, que abraçava suas pernas enquanto a água quente batia em seu corpo. O chão, antes branco, agora estava pintado de vermelho com o sangue que escorria lentamente de seu corpo em direção ao ralo. Annabeth chorava, silenciosamente, com os olhos cinza escuros quase pretos, carregados de luto e dor. Jim somente ficou sentado, olhando-a sem malícia ao corpo nu, com o peito apertado e a garganta parecendo que estava fechada por uma corda firme.
Jim considerava como filhos cada um dos alunos que passaram pelo seus cuidados na Deadly desde 1980 quando entrou na academia. E ele sentia um carinho maior por Annabeth, uma vez que ele e Quíron tinham ido ao orfanato busca-la quando tinha somente 7 anos. A criança loira, com medo e sozinha, encontrava-se novamente à sua frente. Os mesmos olhos cinza escuros com dor, sofrimento e solidão. Isso partiu o coração de Jim profundamente.
Ambos ficaram parados, em silêncio no que parecia ser horas, até que Jim levantou-se lentamente, colocou o banco que sentava na frente de Annabeth, a qual não mexeu um músculo sequer. Jim, cuidadosamente levantou-a e sentou-a no banco de metal. Pegou a esponja e a barra de sabonete, e começou, lentamente a banhar a aluna.
Mais sangue ia escorrendo ao ralo e Annabeth continuou calada, com lágrimas quentes escorrendo de seu rosto com a água do chuveiro. Quando Jim começou a lavar os seus cabelos ensanguentados e duros, Annabeth fechou os olhos e com toda a dor que tinha em seu peito, desatou a chorar soluçante, baixinho. Jim lavava e acariciava a cabeça loira, passando a água e tirando o vermelho do loiro, calado, e com os olhos segurando as lágrimas.
Quando terminou, Jim secou todo o corpo de Annabeth com uma toalha e enrolou-a. Ela, que olhou o tempo todo para o chão, encontrou os olhos verdes de Jim, e expressou neles toda a gratidão que tinha por ter respeitado o luto dela, banhando e cuidando-a.
Jim sorriu de lado, e gentilmente entregou a Annabeth uma muda de roupa limpa, para depois sair com a roupa ensanguentada e voltado prontamente, aguardando na porta. Annabeth encarou-se no espelho no meio do banheiro. Não se reconheceu. Ali estava uma menina com os olhos inchados e vermelhos, não uma mulher forte.
Não a muralha de pedra que construiu.
Annabeth, derrubando a última lágrima que prometeu a si mesma derrubar pela amiga falecida, jurou a si mesma que nunca mais amaria outra pessoa como tinha se permitido amá-la e à Thalia.
[...]
Thalia Grace, depois de destruir sua beliche e espalhar suas roupas e pertences de dentro do roupeiro aos eu redor, finalmente encontrava-se sentada no chão frio, com a maquiagem preta escorrida em seu rosto e Quíron sentado na beliche a sua frente.
— Ela será incinerada, conforme o costume da academia. Como vocês duas são as mais próximas, poderão decidir o que fazer com as coisas dela. – Quíron sentia a raiva emanar da punk, que somente consentiu.
Thalia fungou e passou a manga do seu moletom nos olhos. Seu ombro latejava de dor do ferimento da bala, e sabia que deveria ter aberto os pontos por debaixo do grosso moletom durante o seu ataque de raiva e luto. — O que vai acontecer agora? – perguntou a garota com a voz rouca de tanto ter gritado no quarto sozinha.
Quíron respirou profundamente antes de responder. – Nakamura já foi incinerado junto de todas as suas coisas. Lee Fletcher vai ser efetivado e já está à caminho de seu novo lar. Kate está na enfermaria, está estável contudo.... O laudo comprova que há vestígios de sêmen de Nakamura. Ela será encaminhada para o Instituto de Habilitação de um dos conhecidos de Zeus para tratamento psicológico e terapêutico e aguardar pelo melhor. Não podemos nos dar ao luxo de perder mais um aluno.
