Coffee

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Boa leitura!

Música: https://www.youtube.com/watch?v=9m9Gzj2BC38

Sentada no sofá, Layla folheava um antigo álbum de fotos que sua mãe a dera. Embora vivesse na era digital, a morena via algo especial nos álbuns físicos. Era como se a mesma pudesse tocar em suas memórias.

Esticou o braço para pegar a xicara de café sobre a mesa de centro da sala e o cheiro familiar atingiu suas narinas. Fazia um certo tempo que não tomava café puro, fazendo com que o liquido tivesse um gosto diferente em sua boca. O clima nostálgico a fez perder o sorriso por um momento e quando encarou a xicara, o café que a instantes atrás tinha um gosto bom, se tornou amargo.

Com um suspiro, a jovem se levantou e foi até seu quarto, indo direto para a prateleira mais alta da estante que tinha a sua altura. Com uma breve hesitação, ela pegou a caixa de madeira que havia comprado anos atrás. As flores talhadas ao redor do objeto davam um ar delicado ao rustico da madeira, tornando aquele um de seus objetos favoritos.

A caixa carregava o peso das memórias que Layla se recusava a esquecer. Quando terminaram, ambos achavam que haviam feito o melhor para suas vidas, porém, após um ano, a morena não podia negar que continuava o amando do mesmo jeito, embora acreditasse que ele já havia a esquecido.

Ao voltar a sala, sentou–se novamente no sofá com a caixa na sua frente. Abriu sem hesitar e olhou o conteúdo. Fotos, cartas e outros objetos pequenos que na época achara importante o suficiente para serem guardados. Quando o relacionamento chegou ao fim, ela praticamente enterrou aquela caixa no fundo do armário, mas eventualmente tomou coragem para usa–la novamente como objeto de decoração e depois de muito tempo estava ali, abrindo aquilo novamente.

Pegou as fotos reveladas e as foleou de forma rápida, até que uma foto tirada a distância capturou sua atenção. Sua amiga havia tirado uma foto de longe com o objetivo de implicar com ela. Naquela época ele era apenas um amigo que havia feito na faculdade e ao julgar pelo tempo, eles mal se conheciam. A foto mostrava os dois conversando em uma das mesas do que antigamente era seu café favorito e que por obra do destino também era o dele.

—Hey! – a voz suave chamou atrás dela e ela identificou como a do moreno.

—Oi! – ela se virou e fez menção para que ele se sentasse – O que faz aqui?!

—Bem... – ele fez uma pausa e levantou o copo com café antes de sentar.

—Ok, essa foi uma pergunta bem estúpida – ela riu e tomou um gole do seu.

—Eu não sabia que conhecia esse lugar – comentou com um sorriso no rosto, antes de roubar um dos biscoitos de chocolate que tinha sobre a mesa.

— É só o meu lugar favorito nessa cidade – ela riu, puxando o prato de biscoitos para si, como um aviso silencioso.

—Isso não pode ser – disse firme, mas ainda sim com um sorriso incrédulo no rosto – eu venho aqui a anos e não me lembro de ter te visto.

—É verdade! Pode perguntar para qualquer um que me conheça – diz antes de comer um dos biscoitos – eu sempre falo desse lugar para os outros e quanto ao fato de você não ter me visto, qual o horário que você costuma vir?

—Eles podem mentir por você, sabe – ele toma um gole do café – eu geralmente estou aqui por volta das nove, mas como estou com horário novo na faculdade, tenho que vir mais cedo.

—Ai está a sua resposta, eu sempre venho a esse horário – ela sorriu antes de levar o copo aos lábios.

A conversa se estendeu por mais alguns minutos, até que ambos tiveram que concordar que estava ficando tarde e a probabilidade de se atrasarem só aumentava. Ao saírem do Café, Layla avistou sua amiga do outro lado da rua, fazendo sinal para que atravessasse. Sem entender muito bem o porquê, a morena se despediu do moreno e seguiu em direção a amiga.

