Collateral Beauty
2 Capítulo 2. Floresta
— annabeth chase
Um barulho estridente de metal contra metal ecoou pelo alojamento assim como o alto apito. Para quem estava dormindo, foi o suficiente para acordar em um pulo, mas para quem já estava acordada como eu, dava para ouvir os barulhos da bota de Jim do corredor antes mesmo dele ter entrado no quarto.
— Bom dia, meninas! – o interruptor foi ligado e as luzes fortes machucaram meus olhos — O dia hoje promete temperaturas de 13ºC , talvez chova mais tarde! E não se esqueçam da bateria de exames para os patrocinadores às três horas! — A voz animada de Jim foi acompanhada de uma risada leve. — Escovem bem os dentes e penteiem esse cabelos feios!
Olhei para a nossa babá e ele estava radiante como sempre. As botas pretas desgastadas estavam firmemente calçadas; a calça camuflada estava bem passada assim como o moletom preto com o símbolo da academia estampado em vermelho. Em seu rosto cansado, porém feliz, estava a barba comprida preta com alguns fios brancos, que escondia um sorriso amistoso e sincero. Uma barra de metal estava em sua mão esquerda, e seus olhos vistoriavam cada beliche do alojamento. – Agilizem, quero vê-las prontas em 15 minutos! – e saiu no corredor.
Enquanto ajeitava a cama, Thalia na beliche em baixo roncava suavemente com a coberta pesada tapando todo o seu corpo, menos a cabeça com cabelo preto curto emaranhado. Puxei a coberta e ela acordou instantaneamente, com os olhos azuis profundos borrados com a maquiagem pesada. – Acorda, punk. — disse enquanto todas as garotas do alojamento pegavam suas coisas para ir ao banheiro. – Cuidado pra não mostrar o vibrador debaixo do travesseiro quando levantar.
— Vai dar o cu, Annabeth. – ela resmungou descendo da beliche e eu ri internamente. Abri a porta do pequeno guarda-roupa que dividíamos entre nós duas e as meninas da beliche ao lado. A punk ajeitou a sua cama, entreguei a ela suas sacola de higiene e fomos com as demais colegas em direção ao banheiro.
O corredor estava gelado, meus dedos na alpargata preta desgastada pareciam que iriam cair. As poucas meninas que saíram conosco cochichavam enquanto caminhávamos. Todas estavam de calças de pijamas diferentes porém com o mesmo moletom da Deadly. Na bolsa de cada uma havia os produtos de higiene pessoal assim como a roupa típica da academia para as atividades matinais: calça moletom preta, botinas, as camisetas azul marinho com a estampa da Deadly e o número de identificação na parte superior esquerda.
Enquanto escovava meus dentes, Thalia entrava na ducha e eu olhava discretamente as garotas no ambiente. Éramos cerca de cento e sessenta garotas ao todo, com idades variadas: a mais velha era a Clarisse LaRue, com 24 anos, desde a mais nova, Meg McCaffrey, com 15 anos. Não era permitido nenhum tipo de briga ou confronto, muito menos relacionamentos homoafetivos para poder “estabelecer a ordem”, pois segundo Jim, ele seria obrigado a intervir no relacionamento e participar da relação em três, e apesar de negar, todas sabíamos que ele era gay. Todas ficávamos na ala Este, com o dormitório e o banheiro. Os setenta garotos ficavam na ala Oeste, com seus respectivos dormitórios e banheiros.
O banheiro era enorme, com cerca de vinte vasos sanitários do lado esquerdo e vinte chuveiros sem portas no lado direito, porém com divisórios de vidro um pouco embaçado. Depois de um tempo, você não se preocupava em quem olhava seu corpo nu e muito menos sentia vergonha. Dividir o quarto, banheiro, crises, menstruação, e todas as atividades e missões (com seus respectivos efeitos colaterais) com outras mulheres, digamos que vira coisa comum depois de tantos anos juntas. Mas não vira família.
A pia, divisória e centrada, era uma bancada com várias torneiras que caiam em uma vala de pedra que pegava da cintura até o chão, onde podíamos nos escorar enquanto usávamos. Havia uma parede de espelho que ia do começo ao fim da pia, de ambos os lados. O banheiro nunca foi bagunçado, muito pelo contrário: éramos treinadas para tudo ser cronometrado e em ordem. Os banhos eram de no máximo dez minutos, os banheiros no máximo quinze e a pia no máximo cinco. O tempo total era de trinta minutos, sem exceção.