A raiva cresceu em seu peito ao saber disso. Filho da puta, filho da puta, filho da puta. Era isso que ela tinha dentro de si. Raiva. A mais pura forma de ira.
— E quanto à Annabeth? – perguntou olhando fundo nos olhos castanhos de Quíron. Este, imóvel e exaltado superioridade e soberania, sentia em seu interior certo fardo por já saber o futuro que aguardava Thalia e Annabeth.
— À respeito disso, Zeus a espera na sala dele para conversarem.
Thalia franziu o cenho e sua face estava estampada com confusão. – Mas ele nunca me permitiu ir à sala dele.
— Para você ver a extrema necessidade da situação. – E com isso, Quíron levantou-se da beliche e caminhando em direção ao refeitório para encontrar Ananbeth Chase, seu prodígio e pupilo. – E limpe essa bagunça, falta dez minutos para as alunas voltarem ao dormitório.
E assim, o subdiretor deixou a punk no enorme quarto sozinha, enquanto os relâmpagos iluminavam e ecoavam furiosamente na tempestade lá fora. Thalia, passando a mão de seu rosto para o cabelo, não conseguiu conter o grito e berrou fortemente no quarto. Sabia que Quíron não havia a ouvido devido ao quarto ser à prova de som, mas ainda assim, toda a dor, confusão e luto ainda grudavam-se ferozmente em seu peito.
[...]
Era uma hora da madrugada, e Annabeth estava no puffe da biblioteca, segurando o livro que Rachel havia falado. As maravilhas e detalhes da arquitetura moderna. A garota não teve coragem de ler uma página sequer, somente segurou o livro contra o peito.
Annabeth não sentia fome. Não sentia vontade de mexer um músculo. Não tinha sono. Não sentia nada. Somente encarava as grandes janelas da biblioteca, iluminadas pelos relâmpagos ouvindo os respingos da chuva forte, encolhida no puffe preto. Parecia que minutos haviam se passado para Annabeth, mas na verdade, já era três da madrugada. A loira sabia que em duas horas teria que se apresentar para o cronograma diário da Deadly, e não haveria exceção para ela ou Thalia.
Thalia. A lembrança punk de cabelos pretos e repleta de mau humor passou por seus olhos e intrigou-se do porque a garota não havia procurado desde o acontecimento da floresta. Mas não pode culpa-la, provavelmente, estaria em maior estado de luto que a própria. Annabeth forçou-se a levantar-se, e guardou o livro na estante, acariciando-o a capa antes de sair pela porta rangente de madeira da biblioteca.
Enquanto Annabeth caminhava pelos grandes e frios corredores, estranhou o fato de que as luzes automáticas não aumentavam de brilho conforme ela avançava em direção à cozinha. Ainda não sentia fome, mas considerando que não comia nada desde o campeonato, obrigou-se a tentar comer algo para manter as forças. E ainda mais, precisava estar em um lugar sem que os demais alunos a olhassem com pena nos olhos.
Annabeth, com o passar dos anos, detestou ser o centro das atenções na Deadly. Quando mais jovem, ansiosa para ver o mundo e ter sua vida, esforçava-se com todas as suas forças para ser notada, provando ser a melhor e mais capacitada para qualquer missão ou trabalho que surgisse na academia. Ganhou diversos campeonatos, venceu praticamente todos os concursos de modalidades diversas de luta que participou e mostrou-se incrivelmente inteligente e estratégica, adquirindo as melhores notas nas provas de qualificação. E mesmo assim, nunca botou os pés além dos limites da Deadly Fights Academy.
Annabeth nunca esqueceu-se do dia em que um patrocinador, olhando da plataforma de vidro do ginásio, ficou louco para comprá-la, e pedindo aos berros abafados pelo vidro reforçado quanto que Zeus aceitaria para que ela fosse levada embora com ele. Mas novamente, eles não aceitaram.
— Ele me queria! Estava disposto a pagar uma fortuna para Zeus! – berrou Annabeth de 17 anos, segurando as lágrimas enquanto Quíron sentado em sua mesa, com os braços cruzados, somente encarou-a friamente, sentindo um nó formar em sua garganta por saber o tanto que ela merecia ir embora.
