BASE (40) DA CORÉIA DO SUL


Já parecia estar de tarde, pois os guardas já trocaram de turno pela segunda vez, era a penúltima troca de hoje. Felizmente, eu e Lucca tivemos uma "folga" hoje, ninguém veio nos buscar até agora e passamos o tempo conversando e jogando verdade ou desafio, era o jogo favorito de Lucca desde que aprendeu em um livro. Já que hoje não haveria nada aparentemente e pelas minhas contas deveria ser meu dia de teste, existe a possibilidade de ter ficado para amanhã, isso me inquietava, mas estava tentando não ficar pensando muito nisso.

EM ALGUM LUGAR DO CENTRO-OESTE BRASILEIRO

O grupo se deslocava de forma organizada, Raquel sempre mais a frente, Eric e Ian pouco atrás da mesma, cada um dos irmãos gêmeos em um lado e Adri ficava por último, chegavam a parecer uma barreira envolvendo Sara e Victor, fazendo a alva estranhar e se aproximar de Jess, a gêmea de Bruno...

— Então, o que é isso? Você sabe, parece que vocês tem uma formação certa e comigo e o Victor de novatos é quase como uma barreira de proteção...! — Comentou Sara


— Barreira de proteção? — Riu — É isso que você acha? Eu pensaria nisso mais como uma formação de caça, como uma alcatéia de lobos cercando sua presa — Sorriu maldosa e isso assustou a novata, que se afastou poucos centímetros

— Pare com isso, Jess, não tente assustar a garota com suas ideias! — Repreendeu Eric que estava pouco mais na frente das duas e escutara a pequena conversa

— Não tente me dar ordens, Eric, você não é meu líder! — Revirou os olhos

— Arr, não comecem mais uma discussão sobre quem deve obedecer quem, isso é um saco! — Bruno bufou entediado

— Shh — Raquel parou todos e pediu silêncio sem deixar de mirar sua frente — Estão aqui!

— Consegue identificar? — Eric pediu e a menina assentiu se concentrando

— É uma patrulha e eles estão se aproximando por ali — Alertou a morena de olhos verdes, apontando uma direção

— Posições e se preparem! — Murmurou Eric, dando a ordem

Assim o grupo se espalhou e se escondeu, a patrulha se aproximou sem notar que foram cercados, Sara do alto de uma árvore com Raquel usou de sua visão de longo alcance, de seus olhos desciam o que pareciam lágrimas, porém de sangue, enquanto ela observou quando os patrulheiros foram surpreendidos por Eric, que surgiu na frente dos mesmos, socando o chão com uma força absurda, seguido de Adri, que fizera o mesmo, só que atrás dos soldados que pareceram ter entrado em choque e paralisado. Logo Bruno apareceu ao lado de um deles, tocando em sua cabeça, pareceu o retirar do choque, porém ainda parecia mais que abalado, levando as mãos à cabeça em sinal de dor e agonia, o jovem o chutou no peito e ele perdeu a respiração por tempo o suficiente para Bruno bater em seu peito o levando ao chão, neste tempo Jess surgiu na frente de outro soldado e pôs suas mãos na nuca do mesmo, que pareceu desmaiar e com isto a garota revirou o olhos, murmurando "fracote", algo pareceu errado e Sara notou Raquel a olhando assustada...

— O que aconteceu? Te machucaram?! — A alva ficou confusa, mas sem tempo para conversas ouviram tiros e notaram Victor em frente a elas

O garoto se segurava na árvore e braços saíam de seus ombros e costas, formando uma espécie de barreira em frente às garotas, perceberam também que ele havia levado três tiros seguidos para proteger elas, logo ele desceu da árvore um tanto ofegante, tanto da velocidade que teve de agir, quanto da dor que sentia. Viram quando os soldados miravam novamente nelas, porém facas certeiras atingiram ambos no peito, os deixando no chão para morrer, o grupo pareceu como que aliviados sobre estarem vivos, então Sara notou com sua visão alguém escondido um pouco longe, observando mais atentamente percebeu que o mesmo portava uma arma de longa distância e mirava no grupo

— Tem mais um, ele tá mirando em algum de nós — Sara avisou — Ali! — Apontou a direção do inimigo e Raquel se concentrou

— Raquel? — Ian pediu

— Às suas 11 horas, a quase 80mn — Informou a garota

Ian mirou rapidamente e jogou uma faca apenas, Sara viu quando o objeto acertou o pescoço do atirador e ele caiu para frente morto, então todos se concentraram no garoto baleado, Raquel desceu da árvore, aproximando-se de Victor

— Você está bem? — Preocupada a morena pedia e ele sorriu sarcástico

— Vão chorar por mim? — Provocou, sua expressão ainda um tanto sofrida, porém com um sorriso sarcástico, retirando lentamente os braços que saíam de seus ombros e os das costas se soltaram dele, sua pele se regenerando rapidamente

— Então essa é a sua habilidade? — Eric sorriu — Bastante útil!

