Clown Town

4 Hide-and-seek


Notas iniciais
Um capítulo rápido e sucinto para contar um pouco sobre a história de um certo alguém :) Espero que gostem!

A casa de Maise era tão próxima da escola que Josh podia ir a pé em questão de minutos. Como a pressa o impelia a correr, o tempo já curto se encurtou mais ainda. Não podia, afinal de contas, dar-se ao luxo de demorar. Maise poderia estar correndo risco de vida, isso se já não estivesse morta, como muito temia.

Algo despertava esse temor dentro dele, uma incerteza que o fazia desejar parar ali mesmo e fazer o que seu pai fizera toda a vida. Você vai conseguir salvar ela. Você vai!

Era como uma maldição. Seu pai havia morrido no acidente de carro anos atrás, mas o motivo ele sabia, o real motivo, o que matara o velho não fora o acidente, mas sim o álcool. E este só o fez porque seu pai estava tentando compensar por algo que havia deixado de fazer muito antes. Como soldado que era, seu pai tinha um dever, tinha, nas guerras que lutou, vivido. O que era mais que o bastante para receber medalhas, mas do que adiantava as medalhas?

Josh não tinha vivido o bastante para decorar as histórias, mas se lembrava do pai a tagarelar de como haviam lhe dado uma medalha por ele ter carregado metade do corpo de seu melhor amigo para fora de uma vala, para que metade fosse enterrada, porque a outra metade sabe-se lá que fim tinha levado.

Foram as derrotas mais que as vitórias que causaram a morte do pai de Joshua. Os fantasmas batendo à porta diariamente trazendo as lembranças que ele fora incapaz de salvar seus irmãos de guerra impeliram o grande herói condecorado ao álcool, e, posteriormente, ao fundo da terra. Josh sentia-se vítima da mesma propensão.

Só de pensar em falhar com Maise, sentia-se indigno da própria vida. Como poderia viver se não podia salvar aqueles com quem se importava? E como se importava com Maise! Pensava, às vezes, que a amava.

E por isso não poderia aceitar falhar com ela. Não chegarei tarde demais para você! Não puxarei seu corpo de uma vala! Dizia para si mesmo enquanto corria pelas ruas arborizadas do bairro.

A cidade de Birchville é tão pequena, mas mesmo assim distante certas coisas das outras. A prefeitura mesmo fica do lado oposto aonde ficava a escola, sendo assim a prefeitura era longe, quase que nas extremidades opostas de onde estavam as casas.

Josh não via, ali nas ruas residenciais, muita movimentação. Era ainda manhã e o pessoal de Birchville não é do tipo que anda com cachorros e coisas assim.

Ele continuava ligando, mas Maise não atendia. Quando chegou na porta da casa de Maise encontrou tudo fechado. Subiu os degraus na varanda e bateu na porta, tocou a campainha. Nada. Sabia que se Maise estivesse ali, estaria sozinha.

— Maise! — Chamou, alto. — Maise, Maise!

Aumentou a força das pancadas na porta como se fosse um invasor, como se fosse necessário a todo custo entrar ali... e se ele já entrou? Se alguém iria invadir a casa, antes fosse ele e não um assassino.

— MAISE! — Pulou, batendo seu ombro contra a porta, para forçá-la a abrir.

— Menino. — Uma velinha chamou-o, na rua. — Eu vou chamar a polícia.

— Senhora Johnson. — A voz de Maise despertou um momento de esperança em Joshua.

Josh recuou então, desceu os degraus da varanda até poder ver o segundo andar da casa, aonde Maise estava na janela, usando seu pijama lilás.

— Está tudo bem Senhora Johnson? — Um homem saindo da casa ao lado da de Maise perguntou.

A Senhora Johnson usava camisola e o homem estava com calças de dormir e uma regata branca. Visivelmente tinham acordado com o escândalo de Josh. Outras casas no decorrer da rua também estavam abrindo suas portas, mas a casa ao outro lado estava vazia.

— Maise, desce agora. Desce aqui.

Maise sumiu pela janela, voltando para o interior de seu quarto.

— Menino...

Josh ignorou a Senhora Johnson, então correu para a porta de novo.

Quando a porta foi aberta Josh pulou contra Maise, abraçando-a com força sentindo o cheiro de seu corpo.

— Mataram Octavia e Trevor. Mataram Elliott e Jerome. Todo mundo que viu o vídeo. A gente tem que sair daqui. Eles vão vir atrás de você. — Josh começou a falar, mas então Maise o fez parar. — Eles estão vindo...

— Minha mãe pirou com isso ontem, mas você também? E o que é isso com a Octavia?

— Ei! — Lá na rua o homem de regata chamou, nervoso, por alguém. — O que você tá fazendo ai?

Então Maise e Josh desceram pela varanda à rua. A senhora Johnson estava ali ao lado deles. Mais pessoas saiam das casas.

Josh não vira, mas Maise sim, ela apertou o braço de Josh, tremendo como se tivesse visto um fantasma, mas na verdade era um palhaço. Escondido atrás de moitas para o jardim dos fundos de uma casa com placa de vende-se.

— Sai daí. — Dizia o homem de regata em um tom nervoso. — Quem é você? Acha isso engraçado? Sai Daí!

E então, com uma gutural risada mistura com um estridente grito, o palhaço se virou e saiu correndo para o interior da casa a venda com suas roupas pomposas e coloridas balançando. Assim que entrou sons de metal foram ouvidos como panelas caindo, pancadas, vidro quebrando e risadas ecoando pelos cômodos.

Só então Josh notou que já havia mais de dez adultos ali na rua, e todos convergiam sua atenção para a casa a venda, para o palhaço assustador criando uma oportunidade.

— Temos que sair daqui. — Josh disse.

— Eu não posso deixar a casa. Minha mãe vai voltar no almoço e...

— Vamos para a delegacia. — Josh disse para Maise, olhando-a nos olhos grandes e acastanhados, os cabelos encaracolados e as sardas. A expressão de terror no rosto dela lhe deixava triste, mas não poderia ceder, não poderia deixar que ela ficasse ali sozinha. — O xerife vai te proteger. Mas vamos agora!

E sem hesitar aproveitou das distrações criadas com a fuga do palhaço para fugir com Maise. Josh pensou que teria medo, que fosse tremer e sentir-se fraco. Mas não. Agora, com Maise em seu poder, podia se sentir forte. Era como se fosse, de fato, um herói. Sentia-se digno de uma medalha, mas ainda era inocente e não sabia; os perigos só haviam começado.