Closer
33 O Psicólogo
Notas iniciais

A ida para a cidade onde realizariam o show fora terrível, mas a volta?
A volta estava sendo insuportável.
Na ida, ao menos tinham um pouco mais de espaço. O carro de Neji também estava na jogada. Mas a lata velha havia decidido que era um bom momento morrer em outra cidade.
Divididos em dois carros, todos voltavam para casa. Os motoristas não poderiam ser melhores. Ino e Gaara praticamente disputavam um racha enquanto dirigiam. Com ele, Sasuke e Naruto dividiam lugar com toda a parafernália que haviam inventado de carregar. O banco da frente era ocupado por dois cases. Atrás, Naruto só sabia reclamar de como queria que Sasuke evaporasse dali para que ele pudesse ocupar todo o banco e se espichar para dormir o sono dos justos, enquanto que Sasuke o ameaçava a cada dez minutos com um soco no nariz toda vez que ele ousava começar a roncar em seu ombro. Gaara só queria poder desmaiar ambos os amigos e deixá-los na beira da estrada.
No carro de Ino, Sakura não sossegava os dedos nervosos no rádio enquanto Neji só faltava ter um infarto a cada acelerada que a motorista dava. Hinata e Tenten tagarelavam na maior das alturas e dividiam um saco de batatinhas que Ino tinha jurado fazê-las engolir a embalagem caso sujassem o banco de seu carro.
A pista que dividiam logo deixou de ser via dupla e Ino socou o volante quando o carro de Gaara saiu na frente do seu.
— Que porra! — Berrou ao ver o braço dele acenando pela janela. — Ainda tem muito chão pra eu te ultrapassar, seu otário… — resmungou baixinho.
— Ino, pelo amor de Deus, vá devagar! De que adianta chegar primeiro se não estivermos vivos? — Neji dramatizou.
Maldita hora em que a merda de seu próprio carro havia resolvido simplesmente não pegar.
— Deixa de ser medroso, não vou matar ninguém — viu pelo espelho retrovisor Hinata rindo de algo com a boca cheia de comida. — Talvez eu mate as duas hienas mortas de fome caso meu banco recém-higienizado esteja com resquícios de comida.
— Ino, relaxa! — foi a vez de Tenten acalmar a amiga. — Somos cuidadosas. Nada vai encostar no seu banco cheirosinho e nem… — ouvia novamente o chiado incessante do rádio. — Sakura! Pelo amor de Deus, coloca uma musica e deixa nela. Para de mexer nesse negócio!
— Desculpe, não acho uma trilha sonora adequada para o momento — continuou passando as estações.
— Eu aposto minha palheta predileta que o carro dos rapazes deve parecer uma igreja de tão quieto — Neji seguiu praguejando.
— Por que não foi com eles, Cara-amarrada? — Ino deu mais uma acelerada e ele orou para qualquer santidade que estivesse o ouvindo.
— Achei que curtiria a viagem de volta com minha namorada. Não pensei que seria um penetra no clube da Luluzinha — apontou a prima e a namorada que já haviam puxado Sakura para o papo também.
— Você está carente? Oh… — Ino riu. — Ei, Tenten, cuide melhor do seu filhote. Ele quer carinho na barriga.
Neji fechou a cara. Só queria um chamego de Tenten.
Deveria ter ficado calado, isso sim.
— Pode trocar de carro na próxima parada, Neji. Podemos passar algumas bagagens pra cá — Hinata revirou os olhos e ele cruzou os braços. — Sei que prefere ficar com os machos.
— A questão não é essa. Vocês são barulhentas.
— Você parece se esquecer de que Naruto está no outro carro — disse Sakura, finalmente sintonizando numa rádio com um bom som.
— Naruto não pode ver um banco de carro que já está roncando.
— O mesmo Naruto que se entupiu de chocolate e energético na última parada?
Neji pareceu pensar.
— Eu fico aqui… — resmungou baixinho, recebendo um beijinho na bochecha de Tenten.
No carro da frente, Gaara tentava focar em continuar sua liderança, mas era difícil com as duas crianças se chutando no banco de trás.
A ameaça de um Naruto babando no ombro de Sasuke se mostrava cada vez mais distante a cada segundo. O energético já estava fazendo efeito.
Porém, diferente do que achou, Sasuke passou a preferir um Naruto roncando em seu ouvido. Aquele, o cheio de açúcar, estava difícil de aturar.
— Espera, porra! — Naruto gritou. — Eu sou quero pôr o pé ali!
— Você vai quebrar as coisas, seu idiota!
— Eu não vou dormir, eu só… — Naruto tentou se apoiar no banco com o cotovelo, mas acabou acertando a coxa de Sasuke que rosnou.
— Que inferno, Naruto! Você acha que pesa quanto? — empurrou com força o braço do amigo.
— Desculpa, foi sem querer — pareceu conseguir uma posição confortável. — Pronto, pronto. Já fiquei quieto…
Sasuke estalou a língua no céu da boca e Gaara suspirou, aliviado. Talvez fosse ter alguns segundos de paz.
— Mas por que diabos você ainda está se mexendo?
Ou não.
