Closer
6 Garotos são tão nojentos
Notas iniciais

Segunda. O dia mais odiado pelos estudantes. E, naquela segunda, foi odiado principalmente por Sakura Haruno. Queria que seu primeiro dia ali fosse bom e empolgante. Queria ter dormido ao menos oito horas e queria estar disposta, mas não foi bem assim.
— Ah... — o despertador do celular gritava e Sakura suspirava em profunda resignação.
Eram cinco e cinquenta e cinco da manhã. Sua aula começava às sete em ponto.
As olheiras em seu rosto eram terrivelmente visíveis e a pele, que costumava ter um tom rosado saudável, estava opaca e pálida. Sua cabeça latejava e suas pernas se recusavam a obedecê-la.
Tateou preguiçosamente o criado mudo ao seu lado até abrir a primeira gaveta. Levantou a cabeça com muito esforço e conseguiu identificar a cartela de comprimidos. Tirou dois e enfiou na boca, engolindo no seco.
Sakura sentiu que chorar quando percebeu que teria que sair da cama de qualquer jeito.
Depois de revirar até aceitar o fato de que tinha que se levantar, conseguiu sair do ninho quentinho e aconchegante e trancou-se no banheiro.
Havia conversado com a nova amiga, Tenten, até quase duas da madrugada. Assim que começaram o papo, Sakura se desligara completamente . Havia bebido, mas sabia que as taças de vinho e algumas cervejas não eram o real motivo da terrível dor de cabeça que enfrentava no banheiro. Conhecia seu corpo o suficiente pra saber que aquela noite mal dormida a tinha destruído.
— Ah, meu Deus... — Sakura praticamente se arrastava. — Tenho merda na cabeça… — as palavras saíam enroladas. Estava bêbada de sono e tentava, inutilmente, manter-se acordada conversando consigo mesma.
Abriu o guarda-roupa e mal conseguiu escolher um conjunto decente. Pegou a primeira camiseta que viu junto de um jeans escuro. Parecia estar fazendo tudo em câmera lenta. Enfiou um par tradicional de tênis nos pés, borrifou seu leve e adocicado perfume e desceu a escadaria quase morrendo.
Na cozinha, abriu a geladeira e seu estômago embrulhou com o cheiro que saiu. Precisava se lembrar de limpar aquele refrigerador. O negócio estava feio. Teria que apelar pro truque do bicarbonato de sódio e vinagre. Olhou as prateleiras em busca de algo que pudesse sustentá-la, mas parecia que nada estava bom o suficiente para consumo humano.
— Garotos são tão nojentos... — passou os olhos sonolentos por toda a geladeira, a esquadrinhando novamente e achou duas latas de energético na porta.
Pegou as duas. Uma ela enfiou na bolsa e a outra ela abriu para ir tomando. Bebeu um gole, balançou a cabeça e deu um pulo. Bebeu outro gole e ouviu a porta da casa se abrindo.
— Eu sei! — Naruto entrou gritando e gargalhando.
— Quando comi, pensei que... — Gaara interrompeu bruscamente a frase ao ver uma Sakura parada olhando para os três.
— Vocês estão chegando agora?
— Isso te incomoda? — Sasuke rebateu.
— O quê? Não! Claro que não — sorriu de uma forma que não combinava com seus olhos cansados. — Eu já estava de saída.
Ela foi saindo e bebendo o conteúdo da lata dourada e negra quase como se dependesse daquilo.
— Ah, e seja lá de quem for o energético, eu trago outro depois, ok? Preciso muito dele.
Os rapazes observaram a cabeleira rosa sumir no corredor indo em direção à garagem.
— É bom que ela reponha mesmo — Sasuke ralhou.
No carro, Sakura tratou de trocar o pendrive de músicas clássicas por um com a sua seleção de melhores bandas. Precisava se manter acordada.
Conforme a música tocava, Sakura batucava no volante e, às vezes, balançava a cabeça, fazendo com que os fios rosados dançassem num bonito tipo de caos.
O curso preparatório era dado em uma universidade. O campus era enorme. No estacionamento, passou por três vagas, mas alguém sempre passava na frente. Frustrada, Sakura bateu a cabeça no volante com o carro no meio do estacionamento.
— Droga! — Ouviu uma buzina.