— Você ainda não está pronta, e Zeus não permite perder uma aluna tão dedicada por um preço qualquer para uma pessoa qualquer.— uma das diversas mentiras que o subdiretor tinha para dizer à Annabeth. E dispensou-a, de mais uma discussão das diversas que a jovem tivera ao decorrer dos anos.
Annabeth Chase não conhecia seu passado, não tendo mais do que algumas simples lembranças de seus pais, e do dia que Quíron e Jim buscaram-na no orfanato. Cansou-se de tentar buscar respostas para as perguntas de quem ela era, e quem deveria ser.
Annabeth Chase, 21 anos, com as diversas qualidades nas categorias de luta e combate, estratégia e conhecimento, era completamente excluída do mundo e de tudo fora da Deadly. Nunca teve um celular como os outros alunos que saíam em missões e trabalhos, com contas de instagram falsas, facebook e novas identidades fornecidas pelo pessoal do TI para poder conhecer o mundo e tudo o que ele possui a oferecer... Música, artes, filmes, política e todo o conhecimento intelectual da atualidade, era uma obrigatoriedade dos alunos entenderem. Mas sempre disponível através da tela do computador da sala de informática, supervisionados à todo instante, com restrição de determinados sites.
Annabeth parou em frente à porta do refeitório, e sem abri-la, conseguia sentir o cheiro de molho de tomate natural. O cheiro trouxe memórias infantis que fizeram um arrepio subir pela sua coluna. Com um suspiro, adentrou o enorme refeitório escuro, com rastro de luz emanando da cozinha fechada com vidro, vendo a última pessoa que gostaria de ver cozinhando seu favorito molho de tomate e macarrão caseiro.
— Quíron
Ouvi o barulho da cadeira de metal se arrastar suavemente, e quando virei, lá estava ela. Usando o moletom preto da academia, uma calça moletom preta e alpargata azul marinho com meias pretas, cabelo cacheado loiro preso em um coque mal feito, olheiras pretas e profundas dando destaque, mesmo de longe, aos olhos cinza tempestade, agora, quase pretos.
Annabeth não se levantou e cumprimentou quando olhei-a; somente sentou com as mãos no bolso canguru do moletom, olhando eu mexer na panela de ferro com a colher de madeira o tão conhecido molho que eu cozinho. Ela ficou em silêncio, observando enquanto eu terminava de cozinhar a massa e abafava o molho cheiroso e vermelho, com pedaços de tomate, cebola e meus temperos na minha culinária famosa. Famosa, pois havia rumores que eu, o subdiretor, cozinhava na calada da madrugada quando não ia para casa (apesar de que eu morava mais na academia do que naquele apartamento grande e vazio), e favorecia uma aluna em particular.
Olhei de relance para a aluna em particular, rindo mentalmente, colocando a colher na bancada e fui lavar as mãos na grande pia de metal.
Eu tenho 50 anos como subdiretor da Deadly Fights Academy, e nesse tempo todo, a única pessoa que deixo estar em minha companhia, era Annabeth Chase. Eu nunca admiti em voz alta, e apesar de ainda ser frio e fechado com ela durante todos os anos, e nunca ter dito-a a verdade, ela é a filha que eu nunca tive. Diversas vezes, em todos esses anos, Annabeth quando não conseguia dormir, entrava na minha sala e lia na cadeira aconchegante de canto, iluminado pelo abajur, e seus livros noite adentro.
Depois de tirar a água do macarrão e ter servido no prato com o molho, peguei talheres e fui em direção à Annabeth. Quando sentei na mesa fria e iluminada pela luz da cozinha, ela pegou o prato silenciosamente e comeu devagar com a colher.
Olhei-a cuidadosamente. Eu ajudei a criar e a formar a mulher que se encontra à minha frente. A mulher que com 7 anos, eu fui buscar no orfanato e e na mesma noite, ofereci a ela o mesmo prato que ela come agora. A mulher que quando 11 anos, fora estuprada por um dos alunos mais velhos diversas vezes em uma única noite e fui eu que salvei-a. A mulher que nunca saiu da academia. A mulher que eu treinei. A mulher que eu ensinei a como viver com sua depressão. A mulher que nunca soube a verdade. A mulher que criei como filha. A mulher que eu vou ter que deixar ir embora às 7h da manhã.
