Clown Town
1 It’s On Facebook
Notas iniciais
Dois garotos decidiram fazer uma burrice.
Eles estavam cansados daquilo tudo e decidiram agir, porque se não quem o faria? É! É isso mesmo. Ou eles faziam, ou ninguém faria.
Ainda mais depois do aniversário da Nancy. Eles sumiram com ela. Raptaram ela no próprio aniversário. Pensava Jerome. Afinal, o que de fato havia acontecido com Nancy era um mistério, a garota havia simplesmente sumido na véspera.
Jerome é o mais velho, 23 anos. Também é filho do xerife Nicholas Anderson, e rodava a boca pequena que Jerome, assim como todos de Birchville, estava decepcionado com o trabalho do xerife quanto às questões... dos palhaços.
— Vai ser tudo filmado. Faz ao vivo no Facebook. — Jerome disse para o amigo. Claro, seria ele o astro. Mas precisava de seu amigo, Elliott, para filmar tudo.
Se Elliot queria ou não participar, era irrelevante para Jerome. Elliott tivera, ainda pequeno, a sorte (ou o azar) de fazer amizade com o filho do xerife, e isso havia lhe rendido boas regalias durante sua infância livrando-o das consequências de seus atos. E depois de grandes, Elliott e Jerome descobriram que a posição privilegiada deles podia ser usada para outras coisas também. Coisas à margem da lei. Sendo assim, se Elliott queria ou não estar ali naquele instante era irrelevante porque uma pessoa só pode pedir um número de favores até que comecem a cobrar pelos favores de volta.
Então estavam ali. Os dois, pouco mais que seis da manhã com a neblina ainda cortando o ar do bosque nos limites da cidade aonde, uma semana atrás, a doce e bela Nancy sumira em sua própria festa.
Chamavam o lugar de Fall Harbor, porque um rio corria no fundo de um pequeno cânion que dividia a cidade no Leste, e nos tempos da independência (época em que a cidade fora fundada) aquele rio era caudaloso e aquele bosque era inundado e repleto de peixes e barcos e havia, ali, várias baias para barcos, isso até a represa ser construída nas imediações durante a II Guerra, secando o rio e deixando um cânion no lugar.
Então, em 1980, o prefeito construiu uma ponte suspensa ligando um lado do bosque ao outro, fazendo uma trilha florestal aonde "o bom povo poderia se divertir". Fora assim por um tempo.
Jerome mesmo levou muitas namoradas ali para se beijarem na ponte, algo bem romântico. Mas agora ninguém mais ia nos bosques, e quando ousavam ir: Sumiam.
— Olha ele ali. — Elliot alertou de supetão enquanto andavam na terra batida das trilhas.
Jerome, que sempre se achou corajoso, percebeu que era não apenas humano, mas medroso.
Lá estava o palhaço, no meio da balançante ponte sustentada por cordas de aço presa em vigas dos dois lados do cânion, e as vigas eram tratadas para parecer de madeira, mesmo sendo aço fundido. Enquanto o vento soprava sua peruca de cabelos vermelhos e amarelos balançava de forma fantasmagórica com neblina passando por trás e pela frente. O macacão amarelo, verde e azul tinha uma horrenda mancha vermelha cintura abaixo e o palhaço não se segurava nas bordas da ponte, ficava em pé sem se desequilibrar, balançando junto da ponte.
Jerome e Elliot estavam ainda na base da ponte e o palhaço nada fez além de olhar para eles, sua maquiagem daria inveja no coringa do Batman de tão horrenda que estava.
A gente veio aqui para isso. Jerome pensou, ousado, suplantando seu pavor inicial por fúria e por ansiedade de ser reconhecido e adorado pelo povo da cidadezinha. Estamos ao vivo. Todo mundo vai ver se você fugir! Pensou, forçando-se a agir.
— Que merda é essa cara? Não é nem 7 da manhã. De onde você veio? Cadê a Nancy? — Jerome inqueriu, sem respostas, e o palhaço então lançou para eles um olhar direto.
Mexeu-se, tão pouco, mas se mexeu.
— Ele tem uma faca? — Elliott perguntou com um olhar de terror. Jerome olhou para o palhaço enquanto o cutelo pequenino caia-lhe de dentro da manga como se fosse uma lâmina oculta de Assassin’s Creed.
— Merda, ele tem uma faca. — Jerome repetiu o que Elliott havia dito, entrando em completo torpor. Ele mesmo tinha um canivete, mas nunca usara, nunca precisou. E por um bom motivo: — Não mexe comigo! Eu sou filho do xerife!
Mas para o palhaço aquilo não pareceu significar coisa alguma. Aliás, sequer parecia que o palhaço entendia a língua deles. Sequer parece que ele é humano!
Jerome e Elliott começaram a recuar, dando passos de costa enquanto o palhaço avançava contra eles em lentos passos. Elliott ainda filmando, mas agora de forma desajeitada e tremula.
— O que a gente vai fazer? — Perguntou com a voz chorosa.
— Fica ai! — Jerome berrou para o palhaço uma última vez. Uma última tentativa. — Meu pai vai acabar com você!
E o palhaço começou a correr!
Jerome e Elliott tropeçaram, giraram, e dispararam em corrida pela estrada de terra. Se tinham alguma vantagem em distância entre eles e o palhaço, essa logo se perdeu. E se Jerome tinham alguma valentia ou coragem, a urina escorrendo entre as pernas provou o contrário.
Os palhaços, pois surgiu outro sabe-se lá de onde, alcançaram os dois. O celular caiu no chão filmando nada além de escuridão, câmera contra a terra. Gritos.
Os gritos aumentaram de forma quase impossível de se associar com humanos. E então cessaram sem mais nem menos. Grunhidos foram ouvidos, como pancadas e reclamações silenciosas. Então, quase quatro minutos depois do celular cair no chão, o palhaço o pegou.
O último segundo de transmissão fora de um sorriso macabro sujo de sangue nos lábios e um ódio nos olhos, um ódio sem sentido e sem sentimentos.
E a transmissão assistida por 17 testemunhas via Facebook foi encerrada assim.
Isso tudo aconteceu no Domingo. Segunda-feira os corpos foram encontrados mutilados e espancados e sem as línguas no bosque pelos guardas. E o xerife Anderson que nada fizera... ainda nada fazia. Incapaz de ir até o corpo do filho, assistia o vídeo em choque em seu escritório na delegacia.
— Meu filho. — Repetia, sem saber como agir.
Chorou, raivoso, por toda a manhã. E se antes ninguém nada fizera, agora o xerife jurara: Os palhaços pagariam. Pagariam com suas vidas!
E então o telefone tocou. Xerife Anderson tirou-o da base, suas mãos tremendo.
— Alô? — Perguntou, sua voz quase que inexistente sem sair pela garganta.
— Xerife... — Era a voz da diretora Shaylisse. — Eu sei que o momento é inoportuno, mas... não sei bem como dizer isso, poderia vir até a escola?
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