— Minha bunda está doendo. Você quer fazer uma massagem nela, caralho? — Naruto também começava a ficar irritado com a implicância do amigo.
— Vá à merda!
— Já estamos todos nela… — Gaara disse baixinho. — Vocês dois, parem com essas graças!
Foi duramente ignorado.
— Jesus, você ao menos consegue ficar parado por mais de dois segundos?
— Olha só, os incomodados que se mudem — Naruto só faltou mostrar a língua e fazer careta.
— Mudo pra onde?
— Não foi no banco da frente porque não quis!
— Rapazes, parem com isso… — Gaara foi ignorado outra vez.
— Acredite, se eu pudesse ter ido no banco da frente e me livrado dessa sua matraca, eu iria.
— Que culpa tenho eu se você não sabe nem mesmo manter uma conversa com essa sua cara de cu azedo? — outra remexida. Daquela vez, apoiou-se no ombro de Sasuke.
— Caralho, Naruto!
— Minhas pernas estão dormentes, espera aí! Preciso esticá-las um pouco.
— Sasuke, Naruto, pelo amor de Deus! — Gaara tentou uma terceira vez.
Novamente, não foi ouvido.
— Você nunca mais vai beber energético e comer chocolate antes de uma viagem — declarou.
— O que eu comi ou deixei de comer não tem nada a ver com isso!
— Você está ligado no duzentos e vinte desde que paramos naquele posto!
Não teria jeito. Eles não calariam a boca. Gaara teria que apelar.
— Não fode, Sasuke! Eu mal me alimentei — fez-se de ofendido.
— Você tomou seis latinhas de energético! Não me impressionaria se tivesse um ataque cardíaco aqui mesmo!
— Ah, então quer dizer que agora o senhor é fiscal d… — Naruto agitou o nariz. — Mas o que…
— Gaara! — Sasuke cobriu a boca e o nariz com a camiseta que usava. — Meu Deus!
Gaara havia soltado um pum para silenciá-los?
Oh, Deus! Ele havia!
E tinha sido um senhor peido, diga-se de passagem.
Naruto tossiu.
— Agora as madames pararam com a palhaçada? — os mirou pelo espelho retrovisor.
— Puta que me pariu, cara. Você tá podre! — Naruto abanou o ar ao seu redor e Sasuke limpou a garganta.
— Que porra você comeu naquele posto? Minha nossa… — Sasuke ainda segurava firmemente o tecido negro em frente ao rosto.
Gaara ia se virar e mandar que seguissem o resto da viagem em silêncio, mas, como um foguete, viu o carro de Ino passar o seu enquanto ela buzinava e também acenava, em claro sinal de deboche.
Nem mesmo vira quando a pista dupla havia voltado.
— Desgraçada…
— Se não estivesse contando quantos energéticos os outros bebem, talvez soubesse o que ele comeu naquele posto… — Naruto resmungou alto, respondendo à pergunta de Sasuke com outra provocação.
— O que disse? — Sasuke se virou para o Uzumaki.
Gaara soltou outro suspiro. Daquela vez, de resignação.
Seria uma longa viagem.
— ὡѼὠ —
Estavam exaustos.
Haviam chegado há pouco mais de vinte minutos e passado na casa de Neji e Hinata. Ino foi a primeira a estacionar e, com toda certeza do mundo, esfregaria aquilo na cara de Gaara até a morte.
Após descarregar os instrumentos e se despedirem de Ino, juntaram-se os quatro — Sakura, Sasuke, Naruto e Gaara — num único carro para partir dali.
Sakura quase chorou de alegria ao ver a porta do sobrado enquanto Gaara entrava na garagem.
Gaara ainda rezingava algo sobre Ino ser uma trapaceira e Naruto e Sasuke seguiam com suas provocações bastante maduras, mas ela estava cem por cento nem aí. Queria seu chuveiro, sua cama e seus travesseiros.
O sono na noite anterior havia sido deplorável. Ficara acordada como uma coruja pensando em coisas que nem lhe diziam respeito, como na banda, naquele caça-talentos com cara de nada e no maldito cara que, naquele momento, discutia sobre Naruto ter ou não bebido energético o suficiente para ter um ataque do coração.
Hm, ele ficava uma graça resmungando…
Pegou sua pequena mala no bagageiro e rumou para dentro de casa.
Não via a hora de esticar as pernas no sofá e…
— Minha nossa! — os rapazes vinham logo atrás.
Por Deus, haviam sido assaltados?
Sakura se lembrava. Tinha saído apenas 30 minutos antes dos garotos. Ino a havia buscado.
Deixara a sala arrumada! Tinha certeza!
Como diabos as almofadas estavam todas no chão? Por que todos os objetos da estante estavam tombados ou revirados? O que tantas peças de roupas estavam fazendo espalhadas pelo sofá e chão?
— O que houve?
— O que houve? Eu é que pergunto — Sakura olhou para a bagunça. — Eu deixei vocês por meia hora antes de sairmos. Meia. Hora! Eu sou bagunceira, mas vocês estão de parabéns — pescou uma camisa laranja amarrotada da mesinha de centro e cheirou — E nem é roupa suja!