— Aqui — retirei o frasco pequeno branco de meu bolso e deixei na mesa. — Para ajudar com as dores.
Annabeth somente encarou o frasco, e com um singelo olhar, senti o peso que carregava. Não era fácil ter o trauma de abandono, de estupro, de solidão, de raiva, de depressão. Por mais que Annabeth tivesse o acompanhamento terapêutico na Deadly, enquanto ela morasse aqui, ela nunca iria realmente curar as dores da alma. Annabeth pegou as duas pílulas vermelhas e engoliu-as, voltando a comer o macarrão lentamente, e em silêncio.
Annabeth não falou uma palavra sequer durante todo o jantar, e eu também não disse nada. Olhei no relógio, era 4h30min da manhã. Eu estava cansado e precisava dormir, mas com toda a certeza, não conseguiria nem com remédios. Depois de comer tudo o que tinha em seu prato que fora generosamente preenchido por mim, Annabeth levantou-se, lavou a louça do "jantar" que eu fizera, e depois, sentou-se na minha frente com o pano de prato secando suas mãos.
— O que acontecerá agora? – perguntou, olhando profundamente com seus olhos tristes e frios.
— Lee Fletcher foi efetivado – Annabeth não demonstrou surpresa com essa informação. – Kate vai ser transferida para um instituto terapêutico, depois de ter sido abusada sexualmente pelo Nakamura, que este por sua vez, faleceu depois de levar a segunda flechada de Fletcher.
Annabeth piscou e eu quase vi a satisfação por um momento em seu olhar quando ouviu que Nakamura estava morto. Respirou fundo, abaixo os olhos enquanto dobrava o pano e deixando-o em cima da mesa.
— Creio eu que tudo está nos conformes então... – falou secamente e levantou-se, ajeitando a cadeira. – Obrigada pela refeição, Quíron. Com licença...
E saiu em direção a porta.
— Não está curiosa para saber sobre o que lhe cabe disso tudo? – falei e cruzei meus braços sobre o avental branco. Annabeth parou instantaneamente. Virou-se e encarando profundamente meus olhos, estava quase que incrédula.
— O que cabe à mim disso tudo? – perguntou cautelosa e eu senti a esperança no fundo de sua voz.
— Você vai ser transferida para a Force Academy.
Annabeth Chase estava pálida.
— Force Academy? A academia de Poseidon? – perguntou cuidadosamente, levemente confusa, aproximando-se vagarosamente da mesa. Suas sobrancelhas estavam franzidas. Havia um brilho em seu olhar, assustador.
— Sim, Annabeth – falei, calmamente encarando a tempestade cinza nos olhos dela. – Às 7h dessa manhã, você e Thalia entrarão em uma vã e serão transferidas para a outra academia.
— Por quê? – perguntou com a voz firme, agora de pé atrás da cadeira que antes estava sentada. Vi seus ombros eretos, o peito estufado. A ousadia e ainda assim, respeito. Seus dedos apertavam fortemente o moletom, dava para ver por debaixo do tecido. Ela estava tensa e nervosa. – Depois de tantos anos, por quê agora? E porquê Thalia?
— Zeus fechou ontem à noite o negócio com Poseidon. O motivo? Eu não sei. Mas acredito que vai ser o melhor para vocês duas, principalmente para você. – Annabeth estava parada igual uma estátua, fuzilando-me com o olhar frio, curioso e temeroso.
— Depois de tanta negação, agora que consigo sair não vai nem me dizer o motivo? – disse, havia mágoa em sua voz firme – E depois te tanto esforço e competência aos trabalhos e efetivações que me foram negados, simplesmente vou ser vendida para o quê? Para Zeus ganhar uns trocados com a minha pessoa e eu fazer sabe Deus o que nessa academia sendo que provei meu valor aqui e valeu de bosta?
