Collateral Beauty
5 Capítulo 5. Portas
— strangers in paradise
O avião ganhava velocidade na longa pista, e Annabeth sentiu um frio na barriga ao observar pelo grande vidro o avião decolar e desaparecer no céu cinza. Ela mal podia acreditar que em apenas meia hora ela seria chamada para entrar em um avião e ter seu primeiro voo. Thalia estava sentada ao seu lado, tomando em um copo da Starbucks um café com leite, enquanto ela segurava uma garrafa da água vazia. Argos, após a longa viagem de carro da Deadly Fights Academy até o aeroporto de Nova York, deixou-as sozinhas com passaportes com nomes falsos, uma muda de roupa básica para se trocarem e devolverem o uniforme da Deadly, dinheiro para comida e bebida, e por fim, uma pasta com poucas informações sobre a nova academia.
Annabeth estava ansiosa. Não pela mudança em sua vida e muito menos pelo o que a aguardava na nova academia, mas era a primeira vez que estava em um aeroporto. Era a primeira vez que via tantos rostos desconhecidos. Era a primeira vez que estava fora dos limites da Deadly. Era a primeira vez que se sentiu livre. E ainda, era a primeira vez naquele dia que não sentiu a dor pela perda de Rachel, ou saudade de Quíron e de sua beliche que rangia quando ela virava de lado.
Sua ansiedade atacava e a espancava brutalmente. Annabeth pensou dez vezes antes de dobrar a dose das pílulas vermelhas, e quando o fez, as dores que carregava pareceram mais amenas e suportáveis. Ela focava ao redor e sentia o gosto de sangue de tanto morder sua boca e lábios.
Ao que passou ser horas de agonia em ficar sentada sem fazer para Thalia, foram meros segundos para Annabeth de entretenimento no aeroporto. As duas permaneceram em silêncio enquanto esperavam, uma vez que tinham conversado tudo que tinham de conversar no caminho ao aeroporto com Argos.
— Cronos teve meu pai, Poseidon e Hades com minha avó Hera, e foi um militar de operações especiais não reconhecidas pelo governo dos Estados Unidos e negada até hoje que existiu – a punk sussurrou para Annabeth enquanto olhava pelo vidro embaçado os carros que passavam – Depois de ser expulso por medidas não convencionais em uma de suas operações, Cronos abriu a academia junto com outros amigos e esse foi o legado do meu pai e do meu tio Poseidon.
— E Hades? – perguntei curiosa.
— Foi o único que se interessou com o que acontecia com os alunos depois das missões, ou assim meu pai alega que era a intenção de Hades. Na minha opinião é uma mentira do caralho – Thalia ajeitou o capuz para que caísse em seus olhos e comprimiu a boca em uma linha reta – Nem meu pai e nem meu tio sabe o que meu tio faz naquele instituto dele. A fachada é de um hospício e rede de tratamento psicológico e traumatologia tanto para alunos quanto para veteranos, mas, dentro de quatro paredes tudo pode acontecer...
Um momento de silêncio se instaurou entre nós quando Argos olhou pelo retrovisor. Depois de um tempo, ousei perguntar por sussurros novamente. – E a Force, Thalia?
— Aí vem a parte complicada, Annie – Annabeth sabia muito pouco da Force. Sabia que havia quase que o mesmo esquema que a Deadly tinha com seus alunos: treinava-os, mandava-os em missões e projetos, pegava o dinheiro deles quando voltavam para a academia e ainda os vendia quando o preço era bom o suficiente para lucros e investimentos em novos alunos. – A Force é mais foda que a Deadly, por mais que meu pai morra negando. Eles têm melhor tecnologia, melhor inteligência e recursos para os alunos. Os treinamentos não são fáceis, eu lembro de ter visto a enfermaria cheia uma vez quando fui há uns dez nãos atrás.
— E as atividades? Missões? – Annabeth sussurrou enquanto olhava a pasta. Não tinha muitas informações relevantes, apenas alguns trechos sobre horários, condições e termos, e algumas fotos tanto da academia quanto de alguns alunos em fileira com o diretor: um homem alto de cabelos pretos, olhos claros e bem vestido em um terno cinza escuro.