— Foi o Naruto — Sasuke e Gaara só faltaram gritar quando ambos apontaram o amigo.
— Uau, o companheirismo de vocês é admirável — reclamou ácido antes de sentir o tecido laranja bater contra seu rosto.
— Arruaceiro — Sakura juntou três livros grossos em suas mãos. — Olhe só a situação deles!
— Ah, eu vi esses livros há uns dias e me esqueci de avisar, Sakura — Sasuke murmurou enquanto atirava a jaqueta jeans sobre os ombros, pronto para subir para seu quarto.
— Ah, eles não são meus — ela os empilhou na mesinha de centro e Gaara pode ler o título. — Naruto, não deixe coisas importantes espalhadas pela casa!
Gaara e Sasuke se olharam espantados.
— Por mim, poria fogo nisso aí — Naruto sentou-se e esticou as pernas.
— Se não vai mais usá-los nesse semestre, talvez seja bom guardá-los por precaução — Sakura advertiu e, com um suspiro, Naruto se levantou, pegando os exemplares da mesinha.
O livro do topo tinha a palavra “psicologia” bem grande.
Mas que porra?
— Você cursa psicologia? — Gaara perguntou tão incrédulo que quase bateu a expressão de choque que pintava o rosto de Sasuke.
Da garganta de Sasuke, um grunhido incompreensível de pura surpresa.
Desde quando aquele desmiolado do Naruto estudava para ser psicólogo?
— Ué, sim.
— Desde quando? — daquela vez, a pergunta perplexa vinha de Sasuke.
— Desde sempre? — Naruto torceu os lábios de forma engraçada.
Sakura riu alto.
— Vocês não sabiam? Vocês moram com Naruto há um tempão, têm uma banda juntos, conversam todo santo dia e não sabiam que ele está no terceiro ano de psicologia? Vocês simplesmente não sabiam? — O deboche em sua voz era quase palpável.
— Ele nunca disse nada!
— Vocês nunca me perguntaram — Naruto deu de ombros, passando por Sasuke e seguindo para o segundo andar.
— Ele tem razão. O companheirismo de vocês é admirável — riu de novo e também subiu.
Sasuke e Gaara, atingidos pela última frase cheia de sarcasmo de Sakura, se encararam outra vez.
— Você sabia?
— É claro que não! Ele nunca nem pegou num livro antes! — Gaara mantinha a voz baixa, mas usava um tom esganiçado.
Sasuke, estupefato, sentou-se no último degrau da escadaria.
Definitivamente não estava pronto para viver em um mundo onde Naruto seria responsável pela saúde mental de alguém.
— ὡѼὠ —
— Jesus, eu estou podre… — Sakura reclamava enquanto Ino e Karin papeavam animadas em cima da cama de casal da garota.
Faziam as unhas uma da outra. Ino, que já exibia as unhas da mão pintadas num vermelho fortíssimo, pintava com cuidado a unha do dedão de Karin.
Sakura se jogou na cama ao lado delas.
— Ai, Sakura! Cuidado! Meus esmaltes — ralhou Karin.
Estava acabada. Os cabelos, presos por baixo de um pano branco, calças velhas dobradas até os joelhos e uma bela mancha de umidade na regata rosa que usava.
Era dia de lavar roupa e dar uma geral naquela casa.
Já passava das seis e finalmente havia acabado. Perto das quatro, as duas tinham simplesmente aparecido na casa dizendo que iriam passar a tarde por ali e se ajeitarem para uma saída mais à noite.
Sakura quase as expulsou do sobrado a vassouradas, porém, repensou quando prometeram uma boa dose de álcool ao final daquele sofrimento todo.
Mas, pensando bem, deitada ali, quietinha, encolhida ao lado das maritacas, talvez preferisse ficar em casa. Se fechasse os olhos só um pouquinho…
— Não enrola, testuda. Já acabou de limpar seu tão estimado banheiro? Podemos ir? Hinata e Tenten não vão esperar pra sempre.
— Certo, certo. Eu vou tomar um banho super-rápido. Meu fígado também está implorando por algum álcool — Sakura suspirou e, esfregando os olhos, levantou-se da cama.
— Sakura, antes que entre no banheiro pelas próximas duas horas, tem como me deixar o secador? — Karin pediu, assoprando as unhas recém-pintadas.
— Eu não demoro duas horas no banho — resmungou, indo procurar o secador e saindo do banheiro dois segundos depois de mãos vazias.
— Ué?
— Tsc, Gaara vive pegando meu secador. Vou começar a cobrar aluguel — marchou para o corredor enquanto Ino ria e falava algo sobre o quanto Gaara era metrossexual.
Sakura sabia que o bendito secador estava no banheiro dos garotos. Gaara dizia que o único motivo por ter apoiado a ida dela para aquele teto, era pela possibilidade de um bom secador.
“Abusado”, pensou.
Antes de alcançar a porta, ouviu a campainha. Deu de ombros, sabia que não estava sozinha com as garotas.
Bateu a mão no trinco e a campainha tocou outra vez. Revirou os olhos. Estavam se fazendo de surdos?