— Ei — a buzina soou novamente em sua traseira. — Tem mais gente querendo vaga, querida.
Sakura respirou fundo e contou até três. Ainda não tinha percebido nada de bom naquele dia.
O carro que buzinava parou com o barulho e dirigiu devagar até ficar ao lado do de Sakura que abaixou o vidro.
— Ou, testuda — Sakura a olhou levemente surpresa pelo apelido.
Era uma belíssima loira de longuíssimos fios presos em um alto rabo de cavalo absurdamente benfeito. Os olhos azuis tinham um leve toque de arrogância e longos e maquiados cílios repousavam delicadamente abaixo das sobrancelhas loiras perfeitamente delineadas. O nariz empinado denunciava a plástica feita com maestria e os lábios pintados de pêssego se curvavam em um sorriso cheio de dentes brancos e perfeitamente alinhados.
— Como disse? — a menina riu e Sakura revirou os olhos. Não arranjaria briga ali, muito menos no seu primeiro dia. — Não encontro uma vaga. — Foi seca.
— Isso não é problema, vem... — a loira disse e começou a dirigir lentamente com Sakura a seguindo.
Parou alguns segundos depois perto de dois rapazes que saiam de seus carros estacionados lado a lado. Usavam jaquetas bordô de time.
— Rapazes! — ela acenou e os garotos a olharam imediatamente — A que horas começam os treinos da cheers hoje?
Ambos se entreolharam e riram.
— As cheers só ensaiam amanhã. Logo depois dos treinos de futebol.
— Não, não. O coordenador da liga esportiva enviou um e-mail a todos os responsáveis. Os treinos das cheers e os de futebol foram transferidos das terças e quintas para segundas e quartas. E você sabe como ele é enjoado com isso, né? — ela riu delicadamente enquanto Sakura via os dois ficando pálidos. — Eu só preciso saber se as cheers entram antes ou depois de vocês nesse novo horário — ela brincava inocentemente com uma mecha do rabo de cavalo jogada por sobre seu ombro.
— Cara, você sabe que a gente não pode perder esses treinos por causa da bolsa! Que inferno!
— Olha, espero de verdade que quem esteja atrasada seja você — o da direita disse À garota e deu um tapa no ombro do amigo. — Bora!
Ele assentiu depressa e tratou de entrar no próprio carro. Em dois segundos, já tinham arrancado para o ginásio onde os treinos aconteciam, localizado do outro lado do campus gigantesco.
.Sakura ficou observando atônita enquanto eles dobravam na próxima esquina.
— Voilà — ela sorriu e manobrou depressa, deixando a vaga ao lado para Sakura.
Ela também estacionou e, quando viu a loira começando a se afastar do carro, apressou o passo para alcançá-la.
— Ei, menina. Como sabia qu-
— Ah, o famoso diz que me disse. Questão de saber quem e onde. — ajeitava a gola de sua camisa branca muito bem passada. — Impressionada? — Lançou abusadamente uma piscadela para Sakura que a fez sentir o rosto esquentar.
— Obrigada pela vaga. Ia acabar perdendo a aula se não tivesse me ajudado.
— Oh, imagine… — ela voltou-se completamente para Sakura, deixando os cabelos roçarem pelo busto e ombro enquanto se virava.
Ela era tão bonita que hipnotizava.
— Então? Nova aqui? Transferida?
— O quê? Ah, não. Eu… É meu primeiro ano no preparatório daqui. Sei que a sala fica nesse bloco, mas não sei bem onde... Será que poderia-
— Oh, o preparatório? Ótimo, então já fez uma ótima amiga — ela rodeou o pulso de Sakura com as mãos macias e sorriu suave, a puxando. — Sou Ino.
— Sakura, prazer.
— O prazer é todo meu — Sakura sentiu a nuca arrepiar com o tom abusado da nova colega.
Sua vontade era a de perguntar se aquilo era mesmo um flerte ou eram só as circunstâncias de ter achado a garota realmente encantadora apesar de ter enganado dois rapazes sem qualquer remorso.
— Que bom que chegou cedo. Acabamos de começar os conteúdos. Assim não fica perdida. Mas posso me oferecer para ajudá-la, caso precise — riu com graça. — É sempre bom poder contar com uma amiga nesses lugares novos.