— Eric, acredito que tenhamos algo a mais para nos preocupar — Ian avisou e o líder restaurou sua seriedade e assentiu — De algum modo eles conheciam a habilidade da Raquel, eles perceberam que era ela que os paralisava

— Não me surpreende — Começou a própria citada — Ele são soldados alemãs — Agachada ao lado do que seria capitão da patrulha e mostrando o símbolo em seus uniformes, para depois pegar uma pasta dentro da mochila que o soldado portava, a abrindo e analisando os papéis — Aqui, viu? A lista com todos os fugitivos das bases alemãs e nela meu nome, junto de relatórios sobre cada um da lista

— Relatório, ãn? — Jess estudou o significado do fato com um sorriso maldoso — Então saberemos mais sobre o que nossa querida 'sorrisos' aprontava na base? — Riu, quando Raquel a mostrou uma careta

— Já sabemos o suficiente sobre cada um de nós, não é como se alguém tivesse toda sua história em total segredo aqui — Eric lembrou a todos — Exceto pelos novatos, todos aqui já compartilhamos de memórias sobre nossas estadias nas bases com o outro


— Então... — Sara chamou a atenção para si — Já que entramos neste assunto, podem ao menos nos informar mais sobre vocês, tipo suas habilidades, sabe? — Pediu receosa de uma rejeição

Raquel se pôs de pé, colocando a mochila do soldado por seu ombro

— Bom, você já notou algumas delas em ação agora há pouco, mas se todos permitirem podemos explicar melhor — Sorriu e os outros assentiram, menos Jess que bufou — Assim, eu posso sentir e ler os sentimentos dos outros, mas como somos um grupo de combatentes, precisei aperfeiçoar minhas habilidades, então o fato de que eu posso manipular as emoções das pessoas ao meu dispor ajuda nisso, foi assim que paralisei essa patrulha, com o sentimento de surpresa que o Eric e a Adri causaram neles, mesmo com o treinamento deles, eu aumentei essa emoção quase nula até um nível de choque o suficiente para seu cérebro não conseguir enviar sinais ao corpo

— Sim, assim como os músculos do meu corpo tem maior resistência e meu cérebro é treinado para me permitir liberar uma força absurdamente maior que a capacidade máxima de um ser humano -Eric continuou

— Ah, então você e sua irmã tem a mesma habilidade? — Sara tentou compreender melhor

— Não, eles não iam perder o tempo deles e nem as cobaias para fazer uma cópia, quando eles tem o original. Eu tive os ossos do meu corpo substituídos por peças de um aço especial ao longo dos anos, hoje se eu ainda tiver algum osso real posso até me impressionar — Adri mesma explicou

— Eu não tenho habilidades especiais realmente, eu venho de uma base alemã e, como nós já temos como informação oficial, os dessa nação costumam fazer experimentos mais de adaptações humanas a situações e o crescer com vidas absurdamente diferentes, se bem que comigo foi mais calmo. Não tenho nenhuma habilidade anormal, mas também não dependo delas, já que sou treinado no manuseio com facas — Sorriu e concluiu Ian

Todos encararam Jess, que mexia em um caderninho, desligada do mundo ao seu redor, quando notou o encarar de todos, revirou os olhos e fechou o caderninho por hora

— O que? — Questionou em tom rude a garota galega — Eu não sou obrigada a contar minha vida ou o que quer que seja a ninguém — Deu de ombros e voltou-se ao caderninho

Alguns suspiraram e então se direcionaram ao gêmeo da garota de personalidade difícil, o mesmo estava indiferente, todavia ao notar o que aqueles olhares significavam praguejou — Que saco! — Respirando fundo e continuando entediadamente — Eu e a Jess fomos escolhidos ainda no útero, como gêmeos que sofreram as mesma experiências, nós temos as mesmas habilidades, arr — Pausou se irritando e continuando mais diretamente — A gente só libera energia do nosso corpo, damos choques nas pessoas, tudo bem?

— São choques leves, mas se escolher o lugar certo...! — Raquel acrescentou e sorriu — Vocês vão nos explicar as suas habilidades? — Se dirigiu a Sara e Victor

— É o mais justo — Sara sorriu divertida — Bom, eu tenho visão de longo alcance, lá na base os cientistas diziam que meus olhos eram como de uma águia... — Parou para pensar — Ah, também tem meu corpo. Eu não sou capaz de sentir dor alguma — Os outros se surpreenderam nessa, mas seu tom foi um tanto mais desanimado

— Vocês já viram a minha — Cortando a surpresa de todos, Victor comunicou um tanto mau-humorado — Posso criar novos membros onde eu quiser no meu corpo, seja um braço, uma perna, mesmo uma boca — Adri e Bruno o olharam estranho, mas sua pose continuou firme, mesmo que Raquel pudesse sentir seu incômodo e desconforto

Eric o encarava interessado, como se despertasse sua curiosidade, enquanto Raquel e Sara pareciam um tanto incomodadas, mais para preocupação, a loira por conhecer já as habilidades e as histórias que corriam na base sobre o garoto, já a morena por poder sentir a angústia e o receio que emanavam dele, sem que o mesmo deixasse transparecer. A explicação da habilidade um tanto incomum pareceu ter conseguido enlaçar a atenção de Jess de volta ao grupo e a garota o encarava simples

— Então você é um tipo de monstrinho humano? — Sua intenção pode não ter sido maldosa, mesmo assim não mudou o resultado

Que foi o olhar furioso ou espantado dos amigos por sua audácia, enquanto Victor fechou os punhos com força... Então os suavizou e levou o olhar a sua mão um tanto estendida, onde começou a surgir uma mão menor dela, que se abria e fechava, como se ele a testasse, para assim encarar indiferente Jess

— Sim. Talvez você esteja certa — Falou simplesmente e abaixou o braço, a mão menor se desprendendo dele e caindo ao chão

Um clima tenso se espalhou e nenhum deles parecia saber o que dizer, até que Eric, como um bom líder, tomou a frente

— Enfim, não podemos perder mais tempo aqui! Adri, Bruno e Ian, chequem o resto das mochilas dos patrulheiros, descartem qualquer tipo de objeto rastreador, então podemos seguir, falta muito pouco até o esconderijo

Assim foi feito e a equipe seguiu para o seu destino.