Closer
19 Sr. Compositor
Notas iniciais

— Ah, eu amo esse episódio! — Sakura dizia animada e puxando a manga da camisa do rapaz ao seu lado. — É aquele em que a Marge vai fazer lipo e eles a deixam com uns peitões por engano — ria só de lembrar.
— Sim, mas é um dos velhos — protestou o Uchiha. — Prefiro os novos.
— Larga de ser chato — revirou os olhos. — Tudo bem, a animação fez um progresso colossal, mas os episódios são maravilhosos desde a primeira temporada! Vai, põe aí!
— Tá bom, tá bom… — cedeu à vontade da garota e selecionou o episódio desejado.
Ela se ajeitou no sofá e ele comeu a última fatia dos tomates que ela havia lhe preparado. Sakura o viu lamber os beiços assim que enfiou a rodela suculenta na boca.
— Sasuke... — puxou o controle da mão dele e pausou o episódio que mal havia começado — Posso te fazer uma pergunta?
— De novo? — ele suspirou.
Sakura não havia parado de tagarelar um minuto enquanto fazia a salada de tomates para ele. E Sasuke, que esperava pacientemente sentado à mesa, sentia-se mais que aliviado por ela não fechar aquela maldita boca.
Após o desentendimento dos dois, seguido pela belíssima cena de desculpas, resolveram estreitar os laços.
Bem, Sakura resolveu. Sasuke apenas a seguia em silêncio com um meio sorriso brincando nos lábios.
Quando se sentaram no sofá e Sakura pediu que vissem um pouco de TV juntos, ele achou que ela finalmente ficaria quieta por alguns momentos. Só que não foi isso que aconteceu.
— A última da noite — riu. — Por que gosta tanto de tomates? — ele a olhou.
— O quê? Você só tem mais uma pergunta e é essa? — provocou Sakura que só soube soltar mais uma gargalhada.
— Vamos, responda — queria saber.
— Eu não sei, garota. Apenas gosto — ela pareceu meio desapontada com a resposta. — Minha vez de te fazer uma pergunta.
Sakura o fitou com curiosidade. Ele não tinha lhe perguntado nada até aquele momento. Tinham conversado muito na cozinha, é verdade, mas aquilo estava mais para um monólogo dela com umas frases soltas aqui e ali que saíam de Sasuke.
— Pois bem. Faça — soergueu uma sobrancelha, como se o desafiasse.
— Por que coloca canela nos tomates? — Sakura esperava qualquer outra pergunta, menos aquela.
Ela sorriu abertamente. Um desses sorrisos tão grandes que os olhos se fecham, o nariz encolhe e as maçãs do rosto se elevam.
— Minha mãe era uma grande fã de canela. Colocava principalmente em doces e bebidas quentes. Quando percebi isso, fiz questão de tentar lhe fazer uma surpresa... — Sasuke já imaginava o que havia acontecido e ria com os olhos. — Um dia, enquanto ela fazia o almoço, fui sorrateiramente até as panelas e despejei canela em tudo. Depois joguei no suco e até na salada de tomates. No fim das contas, mamãe teve que cozinhar tudo de novo, já que ficou horrível. Exceto os tomates. — suspirou com a memória. — Ficou tão bom que ela passou a fazer sempre daquela forma.
— Então foi um acidente? — ela assentiu. — Que acidente feliz...
— E você? Por que gosta de canela nos tomates? — tinha certeza que ele iria dar a mesma resposta de antes.
“Eu não sei, garota. Apenas gosto.”.
Porém, Sasuke suspirou e passou a mão pelos cabelos. Não via problemas em contar a ela.
— Meu irmão fazia assim — Foi breve e Sakura sentiu uma súbita vontade de abraçá-lo novamente.
— Um ótimo gosto — tocou o ombro do rapaz rapidamente, com medo de ser rejeitada.
— Sim... — sorriu com a lembrança do irmão mais velho.
— Você fica muito bem sorrindo, Sasuke — pronunciou distraidamente, enquanto suas mãos buscavam pelo controle para destravar a tão amada animação.
— Fico bem de qualquer forma — disse convencido e com uma pitada de humor, conseguindo arrancar uma risada de Sakura.
— Tá certo, Sr. Fodão — antes que voltasse à televisão, sentiu que poderia fazer mais uma pergunta a ele. — Sasuke, desde que cheguei aqui, acabei acordando muitas noites com certo alguém arranhando um violão — soou sugestiva.
— Já esgotei minha cota de desculpas, Haruno — Sakura riu.
— Não, não é isso. A melodia que eu ouço nessas ocasiões... Eu nunca ouvi antes. Mas eu a acho muito bonita. Qual o nome? — mordeu o lábio com medo de ter sido invasiva demais com o Uchiha que estava começando a ceder.
Sasuke a olhou sério, se levantou e subiu para seu quarto em silêncio. Sakura baixou o olhar, se amaldiçoando por ter forçado algo que, provavelmente, era bastante íntimo para o rapaz.
Quando cogitou a ideia de subir atrás dele, seus olhos bateram na imagem de Sasuke voltando para a sala com algo em suas mãos.
