BASE (40) DA CORÉIA DO SUL


— Então, Linda, você preferiria ter tudo o que você quisesse, sendo só você desejar que se realiza, mas para isso precisa me prender ou você ficar presa só para que eu tivesse tudo o que eu quisesse?

Ela pareceu assustada com a pergunta

— Eu acho... Que eu ficar presa?

— É uma pergunta ou uma afirmação? — Sorri, a provocando

— Desculpa, eu preferiria ficar presa

A encarei por um instante

— É bom saber disso... Assim eu nunca vou deixar você escolher, quando for algo assim. Prefiro que você escolha me prender — Ela pareceu ainda mais surpresa e dei de ombros- O que foi? Você quem me desafiou a falar o que penso até o fim desse jogo, lembra? É sua vez!

— A-Ah, claro! Verdade ou desafio?

EM UMA CASA ABANDONADA

Raquel observou pouco de longe e notou que o garoto tinha um punhal e cortava sua mão, uma e outra vez, a pele rapidamente se curava e ele voltava a machucar-se. Então ela se sentou ao lado de Victor no telhado, chamando a atenção do garoto que não esperava a aproximação de ninguém


— Tudo bem, Gatinho? — Tentou descontrair, tentando quebrar aqueles sentimentos pesados que emanavam dele, que não lhe respondeu

— Sabe que o nascer do sol costuma ser bem romântico — Bateu o ombro com o dele de leve, sugestiva e sorriu

— O que você quer? — Bufando, o rapaz questionou

— Nada, só queria te fazer companhia

E com isso Raquel se calou, balançando levemente as pernas na beira do telhado, os dois assistiam a mudança no céu. Após longos minutos em silêncio, o rapaz se manifestou...

— Não vai falar mais nada? — Poderia estar confuso, mas não parecia querer demonstrar qualquer emoção

— Eu preciso? — O encarou, seu tom e olhar sugestivos deixados de lado, e não demorou para o garoto desviar o olhar para frente, bufando, mais um tempo em silêncio — Sei como se sente

O comentário trouxe chamas para o coração do menino, a raiva se alastrou tão rápido em seu interior como o sentimento de que já esperava por isso... E a garota sentiu profundamente cada uma das emoções e sensações que dele emanavam, tão profundo que a forçou a fechar os olhos e inspirar fortemente, para com um suspiro libertar um sentimento de reconhecimento e identificação


— Se era só isso pode voltar — O garoto começou — Não preciso dessa mentira tola, você não é a primeira a achar que sabe algo de mim, não é a primeira a acreditar que entende tudo o que sinto, você não é mais especial que os que vieram antes, então desista — Suas palavras traziam um frio tão intenso, que Raquel achou que poderia congela-la, por um momento a fazendo temer e se perguntar se fora tão difícil quando era ela naquela situação, tirando a atenção do garoto mais uma vez e a trazendo à paisagem em frente

— Talvez você esteja certo... — Murmurou — Talvez eu só seja mais uma, não, eu tenho certeza que sou só mais uma, só mais uma neste grupo que deseja mais que tudo ajudar quantos quer que possa antes de morrer, só mais uma nesta terra que deseja poder viver livre, só mais uma neste mundo que pretende morrer digna da amizade e da confiança que as pessoas mais queridas por mim entregaram-me. Porém, você também é só mais um. — Ele a olhou surpreso e um tanto espantado pela ousadia na última afirmação e sua resposta foi um sorriso doce dela — Só mais um entre tantos que lutam pela própria sobrevivência mais que tudo, só mais um entre milhares que deixaram de ter esperança nos outros, só mais um entre tantos e tantos que cansaram da dor interior e só querem que isso acabe, mas ainda não podem chegar à morte por si e preferem enganar essa sensação, esse sentimento agoniante, sufocante com uma dor física auto-exercida... — Ela suspirou — Só mais um que é tão covarde que acredita fielmente que sua queda entre todas as que qualquer um sofreu é a pior, que ninguém pode entende-lo, porquê só ele saiu tão machucado, você é só mais um entre todos os covardes que preferem desistir na primeira ou segunda, talvez a terceira queda, só mais um covarde que não tem força para se impor contra o mundo de verdade, sem força para se reerguer e se envolve em um mundo de ilusões onde ele pensa que já esgotou suas forças e que já aguentou mais que qualquer um pode imaginar, você é só mais um que se rendeu a essa ilusão, então também te digo que não se sinta especial.

— Você não entende... — Ele parecia não querer aceitar, como se algo tentasse invadir seu corpo e tocar sua alma e ele lutasse fortemente para impedir

— Posso sentir seus sentimentos — Ela o interrompeu

— Isso não te permite compreende-los — Um novo corte em sua mão, enquanto saia sua fala

— Já passei pelo mesmo — Cada vez, a cada frase trocada, parecia que ele ficava cada vez mais exausto, como se a luta o estivesse esgotando mais e mais

— Então...

— Você já pode parar de lutar e descansar, não tem mais de lutar consigo mesmo, não tem mais de lutar sozinho — Então finalmente ela o encarou de novo — Você pode confiar em alguém. Uma segunda chance para si próprio

Com o fim de sua fala, ela sorriu e naquele sorriso sincero ele permitiu que ela criasse o novo fim de sua frase, assim como que confiava a ela construir um novo caminho para ele, talvez um sem essa escuridão