Pegou o secador. Outra vez, o som agudo ressoou pela casa. Fechou a porta e, irritada, não segurou o berro:
— Atendam a porta!
Saiu do banheiro e, como se o universo testasse sua paciência, aquele barulhinho irritante soou por mais tempo do que deveria.
Num grunhido de resignação, desceu as escadas e ficou ainda mais incrédula ao ver Sasuke ali, com um console nas mãos e xingando baixinho algum personagem que pulava na tela.
— Sasuke!
— Quê?
— Não está ouvindo a campainha? — como num sinal, ela tocou de novo.
— Não é pra mim — deu de ombros e ouviram de novo a porta. — Não vai atender? Que rude.
Sakura quis jogar aquele secador bem no narizinho perfeito de Sasuke. Ela estava ficando mole demais com aqueles três abutres.
Pisou forte até a porta e, antes de abri-la, pôs o melhor sorriso que pôde no rosto. Não sabia quem era e, por via das dúvidas, era bom ser simpática.
Estranhou quando abriu a porta e viu uma mulher uns bons centímetros mais baixa de cabelos bem negros e compridos. Um sorriso enorme enfeitava seu rosto bonito. Atrás de si, um senhor bastante alto de mãos rigidamente postas para trás. A carranca dele combinada aos traços dela a faziam se lembrar de alguém. E os olhos tão pretinhos parecendo duas jabuticabas que a encaravam eram idênticos aos de…
— Sasuke está?
— Sasuke? Ãh… — Sakura abriu mais a porta. — Ele est-
— Querido! — a senhora disse com toda a felicidade do mundo, correndo para os braços do rapaz.
— Mamãe?!
Sakura observou melhor a mulher que puxava Sasuke para um abraço e resmungava algo sobre ele estar vestido feito um mendigo.
Oh, sim. Mãe. Fazia sentido.
— O que está fazendo aqui? — Sasuke perguntou tentando se esquivar da mão que insista em ajeitar-lhe os cabelos.
— O que estou fazendo aqui?! — ela deu um tapa forte no braço de Sasuke.
— Ai!
— Moleque ingrato! Não recebo ligação alguma há dois meses e, quando me manda mais que uma mensagem com duas letras, é pra falar que foi pra outra cidade se apresentar pra um figurão musical — ela logo sorriu, beijando a bochecha do filho com muito carinho. — Fiquei tão feliz por você, meu filho. Eu e seu pai.
Sakura, que apenas assistia à cena com olhos cheios vendo uma mãe tão amorosa com seu filho, sentiu o clima pesar no instante em que Sasuke deixou o sorriso em seus lábios diminuir gradativamente. Os olhos dele iam da mãe até o homem alto parado na porta. Sakura o viu acenar com a cabeça para Sasuke e, como se aquilo fosse o estopim, Sasuke uniu as sobrancelhas numa expressão furiosa.
— O que ele faz aqui? — não precisou apontar.
— Sasuke, não comece — ela alertou. — Eu e seu pai viemos para a cidade para fechar um contrato e aproveitar para visitar meu garoto. Ficaremos até terça. O que acha de jantar conosco?
— Não acho uma boa ideia — os olhos de Sasuke continuavam coléricos e pregados à imagem do pai.
Sakura estava tão avulsa naquela cena que mal conseguia se mover. Tinha medo de sair e ser finalmente percebida.
O homem na porta se remexeu, desconfortável. Estalou a língua no céu da boca e deu um passo à frente, mas ainda sem entrar na casa.
— Tsc, vamos, Mikoto. Sasuke deve estar cansado. Você pode vir aqui mais tarde — sua voz era grave e controlada.
— Fugaku, por favor — virou-se para o marido rapidamente antes de voltar os olhos para Sasuke. — Querido, vamos. Pela sua mamãe saudosa...
Sasuke voltou a fitar Mikoto. Aquele sorriso que ele tanto aprendera a prezar irradiava uma esperança bonita e viva que só ela tinha. Como negar algo à mulher que lhe dera a vida?
— Tudo bem, mãe — suspirou, forçando um sorriso mínimo que cabia apenas a ela.
Mikoto alargou ainda mais o sorriso e bateu palmas, empolgada.
— Podemos ir aquele restaurante que você gosta. Não é, querido? — virou-se para o marido e recebeu um rápido aceno de cabeça.
— Eu só vou pegar meu casaco. Encontro vocês na garagem — Sasuke beijou o topo da cabeça da mãe e subiu as escadas ainda meio incerto de que aquilo havia sido uma boa ideia.
Mikoto, que ainda sorria como uma criança, aproximou-se de Fugaku e lhe deu um beijo estalado.
— Essa noite vai ser perfeita, querido! Você vai ver — o som de sua risada era doce e reconfortante. Ele não pôde deixar de sorrir diante da felicidade da esposa.
Sakura então soltou a respiração que nem mesmo havia percebido estar segurando e teve dois pares de olhos caindo sobre si.
Seu corpo endureceu.
— Eu… Hm… Eu sou Sakura. Muito prazer. Eu… — olhou para o secador em suas mãos e, desconcertada, sorriu.
