Notas iniciais
Pra mostrar como nossa querida Sakura veio pra ficar, um capítulo focado única e exclusivamente nela. Então espero que gostem. E uma boa leitura ♥

Sabe quando se tem aquela sensação horrível de que alguém te odeia assim que põe os olhos em você?

Sakura estava péssima. Por mais que dissesse a si mesma que Sasuke e aquele aparente ódio gratuíto dele podiam ir pro inferno, era impossível não se sentir incomodada.

Era seu primeiro dia e já sentia que ele a odiava de todas as formas possíveis.

Tudo bem, talvez fosse exagero dela. Mas era fato que ele não ia com sua cara.

Ligou seu pequeno dispositivo de áudio e colocou para tocar uma playlist clássica recheada de Bach e Mozart. Era apaixonada por aquelas músicas.

Deixou o som baixo para que apenas ela conseguisse ouvir ouvir.

Tinha gostado muito da casa. Era aconchegante, confortável, tinha um quarto apenas para si e dois dos outros três moradores eram adoráveis. O melhor era que não sentia nenhum pouco de saudade da casa antiga.

Começou a assobiar no ritmo barroco da música que tocava. Canon, de Pachelbel, tocava na versão de Bach para três violinos e um cello. Aquela era sua versão predileta. Ganhava até da original.

Ela não queria que ninguém ali soubesse do amor e da ligação que tinha com a música, ainda mais depois de saber que tinham uma banda. Amava música e queria que sua vida dependesse dela, mas, como seu próprio pai havia lhe dito, querer não é poder.

Sakura, mesmo emanando toda aquela confiança e simpatia, era uma menina instável. Desde muito cedo, sofria com o bullying graças ao seu porte robusto e a falta de interação social na escola. Não tinha amigos e não tinha irmãos. Aos seis anos, a única companhia que tinha era a babá e um livro que adorava. A parte mais feliz de sua vida era sua doce família. Uma mãe amorosa, um pai divertido e o afeto e amor incondicional de ambos. A melhor parte de seu dia era quando seus pais chegavam em casa, preparavam o jantar, lhe davam banho, e ficavam consigo durante uma hora antes de colocarem-na para dormir. A hora mais alegre para Sakura.

Uma pena aquilo ter sido tirado de si.

Quando tinha oito anos, a mãe lhe fora brutalmente arrancada dos braços. Vítima de um horrível acidente, a mulher havia morrido em um trágico desastre. Os pais de Sakura, mesmo compartilhando de um amor mútuo, brigavam sério uma vez ou outra. E eram brigas feias, onde pratos acabavam espatifados no chão. Após uma dessas brigas, a mãe de Sakura saiu enfurecida de casa, dirigindo imprudentemente seu carro. Naquele dia aconteceu. Logo o pai recebeu um telefonema estranho dizendo que um carro registrado em seu nome havia perdido o controle, derrapado na pista e colidido com um ônibus.

Felizmente, nenhum passageiro do ônibus saira ferido. Já Mebuki, a mãe de Sakura, tivera uma morte imediata.

O pai de Sakura, a partir daí, passou muito menos tempo com a pequena. Um homem antes risonho e divertido, acabou se fechando em sua própria angústia. Arrumou uma babá disposta a cuidar da garota 24 horas por dia e dobrou seu trabalho. Não tinha tempo nem para si. Estava ficando doente. Nem imaginava o quanto sua filha sofria com tudo aquilo. A morte da mãe, o afastamento do pai e nada nem ninguém em quem pudesse confiar. O homem via apenas sua própria dor, enquanto o coraçãozinho dela era quebrado várias e várias vezes.

Quando Sakura tinha dez anos, a babá da menina percebeu a dificuldade que ela tinha para fazer amigos e como sofria na escola quando, um dia, chegou em casa toda machucada e mordida. Contou aquilo ao pai, mas ele apenas a mudou de escola. Lugar diferente, pessoas iguais. Problemas psicológicos gravíssimos começaram a aparecer na garota e a perturbavam, fazendo com que ela tentasse apagar as dificuldades comendo tudo que visse pela frente. Tinha sérios problemas e o pai parecia não se importar o suficiente para parar um pouco e amá-la. Assim, Sakura cresceu sem o amor de nenhum dos pais, o que em nenhum momento de sua vida lhe fez bem.

