Coisinhas
1 Nuvens, nuvens. Tediosas nuvens.
Notas iniciais
Boa leitura.
Não importa como está o céu. Qual a consistência da nuvem ou mesmo suas cores. Tudo isso é subjetivo. Se dissesse que estão ‘’imensas em suas vestes cinzas, os açoites de relâmpagos ao lado dos capuzes cinzas, com os raios a faiscar nos olhos‘’, logo terá uma visão mais fantasiosa da coisa.
Não duvido mesmo que coloque uma capa de super-vilão na primeira nuvem que lhe vier.
Se dissesse que estavam ‘’pesadas com o cinza escuro a anunciar a tempestade que se achegava‘’, reviraria os olhos com a descrição tão comum e simples, mas ainda seguiria pras próximas linhas.
Se dissesse que ‘’avolumam-se no firmamento, obscurecendo o azul celestial que se erguia soberano por cima‘’, nem sei o que você pensaria. Talvez já imaginem uma heroína loira caminhando pelas cidades, com um sorriso nos lábios apesar das prováveis adversidades pelas quais passará nas próximas páginas. Sendo que nem temos heroína, nem loira aqui.mas logo fará sentido.
Viu? Irrelevante. E se ainda está comigo a despeito desses parágrafos enfadonhos e vazio de sentido, cheios apenas de devaneios, é porque provavelmente não tem mais o que fazer.
Ao contrário de mim.
Não ligo pras nuvens, não ligo pro céu que elas escondem.
Definitivamente não ligo pro céu, e não imaginam o sorriso que se brota em meus lábios carmim (beijos pra você) com isso.
Sendo bem franca, nem ao menos ligo pra você. Um pedaço a mais ou a menor de carne cheio de sangue e hormônios, andando orgulhoso e bípede por ai não me faz falta.
Estou aqui por uma pessoa em especial, e por um único motivo.
Vingança.
E ai vamos, com o adorável e prático clichê novamente. Mas se não fosse vingativa, não estaríamos aqui, meu bem. Eu, muito menos.
Primeiramente, tenhamos uma conversa prática enquanto ela não chega, sim?
Não pretendo apresentar-me a seu ninguém. Apenas peço que olhem com atenção.
Pare de encarar meus peitos, aliais.
Vejam primeiro meu rosto, porque eu gosto dele, viu?
Dois olhos. Uma boca. Um nariz. Sobrancelhas (importante). Tão igual a você, não? Agora desçam um pouco os olharem, até minhas vestes, alvas. Rasgadas, destruídas, esfarrapadas, imundas. A barra, como podem observar, tem já um palmo de lama, ainda se arrastando pelo chão. Os pés descalços, sim, e logo vêem porque, se subirem novamente à meu rosto, e repararem um pouco além.
Nada dessas metáforas complexas de algo além dos olhos, de uma chama interior flamejando através da íris colorida, camaleônica, ou algumas gotas de veneno escorrendo pelos lábios bem-feitos e toda essa conversa fiada. Apenas reparem nesse amontoado de penas brancas.
Ah, a gora viu? Pois é. As abro pra você, ‘’amore’’. Dois pares de asas brancas nem tão grandes quanto você pode ter imaginado. Que não deveriam estar aqui, suponho. Tem uns que as deixam ser arrancadas quando caem, mas por favor, meu bem. Jamais que eu ia ficar andando por ai que nem uma qualquer.
E qual é a da lama na barra da roupa, então? A terra é imunda, meus caros. Mesmo quem voa, acaba infectado pela sujeira que vocês, seus passantes irritantes, fica jogando, levantando, acumulando. Essa podridão para a qual pulei, antes que me jogassem.
E agora, ou você revira os olhos, ou bate palminhas de excitação. Sim, mais um conto sobre anjos caídos. E agora, um segundo ou dois pra pensar se eu serei maligna que terá algum plano mirabolante com um exército de cães raivosos, daqueles de enxofre agarrado firmemente aos pelos puídos, ou uma demônio sensual e cativante que verá seu coração de pedra amolecer-se por um mortal.
E ai eu te dou um tapa na cara mal-amada e lembro do que falei no começo.
E só porque tenho tempo.
Não me importa nada. Só uma pessoa.
Aliais, aliais, ai vem ela. Mudemos a narração, para combinar melhor com a protagonista dessa comédia porca e vadia que Alfredo resolveu encenar.
Era uma tarde de promessas.
Aquela contida nas nuvens unidas num só manto cinzento, escuro.
Aquela contida nos olhos sorridentes que acompanhavam o corpo elétrico, exultante.
Aquela contida na voz tímida de Alfredo, ao convidá-la para o parque onde haviam se conhecido.
Tantos tempo havia se passado desde então!
E tantas dificuldades... Realmente uma pena, mas agora ele já estava completamente recuperado do acidente, finalmente!