— Oh, sim, Sasuke me disse que teriam uma nova colega de quarto já faz um tempinho. Os meninos dão muito trabalho? — Mikoto tratou de perguntar de maneira que Sakura não se sentisse constrangida.
— Eles só são um pouco difíceis — riu nervosa.
— Sasuke pode ser meio abusado de vez em quando. Não hesite em dar uns puxões de orelha naquele moleque.
— Oh, não! Sasuke é maravilhoso, ele não… — arregalou os olhos diante do sorriso sugestivo de Mikoto. — Digo, ele é uma boa pessoa pra se dividir o quarto. Quer dizer, a casa! — corrigiu-se mais que depressa. — A casa com os quartos. Eu tenho o meu e os garotos têm os deles. Cada um com um. É que o Sasuke é um menino limpinho. Quer dizer, eu acho. Digo... Ai... — fechou os olhos com força, se socando mentalmente por ser tão boca aberta.
— Podemos ir — Sasuke descia as escadas com a jaqueta jogada sobre o braço direito e as chaves do carro girando na mão esquerda.
— Claro, querido — Mikoto deu passagem para o filho. — Foi um prazer, Sakura.
— Ah, igualmente senhora… — Sasuke fechou a porta com força ao passar pelo pai — … Uchiha…
Ainda pôde ouvir um resmungo masculino seguido da voz de Mikoto dizendo que havia achado a mocinha de cabelos coloridos uma gracinha.
Sakura respirou fundo quando se viu sozinha e deixou o corpo cair sobre o sofá mais próximo.
— Sakura! — quase pulou de susto ao ouvir o grasno de Karin vindo do andar de cima. — O secador!
Ah, sim. O secador.
— ὡѼὠ —
— Vejo você amanhã! — Sakura se despediu quase num berro enquanto Ino buzinava e acordava metade da vizinhança.
Oh, a noite havia sido maravilhosa. Só as garotas bebendo, se divertindo e conversando até sobre antigos bichos de estimação.
Sakura abriu o portão cantarolando alguma música com um sorriso enorme no rosto. Mal podia ver a hora de deitar em sua cama, colocar seus fones de ouvido e ouvir no último volume o lançamento de seu grupo musical predileto.
— Dancing, dancing is not a cri… Oh! — assustou-se ao ver a figura sinistra encostada ao carro preto na garagem. — Sasuke? O que faz aqui fora?
Sem dizer uma palavra, ele ergueu a mão direita. A única luz alumiando fracamente o seu rosto era a do cigarro que tragava. Numa resposta muda, ele soprou a fumaça cinzenta devagar, deixando que ela rodeasse seu rosto e entrasse por suas narinas.
— Hm, achei que tivesse parado com eles — com o celular, ela iluminou a chave que carregava nas mãos. Precisava encontrar a que abriria a porta de casa.
— Está aberta — ele soprou junto de mais uma baforada. — É difícil largar velhos hábitos.
— Sim, eu sei — comentou ainda risonha e Sasuke riu pelo nariz, debochado.
— Claro, você sabe.
Sakura parou de mexer as chaves e as enfiou em seu bolso traseiro. Com um sorriso discreto, aproximou-se do rapaz com cara de poucos amigos. Seus dedos foram ágeis até o cigarro que brincava nos lábios de Sasuke e o capturaram com delicadeza.
Sabia que havia exagerado no álcool com as garotas, só não sabia o quanto. Mas aquilo lhe parecia estranhamente divertido.
— Sim. Eu sei — ela puxou uma vez o fumo e o prendeu na garganta. — Tem muitas coisas que não sabe sobre mim, Sasuke — soltou a fumaça mais rala, deixando que ela envolvesse Sasuke numa doce nuvem de nicotina. — Vai contar o que aconteceu pra estar aqui todo recluso e emburrado? — devolveu-lhe o cigarro e cruzou os braços, se afastando dois passos e soerguendo uma das sobrancelhas.
— Hn... — resmungou.
— Deixe-me adivinhar. O jantar com sua mãe poderia ser melhor se seu querido pai não estivesse nele? — Sasuke parou de fumar por uns segundos, encarando a garota a sua frente.
— Tsc, não é da sua conta... — jogou o cigarro no chão, o apagando com a ponta do tênis. — Foi péssimo.
— Vai entrar? — Sasuke voltou a se encostar à lataria do carro. — Tudo bem, você que sabe. Vou deixar a porta aberta.
Sakura entrou sem grandes cerimônias, largando a jaqueta jeans que usava no braço de um dos sofás e tirando os sapatos. Na casa, nem sinal de Naruto ou Gaara. Quando já estava subindo as escadas, ouviu a porta da frente sendo trancada e os passos de Sasuke fazendo o mesmo caminho que os dela haviam feito segundos antes.
Suspirou, olhando para trás e pegando o rapaz a encarando do pé da escada.
— Ao menos conseguiu jantar? — Sasuke começou a subir os degraus, ainda sem dizer uma palavra sequer. — Está com cara de fome — estava a poucos passos de alcançá-la. As mãos, ainda dentro da jaqueta. — Se quiser, tem alguma coisa do almoço na geladeira. Não é bom dormir com raiva e com fom-
Sasuke não esperou. Assim que Sakura se virou para encará-lo, tratou de agarrá-la com força.