— Pelo o que eu sei, Ares ainda é a babá dos alunos. Ele é osso duro de roer, um filho da puta ex-militar e sangue frio psicopata – Thalia se ajeitou no banco e colocou a mão em seu ombro ainda machucado – A única coisa que eu tenho medo Annie, é que meu pai nos vendeu para que tivéssemos o treinamento final de nossas vidas para alguma missão importante. A Force tem rumores que os alunos aprendem tanto a aplicar quanto aguentar tortura. O nível das missões e treinamentos são outros dos que já tivemos na Deadly, envolvem segurança nacional e contratações para agências de inteligência fodásticos.
Thalia olhou-a com os olhos azuis escuros tão intensos e contornados com a maquiagem preta pesada. – Sei que vamos nos dar bem porque somos fodas pra caralho e que aguentamos qualquer coisa juntas, mas até mesmo eu estou com receio dessa porra toda.
Annabeth compartilhava desse medo, mas soube controla-lo assim como a ansiedade em seu peito no momento em que se olhou espelho do banheiro no aeroporto, com roupas normais de uma mulher de 23 anos, que aparentava ser normal em uma viagem normal com sua amiga normal. Normal. Annabeth riu com esse pensamento. Ela não saberia o que é ter uma vida normal por mais que todas as células do seu corpo tentassem.
E ainda mais, a mulher loura dos olhos cinza que a encarava no espelho sabia que ela nunca mais sofreria nas mãos de ninguém. Nunca mais.
— Vai ser um longo voo – Thalia se ajeitou em sua cadeira do avião e Annabeth se segurava firmemente nos apoios, sentindo sua barriga gelar enquanto o avião se preparava para decolar. Enquanto o avião das duas alunas partia em direção à Londres, Poseidon estava em sua sala com Ares, discutindo alguns detalhes finais da transferência bem como finalizando o planejamento de treinamentos. Mal sabiam as duas, que seriam separadas quase que instantemente ao chegarem na Force Academy, uma destinada a uma missão e a outra com treinamento árduo com Ares.
— Três meses, meu amigo –o ex-militar disse com um sorriso de canto para Poseidon antes de fechar a porta, deixando o diretor sozinho em sua sala grande, repleta de estantes com vidros, uma lareira espaçosa e acesa, enquanto neve caía suavemente lá fora. Poseidon observava-a da grande janela de vidro inquebrável enquanto bebia pequenos goles de seu copo com Whisky. Estava tarde, as alunas chegariam à qualquer momento, e tudo o que ele mais queria era estar em casa com Sally e sua filha.
— Annabeth Chase
Depois de um tempo, eu me permiti descansar na van que nos levava do aeroporto até o meio rural da linda e iluminada Londres. Depois do que parecia ter sido horas e mais horas de viagens, o motorista nos acordou, chamando-nos de senhoritas e disse que estávamos à dez minutos do local. Olhei no painel do carro, e admirei que era ainda duas e quarenta da manhã. Passar quase que o dia todo de viagem me fez perder a noção do tempo. E estava frio.
Muito frio, na verdade. Quando olhei para a estrada iluminada pelas luzes dos faróis do carro, vi tudo branco. Neve. Só neve na estrada, árvores e arbustos. Não havia nada a não ser vegetação densa e branca. Eu e Thalia não usávamos nada mais que uma blusa branca comprida, um moletom preto, calças jeans claras e alpargata preta.
O carro fez uma curva grande e comprida, até que vimos luzes iluminando o caminho e depois de algumas árvores, vi uma estrutura grande, contudo, não consegui ver sua dimensão senão de três andares com pilares rústicos, parecendo uma mansão antiga de filmes. Vi duas figuras paradas na porta grande que parecia ser de madeira, uma pequena e outra alta. O carro parou perto da entrada espaçosa do prédio, e o motorista pediu para aguardarmos um pouco enquanto ele verificava se estávamos liberadas para descer.
Thalia me abraçou de lado e abracei-a mais forte ainda, sem deixar de olhar o motorista e a figura mais alta conversarem enquanto a neve caia sem vento. Quando ele voltou, eu e Thalia já segurávamos nossas malas e ao sinal de ok do motorista, saímos do carro.