Enquanto escovava os dentes, Rachel chegou ao meu lado. Seu cabelo ruivo estava preso com uma bandana preta, a cara estava amassada de sono.
— Bom dia, ruiva – cumprimentei e depois enxaguei minha boca.
— Bom dia, Annie – ela disse ajeitando sua bolsa. – Por acaso tem uma escova extra na sua bolsa?
— Sim, mas cadê a sua? – limpei a boca com a toalha pequena de rosto e cacei o pente para ela.
— Deixei no armário ontem, depois de limpar a biblioteca – ela disse depois de retirar seu moletom e ficar só de regata manchada de tinta e calça de pijama. – Chegou um novo livro lá, dentro do escritório. ZT346. Acho que você vai gostar.
— Obrigada, Rach — falei entregando o pente e indo para o banco deixar minhas coisas para uma ducha rápida.
— MAIS DEZ MINUTOS GAROTAS! – Jim grita da porta, de costas para nós e eu começo a me despir. – Não me obriguem a entrar nu aí também! Eu não resisto à tantas mulheres gostosas! — As garotas começaram a assobiar e a chamar ele. Não segurei o sorriso de lado e entrei em um dos chuveiros disponíveis.
Jim era nossa babá em todos os sentidos: ele nos mantinha dentro do cronograma, do horário, ele estava presente na cozinha, nos dormitórios, nas tarefas, treinos; com exceção das aulas. Mas basicamente, ele era o mais próximo de um pai de todas as mulheres e homens que eram constantemente vendidas pela academia. Ou pelo menos, de quase todos os alunos da academia.
[...]
Torradas. Ovos. Bacon. Suco de laranja. Thalia e Rachel comiam silenciosamente enquanto os alunos terminavam de comer e iam para a cozinha lavar seus pratos. O refeitório eram composto de 4 fileiras de mesas compridas. À direita havia a cozinha com parede de vidro com uma fresta por onde saia as bandejas com comida. Somente havia dois funcionários: um cara russo cheio de tatuagem e sua mulher, ambos cheffs renomados. O restante era dos alunos o serviço de cozinhar e limpar, o casal somente organizava e aprovava. O sistema de limpeza também era assim, tanto quanto o de manutenção. O de estudos era o diferencial, o que dependia dos professores.
Ao final das fileiras, havia um pequeno palco e uma projeção que todos os dias de manhã mostrava as principais noticiais. Os alunos comiam e conversavam baixo, quando um homem de terno azul marinho subiu no palco e com um controle, mudou o canal para um slide que tinha uma única palavra: C2000. Com um único apito de Jim, os alunos se calaram e ficaram em pé, em sentido.
— Bom dia, alunos – Quíron falou com seu tom grave e forte, ecoando pelo refeitório – Como sabem, hoje à tarde teríamos uma bateria de exames para os patrocinadores. Contudo, estes, juntamente com diretor Zeus, gostariam de homenagear os dois milésimos campeonatos já realizados pela Deadly Fight Academy desde 1879. Portanto, haverá hoje, às três horas, o campeonato que vocês muito bem conhecem.
Quíron mudou o slide com as regras do campeonato.
— Seis competidores, individuais, sendo três de cada sexo já foram selecionados perante os jurados. – E enquanto ia explicando, cada aluno em posição de sentido conseguia sentir a tensão no ar. Apesar de todos esses anos aqui na academia, essa era a parte que ainda me dava um frio na barriga.
— O objetivo deste campeonato será de conquistar as fitas dos outros competidores. Somente será permitido um vencedor. Conhecem as regras: é permitido ferir gravemente, não matar. Haverá alguns equipamentos escondidos na floresta para utensílio de vocês. Estarão sendo vigiados constantemente pelos avaliadores, portanto, façam bonito. Estão dispostos à contratar o vencedor efetivamente.
O sonho de qualquer um dos acadêmicos era isso: ser efetivado. Não ter que voltar a academia depois de um trabalho. Não ter que pagar setenta por cento do valor ganho para Zeus. Poder ter sua casa, seu carro e se for sortudo, sua família. Ser livre.