Aquilo feriu levemente meu coração e ego, apesar de não ser a verdade do seu futuro. Mas eu ainda era o subdiretor da academia, e ela ainda era uma aluna.
— Silêncio, Chase – levantei-me, falando alto. Annabeth fechou a cara e abaixou a cabeça. — Esteja pronta às 7h para Argos leva-la – passei por ela, seguindo em direção à porta. – E se acredita mesmo que eu a criei e permiti que Zeus a transferisse para ganhar uns trocados e não ser reconhecida, isso condiz mais com o seu caráter do que com a sua formação nesta academia. Isso que você representará à Poseidon e à Force se for com esse pensamento.
Eu sabia que não devia ter dito aquelas palavras de uma maneira tão brusca e ríspida. E ao fechar a porta, eu a vi sentando, e colocando as duas mãos na cabeça. Fiquei um segundo amais parado olhando-a, querendo de alguma forma amenizar sua dor, sua confusão. Mas não havia mais nada que eu poderia fazer. Eu sabia que sempre poderia ler seus relatórios e acompanhar seu desenvolvimento na Force, mas nunca mais poderia tê-la como eu sempre tive.
E por isso segui para meu escritório, com o coração apertado e a garganta fechada.
—annabeth chase
A parte do roupeiro de Thalia estava vazia. A cama vazia, sem o lençol e a fronha do travesseiro. O quarto estava abandonado, com as alunas no refeitório tomando café da manhã e se ajeitando para o dia de rotina da Deadly. Em cima da minha cama, estava a muda de roupa que deveria usar hoje, e a bolsa-mala para colocar meus pertences.
Eu não me permiti pensar. Em Thalia, em Rachel, em Quíron ou em mim mesma. Dentro de minha cabeça e meu peito tinha um furacão de raiva, tristeza e agonia e eu não iria ceder como cedi no refeitório com Quíron. Eu aceitei o que tinha acontecido. Aceitei que Rachel morreu e não vou poder participar de sua incineração, que suas coisas seriam doadas menos seu moletom e sua blusa com identificação. Eu aceitei que eu iria embora sem nem menos saber nada sobre a academia nova e o motivo de eu estar indo lá... E sabia Deus o que me aguardava. Aceitei que Thalia estava de luto e tinha seus motivos para não estar comigo agora. Eu aceitei e calei minha boca.
Eu estava morrendo de ansiedade e nervosismo, e sufoquei toda a confusão sentimental e emocional em uma caixinha, trancando-a à sete chaves enquanto fechava a bolsa-mala com todos os meus poucos pertences: uma escova de cabelo, eu perfume, shampoo e condicionador e desodorante favoritos que a academia permite na compra do mês nós escolhermos se estiver no quadro de preços disponíveis. Minha escova de dentes enrolada numa toalha com meu nome, oferecimento da academia. Uma pulseira que Rachel me deu quando voltou de sua única missão. Roupas básicas, novamente um oferecimento da academia. Minha bota coturno, meu chinelo e minha alpargata azul marinho. E acredite, a bolsa-mala não estava nem metade cheia e muito menos pesada. Mas tinha uma única coisa que eu guardei com todo o meu coração que Thalía tinha me dado e estava escondida dentro de camiseta: um porta retrato preto com uma foto de nós três...
Olhei em volta para as beliches vazias e perfeitamente arrumadas. Muitas garotas tinham foto da família, namorados e namoradas, posters de caras nus nas paredes. Muitas tinham cremes de cabelo, cremes de corpo e outros refinados utensílios que eu nunca tive, somente cobicei silenciosamente por saber que eram presentes de suas famílias. Todo o lucro que tínhamos para nós depois dos trabalhos, eram guardados em uma poupança miserável que sonhávamos em desfrutar um dia. O máximo que a academia me deu além das coisas na mala, eram absorventes, giletes e barras de sabonete hidratantes e cheirosos pelo menos.
Saí do quarto enorme, que dividi com mais de cem mulheres, compartilhando dos machucados físicos, traumas, choros, agonias, vitórias e derrotas, menstruações e risadas. Desliguei a luz e passei mais uma corrente com cadeado na caixa trancada à sete chaves, somente por garantia.