Uma rajada de frio me abraçou e meu pé afundou na neve. Senti meu rosto queimar levemente e ao fechar a porta, encarei a figura alta que tinha se distanciado para dentro da recepção do prédio. Meu estômago estava levemente embrulhado, e com uma respiração forte, começamos a nos aproximarmos. Consegui ver melhor a figura pequena: uma senhora de mais ou menos uns 65 anos, e foi a primeira a nos cumprimentar com um caloroso abraço de seu casaco quente. Mas não deixei de olhar o homem: tinha cabelos pretos, ombros largos, vestido em um terno escuro e sorria.
A mulher se aproximou alguns passos à frente dele, e nos cumprimentou primeiro. Dava para ver seus cabelos grisalhos no coque bem feito. Poseidon não desgrudava seus olhos de mim... Eram azuis? Verdes? Eu só sei que havia certa malícia ou ansiedade neles que me fez embrulhar mais ainda o estômago. Não gostei disso.
— Sejam bem-vindas, minhas meninas – com um sorriso largo e um forte sotaque francês, a mulher se aproximou e deu à Thalia primeiro um abraço forte, e depois a mim. Realmente não era o tipo de recepção que eu aguardava: ser abraçada por uma mulher francesa que tinha a altura até meus seios, com um olhar amoroso – Eu sou Rinna e sou a governanta da academia. E este é o senhor Poseidon, dono e diretor.
Quando Rinna deu alguns passos para trás, eu e Thalia nos aproximamos do tio dela. Poseidon me alcançou a mão primeiro e deu um forte aperto, dizendo com a voz forte e rouca: – Senhorita Chase, um prazer conhece-la.
— O prazer é meu, senhor – e fez o mesmo com Thalia, ambos sem apresentarem nenhum sinal de afeto ou indício que eram da mesma família. Thalia tinha os olhos azuis escuros intensos, era magra mas muito musculosa, com cabelos pretos repicados mas não tão escuros quanto de Poseidon. E ao passarmos pelas grandes e grossas portas de madeira, eu fiquei aliviada com o calor que me acolheu, e maravilhada com o que meus olhos viram daquela recepção.
À direita, tinha uma mesa grande de vidro com um rapaz moreno de cabelos de dread vestindo roupa social e digitava freneticamente no computador à sua frente. Havia atrás de si, diversos troféus e fotos na estante de vidro pregada à parede lisa. Ao seu lado, havia três conjuntos de sofás de cor creme e uma mesa de centro. Do outro lado da sala, uma bancada alta com um bonito bar montado, com estante de vidro com bebias, taças e copos, como se fosse a área social de eventos. Reconheci que tocava música lounge de Maroon 5, e no teto, iluminava um lustre de cor amarela confortável aos olhos. À nossa frente, um corredor largo que levava à dois elevadores abertos grandes e chiques. O engraçado foi que não vi câmeras. A recepção da Deadly não chegava aos pés da Force.
Rinna virou-se para nós duas e com um sorriso maior ainda, estendeu as mãos abertas. Poseidon virou-se em direção à uma mesa do rapaz e começou a mexer em um pequeno tablet que o recepcionista o entregou.
— Muito bem, minhas meninas – disse e eu estranhei o jeito que ela nos chamava com tamanha intimidade – Seus quartos já estão prontos e estarei levando suas malas para ajeitá-las; encontrarei vocês para o banho e depois o jantar. Deem-me as suas malas, por gentileza.
Quartos separados? Thalia antes de entregar a mala dela, me olhou friamente com receio e eu também não gostei da ideia. Rinna murmurou alguma coisa para nós enquanto entregávamos as malas sobre o que teríamos de jantar e eu olhei para Poseidon, que estava entregando o tablet para o jovem de dreads e vinha em nossa direção. A governanta saiu em direção à um dos elevadores e entrou no do direito, olhando-nos e sorrindo enquanto a porta fechava.
— Quero mostrar-lhes a academia, senhoritas.
E com um gesto de mão, indicou o elevador e esquerdo e o seguimos. Poseidon deixou-nos entrar primeiro e novamente, sem câmeras de segurança. Olhei para o painel de controle e não me surpreendi ao ver que precisava de biometria para poder acionar o funcionamento dos botões de andares. Mas me surpreendi ao ver que havia quatro níveis de subterrâneo e somente três acima, incluindo o térreo.