Era seu violão.
— Sasuke, o que você... — foi cortada.
— Não era você que estava toda curiosa? — soltou um charmoso riso unilateral. — Não posso te dar o nome da música porque não existe. É minha. Eu costumava compor bastante — sentou-se e pôs o violão em seu colo. — Mas ando meio parado agora que só tocamos covers.
— E aqueles arranhados?
— Esses? — ele deslizou preguiçosamente os dedos pelas cordas enquanto variava os acordes e os recombinava. — Não é nada concreto ainda. De qualquer forma, é só uma melodia... — tocava automaticamente.
— É tão bonito... — suspirou e se deixou envolver pelo som tão gostoso. — Precisa me passar a cifra. Ficaria linda no piano.
— Não é difícil de decorar... — observava as mãos rápidas de Sasuke trocarem os acordes — Vê? Mas de que lhe serve uma música sem letra?
—... E você só queria uma chama pra queimar suas memórias... — ela fechou os olhos e sussurrou no ritmo em que Sasuke tocava.
— O que está fazendo? — ele parou imediatamente.
— Tentando uma letra? — riu. — Não aceita parcerias, Sr. Compositor? — pegou o violão das mãos do Uchiha — Como era? Lá, lá... — repassou os acordes mentalmente e os tocou suave, com medo de errar. — Hm... lá, lá, lá... Só pra ver, testemunhar... E nada nesse mundo há de apagar, pois somos... lá, lá... — mantinha os olhos fechados e deixava que as palavras se formassem em sua mente e desenrolassem em sua língua. — Talvez fique melhor se for dedilhado nessa parte... Tudo o que importa é o agora e nada mais...
A voz calma e mansa entrando pelos ouvidos atentos de Sasuke. Já podia sentir os cabelos da nuca se eriçarem. Era involuntário. Bastava ouvi-la para que todo seu corpo provasse daquela sensação gostosa de formigamento.
— Não sei, algo assim... — viu o olhar de Sasuke fixo em si. — Desculpe, não gostou? Eu não devia... Sei que não ficou bom e nem nada do tipo... — estava embaraçada pelo olhar duro e as palavras que saíam de sua boca iam se atropelando. — Eu só juntei umas palavras...
— Não, estava bom. Eu gostei — passou o dedo indicador pelo contorno da bochecha de Sakura — Combina.
Não tinha como negar. Estava encantado pela garota.
— Pare de passar a mão na minha cara do nada — ela ralhou e corou até a raiz do cabelo. — Eu fico desconcertada! — Sakura riu e pensou que ele também riria e tiraria a mão de seu rosto.
Mas Sasuke não o fez.
Intensificou o toque, espalmando toda a mão na amura de Sakura. Ela estatelou os olhos, enquanto ele continuava com o mesmo olhar indecifrável. Estavam próximos e Sasuke parecia querer acabar com o pouco espaço que ainda os separava.
Sakura umedeceu os lábios rosados, já ansiando pelo inevitável. Quanto mais se aproximavam, mais ela fechava os olhos. Não lembrava mais como respirar. Sua tez estava quente. Tão quente que Sasuke pôde sentir e, se tocasse os joelhos dela, constataria a tremedeira.
Queria beijar a adorável boca da dona da voz que o fazia sentir coisas engraçadas. Por Deus, como queria. E estava tão perto, tão próximo. Mais alguns centímetros e os lábios se uniriam. Estava quase lá...
— Adivinha quem não pegou nenhuma D.P. nesse semestre? — Naruto abriu a porta com tudo em meio aos seus costumeiros berros. — Isso mesmo, neném! Eu!
— Jesus! — Sakura assustou-se e pulou no sofá, batendo a mão no braço do violão e o fazendo ir de encontro com o rosto de Sasuke. O som do baque ecoou pela sala junto à vibração de algumas das cordas.
— Ai! — o instrumento tinha batido com muita força em seu nariz.
— Meu Deus do céu, me desculpe — olhou para Naruto. — Não bate mais, Naruto? Que susto — puxou o rosto de Sasuke. — Deixe-me ver! Machucou? Tá sangrando? — repuxava desesperadamente a cabeça do moreno pros lados na tentativa de observar o nariz de todos os ângulos.
— Não, Não. Eu tô bem. Ai, Sakura! — deu um tapinha na mão da menina quando ela apertou seu nariz na tentativa de descobrir pelo tato se havia quebrado algo.
— Perdão, perdão! — era evidente sua afobação. Sakura não sabia qual emoção sentir primeiro. Estava totalmente atrapalhada.
— O que vocês estavam fazendo? — Naruto, todo sorridente, se jogou no sofá ao lado.
— Nada! Nada! Absolutamente nada — Sakura se levantou envergonhada. — Eu vou para o meu quarto. É, para o meu quarto. Boa noite.
— Ainda são seis e meia — Naruto tentou.
— Boa. Noite. — disse pausadamente e subiu.
— Credo, o que deu nela? — olhou para o amigo que segurava o nariz com as sobrancelhas unidas e a boca franzida. — Machucou, cara?