Eu não podia acreditar que o que eu tanto quis por tantos anos, finalmente estava acontecendo e eu só queria deitar na minha cama, fechar os olhos, e dormir até que não existisse mais dor em mim.
[...]
Thalia estava me esperando de costas no final do corredor, com sua bolsa-mala no chão. Nós duas estávamos com as mesmas roupas: casaco preto, calça moletom grossa preta e botas sem salto aconchegantes. Quando fiquei ao lado dela, vi seus olhos azuis tristes e pretos de tanta maquiagem. Ela me abraçou sem falar uma palavra, e eu aceitei. Abracei-a de volta com força enquanto segurava a bolsa ainda. Depois, nós duas andamos pelo corredor principal, passando pelas prateleiras enormes com todos os troféus e fotos tiradas da academia desde seu início.
Eu particularmente, estava presente em várias fotos, e muitos dos troféus eram meus. Mas nunca teria direito a eles, nunca poderia tirá-los de ontem eles estão agora: numa prateleira suja de poeira.
Desviei o olhar e segui em direção à grande porta de metal que estava aberta. O vento gelado beijou-me o rosto. Thalia colocou o capuz do casaco preto e eu também. Estava uma manhã fria, cinza e chuviscando. Na nossa frente, estava o motorista, Argos, Quíron e Jim, que segurava duas pastas grossas.
Argos abriu a porta da van e pegou nossas bolsas-mala, colocando-as atrás e sentou no assento do motorista. Jim entregou uma pasta para cada uma e com um sorriso largo naquela barba preta com fios brancos, disse com a voz trêmula — Muito bem meninas... estão grandinhas e agora vão bater asas.
Jim aproximou-se de Thalia e abraçou-a forte, sussurrando algo em seu ouvido. Isso até que conseguiu tirar um sorriso singelo da punk enquanto Jim vinha me abraçar. E abraçou muito mais forte e por mais tempo.
— Obrigada por tudo, Jim – sussurrei em seu ouvido, sentindo a barba coçar meu rosto.
— Eu tenho muito orgulho de você, Chase – sussurrou ele de volta. – Você vai se dar bem.
Ao me soltar, Thalia tinha acabado de apertar a mão de Quíron agradecendo por tudo que ele tinha feito por ela e pela academia. Ela entrou dentro da van e Jim ajudou-a a fechar o cinto de segurança devido o seu ombro ainda machucado. Olhei para Quíron, que encarou-me com os olhos castanhos que demonstravam tristeza. Antes que ele pudesse falar algo, abracei-o levemente, o que foi correspondido por um abraço forte.
— Você sabe meu número – disse em voz baixa e rouca.
— Eu sei – respondi, sentindo o cheiro de canela, whisky e molho de tomate – Obrigada, Quíron.
E com um suspiro, ele me libertou do abraço aconchegante que eu recebera somente duas vezes anteriores. Com os olhos castanhos pesarosos e tristes, ele acenou com a cabeça levemente e eu entrei na van. Jim fechou a pesada porta da van e Argos ligou o motor, não demorando para engatar a primeira e sair lentamente do estacionamento à frente da academia.
Olhei para trás no vidro esfumado, e vi Quíron e Jim parados nos olhando ir embora. E atrás deles, a Deadly Force Academy, em sua soberania estrutura arquitetônica reformada mas preservada, os enormes espelhos da biblioteca, o ginásio, e o complexo dos dormitórios. Argos acelerou e foi em direção à estrada que seguindo vários quilômetros, daria na rodovia. Enquanto nos distanciávamos, a floresta densa e alta apareceu no acostamento, permitindo que o subdiretor e a babá fossem nada mais que pontos pequenos, atrás de uma estrutura grande e cinza escura, sendo cobertos pela floresta verde escura, desaparecendo de vista.
E lá se foi a única casa que eu tive.
— Ajeite-se, Annie — Thalia disse do banco ao lado, ajeitando-se contra o outro vidro. — Vai ser uma longa viagem.
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