Acabou lembrando-se sem querer... Da moto sem freio avançando direto para um carro. Mas claro, nunca negaria que tinha sido muita sorte!
Afinal, ele ainda estava vivo.
E, mesmo sem uma perna, ela o amava de todo o coração. Mesmo que ele ainda estivesse desempregado de novo depois de lutar tanto pra conseguir aquele emprego na padaria...
Chegava a ser deprimente quando comparado a loja de vestidos, claro, mas tudo bem.
Nenhuma loja podia manter sua reputação depois uma cliente ser estuprada num provador... E ratos saírem de uma caixa e, ora chega desses pensamentos tristes!
E nunca mais seria... Humilhada...
Nunca mais... Aquelas mãos percorreriam seu corpo... Ainda sentia-se mal. Ainda mais por ser seu primo mas...
Alfredo realmente precisava daquela vaga no hospital.
Eles se amavam.
E como. Afinal, como não amar um cara que transava tão bem, e ainda lhe dera casa e uma aliança no dedo, mesmo sabendo de seu passado enquanto putinha particular do primo boboca?
Era trabalhadores, e felizes.
A risada nervosa que pensava soar apenas como um sorriso beirava a histeria, mas faria de tudo para acreditar que era apenas mais uma mostra de sua imensa felicidade.
Tudo daria certo!
Oh, claro. Afinal, tinham um anjo olhando por si.
- Muito bom dia, meu bem.
Uma voz familiar a chamou. Girou a cabeça, encontrando-se apenas com o deserto silencioso das ruas no domingo ameaçador. Grades fechadas, janelas cerradas, comércio morto, postes adormecidos, ela.
- Fiquei sabendo que o Alfredo está melhor- a voz continuou, enquanto Vanessa girava o corpo inteiro. De novo não...- Fiquei feliz por ele, sabe? Incrível como se recupera rápido de todos os acidentes! Ele está te esperando no parque, não está?
- Apareça!- berrou em pânico.
Pobre coitada.
Uma gargalhada serpenteou pelo asfalto e subiu por sua perna, traiçoeiro, fazendo os joelhos tremerem, fracos e inúteis.
- Mas eu estou bem aqui, minha querida. Você é que não pode me ver, lembra-se? Alfredo já lhe explicou, sua puta imbecil.
Sentiu unhas afiadas passarem por sua face, acariciando a testa e contornando até o queixo, descendo então para o pescoço e ombros até sumirem novamente.
Conhecia bem aquela sensação. Aquela pressão sem marcas. As unhas fétidas e podres.
As lágrimas correram involuntárias, e ela ajoelhou-se, as mãos unidas ao redor de uma medalhinha que sempre trazia consigo, e começou a rezar.
A prece cristã subia com força pela garganta, jogava-se dos lábios trêmulos para ser pisoteada pelos pés nus.
- Não adianta rezar pra Ele. Eu fugi de casa tem um tempinho já.
E os fios aloirados foram agarrados com força e brusquidão. Não poderia descrever jamais a dor de sentir seu corpo erguidos pelos cabelos. Sua mente em pânico apenas conseguia sentir os fios ensandecidos doendo, a própria pele sendo puxada e querendo descolar-se.
Mas também, jamais teria para quem contar.
As asas, pequeninas até, considerando-se sua posição, eram ágeis, como se acordo com as necessidades, e logo estava a metros de altura. Quantos não faria a menor diferença, contanto que ela virasse uma bela massa ensangüentada e disforme cuspida na calçada.
- Au revoir, ma petit.
E então, tudo acabou.
‘’-Vanessa, você acredita em anjos? É que as vezes, eu vejo uma mulher ao meu lado... Com asas brancas. Deve ser minha anja da guarda não é? Ou isso ou estou louco, haha. Aliais, de fato... Estou louco por você...
E a voz rouca, amada, do protegido tão bem quisto logo eram gemidos e exclamações de prazer. Do mal-agradecido e sua vadia particular, com uma coleira bem posta no dedo.
E os olhos atentos, vigiantes logo sangraram em inveja daquela felicidade imunda.
Primeiro, a angustia. A dor.
Inveja, luxúria, gula e ganância.Com tantos, não dava pra ficar em casa.
E caiu.’’
Notas finais
Eu tenho uma capa. Só preciso pegá-la de volta (mandou por correio para uma amiga-nem lembro porque- e esqueceu de escanear antes, sagacidadeé o que há).
Eu adorei ficar viajando sobre as nuvens, você não~?
Enfim, enfim. É isso. Eu queria escrever, escrevi. Se for pensar, ela me lembra bastante o meu outro personagem, de Luxúria.
A diferença é que eu gostei mais dele do que dela //apanha.
Reviews, eternamente bem-vindos.
Kalhens.
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