A babá, sem saber o que fazer para alegrar a menina, passou a levar um violão para o trabalho todos os dias. Sakura, antes tristonha e caída, passou a ficar alegre. Amava quando a mulher tocava para ela algumas canções folclóricas, músicas bonitas e com um ritmo gostoso.

Quando tinha onze anos de vida, viu sua babá ser demitida por ser acusada de roubar coisas de sua falecida mãe. O pai, muito ocupado, sem criadeira e sem saber o quanto fazia mal para a própria filha, só encontrou um jeito que ocupar a menina todos os dias: atividades extracurriculares.

Colocou-a em cursos de linguagens, artesanatos, culinária e, o que Sakura mais havia gostado, o curso de música onde aprendia a tocar piano.

Aos doze sua professora de música percebeu o quanto ela tinha talento e a convidou para experimentar fazer uma aula de canto. A voz da Haruno era amável. Linda. Com pouca idade, já tinha fortes cordas vocais. Só precisava lapidar aquele bruto diamante. Passou a frequentar psicólogos assim que alguns de seus professores — não só escolares — começaram a apontar os problemas sérios no humor da menina. E seu pai, como de costume, só se lembrava de Sakura na hora de pagar as contas.

Fora diagnosticada com depressão, distúrbio de ansiedade e transtorno alimentar e passaram a tentar de tudo para não agravar seu isolamento social. começou seus tratamentos da forma mais triste que poderia: sozinha.

Assim que entrou em seus quinze anos de idade, algo começou a incomodá-la. Não sabia mais quem era e nem o que queria. A única coisa de que tinha certeza em sua vida, era de que amava música. No decorrer do tempo, não ficou apenas com piano e canto. Deu início a aulas de violão e violino.

Num momento de fraqueza e várias crises e surtos, Sakura passou a se drogar. Virou uma completa irresponsável. Seu rendimento escolar estava caindo e cada vez mais seus braços apareciam com marcas roxas de seringas. Chegava tarde em casa, cabulava aula e a única companhia que tinha eram os instrumentos que tinha. Era uma largada sem mãe e com um pai extremamente ausente.

Sua vida mudou quando, nove meses depois do começo de sua jornada no mundo das drogas, chegou em casa passando mal. Vomitando até as tripas, a menina acabou perdendo a consciência no banheiro e lá ficou desacordada. Até que seu pai, por uma coincidência, precisou ir até a casa pegar uma pasta com documentos importantíssimos. No momento em que entrou, viu a garota moribunda jogada ao chão, deitada em seu próprio vômito.

Aquilo o desesperou. Por mais que não demonstrasse, Sakura era seu único bem precioso.

Precisava cuidar mais dela e foi aí que, pensando estar evidenciando todo o seu amor, a mandou para um internato apenas de meninas logo após um período na reabilitação. Lá, conseguiu retomar suas inúmeras aulas musicais. Passou três longos anos de sua vida sentindo saudades e imaginava que, quando voltasse, seria recebida por um pai amoroso e arrependido.

Ledo engano.

Completados seus estudos no internato, Sakura, que havia voltado a ser aplicada, mandou uma carta à universidade de Julliard com seu currículo musical impecável junto de um vídeo seu mostrando as habilidades que tinha. Seu sonho era cursá-la, mas desistiu quando seu pai lhe disse que havia planejado tudo para que fosse aceita em uma renomada universidade de medicina. Nem chegou a contar sobre Julliard. Quando o pai lhe contou os planos, viu os olhos sofridos brilharem tanto que não conseguiu dizer o que devia ter dito. Queria o apoio do pai quando fosse para a faculdade e pensou que ele não a incentivaria na escolha de uma universidade diferente. Ainda mais uma faculdade artística fora do país. Após tudo que passaram, não queria decepcionar o pai mais uma vez. Mesmo tendo sofrido muito por causa dele, ainda o amava demais e queria tentar fazê-lo feliz novamente.

Então pediu mais uns anos de estudos, afirmando não estar preparada para cursar algo como medicina com apenas dezenove e o pouco conhecimento que tinha. Sakura ainda era jovem e não tinha motivos para não ceder a ela um pouco mais de tempo. Encontrou o melhor curso preparatório do país e reservou uma vaga para sua filha. Foi aí que o pai procurou um local para que ela morasse, escolhendo o sobrado dos rapazes.