A parede foi seu apoio. Uma mão sobre ela e a outra pegando com vontade a garota que gemia sob seus lábios.
Sakura não esperava por aquilo. Quando deu por si, suas costas quentes já eram espremidas contra a parede fria e sua boca estava ocupada demais com a furiosa investida de Sasuke.
Sentiu a ponta dos dedos gelados dele adentrarem pela barra de sua camiseta. O contato com a pele macia e morna da cintura dela fez com que ambos sentissem um delicioso arrepio.
Sentiu sua cabeça girar quando ele a rodou para que se encostasse à porta do quarto de Sasuke. Afoito e sem tirar sua boca da dela, ele tentava girar a maçaneta. As costas dela arquearam quando ele se desfez de seus lábios somente para poder enxergar o caminho que sua mão fazia para acertar o bendito trinco.
Abriu a porta e Sakura só não caiu para trás com tudo, porque os braços dele a ampararam num abraço desejoso demais. Andaram aos tropeços, com os joelhos de Sakura se atrapalhando e batendo contra um móvel ou outro, até que ela sentisse, na parte posterior das pernas, a cama roçando.
Implacável, Sasuke seguia a deixando sem Norte apenas com aquele beijo tão carregado de luxúria. Como um aviso do que ele planejava fazer com ela enquanto sozinhos, ali, naquele quarto.
Ela ofegou quando os lábios dele soltaram-lhe a boca para buscarem o gosto da pele de seu pescoço e colo. Sakura nem mesmo sabia o que sentir primeiro. A confusão invadia sua mente junto às sensações que as mãos atrevidas de Sasuke causavam.
— Sasuke... — conseguiu chamar, mas não conseguiu terminar a frase. Aquilo só pareceu estimulá-lo ainda mais. Estava insano.
Jogou-a contra o colchão macio e ouviu quando ela suspirou ao mergulhar nos lençóis e edredons azuis. O cheiro de Sasuke estava por toda a cama e era realmente muito tentador.
Mas ele estava nervoso com algo, talvez triste. Aquilo não lhe parecia certo.
Sasuke subiu sobre o corpo feminino, o prendendo de ambos os lados. A boca entreaberta e inchada de Sakura era a definição da perdição. Precisava prová-la depressa.
Curvou-se sobre ela e lhe sugou o lábio inferior. Ela vacilou, erguendo os braços e emaranhando os dedos nos fios negros.
Quando a mão direita de Sasuke ousou subir um pouco a camiseta que ela usava, Sakura, estranhamente, retesou.
Não, não queria usá-lo. Sasuke estava fragilizado por um momento que ela poderia até não conhecer, mas não tiraria vantagem do rapaz.
— Sasuke... — ele continuava a beijando, quase não deixando espaço para que ela falasse. — Sasuke, espere um segundo...
— Hm? — Embriagado pelo momento, só conseguia entender quando seu nome saía da boca dela.
— Sasuke, espere! Hey, hey — puxando-o pela cabeça com delicadeza, separou o contato. — O que você tá fazendo?
Ele piscou forte duas vezes e recuou o corpo um pouco mais.
Que Deus permitisse que ele não percebesse os faróis acesos de Sakura.
— Eu... — Sasuke afastou-se por completo, passando as mãos pelo rosto. — Peço desculpas.
— Por ter me atacado no corredor e me arrastado pra uma sessão de beijos super quentes no seu quarto? Por favor, faça mais vezes — Sakura riu, mas ele continuou sério. — Nossa, foi tão ruim assim?
— Desculpe, me desculpe mesmo, eu... — passou furiosamente a mão direita pelo cabelo. — A noite foi terrível. Não você, eu... Não pense que eu estava me aproveitando.
— Sasuke — levantou-se também, se sentando ao lado dele. — Está tudo bem.
Ele tombou o corpo para trás. Sentia-se um lixo. Saíra pra um jantar com os pais e voltara atacando a garota que andava o deixando balançado.
Que noite.
— Sabe... — Sakura continuou. — Por que não me conta o que aconteceu nesse jantar?
— Não sei o que aconteceu. Saí antes que acabasse.
— Você e seu pai se estranham, né? — ele soltou um riso nasalado e Sakura arrastou-se pela cama até que suas costas encontrassem a parede.
— Mikoto sabe que não devemos ficar no mesmo cômodo por mais de 15 minutos.
— Mikoto? Ah, sua-
— Minha mãe.
— Entendo... — Sakura deixou o silêncio perdurar por alguns segundos.
Puxou os joelhos até que pudesse repousar sua testa sobre eles. Suspirou. Era visível como Sasuke estava agoniado com alguma coisa.
— Eu também me estranho com meu pai — ela disse calma, num fôlego só.
— O quê?
— Eu disse que eu também m-
— Isso eu entendi. O que eu não entendo é como você pode se estranhar com seu pai — exibiu um sorriso ladino.
— Você acha mesmo que sabe muito sobre mim, Sasuke — Ela se virou para ele.