Em silêncio, Poseidon acionou o terceiro andar e último andar. Virou-se para nós enquanto o elevador subia rapidamente e ao abrir seu paletó, retirou dois bips de comunicação, daqueles que você consegue digitar mensagens pequenas e rápidas e aparece o nome dos contatos para enviar e receber mensagens. Cabia no bolso da calça e nem apareceria. – Para a rotina de vocês, preciso que estejam com estes comunicadores a todo tempo com bateria completa e a seus alcances.
Ao concordamos, o elevador abriu-se e deu visão à uma cantina grande e bem iluminadas e janelas de vidros grossos e grandes. A cantina era repleta de mesas com até cinco cadeiras, um bife fixo de duas vias no centro e ao lado direito, a cozinha grande com diversos utensílios, um forno grande industrial, um fogão enorme, uma bancada espaçosa e uma ilha no meio da cozinha. Havia dois cozinheiros usando uniforme idênticos preparando alguma coisa que o cheiro era maravilhoso e me fez ter água na boca. Poseidon começou a tagarelar sobre a cozinhar ser 24h de funcionamento porque os alunos funcionavam em rodízio nas atividades, nunca todos comiam na mesma hora.
À direita e no canto, Poseidon nos abriu uma porta que dava direto na lavanderia extensa, e novamente havia funcionários que estavam trabalhando. Havia no centro um varal grande e alto com um exaustor girando lentamente no centro; na lateral esquerda, várias máquinas de lavar e secar, com algumas funcionando. No direito, estava uma parte de passamento de roupas e um grande e alto armário com quadrados e nomes etiquetados embaixo; Poseidon disse que cada aluno tinha suas próprias roupas e que ali eram separadas. O ar tinha um forte cheiro de produtos químicos e amaciantes. Consegui ver que havia roupas pretas, cinzas, azuis e brancas, tanto de pijamas, casacos, regatas, blusas, roupas íntimas, calças e shorts de diversos tamanhos, e todos com a logo da academia: uma âncora cinza com uma faixa escrita alguma coisa em latim. O diretor alertou que cada treinamento e cada equipe havia uma cor diferente, e era necessário que seguíssemos à risca.
Poseidon nos levou de volta à cantina e ao lado do elevador, escondida, estava uma parede falsa de ilusão de ótica que levava à um corredor comprido, bem iluminado e grande, com escadas na ponta que viravam em formado de “L”, descendo para o próximo andar. Poseidon explicou que os alunos não eram permitidos de andar de elevadores, mas que sempre os recebe e os faz andar neles uma única vez como forma de boa recepção. Enquanto descíamos em silêncio as escadas largas, novamente, não havia câmeras. Tudo muito limpo e cheiro de limpeza, algo não estava certo. Quando chegamos ao segundo andar, vi um corredor que novamente era em formato de "L", e pouco iluminado agora, como se as lâmpadas tivessem sido diminuídas de o brilho propositalmente. Diversas portas, tanto no lado direito e esquerdo, todas fechadas e com as luzes aparentemente desligadas; sem um som sequer senão nossos passos ecoando pelas paredes.
Poseidon disse em sua voz rouca e agora baixa – capaz de causar um frio na espinha por ser intimidadora até – explicou que era essa a ala dos alunos. Não havia divisão de andares por dormitório, mas sim de quartos. Os da direita seriam dos homens e da esquerda seriam das mulheres. Quando viramos à esquerda para o resto do corredor, havia no final uma sacada de vidro iluminada, e dava para ver a neve caindo. Um pouco antes da sacada, havia somente duas portas, uma de cada lado: respectivamente, os banheiros. Quando Poseidon abriu, fiquei espantada como o arquiteto conseguiu administrar tão bem o espaço do banheiro.
No mesmo andar, ele conseguiu fazer dois andares, igualmente divididos e organizados, com duas escadas centrais que levavam do primeiro ao segundo. No debaixo, os banheiros com cabines, espelho na parede grande e uma estante pregada na parede com quadrados, novamente etiquetados com nomes de alunos para deixarem suas coisas. Na parte de cima, os chuveiros divididos com os mesmos blindex da Deadly parecia, e as pias com espelhos. O diretor explicou que novamente os banhos e utilização do banheiro seriam divididos em equipes e horários.
