Closer
34 Eu vou
Notas iniciais

Sakura estava estranha. As costas doíam como o diabo e o peso sobre seu colo já estava incomodando.
Sentia a ponta de sua meia cada vez mais úmida. Mas o que infernos estava acontecendo?
Abriu os olhos devagar, os piscando e tentando se acostumar com a luz que entrava da janela que, sabe-se lá Deus o porquê, estava aberta.
Mexeu-se um pouco e a pouca umidade que sentia em seu pé direito tornou-se um pequeno banho frio apenas naquele local. O copo de bebida que Sasuke segurava tinha virado completamente sobre seu pé, deixando a meia ensopada de álcool.
O copo que Sasuke…
Olhou para seu colo. O rapaz ainda ressonava como um anjo apagado na porrada. Um dos olhos estava meio aberto e meio fechado, praticamente se revirando durante uma sessão de sono REM. A bochecha dele era espremida contra sua coxa e uma pequena marca molhada no jeans demarcava a poça de baba que o bonito havia deixado.
O braço nu, estendido em um ângulo estranho, ainda segurava parte do copo tombado. Deitado de bruços, Sasuke fazia um barulhinho estranhamente doce enquanto dormia.
Sakura parou para se olhar. Se ele estava ruim, ela estava mil vezes pior.
Sentia o gargalo da garrafa cutucando insistentemente sua cintura. A camiseta estava embolada e amassada até pouco abaixo dos seios. Estava toda torta e, mal havia tentado se mexer, já conseguira ouvir o estalo de suas vértebras doloridas se ajeitando.
Levantou-se muito silenciosa. Mas, sinceramente, depois de ter conseguido mover a cabeça sonolenta de Sasuke de seu colo, teve a impressão de que o mundo poderia cair e ele continuaria roncando.
Devia estar muito cansado. Sakura sabia que ao menos ela estava. Acordara pelo desconforto da posição, mas confessava que, se estivesse bem acomodada, ainda estaria babando ao lado de Sasuke. Tinham passado quase a noite toda em claro fazendo de tudo e aproveitando a companhia um do outro.
Sakura, com frio, agarrou uma blusa jogada sobre a cadeira de Sasuke. Era um moletom preto já surrado, mas serviria. Ela queria apenas sair dali sem despertar o belo adormecido.
Vestiu-se e não conteve o impulso de inalar o cheiro impregnado no moletom. Tinha cheiro de banho recém-tomado e Sasuke. Sakura virou os olhos pelo quarto. Enquanto o perfume dele ainda brincava com seus sentidos, ela observava os copos caídos no colchão ao lado da garrafa, os travesseiros bagunçados e o violão negro porcamente apoiado à parede mais próxima da cama.
Ela riu sem barulho algum. Apenas balançando graciosamente os ombros. Recolheu os copos e a bebida antes que Sasuke virasse o corpo sobre o vidro, colocando-os na mesa do rapaz. Segurou o violão e, antes de guardá-lo em seu devido lugar, passou os dedos muito cautelosamente pelas cordas, sem vibrá-las ou produzir som. Era apenas pelo prazer de sentir nas pontas dos dedos um resquício da boa memória que carregaria deles dois tocando e cantando e se divertindo sem compromisso algum.
Fora engraçado grasnar num agudo inesperado ou rir da língua enrolada de Sasuke numa internacional qualquer.
Deixou um baixo risinho escapar e se repreendeu quando Sasuke se mexeu ruidosamente. Sakura largou o violão e foi com passos taciturnos até a porta. Abriu se esforçando ao máximo para não acabar de vez com o silêncio e, quando já estava terminando de fechar a porta, quase pulou pelo susto ao ouvir:
— Sakura? — Ela travou a mão na maçaneta, olhando diretamente para o corpo esticado sobre a cama.
Sasuke estava de costas para a porta. Somente a voz fraca denunciava que estava ligeiramente consciente. Sakura duvidaria do chamado se ele não tivesse continuado.
— Obrigado — ela sorriu, aquecida.
— obrigada, Sasuke — disse baixinho e fechou a porta, indo para seu próprio quarto.
Deitou-se ainda sorridente. De soslaio, capturou o horário marcado no relógio de seu criado-mudo. 6h08min. Suspirou pesarosa. Não era à toa que estava tão acabada. Puxou as cobertas, se aconchegou e não demorou nem cinco minutos para cair no mundo dos sonhos.
Em seu corpo, a blusa macia de Sasuke deixava o sono ainda mais gostoso.
— ὡѼὠ —
Já fazia um bom tempo desde o show no Hooligans. Estavam beirando três semanas e nem notícia de Shikamaru ou mesmo de Temari. A espera era torturante. Nem Sakura escapava da onda de ansiedade.
Naquela manhã, mal conseguia prestar atenção na aula tão importante de física. Logo uma de suas piores matérias. Mesmo sabendo que teria um importante simulado logo, não conseguia desfocar o pensamento.
Não poderia se dar ao luxo de ir mal, ou arruinaria suas próprias chances de cursar a faculdade ali mesmo, naquela universidade. O vestibular interino era a melhor oportunidade de ensino superior para os pré-vestibulandos daquele campus. Porém, apenas um seleto grupo de alunos tinha essa oportunidade e, para isso, Sakura sabia que teria que dar tudo de si no teste de exatas que aconteceria na sexta de manhã.