—Explique–se! – pediu com um certo entusiasmo que a jovem não entendeu – que era aquele garoto lindo com quem você estava falando e por favor, diz que você está com ele – a amiga não pode evitar o riso e começou a andar – ei, por que está rindo? É uma pergunta séria.

—Eu mal o conheço, Rebecca

—Então começa conhecendo pela boca – a jovem puxou o celular – olha só como vocês ficam lindos juntos – a morena mostra a foto recém tirada dos dois.

—Qual o seu problema?! – ela segura o aparelho, mas antes de apagar a foto, sua amiga conseguiu pegar o aparelho de volta.

—Nem pense nisso! É a primeira foto do meu casal favorito! – disse com um sorriso.

Assim que a morena tentou novamente pegar o aparelho, a morena correu, sendo seguida por Layla, atraindo olhares de reprovação das pessoas na rua.

No final, quando a amiga mandou a foto por mensagem, ela acabou guardando e a mesma ficou perdida no seu telefone até o dia que eles ficaram juntos e no final acabara sendo revelada como uma lembrança do primeiro momento que realmente tiveram juntos. A princípio achava uma bobagem, mas o moreno disse que achava fofo ela guardar aquela foto e até pediu para que ela o passasse.

Ao descartar a foto ao lado da caixa, voltou a pegar a xicara, levando–a até seus lábios antes de pegar o panfleto antigo de uma festa de fraternidade a qual nunca realmente fora. Naquele momento se perguntou o porquê de guardar tantas coisas, além de recordações que realmente fariam sentido, a garota simplesmente não conseguia se livrar de coisas inúteis como aquela.

Assim que a imagem do sorriso que sempre considerou fofo apareceu na sua mente, teve de soltar um xingamento. Estava claro como água que os sentimentos que tinha por ele não haviam acabado e aquela caixa só atiçava lembranças que ela jurou deixar trancadas num canto de sua memória.

Quando ele a encontrou, a jovem dormia com a cabeça apoiada nos braços na mesa destinada as aulas práticas de culinária. Não pode evitar o riso baixo ao presenciar tal cena, porém não a acordou. Em vez disso, seus olhos desviaram para a direção do aroma adocicado que estava sentindo. Ao destampar o recipiente o Flan de chocolate parecia delicioso e teve de controlar a vontade de pegar um pedaço. Quando tampou, os olhos de Layla se abriram e o encararam, parecendo tentar identifica–lo e quando finalmente se localizou, ela levantou a cabeça, ainda sonolenta.

—Foi dormir que horas? – ele perguntou sentando na cadeira ao lado.

—Algo entre não dormir e cochilar – disse deitando a cabeça dessa vez sobre a bancada fria.

—Sua mãe nunca te ensinou a não dormir onde se cozinha?

—Minha mãe me ensinou a fazer o melhor então se ficar acordada até bem tarde para terminar um flan decente me proporciona um cochilo e uma nota boa, então eu irei dormir aqui sim – responde de uma única vez precisando buscar folego no final.

—Hey, respira – disse rindo e fazendo gesticulando para que ela se acalmasse – eu não a vi hoje lá, então resolvi te trazer um café – ele pega um dos copos sobre a mesa e coloca no campo de visão da jovem – e fique tranquila que não é o seu favorito. É só um café forte.

—Você é um anjo! – ela se levantou rapidamente, agora com um sorriso fraco no rosto e tomou um gole do café enquanto ele ria – o que foi?

—Seu rosto, está todo marcado – disse diminuindo o riso – mas eu não vi aqui apenas para te dar um copo de café, acabei encarregado de distribuir alguns panfletos da festa que terá depois de amanhã e você está oficialmente convidada com esse panfleto padrão e muito mal feito – ele deslizou o papel sobre a mesa e ela torceu o nariz – o que foi?

—Esse não é o meu tipo de festa –confessou antes de tomar outro gole do café – ficar bêbada e acordar no jardim de alguém não faz o meu estilo.

