Ruína


O teto era alto. Os lustres de cristal cintilavam sobre o palco, que parecia respirar enquanto brilhava com a luz e a garota já apertava as cordas até os dedos doerem, mesmo antes de subir. As pontas estavam vermelhas, gastas. Machucadas demais para uma jovem tão nova, perfeitas demais para alguém tão desatenta com o próprio corpo. Mas não importava. O som tinha que sair puro. Ele exigia isso.

Na coxia, ouvia os acordes da orquestra e tentava sincronizar sua respiração com os sopros, como o maestro ensinou. "A música respira com você. Se você respirar errado, ela engasga." Era o tipo de coisa que ele dizia como se fosse sabedoria antiga, mas que mais parecia uma armadilha gramatical para manter sua voz na cabeça dela. Funcionava. Até demais.

A primeira vez que o ouviu tocar, era só uma adolescente com um violoncelo desafinado e olhos famintos. O músico estava no palco, tocando uma composição própria, as luzes faziam-no brilhar com uma espécie de aura que fez com que a garota achasse que não era um homem. Era um acontecimento. Um tipo raro de milagre que só pode ser observado em silêncio.

Chorou, claro. Não porque a peça era triste, mas porque, pela primeira vez, parecia que o som refletia a alma dela de volta.

Cada nota, cada acorde, o coração dela martelava o mesmo ritmo, ou pelo menos parecia, talvez estivesse só respondendo, mas o sentimento era de que finalmente tinha encontrado a batida certa.

Quando decidiu ser música, foi por ele. Quando decidiu tocá-lo, foi por esperança. E quando ele finalmente a notou, foi por causa do talento. Nunca por ela mesma. Nunca pela menina com as mãos pequenas demais e o coração grande.

A menina treinou durante anos para aquele instante, mas não admitia nem para si mesma. Dias e noites sozinha, repetindo compassos até os dedos latejarem, até o arco escorregar pelo suor, até a madeira parecer mais pele dela do que a carne. Sempre em silêncio no fundo de uma sala onde ninguém prestava atenção.

Até que, enfim, o homem entrou. Não como um acidente, mas atraído pelo som. Parou na porta, braços cruzados, olhos semicerrados.

Fingiu que não notava. Tocou a peça até o fim, mesmo quando as mãos pediam para parar, mesmo quando a respiração falhava. Era como se cada nota fosse uma chance de dizer: olhe para mim, me veja.

Quando o último acorde morreu, o silêncio foi insuportável. Então ele bateu uma única palma. Só uma. Um estalo seco que encheu a sala mais do que aplauso nenhum.

— Finalmente — disse. A voz dele soou como aprovação, mas também como sentença.

E, pela primeira vez, a garota sentiu que tinha saído da sombra dele — mesmo que fosse só para caber dentro do olhar dele.

Ele largou os braços e entrou na sala. O som dos sapatos contra o piso ecoava mais alto do que a própria música que ainda vibrava no ar.

— Você precisa de alguém que a direcione. — Ele disse como quem anuncia um destino, não uma oferta. — Alguém que saiba lapidar o que já está aí.

Ela quase deixou o arco cair. O peito arfava, mas não pelo esforço. Era pela ideia absurda de que ele falava dela. Dela.

— Eu… — começou, mas não conseguiu completar.

Foi então que ele sorriu. Não o sorriso distante que dava à plateia, mas algo menor, contido, que parecia ter sido guardado só para a garota. Os olhos brilhavam com intensidade, e ela acreditou que aquela luz vinha dela, que tinha sido capaz de despertá-la.

Naquele instante, sentiu-se escolhida. Um tipo de eleição secreta. A mão do homem pousou brevemente em seu ombro, leve demais para ser invasiva, firme o suficiente para selar a promessa.

— Quero ser seu mentor. — A palavra ganhou um peso sagrado.

A musicista não percebeu, não naquele momento, que estava aceitando mais do que orientação musical. Estava abrindo a porta para a voz dele ocupar cada compasso da vida dela.


A sala estava vazia, exceto pelos dois. O eco do violoncelo preenchia cada canto, mas ela sentia que o som se encolhia diante do silêncio dele.

Tocou uma passagem difícil, tropeçou numa nota, e a respiração falhou. Ele ergueu a mão.

— De novo. — A palavra caiu como martelo.

Recomeçou, os dedos rígidos, os ombros tensos. Tocou até acertar. Só então, ele assentiu.

— Assim. — Pegou o arco da mão dela, demonstrou o movimento com perfeição quase cruel, depois devolveu. O calor do objeto parecia outro depois de ter passado pelos dedos dele.

— Você aprende rápido — disse, seco. Mas para a mulher, aquilo soou como confissão, quase como carinho. Guardou a frase como quem guarda joia, ignorando a frieza do tom.

Anos depois, o espelho do camarim devolvia uma imagem que ela mal reconhecia. O vestido formal, a maquiagem discreta — nada lembrava a adolescente de dedos sangrando sozinha em um quarto abafado. Ainda assim, a ansiedade era a mesma.

Inspirou fundo, tentou alinhar a respiração como ele havia ensinado: a música respira com você. Mas o peito só apertava mais.

Sabia que precisava dele. Da presença dele. Só quando o sentia por perto conseguia fingir que o coração não ia saltar da boca.

E, como se tivesse sido invocado, o homem apareceu no reflexo. Alto, imóvel, braços cruzados. Nenhum sorriso. Apenas observava.

Ela buscou no espelho um sinal de aprovação, algo que a ancorasse antes de pisar no palco. Não veio. O silêncio dele era tão meticuloso quanto suas correções.

O sorriso só apareceria depois. Sempre depois. Quando tocasse sem falhas, quando a plateia a aplaudisse. Só então, como prêmio, os lábios dele se curvariam e os olhos brilhariam.

Nunca antes. Nunca pela pessoa. Sempre pela perfeição.

Quando ajeitou a posição dos dedos, sentiu o ardor — um corte fino, quase invisível, mas latejante. Passou a ponta do polegar e a pele ardeu. Lembrou-se de que a perfeição sempre cobrava o próprio preço.

Respirou fundo. O reflexo dele ainda estava ali, imóvel, cobrando silêncio. Então virou as costas para o espelho, atravessou o camarim e deixou que a luz do palco a cegasse mais uma vez.

O maestro a orientou. A moldou. A lapidou. Palavras dele. Como se ela fosse pedra bruta e ele, o escultor. No começo, parecia bonito. Mas a cada nota corrigida com frieza, a cada sorriso que só vinha depois da perfeição, e a cada final de apresentação, quando ele pegava a mão direita — sempre a direita — a musicista entendia: o que ele amava não era ela. Era o reflexo dele que via nela.

Aquela seria mais uma apresentação em que ele sorriria como quem coleciona troféus. E a mulher, sua medalha viva, se curvaria diante de uma plateia que aplaude sem saber o por quê.

Mas dessa vez, havia algo diferente na palma da mão. O corte, o lembrete.

Ele não a amava. Ele não a escolheu. Ele a construiu para se admirar através dela.

E uma hora, toda obra se volta contra o artista. Então não reclame — você me tocou errado.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.