Era bom demais o campeonato com este prêmio para ser verdade. Geralmente o benefício era de um dia em Nova York, ou ficar um mês sem realizar as tarefas. Mas ser efetivado? Oh Deus, haverá sangue...
Esse era o sonho da maioria dos alunos ali na Deadly Fights Academy. Não era o meu.
— Os alunos que foram escolhidos pelos patrocinadores foram... – Quíron mudou o slide, o frio no meu estômago sumiu quando vi a primeira foto.
— Annabeth Chase – eu tinha que admitir, não estava surpresa. Mas como sempre, a esperança de sair daqui não era minha. Eu nunca saí, não importava o quão esforçada eu era. Não importava quantas notas eu tirava, quantos campeonatos eu ganhasse, quantas lutas eu vencia ou o quão qualificada eu era. Nunca fui à campo, nunca saí desta merda de academia. Nunca fui contratada. Nunca tive um dólar em minha conta. E isso já foi discussão com Quíron, apesar de eu nunca ter ganhado uma resposta verdadeira.
— Ethan Nakamura – pelo canto do olho, vi os dedos Ethan atrás em suas costas mexeram-se ligeiramente quando Quíron disse seu nome, ansioso. Arrogante, assassino, estuprador e filho de um senador qualquer de Virgínia. Ele nunca foi problema. Com um tapa olho no lado esquerdo de seu rosto, Ethan não tinha um físico muito forte, mas era ágil, esperto.
— Lee Fletcher – ele estava há duas cadeiras na minha frente, imóvel como pedra. Lee era bonito. Loiro, alto, olhos cor de mel e uma lábia que conquistou diversas transas escondidas no ginásio da academia. Conhecia todas as músicas possíveis e sabia de computadores como ninguém ali. Mas seu ponto forte mesmo, era a mira certeira que nunca errava. Seja com facas, seja com armas, seja com arco e flecha; até uma bendita mosca como alvo o cara acertava.
— Katie Gardner – morena dos cabelos castanhos cor de chocolate. Nunca conversei direito com ela, sabia, contudo, que o seu ponto forte era o cérebro, e não o físico. Ela era uma das que passava as noites de férias mais tempo na biblioteca comigo além da bibliotecária.
— Jake Mason – baixo, mexicano e que se não tivesse seu destino fadado à academia, seria um engenheiro foda. Ele tem um estágio aqui na Deadly somente para design de armas e projéteis. É um dos bichinhos favoritos de Zeus.
— Rachel Elizabeth Dare – a foto da minha amiga ruiva apareceu no telão antes mesmo da frase de Quíron. Sardas fortes embelezavam seu rosto fino, os cabelos vermelhos pareciam chamas e os olhos azuis tão dóceis apesar da cara fechada. É pequena, magra demais, porém, sua habilidade com judô e lutas corpo a corpo, impecável. Rachel nunca deveria ter sido fadada à essa vida. Ela devia ter nascido em uma família rica, que pudesse ter criado-a com amor e pagasse a faculdade de artes que ela tanto sonha. Dê-a qualquer coisa que esta consegue transformar em arte, em algo lindo.
— Estejam prontos e esperando na floresta às duas horas em ponto. Não será permitido levarem consigo quaisquer objetos além de uma mochila com cantil de água, comida fornecida pelos nossos chefs e um cobertor. Não queremos acidentes como o inverno de 99. As fitas estão colocadas em suas camas pelo Jim.. Ademais, dispensados para seus afazeres.
No instante que Quíron saiu do refeitório, o silêncio morreu e deu espaço à conversas animadas. Lee se virou e olhou diretamente para mim, com uma certa preocupação em seus olhos azuis. Não o culpo por estar preocupado, eu também estava. Ele lançou um olhar certeiro para Ethan e depois voltou para mim. Abriu a boca carnuda como se quisesse falar algo por cima das vozes animadas mas me virei para Rachel antes que pudesse ler seus lábios.
— Vai ser empolgante! – comentou olhando ao redor enquanto nós nos sentávamos na mesa – Faz tempo que não temos um campeonato aqui para animar as coisas. Vamos ver se eu consigo ganhar este – ela riu e me olhou mordendo o lábio, provocando.