A bochecha direita comprimida contra o joelho. Os cabelos rosados se espalhavam pelas costas, ombros e rosto. Seus olhos estavam pequenos, quase sorrindo para ele.
Sakura era realmente encantadora.
— Não é difícil imaginar. Filha única, mimada pelo papai, ele move montanhas por você, o tesourinho nacional — soltou áspero.
Sakura riu sem humor algum.
— Da missa, você não sabe a metade.
— Errei no “filha única”? — debochou.
— Depois da morte da minha mãe, meu pai não dava uma foda por mim. Ele me abandonou. Ele viveu o luto dele sem se lembrar de mim. Fiquei muito tempo sozinha. Mexi com o que não devia — esticou o pescoço, apoiando a cabeça contra a parede. — Eu me tornei dependente química, Sasuke.
Ela parou alguns segundos, esperando que ele absorvesse o peso de cada palavra.
Sasuke franziu as sobrancelhas, a encarando. Sakura soube que poderia continuar quando o viu engolir em seco.
— Eu era muito nova. Apanhava durante as aulas pra chegar em casa e me sentir um pedaço de lixo. Queria escapar disso — deu de ombros, respondendo a pergunta que, provavelmente, estava entalada na goela dele. — Não era uma ervinha de vez em quando. Eram drogas pesadas. Um dia eu tive uma overdose no meu banheiro e, por um milagre, meu pai apareceu em casa. Depois disso, ele teve medo de perder, além da falecida esposa, a filha.
— Vo... Você... — Sasuke limpou a garganta. Realmente não esperava por aquilo. — E ele?
— Ele me mandou pra um internato num ato desesperado para que eu não me ferisse novamente — outro dar de ombros. — Lá eu fui desintoxicada. Mas acabei ficando mais três anos sem contato algum com meu pai. Ele achou que estava fazendo a coisa certa — com um suspiro, ela sorriu. — No fim das contas, você tem razão. Sei que papai moveria montanhas por mim. Mas do jeito torto dele.
Sasuke deixou a história combinada ao sorriso dela pairarem no ar ao seu redor. Estava chocado e se esforçava para não demonstrar. Jamais poderia imaginar algo como aquilo. Era uma baldada de água fria em sua cara e nem mesmo conseguia entender o motivo do choque.
Mas é que Sakura estava sempre tão sorridente.
Ela o viu engolir com certa dificuldade novamente e achou graça. Soltou um riso breve e baixo, o fazendo olhá-la com curiosidade.
— Está surpreso?
— Um pouco... — Sakura riu novamente.
— Desculpe. Pra mim, parece tão normal... — esticando uma das pernas e apertando-se mais contra a outra, Sakura continuou. — Agora é sua vez. Se quiser, é claro.
Sasuke encarou o par de olhos já sonolentos. Ele, estranhamente, confiava em Sakura. Percebeu que não se importaria se ela soubesse sobre suas coisas pessoais.
Por Deus, ela havia praticamente sequestrado seu caderno de músicas e ele tinha gostado!
Sakura moveu a cabeça, esperando ansiosa pela resposta dele.
Quanto mais ele demorava, mais ela entendia que não conseguiria nada.
Já preparada para receber um “tome conta da sua vida” na cara, deixou que os lábios formassem uma linha reta de resignação.
— Fugaku não merece a preciosidade que tem ao lado dele — disse de uma só vez. A voz rouca e profunda.
— Fugaku é seu pai? — Ele assentiu.
— Meus pais estão juntos há uns bons 30 anos. Talvez ele a merecesse no início, mas, sinceramente... — grunhiu. — Ele é um merda, tá legal?
— Sasuke!
— Ele é — era como um nó em sua garganta.
Queria contar a ela.
Sakura suspirou, esticando ambas as pernas e chegando mais próxima dele. Com suas duas mãos, bateu nas coxas, convidando-o a se ajeitar ali.
Sasuke arqueou uma das sobrancelhas. Mas era só o que lhe faltava!
— Vamos, deite. Quero saber mais sobre esse seu estranho complexo de Édipo.
— Eu n-
— Deita logo! — Ele quase riu da careta brava de Sakura. — Ah, quer saber? Espere aqui.
Sakura pulou depressa da cama e correu para o corredor. Sasuke podia ouvir os passos dela na cozinha. Ouviu também o som alto de panelas caindo e um “merda!” praguejado. Em alguns minutos, ela estava de volta.
Fechou a porta com os quadris. Nas mãos, dois copos e uma garrafa de uma bebida meio amarelada. Ergueu-os, os agitando no alto.
Serviu os copos, estendeu um para Sasuke e se sentou no mesmo lugar de antes.
— Saúde!
— Não vou beber com você — Sakura, que tinha as bochechas cheias, engoliu de uma vez o álcool que desceu queimando a goela.
— O quê? Por quê?
— Eu nunca mais vou beber com você, Sakura — ela revirou os olhos pro risinho dele.
— Ai, amanhã eu te faço suco de tomate igual da outra vez, dramalhão — ergueu o próprio copo, num cumprimento.
Sasuke suspirou e tomou um pequeno gole.
— Hm, isso é divertido. É como uma noite das garotas.