— Obrigada, Ino. É realmente muito simpática… — Ino viu quando ela desviou rapidamente os olhos, ficando desconcertada pelo seu comportamento e achou engraçado. Talvez aquela não fosse pro seu bico, mas na melhor das intenções.
Estava realmente precisando de uma boa amiga ali dentro.
— Aqui, essa é a nossa sala — Ino a empurrou para dentro sem hesitar. — Senta aqui, do meu lado. Assim posso ir te explicando tudo — o sorriso era bastante convidativo.
Sakura se perguntou se aquela garota estava ciente dos efeitos que sua presença causava em, provavelmente, qualquer um.
Bastou que se sentasse, Sakura sentiu uma sensação gostosa tomar conta de seu corpo. Estavam bem no meio dos alunos e ninguém perceberia se ela caísse no sono.
— Não durma na aula do Professor Truman. Ele vai te pegar no pulo e vai te ferrar nos exames. Vai por mim, experiência própria — Ino cochichou e Sakura estapeou o rosto.
Seria um dia e tanto.
Na casa dos rapazes, a diversão ainda rolava solta. Oito da manhã e ainda estavam viajando. Usavam um bong um tanto quanto cômico que com toda certeza pertencia a Naruto.
— Sasuke, bola um baseadinho, aí... — Neji pediu.
Sasuke assentiu e pegou uma seda da pequena caixinha que tinha na mesa de centro. Colocou um pouco de erva no meio e começou a enrolar com muita habilidade, mesmo já estando tão alto.
— Sabe quem deve saber fazer isso direitinho? — Gaara falou com a voz distante. — A menina que tá com a gente desde ontem...
— Quem? A Samela? — Neji perguntou.
— Não... É Sakura... — Naruto falou completamente entorpecido — Por quê?
— Ué... Ela não cursa medicina? — Gaara mais perguntou do que afirmou.
— Não, otário. Ela vai cursar... — Naruto riu bobo e praticamente desmaiou.
— E o que o cu tem a ver com as calças? — Neji cruzou os braços.
— É q ela deve ter uma boa coordenação motora, imbecil — Gaara concluiu, viajando em seus pensamentos.
Naruto riu alto.
— Precisão cirúrgica — e Gaara o acompanhou no riso frouxo.
Sasuke, que finalizava o baseado, olhou para a cozinha e tentou se lembrar do que Sakura havia pegado na geladeira.
— Ela roubou minha cerveja... — meio que ralhou pegando seu isqueiro.
— Energético — Gaara e Naruto corrigiram.
Mal se aguentavam acordados. Com os olhos fechados e sorrisos bobos, começaram a cantar canções e, mesmo errando a letra toda, não se importavam. Em questão de dez minutos, já estavam todos dormindo ou apenas quietos e estirados na sala de estar.
Como de costume, Era o fim perfeito praquele final de semana.
— ὡѼὠ —
Sakura acompanhava o tique-taquear do relógio de parede desde cinco minutos antes do fim da aula. Quase pulou de alegria quando acabou. Não via a hora de ir para casa e dormir algumas horas.
Com o celular vibrando pela chegada de alguma mensagem, Sakura entrou aliviada no carro e partiu para casa. No caminho para o sobrado, aproveitou e parou pra comer alguma coisa rápida. Não comeria nada que saísse daquela geladeira. Também deu um jeito de encontrar bebidas energéticas iguais às que havia roubado de manhã.
Deus a livrasse que fosse de Sasuke. O melhor era repor logo.
Chegou em casa já pensando no descanso que teria.
— Ah, que cansei-
Sakura estancou olhando para o estado deplorável da sala de estar e quis morrer.
Coisas como copos espalhados pelo chão e jogados no sofá, duas pontas largadas na mesinha de centro e a caixa de pizza da noite anterior eram apenas o começo. Quando deixou o local pela manhã achou que, ao voltar, estaria tudo mais limpo, mas viu o contrário. Balançou a cabeça em negação.
Na cozinha, deixou as bebidas em cima da mesa para que o dono pudesse vê-las. Também escreveu um bilhete pedindo desculpas e explicando a reposição da bebida. Subiu as escadas quase desmaiando e se trancou em seu quarto, onde adoraria passar o resto do mês.
Aquela convivência seria mais difícil que pensava.
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