— Jura que você vai ganhar de mim, né ruiva – dei um sorriso pequeno, mas sincero. Rachel e eu sempre treinamos juntas mas a ruiva nunca conseguiu ganhar de mim.
— Vamos embora, vadias. Temos o ginásio para limpar – Thalia levantou-se rabugenta e brava. Não olhou para mim ou para Rachel quando saiu em direção à cozinha.
— Ela só está assim porque não foi chamada... – Rachel tomou o resto de seu suco e ajeitou a bandeja para se levantar.
— Ela acabou de voltar da última missão, é justo que Quíron e o pai tenham decidido deixá-la de fora... – argumentei sabendo que nunca seria realmente essa a desculpa. – O ombro dela ainda não está curado do tiro que ela levou.
— Você sabe como ela é, daqui a pouco ela esquece que tem o privilégio de ser a filha do diretor – a ruiva encerrou a conversa com humor e seguiu em direção à cozinha, me deixando sentada terminando meu café. E sinceramente, eu não tinha mais fome.
Ao sair da cozinha, Ethan estava me encarando friamente em sua mesa. Seu único olho castanho parecia me esquartejar, e tudo o que eu fiz foi ir embora. Foi tolice de Quíron deixar que eu e Ethan Nakamura participássemos de um campeonato juntos depois do que aconteceu há três anos atrás. E o melhor de tudo era que ele sabia disso, pois não olhou para mim durante a apresentação do campeonato.
[...]
O sol aquecia meu corpo perante a corrente de ar gélida, enquanto Quíron recitava as regras e evitava contato visual comigo. Eu encarei meus sapatos pois Ethan me encarava assim como Lee. A floresta à frente era enorme, densa e velha. Árvores altas e cheias de folhas que o inverno e nem o outono conseguiram derrubar. A grama estava cortada rente ao chão com pouca neve, não havia pássaros cantando e muito menos havia um clima amigável entre os competidores. Ajeitei meu moletom e a mochila em meus ombros quando Quíron pediu se todos haviam compreendido o plano de início.
— A distância entre vocês será de seis metros. Quando ouvirem a sirene estará permitido a entrada na floresta. Aviso-lhes, cuidado! Há armadilhas escondidas. Vocês tem até o sol nascer para conseguirem ser o vencedor ou o perdedor. – Quíron olhou ao redor, e suspirou levemente – Amarrem as fitas na alça da mochila e podem seguir para a van.
À cada seis quilômetros a van parava e dizia quem deveria descer. Felizmente, ninguém disse uma palavra durante o caminho, e todos sentamos longe um do outro com exceção de Rachel e eu. Ela simplesmente segurou a minha mão fria por alguns instantes e apertou firme enquanto olhava para a vista da janela. Apertei de volta, com um peso no coração.
Rachel se esforçava, era determinada, e mesmo assim, nunca foi chamada apesar de ainda ter esperança. Ela já trabalhou como consultora de arte em um projeto de proteger alguma figura pública importante, mas nada demais. Agora eu, desisti depois de alguns anos e aceitei que nunca sairia daquela academia. Nesses campeonatos, aprendi que não adianta ser quem eu sou, a melhor. Eu simplesmente decidi há alguns anos atrás que não valia a pena me esforçar por benefícios ou para ser efetivada. Eu tinha aceitado miseravelmente meu destino de nunca ser escolhida. Mas Rachel ainda tinha esperança. E por isso quando o motorista disse meu nome, eu abri minha mão sobre a da ruiva e deixei minha fita branca com ela.
A corrente de ar me abraçou com força assim que a porta da van se abriu. Não demorou muito para que a van sumisse no contorno da floresta e eu ficasse sozinha. Aqueci minhas mãos em volta da minha boca com meu fôlego, esperando o sinal para poder correr. Se tudo ocorresse bem, era até capaz de Lee ou Rachel ganharem, pois eu sabia que Ethan viria atrás de mim, e eu já estava fora da equação. Meu único problema era um tapa olho que guarda rancor.
Fechei os olhos e ergui meu rosto para o sol. Quando a sirene tocou, depois do que parecia ter sido uma eternidade de espera, somente suspirei e comecei a andar em direção à floresta. E não demorou muito para que o primeiro grito ecoasse pelas árvores velhas.
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