Ela nem contou que, alguns meses depois, havia sido aceita em Julliard. Mas não fazia mal. Não iria para lá mesmo.

Havia gostado do sobrado dos garotos e pretendia terminar os estudos. Talvez conseguisse enrolar por mais tempo. Não sabia o que viria depois, mas, às vezes, pensava em Julliard como uma possibilidade.

Sakura bocejou. Era pouco mais de três da tarde. Estava sonolenta e cansada graças à viagem e todas as coisas que já tinha feito só naquele dia. Levantou-se apenas para arrancar a calça que usava e se jogou na cama macia de novo, querendo uma soneca deliciosa.

O quarto era repleto de música. Dois violões estavam encostados ao lado de um violino dentro do case. Perto do canto direito do quarto, um piano feito em madeira rústica envernizada com teclas bem cuidadas, porém, meio gastas. Um abajur em forma de clave do sol enfeitava a cômoda e em sua mesa de estudo estavam espalhados não só muitos cadernos, livros e apostilas; mas, também inúmeras partituras, cifras, tablaturas, letras e cadernos pautados. Fora os vários livros com temática musical e uma caixinha cheia de palhetas que estava graciosamente repousada sobre a penteadeira.

Sakura repousou os olhos sobre o piano fechado e sorriu. Aquele havia sido um de seus melhores amigos durante anos.

— Amanhã temos hora marcada, hein? Assim que os garotos saírem para a aula, vamos barbarizar... — ela se virou, afofou o travesseiro e dormiu.

— ὡѼὠ —

Acordou três horas depois com a cara amassada e o humor péssimo. Coçou os olhos e foi para o banheiro. Estaria melhor se não tivesse dormido. Lavou o rosto de bochechas inchadas e escovou os dentes com uma pasta de dente nova que havia comprado.

— Hum! É melhor que a antiga.

O relógio marcava quatro e vinte e sete da tarde e sua barriga roncava de fome, mas a preguiça era mais forte. Sentou-se em sua mesa, plugou os fones de ouvido e, antes de colocá-los, captou um adorável som de violão.

Eram os primeiros acordes da música Stairway To Heaven. Sakura riu baixinho pelo nariz, em claro deboche. A música mais carne de vaca do mundo das cordas ecoava pela casa. Mas tudo bem, ela gostava.

Fechou os olhos e apreciou ao menos uns 40 segundos da música, até que, quem tocava, parou. Ela ouviu alguns murmúrios e resmungos antes que a música voltasse e parasse dez segundos depois. Começou a prestar mais atenção. Embora fosse apenas um violão que ela estava ouvindo, cada vez que parava, a música era retomada mais incrementada, como se estivesse, aos poucos, adicionando ingredientes. Ao fim, quando terminou, a pessoa tocou novamente a música. Sem pausas.

Deus, como era linda! Sakura quis ver quem estava tocando para lhe pedir a cifra e os acordes usados. Já se arrependia do deboche. Tinha sido personalizada de uma forma totalmente pessoal. Não acharia a música naqueles acordes em nenhum site, mas poderia tentar reproduzir. Será?

— Sasuke, vem cá! — Ouviu a voz esganiçada de Naruto gritar.

— Venha você aqui, palerma — Sasuke gritou de volta.

— Calem a porra da boca! — Daquela vez, a voz era de Gaara.

— Sasuke, vem cá — insistiu.

— Não vou, Naruto! E para de gritar! A menina tá dormindo no quarto ao lado, imbecil — Sasuke parecia nervoso.

— Não tô mais! — Sakura teve que se intrometer.

— Está te incomodando, Sakura? — Naruto gritou.

— Imagine se não — Gaara retrucou, já nervoso. — Que absurdo, não se pode nem dormir mais nessa porcaria de casa!

— Ninguém te chamou na conversa!

— Se eu levantar e for até aí, Naruto, te faço pedir perdão a Deus pelos seus pecados pessoalmente!

— As dondocas acabaram de brigar? — Sasuke satirizou.

— Ah, Sasuke! Vem cá!