Enquanto saímos e íamos de volta à escada, eu e Thalia permanecíamos em silêncio, deixando somente Poseidon falar. Observávamos cada detalhe, e sinceramente, eu estava começando a ter raiva de não ter muitas informações sobre o lugar. Era tudo muito limpo, bem-acabado e organizado. E sem câmera? Havia algo de errado. Na verdade, o local todo parecia errado.
Descendo, a escada não dava acesso à recepção. Ela ia direto para o primeiro nível do subsolo e lá, segundo Poseidon, era onde ficaríamos na maior parte do tempo. O que era pra ser um ginásio enorme e com janelas, era um ginásio imenso, bem iluminado e ventilado. E havia de tudo. Do lado da entrada, um imenso armário preto onde os alunos colocariam seus pertences durante os treinamentos e aulas.
O ginásio era repartido em diversos tamanhos, todos iguais e havia divisões de vidro levemente esfumado, dando até pouca visibilidade do que havia entre os compartimentos, mas todos incrivelmente equipados com cada modalidade de luta e muito bem reforçados os vidros para segurança dos alunos, segundo Poseidon. Mas o piso todo era repleto de armas de todos os tipos, bonecos, tatames, e no canto, havia novamente dois subpisos, ambos com equipamentos de academia.
Eu estava pasma com tamanha arquitetura e organização do espaço.
Novamente, ao canto direito, Poseidon nos levou para uma porta que segundo ele, era a enfermaria. E não só uma enfermaria com todos os utensílios para cuidar de um braço quebrado ou tentar salvar a vida de um aluno. Havia essa parte, e também do outro lado, uma sala de especializada com equipamentos de cirurgia. Poseidon disse que muitas vezes os alunos não poderiam aguardar pela ambulância leva-los até o hospital, e por isso, havia tudo ali. Apollo, segundo Poseidon, foi um dos seus primeiros alunos aqui na academia e investiu em seu futuro na Medicina para se tornar o único médico plantonista e residente da academia. Sua esposa, Angélica e seu filho Arec, era os únicos enfermeiros que ele precisava, e estes moravam com aqui também.
Poseidon falou orgulhosamente enquanto nos levava pelo caminho de volta que cuidava de toda a sua equipe de trabalho, e que os que desejavam, poderiam morar ali na academia, contudo, em uma ala atrás do prédio principal, onde estes poderiam ter sua privacidade e vida pessoal independentes do serviço da academia. Os que decidiam morar fora, por força de contrato, viviam sobre um regimento extremamente meticuloso. Exatamente tudo o que precisavam era provido pela academia e por Poseidon.
— E quanto ao final de nosso pequeno tour – disse o diretor enquanto voltávamos para o segundo andar, o dos dormitórios – Quero que descansem o suficiente nesta madrugada. Terão tempo o suficiente depois do café da manhã para começarem de fato, e não se preocupem com horário, os seus despertadores irão fazer o trabalho por vocês. A viagem foi longa e devem estar cansadas e com fome. Rinna vai servi-las o jantar e leva-las direto para seus respectivos quartos.
Poseidon fez um sinal de leve com a cabeça e Rinna saiu da lavanderia sorridente, trazendo consigo toalhas, roupas e uma sacola com o que eu esperava que fosse produtos de higiene. Imaginei que ela devia sentir dor nas bochechas de tanto sorrir, mas não me parecia um sorriso forçado. Rinna exalava certa segurança, conforto.
— Amanhã depois do café da manhã, receberão respectivamente uma mensagem no comunicador de cada uma sobre os seus afazeres – Poseidon apertou no botão do elevador e um leve “plin” tocou quando este chegou ao piso. – Tenham um boa noite, minhas caras alunas.
E este foi o momento que com o olhar intenso de Poseidon, o elevador fechou as portas e senti um frio na minha coluna como se o diretor tivesse pegado minha alma e a estrangulado com todas as suas forças, porque eu senti um nó em minha garganta. Olhei para Thalia, e ela estava com a mesma cara de quando ela come aspargos. Ela odeia aspargos.
— strangers in paradise
Depois de um banho renovador, com direito (obrigatório) à água quente, depilação e creme de hidratar, Annabeth e Thalia colocaram seus pijamas da academia: uma blusa de manga comprida preta, com o símbolo da academia no lado direito; calça moletom confortável, alpargata e meias quentinhas. Annabeth estava com seu cabelo cacheado loiro preso em um rabo de cavalo e comia um macarrão integral com legumes fritos à molho de manteiga com tomate, enquanto Thalia devorava e pedia um segundo prato para a governanta que estava sentada à mesa.