— O que você acha? — o som saiu nasalado. — A culpa é sua!
— Minha? Foi a Sakura qu-
— O que veio fazer aqui? — estava claramente irritado.
— Como assim? Eu moro aqui! Vim pegar meus materiais antes de partir pra universidade. Você vai cabular aula hoje de novo? Sabe, não é bom ficar matando aula assim, viu? Além do mais... — Naruto arregalou os olhos, lembrando-se da data. — Ah... Eu esqueci completamente, Sasuke... — coçou a nuca.
Sasuke bufou e também foi para o andar de cima, se trancando em seu quarto.
Jogou-se na cama e largou o violão ao seu lado. Que merda estava sentindo? Ainda mais naquele dia em especial. Um dia tão negro pra ele e seu peito parecia se encher de algo que não era tristeza.
— Saco — bagunçou furiosamente os cabelos e olhou para o violão.
Passou os dedos pela madeira do instrumento com calma, apreciando a superfície lisa. O violão era tão escuro quanto seus olhos. Ergueu o corpo e suspirou. Acendeu a luz, pegou um caderno de capa preta que ficava dentro de uma gaveta em seu criado-mudo, apanhou também uma caneta e ajeitou o violão no colo.
— Como era? — tentava se lembrar da linda música que havia saído de Sakura —... Uma chama pra queimar suas memórias... Só pra ver, testemunhar... — cantarolava e anotava, fazendo algumas mudanças aqui ou ali — Hm, sim... — anotava avidamente.
Sua inspiração parecia ter voltado justamente naquele dia.
Em seu quarto, Sakura estava deitada na cama, olhando para o teto. Estava imóvel. A única parte de seu corpo que se mexia era seu peito num rápido movimento enquanto respirava com dificuldade.
— E se Naruto não tivesse chegado? — cogitou. — Deus, não! O que eu estou pensando? — agitou a cabeça, mas aquele sentimentozinho estranho não sairia tão rápido de seu coração que tamborilava depressa.
Fechou os olhos por alguns segundos e ouviu, mesmo que baixinho, a melodia de Sasuke. Ousou sorrir. Um sorriso débil, abobado.
— O quê? Não! — repreendeu-se. — Sakura Haruno, não se atreva — ouviu a voz baixa sussurrar a letra que ela havia cantado há pouco e sorriu novamente. — Ele gostou... Tudo o que importa é o agora e nada mais... — cantarolou baixinho junto dele.
Estava ficando mexida demais com o que Sasuke fazia ou deixava de fazer. Aquilo acabaria se tornando algo perigoso.
— ὡѼὠ —
Era quase meia-noite quando Gaara pisou naquela casa que ele ainda tinha a coragem de chamar de lar, mesmo passando mais tempo fora que dentro dela.
Estava indo para a casa de Neji e precisaria de algumas coisas. Além, é claro, de Sasuke.
Entrou em seu quarto e se armou com o que precisava. Naruto já estava lá junto da quase namorada. Riu ao pensar naquilo. Não acreditava que se amarraria tão fácil a alguém.
Saiu de lá e, quando ia bater na porta de Sasuke, ouviu o som bonito que vinha lá de dentro.
Gaara nunca tinha ouvido aquela música antes. Podia escutar a voz baixa de Sasuke sussurrando umas palavras vez ou outra. Ele parava um pouco e logo continuava.
Abriu a porta sem cerimônias e pegou Sasuke sentado em sua poltrona com o violão sobre o colo e o caderno negro ao seu lado com alguns rabiscos e anotações.
— Estou indo pro Neji. Você vem? — Sasuke assentiu. — O que está fazendo?
— Nada, eu... — leu algumas palavras por cima. — Resolvi compor.
— Uou! Isso é muito bom! Não sabe como me alegro em ouvir isso — abriu um sorriso enorme. — Mas... Logo hoje? — nunca achou que, de todos os dias do ano, Sasuke se dedicaria à música justamente naquele.
— Não sei — deu de ombros. — Deu vontade.
— Posso? — apontou o caderno e Sasuke o estendeu para ele. — Sasuke, está muito boa... — lia as frases formadas e algumas palavras soltas aqui e ali. Encantava-se a cada letra. — Vai ficar maravilhosa.
— Ainda é só um esboço — dedilhou o violão.
— Como se chama? — Sasuke ficou pensativo por alguns segundos.
— Poeira estelar — decretou. O nome combinaria com o que estava pensando.
— Quer ensaiá-la hoje? — ele fez que não.
— Não está pronta. Paciência, meu amigo — levantou-se e foi buscar uma muda de roupas.
— Não é sempre que Sasuke Uchiha acorda inspirado — bateu de leve nas costas do amigo. — Enfim, te vejo lá. Estou indo. — devolveu o caderno e foi embora.
Sasuke apreciou as palavras por um tempinho. “Não é sempre que Sasuke Uchiha acorda inspirado”.
De fato, não era sempre. Tanto é que ele não havia acordado inspirado. Havia ficado.
E fora por causa dela.
Fale com o autor