A porta abrindo e fechando com violência seguida dos passos fortes fizeram Sakura tomar um sustinho e abafar o riso.

— O que você quer, pedaço de bosta? — Sasuke esbravejou e Naruto começou a tagarelar bem mais baixinho.

Sakura ouviu resmungos e suspiros e, depois, uma conversa baixa entre Naruto e Sasuke. Devia ser algo sério para que ela não pudesse ouvir.

Riu gostoso por mais alguns instantes e suspirou. Se isso fosse recorrente, se sentiria como uma mãe perto de suas três crianças.

Seus olhos se fecharam e ela sentiu uma alegria marota percorrer o corpo. Nunca havia vivido assim antes e tinha certeza que iria gostar.

Saiu da cama onde havia se jogado mais uma vez. Vestiu-se com uma camiseta larga com uma imagem desgastada e uma calça surrada e velha. Deu uma última checada no material para a aula do dia seguinte e foi para a mesa de estudos. Deu uma olhada nervosa Pelos livros e desistiu. Abriu uma das gavetas e puxou algumas cartas, todas endereçadas a ela. Entre elas, a de Julliard. Queriam-na como aluna tanto quanto ela queria estar por lá. Jogou a carta na gaveta outra vez e nem se deu ao trabalho de trancar. Queria se entreter. Colocou o headphone e começou a assistir um musical online.

Algumas horas depois, ouviu batidas na porta.

— Ah, olá… — cumprimentou o rosto desconhecido com a porta aberta o mínimo possível.

— Oi! Sou Tenten, como vai? — Uma belíssima moça de cabelos e olhos cor de chocolate perguntou com a mão estendida.

— Prazer, sou Sakura — saiu do quarto e fechou a porta com cuidado para que a menina não visse nada e apertou a mão dela. — Não sabia que tinha mais alguém morando aqui.

— Ah, não moro aqui! — Ela abriu um lindo sorriso. — Sou namorada do Neji.

— Neji? — Sakura fez um esforço. — É algum apelido pro Naruto, ou...

— O quê? Não, não! — Tenten deu uma gargalhada. — Neji não mora aqui. Ele é amigo dos rapazes. Naruto é um, Neji é outro.

— Ah, sim — riu, — Claro!

— Assim que cheguei me disseram que tinha uma pessoa nova morando por aqui e que era uma garota — Sakura alargou o sorriso. — É difícil passar a noite com os rapazes. Eles só fazem nojeira e “coisas de garotos” e, como eu estou sendo obrigada a ficar aqui até Neji voltar para casa, vim perguntar se você não gostaria de descer. Podemos conversar enquanto comemos pizza, o que acha?

Sakura pareceu pensar. Ainda não se sentia muito à vontade para participar de uma reunião amistosa, mas Tenten parecia ser realmente bacana.

— Tudo bem, Tenten! — ela sorriu e foi seguida por Sakura. Desceram a escadaria trocando algumas palavras

— Sakura, achei que não viria! — Naruto disse com um pedaço de pizza na boca.

— Olá pra vocês — ela sorriu.

— Aqui, aqui. Esse é o Neji, Sakura! — Naruto gritou apontando.

Do seu lado, Sasuke rolava os olhos enquanto um baseado roliço queimava entre seus dedos.

— Ah, muito prazer, Neji! Sou a Sakura. A nova moradora — falou e apertou a mão do rapaz.

— O prazer é meu — falou por cordialidade dando um mínimo sorriso. — Vejo que Tenten já foi encher seu saco.

Ela riu, mostrando a língua pro namorado e já puxando Sakura prum cantinho no sofá.

— E então, Sakura, de onde veio? — Tenten perguntou assim que os rapazes se distraíram com suas próprias vozes.

E se iniciou uma conversa que se estendeu até altas horas. Com certeza um certo alguém teria dificuldades para levantar na manhã de segunda.

Notas finais
Uma Sakura com um passado pesado? Hmmmm... Acho que muitos já perceberam que eu sou uma escritora de histórias loooooongas kkkkkkkk o fato é que eu gosto de detalhar bastante. Estou trabalhando nisso. Vou tentar enrolar menos ♥ Também queria saber se vocês gostariam que eu disponibilizasse links para as músicas citadas. Obrigada pela paciência e até o próximo!