Annabeth e Thalia terminaram suas refeições em silêncio e a governanta tratou de pegar os pratos e lavá-los rapidamente. E então, esta, com seu vestido de mangas compridas vermelho e sapatos pretos, pediu para que as alunas a acompanhasse até seus respectivos quartos. Rinna foi até o segundo andar e perto do banheiro, abriu uma porta de número 23, que seria o quarto de Thalía. Era pequeno, com uma escrivaninha com um notebook preto, uma luminária e um relógio digital pequeno. Havia uma cama de solteiro e um guarda-roupa espelhado. Havia uma janela de vidro com cortina automática, e o quarto inteiro estava sem decoração. O lençol e as cobertas pretas, tinham na ponta de cada um o símbolo da academia.
A governanta fechou a porta, dizendo à garota punk que seu número era o segundo da discagem rápida do comunicador, e o primeiro o de Apollo. Desejando-a boa noite, Thalia olhou com olhos selvagens para Annabeth, um pedido de cuidado silencioso e de atenção.
— Por aqui, minha menina – e assim, Annabeth seguiu a governanta com receio.
Elas voltaram para a cantina e disso, entraram no elevador esquerdo. Annabeth sem questionar, viu Rinna colocar sua digital na biometria e apertar no segundo andar do subsolo. Não demorou mais de cinco segundos para o elevador chegar no andar, e Annabeth sentiu-se com medo pela primeira vez, por não saber o que vinha a seguir.
Quando as portas se abriram, a princípio era um corredor normal, quase idêntico ao corredor do dormitório mas havia um ar pesado. Rinna saiu do elevador e pegou uma chave de seu bolso direito.
— Este, é o andar da administração. Quase nenhum aluno tem acesso e é extremamente essencial que a senhorita não vague pelos corredores ou saia de seu quarto sem ser chamada – a governanta caminhou até a metade do corredor, e Annabeth, ansiosa por cada detalhe que poderia obter daquele caminho, vislumbrou a enorme porta de aço que estava à poucos metros dela. Angelíc abriu a porta e ligou a luz, deixando espaço em seguida para Annabeth entrar. – Este será seu quarto, minha menina.
Annabeth, ao entrar, viu quão grande era o primeiro quarto que teria somente para si desde criança. Havia uma mesa com cadeira, um notebook, uma luminária e um relógio digital no canto, a cama era idêntica de Thalia, mas por sua vez, era de casal.
Havia o mesmo roupeiro que viu no quarto da amiga, mas era com duas portas amais espelhadas, e quando Rinna abriu a porta ao lado do roupeiro, Annabeth deslumbrou-se com o seu banheiro particular. Era simples, mas muito bem-acabado e com detalhes nas paredes que davam uma graça ao banheiro. Havia uma banheira com chuveiro e blindex, um vaso sanitário, uma pia grande e com balcão que dentro havia todos os produtos de higiene que precisaria, um espelho, e um secador de cabelo. Annabeth riu internamente ao ver que seus pertences trazidos da Deadly estavam na bancada.
Annabeth voltou para o quarto há tempo de Rinna repetir as mesmas palavras que disse à Thalia e fechar a porta atrás de si, deixando-a em um silêncio mortal.
Ela estava sozinha em um quarto de uma academia que não era seu lar. E não saber metade das respostas para as suas perguntas a mantiveram acordada por muito tempo daquela madrugada. Annabeth não tocou no notebook, no relógio e nem mesmo na foto de três meninas sorridentes na mesa. Muito menos recebeu mensagem no seu comunicador.
A loira ficou levemente agoniada por não ter uma janela em seu quarto, mas as saídas de ar circulavam o ar fortemente quando acionado. A depressão e a ansiedade atacaram seu ser, mas a aluna soube se controlar com os exercícios de respiração que Quíron tinha ensinado quando criança, nos primeiros meses da Deadly. Annabeth teve um sono leve e não descansou tanto quanto devia. Não achou no quarto os remédios que tinha ganhado de Quíron.
A garota estava encarando o teto quando o relógio digital tocou às 7h da manhã, e seu comunicador vibrou com a seguinte mensagem:
Ares. Refeitório. Agora.
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