—Ótimo, é por isso mesmo que estou te convidando. Nem todo mundo nessas festa fazem isso. Vamos fazer parte do um por cento que não faz – ele sorriu e se levantou, notando a dúvida no olhar da garota – não surte, só vá e me procure lá. Sem falar que você pode ir embora a qualquer momento – ele desviou o olhar ao ver o professor entrando – eu estarei lá de qualquer forma, agora eu tenho que ir e cuidado para não apagar em cima do flan.

Não pode evitar de revirar os olhos, mas quando teve de conter um bocejo, o conselho do moreno pareceu bem útil. Tratou de colocar um sorriso no rosto que ajudou a melhorar sua expressão sonolenta e torceu para conseguir a melhor nota.

No fim aquele flan não fora um total desperdício, embora tivesse pensado que era o pior doce do mundo já que a recebida era apenas dentro da média.

—Trago meu fracasso – a garota suspira, deixando o pote sobre a mesa da sala.

—Como você pode ter ido tão mal se isso tem um cheiro maravilhoso? – Rebecca perguntou incrédula, assim que abriu a embalagem.

—Aparentemente não está tão macio como poderia ser e o gosto também não está bom – ela se senta ao lado de um dos novos amigos de Rebecca, mas sua tragédia pessoal a impediu de cumprimentar ele e o loiro que parecia estar em um mundo paralelo mexendo no celular – claro que o gosto não está bom – ela passa o dedo sobre a cauda e prova – tem o gosto amargo das minhas esperanças.

—Não seja tão dramática – a voz familiar chama a atenção da jovem – claro que você poderia ter ido melhor, mas não há motivo para tanto drama – diz ao se sentar ao lado da garota, puxando o flan para si – aquele professor não faz o tipo que dá dez para alguém, relaxa – ele pega a faca de plástico que ela havia deixado na embalagem, partiu em alguns pedaços pequenos e com uma das mãos os levou a boca de maneira rápida – não entendo o porquê dele tirar pontos quanto a gosto, duvido que ele faria melhor – comenta após terminar de mastigar – acho que ele só não gosta de você.

—Talvez só não seja o dia de sorte dela – o moreno que havia se mantido em silêncio, finalmente se pronuncia – ele pode não ter gostado, mas eu quero um pedaço – comenta e Rebecca concorda – não monopolize, Dean.

Os protestos do moreno quanto a dividir fizeram Layla sorrir e com o decorrer do tempo a nota não pareceu mais ser uma tragédia grega e até o loiro largara o celular para comer e conversar.

O celular tocou, arrancando a jovem de seus devaneios e quase derramou café no sofá e na roupa. Com um xingamento, ela pegou o aparelho que estava sobre a mesa e atendeu sem se dar ao trabalho de olhar quem era.

—Lay? Você está bem?— A voz de Rebecca pareceu preocupada do outro lado da linha e quando fora responder percebera que sua voz estava embargada – eu estava ligando para te convidar para sair hoje à noite. É sexta, estamos de férias e já que você está se prejudicando chorando sozinha em casa, você não sair, não é uma opção. Eu vou finalizar meu trabalho aqui e corro para sua casa.

A morena se despediu de maneira rápida, não dando chance ao questionamento. O aparelho fora novamente deixado sobre a mesa, mas quando seu olhar capturou uma foto que até então ela não sabia que havia caído no chão, Layla não pode conter as lágrimas. Na foto tirada por ele, os dois estavam abraçados e se beijavam, em um dos muitos encontros que tiveram.

Layla se perguntou como acabara onde estava, sofrendo por algo que já havia acabado e mesmo que o quisesse de volta, isso era algo que ela não poderia conseguir sozinha. Os motivos pelos quais levaram ao fim do seu relacionamento pareciam todos bem fúteis agora. Depois de tanto tempo ela ainda podia sentir o cheiro do perfume dele em todas as memórias e mesmo o fim de um relacionamento não sendo o fim do mundo, o coração dela doía como se fosse e naquele momento o desejo que tinha era apenas poder abraça–lo novamente.

Notas finais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=9m9Gzj2BC38

;)