— As garotas te agarram no corredor e te arrastam pra uma sessão de malhos? — Ele soergueu uma sobrancelha e Sakura sorriu.
— É exatamente como uma noite das garotas — outro gole, observando com malícia Sasuke por cima do copo. — Não eram assim as suas “noites dos garotos”? Bebidas, confidências e todos se pegando?
— O quê? Não! — Sakura explodiu numa gargalhada.
— Como eu disse, fui mandada pra um internato de garotas. Precisávamos aprender a nos divertir, certo? — Sasuke bebeu um longo gole.
— Nunca fui pra internato algum. Minha mãe não gostava da ideia de ter os filhos longe — encheu o copo novamente e Sakura apoiou os cotovelos sobre os joelhos. — Ela ficou terrível quando meu irmão se foi.
Sakura retesou, passando as mãos pelos braços arrepiados. Entendia como o assunto podia ser delicado para Sasuke.
— Eu sinto muito...
— Ela ficou muito mal por muito tempo. Foi quando meu pai... Bom... — outro gole. — Ele é um adúltero mesquinho. Cuidei de Mikoto durante todo o luto, imaginando que ele estivesse sofrendo tanto quanto ela pela perda do filho. Estava era se engraçando com qualquer par de pernas que se abriam pra ele.
Sakura piscou três vezes e respirou fundo, com força.
— Sua mãe... Ela...
— Ela sabe. Ela sempre soube. Quando eu descobri e contei, ela me disse que o casamento era complicado. Ele a humilhou por muito tempo e sei que ainda humilha. Mas ela ama aquele traste nojento, tsc — tomou mais um gole. Um bem generoso. — Ele sumiu por três anos durante minha adolescência, um ano depois da morte de Itachi. Voltou sem um puto no bolso ou qualquer dignidade. Ele não tem nada sem ela. Nem nome, nem dinheiro, nem merda nenhuma. Mikoto só precisa estalar os dedos para que ele desapareça da vida dela, da vida de nós dois. Mas ela continua investido nele. Investindo tempo, paciência, carinho. E ele só joga merda no ventilador. Ele não a ama, Sakura.
— Ela acha que ama pelos dois... — Sasuke, que já levava o copo à boca novamente, o parou.
— É exatamente isso o que ela diz. Que pode amar pelos dois. Não é ridículo? — Riu pelo nariz, sem humor algum.
— Acho que não pra ela. Ela ainda enxerga algo de bom nele — comentou.
— Eu não entendo como ela consegue ver qualquer coisa boa naquele... Naquele... — enchia a boca com palavras podres, mas não conseguia exprimi-las. — Discutimos no restaurante. Eu e ele. Sempre discutimos. Ele acha que tem algum direito de apontar o dedo pra mim. Ele não faz nada por mim ou por minha mãe. Velho inútil — as palavras eram proferidas com ódio. Seus lábios só de desencostavam do copo quando falava.
— Ela ficou chateada?
— Mikoto? — Sakura assentiu. — Muito.
— Você não acha que vale a pena se esforçar um pouquinho? Eu digo, por ela — aproximou-se.
— Quer que eu beije os pés dele, é?
— Não! Não... — sacudiu a cabeça — Poderia tentar outro jantar amanhã. Ou na segunda. Talvez seja bom esperar o de hoje esfriar. Tente não sair no soco com seu pai. Não por ele. Pela sua mãe.
— Mikoto ficaria feliz se terminássemos uma refeição sem uma ameaça de deserdação — ele ergueu os ombros. — Felizmente, dele não quero herdar nada.
Sakura riu, balançando o corpo para frente.
— Você se parece mesmo mais com sua mãe — ela recostou a cabeça à parede novamente. — Ela tem olhos lindos.
Sasuke a ouviu suspirar e viu seu peito subir e descer, enquanto tudo o que conseguia imaginar era no quanto Sakura também tinha lindos olhos.
— Hm, me passa essa garrafa, aí! — Sakura pediu. — Vai, me conta o que aconteceu no jantar. Quero detalhes.
Sasuke riu baixinho. Jesus, como era curiosa.
— Já começamos a nos desentender no carro. Fugaku queria comer num desses restaurantes caros. Claro, quem paga não é ele — Sakura cobriu a boca para não acabar derrubando sua bebida.
E Sasuke falou. Falou como há muito não falava. Contou como fora o jantar e disse um pouco mais sobre sua mãe. Abriu a boca até sobre Itachi. Disse que ele fora seu primeiro professor de música e contou também a forma trágica como ele havia morrido. Falou, finalmente, sobre a grande tatuagem que tinha no torso: um corvo e um falcão. Explicou que eram como ele e Itachi e falou sobre toda a simbologia por trãs.
Sakura ouvia tudo e também lhe contava coisas. Segredava a ele tudo o que ele também segredava a ela.
Em dado momento da noite, ele realmente acabou aconchegando a cabeça nas coxas dela. Os dois papearam até não saberem quem caíra no sono primeiro.
E foi ali, na cama de Sasuke, com Sakura sentada toda torta e Sasuke roncando em seu colo com um copo de bebida tombado na mão, que dormiram juntos pela primeira vez.
Efeitos colaterais pro inferno.
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