strangers in paradise

Olhando pela janela, Poseidon admirava o temporal que tinha do outro lado do vidro. As gotas d’água se chocavam com força no asfalto, enquanto o vento uivava fortemente lá fora. Um relâmpago surgiu entre as grandes e escuras nuvens, parecendo que cortava o véu negro que era o céu.

Poseidon retirou a sua atenção do temporal, virando gentilmente a cabeça para olhar as duas pastas pretas em cima de sua mesa; uma com etiqueta azul e outra roxa. Com um suspiro raso, sentou-se na cadeira de couro, e pegou a primeira pasta.

Dentro, havia uma ficha de laudo médico e um perfil traçado juntamente como histórico. Poseidon folhou a quantidade de folhas e observou no canto da pasta a foto de uma mulher loira, cabelos cacheados presos em um rabo de cabalo, encarando a câmera com olhos cinza-tempestade, intensos. Como uma coisa tão linda pode fazer tanto estrago?, pensou surpreso.

Annabeth Chase; 21 anos. Solteira, sem família, entrou na Deadly Fights Academy com 7 anos. Seu tutor/guardião é Quíron, vice-diretor da academia. Não foi contratada permanentemente por motivos sigilosos. Solitária: 1 vez.

Motivos sigilosos?, pensou Poseidon, intrigado. Laudo médico perfeito, laudo psiquiátrico impecável, algumas fraturas ao decorrer dos anos; sem mortes confirmadas. Poseidon deixou uma risada escapar pelo nariz quando leu esta parte, contudo, sentiu um certo pesar pela mulher quando leu no laudo psicológico que ela tinha um trauma perante a assuntos sexuais. Descontando esse fato, a ficha técnica da mulher estava perfeita, tanto qualidade e horas de treinamentos quanto de outros aspectos gerais.

A questão era: como uma aluna consegue terminar os trabalhos sem mortes ou poucas baixas? Ou melhor, por quê não constava em sua ficha nenhum dos seus trabalhos anteriores?

Ao fechar a pasta com a etiqueta roxa, pegou a bem conhecida pasta identificada com azul.

Thalia Grace, 23 anos. Solteira, com família, entrou na Deadly com 15 anos após um surto psicótico. Contratada para seguranças básicas e alguns serviços em prol do pai, Zeus Grace. Poucas fraturas, alto registro de incidentes, 11 mortes confirmadas. Solitária: 6 vezes.

Poseidon achou estranho mas não pareceu surpreso a respeito da lista da punk. Sabia que Zeus tinha mandado a filha para a Deadly Fights Academy por causa da morte de Gabrielle, que morrera num acidente de carro. Mas surto psicótico? Essa era nova... pensou Poseidon ao analisar a foto da mulher. Cabelos repicados e pretos. Seus olhos são azuis noite. Em seu rosto, pequenas sardas apareciam debaixo dos olhos.

Poseidon suspirou pensativo. Com certeza as duas seriam problemas na Force Academy. Mas definitivamente, não tinha como não aceitar essas duas preciosidades que Zeus, o diretor da Deadly Fights Academy, e o seu vice-diretor Quíron, tinham. Ainda mais agora, que precisava aumentar o fluxo de caixa da academia desde que o Presidente dos Estados Unidos da América cancelou o contrato de efetivação de 20% de seus alunos.

Poseidon foi retirado de seus pensamentos quando ouviu batidas na porta de seu escritório. Jane, a secretária idosa simpática entrou na sala dizendo que seu irmão havia chegado. – Pode deixá-lo entrar, Jane.

A porta antes encostada com a saída da secretária, agora estava fechada com cinco seguranças dentro da sala de Poseidon, com seu irmão sentado na cadeira à frente, usando um terno azul marinho que combinava com seus olhos azuis.

— Pensei que não viria por causa do temporal, Zeus — disse Poseidon ríspido.

— Um simples temporal não é nada comparado aos negócios que temos, irmão — Zeus falou seco. Poseidon não sentia falta das conversas, muito menos da presença de Zeus na sua academia.

— Para o início, queria dizer que estou aceitando a sua oferta — disse Poseidon ao fechar a ficha de sua sobrinha e colocá-la ao lado da outra.

Zeus o olhou sem nenhuma expressão facial, mas sabia que Zeus estava surpreso. – Muito bem — somente disse. Ao chamar um de seus seguranças, Zeus pegou uma mala completa de maços de dinheiro e um contrato, que aos olhos de Poseidon, só daria dor de cabeça.

Poseidon seguiu o exemplo do irmão mais velho, e pegou de uma de suas gavetas, o contrato que Zeus deveria assinar. Ao trocarem de contratos, ambos começaram a ler.

Os contratos eram relativamente idênticos em certos aspectos: relatava o acordo financeiro das duas acadêmicas; a conscientização dos possíveis trabalhos e efeitos colaterais da transferência e a associação com a Force Academy; o total sigilo classificatório a partir que estas saíssem ou sofressem qualquer ação em nome ou em ato por/para/pela atual e a antiga academia, e os demais acordos sigilosos entre os irmãos.

Convencidos de que os acordos eram aceitáveis, os dois irmãos o assinaram. Ambos conheciam o jogo feito por debaixo dos panos, não havia motivo para não serem honestos naquele momento. Apesar de que, havia ainda o motivo pelo qual ambas seriam transferidas, e Poseidon sinceramente não queria saber.

Assinados os contratos, ambos selaram o acordo com um aperto de mãos, encarando-se com olhos frios e distantes. Infelizmente, ou felizmente, ambos tomaram caminhos diferentes em um certo ponto da vida, e isso os distanciou profundamente. Raiva e rancor foram os principais motivos, relacionados com a morte de sua mãe, Hera. Nenhum dos três irmãos fazia questão de ser presente na vida um dos outros.

Zeus antes de sair, advertiu com um certo sentimento melancólico.

— Tome cuidado com as minhas meninas, Poseidon. — Poseidon somente assentiu. – E à respeito da Chase, não provoque-a. E deixe seus garotos longe dela. Principalmente dela. — Poseidon levantou uma sobrancelha, inquieto. — Agendarei tudo pronto para entregá-las daqui a três dias.

E assim Zeus se foi, deixando Poseidon em seu escritório vazio, com um contrato, duas pastas em cima de sua mesa, e um certo pesar no peito sobre sua sobrinha e mulher loira de olhos cinzentos. Um trovão ecoou pela sala, e enquanto pegava seu casaco e desligava as luzes, Poseidon após esses longos e cansativos dias, disse à Jane que iria para casa.