Havia refletido e era importante para si que continuasse naquela cidade, naquela casa, com aqueles moradores.
Quando finalmente pôde ir embora, nem esperou Ino para se despedir. Apenas partiu, louca para saber se já havia acontecido a ligação. Sabia que se sentiria mais tranquila quando ouvisse as boas novas.
Chegou exausta em casa, porém, ansiosa. Abriu a porta e foi logo chamando pelos meninos. O sono poderia esperar.
— Gaara! Naruto — subiu as escadas e foi dando leves batidas nas portas. — Sasuke! Pessoal, e aí? Receberam notícia?
— Não… — o som resignado vinha do quarto de Gaara. Ele abriu a porta, apoiando-se ao batente e encarando Sakura com duas enormes olheiras enfeitando o rosto pálido e cansado. — Vou entrar em colapso, Sakura…
— Por Deus! — Sakura riu baixo. — Gaara, sei que está nervoso, mas precisa descansar direito — espalmou a mão contra a testa dele, verificando a temperatura.
— Nem Temari atende mais minhas ligações. A última notícia que tive foi uma mensagem de texto que dizia “seja paciente”. Já tem uma semana!
— Ele deve estar muito ocupado com assuntos de negócios e papeladas e tudo o mais — Sakura tentava amenizar a situação, mas, claramente, também estava um poço de ansiedade e suas pernas nervosas não mentiam.
— Está nada. Só gosta de fazer a gente sofrer — ela ouviu atrás de si e virou, capturando a imagem de Sasuke meio recostado sobre sua própria porta com roupas escuras e confortáveis. Também tinha um ar abatido. — Não fazemos diferença pra ele. É um figurão. Pode rir da cara de quantas bandinhas de merda quiser!
Sasuke estava ligeiramente mais amargo com a espera, mas, como sempre, Sakura compreendia que aquela onda de negativismo era só pra espantar o quanto ele estava assustado com as inúmeras possibilidades que se faziam frente a eles a cada dia de espera que passavam.
A incerteza de tudo aquilo era bastante agonizante. Para todos.
— Não diga isso. Vocês foram maravilhosos. E, de qualquer forma, não ficariam sem uma satisfação nem se quisessem.
— Sakura tem razão. Temari me diria se não tivéssemos chance. O problema é que ela fica fazendo esses… Joguinhos! — Gaara apontava furioso para o celular. Não desgrudava os olhos dele desde o dia da apresentação. Ficaria louco.
— Está muito pilhado. Vou te fazer alguma coisa pra relaxar. O que acham de um queijo quente com fritas? Desçam em 30 minutos e comemos vendo um filme, ok? — Sakura sugeriu e abriu um enorme sorriso para os dois rapazes.
Gaara retribuiu, cansado. Ele estava realmente péssimo. Acenou, concordando e roçou os lábios acima da cabeça de Sakura.
Ela não se assustou com o gesto. Gaara sabia o quanto ela andava se esforçando pra ser a luz no fim do túnel deles e apreciava isso. Tinha Temari como irmã mais velha, mas, sabia, aquela convivência com Sakura o fazia sentir como se também tivesse, de repente, uma irmã mais nova.
— Desço logo — e fechou a porta.
Sakura suspirou e se virou para Sasuke. Ele continuava parado, com as mãos nos bolsos da calça folgada de dormir. Ela se aproximou, sorridente.
— Não se preocupe. Pra você, eu faço tomates — ele não conseguiu conter o pequeno arquear de lábios.
Droga, era fácil demais ficar feliz na presença de Sakura.
— Veja bem qual filme vai escolher — disse falsamente ameaçador e ela riu, o tocando delicadamente no braço a fazendo um rápido carinho ali.
Percebia como era diferente com Sasuke. Os toques eram mais brandos, justamente pela tensão que sabia que os rondava. Mas não se importavam menos um com o outro. Na verdade, era o exato contrário.
Estavam se importando um com o outro até demais.
Desceu para a cozinha e, enquanto limpava a geladeira atrás de todos os queijos e tomates que via, ouviu a porta se abrir acompanhada de um suspiro pesado.
Contou cinco passos pesados até a porta e outro suspiro. Ainda de costas, sorriu.
— Esgotado, Naruto?
— Ah, você não faz ideia. Sakura… — outro suspiro dramático. — Estava com a Hina e o Neji até agora. O clima lá com todo esse negócio da banda é bem diferente.
Sakura sabia o quanto a família dos primos Hyuuga desaprovaria a ideia e, claro, como a amiga Hinata estava perdendo noites e mais noites de sono com aquilo.
Conseguia imaginar e sentia o arrepio em sua espinha só de pensar naquilo.
— Não coma isso! — Sakura ralhou quando viu Naruto tirando um pacote de miojo do armário. — Vamos todos ver um filme comendo queijo quente. Vocês estão muito estressados com essa espera.
Naruto se iluminou. Amava o queijo quente de Sakura.
— Até o Sasuke? — Sakura fez que sim e riu. — Sakura, você é a melhor! — Naruto correu até ela, lhe dando um beijo estalado na bochecha e apertando seus ombros. — Vou tomar um banho rapidinho e desço logo! Quero escolher o filme! — ele berrava já subindo as escadas.
Sakura se divertia com Naruto. Era todo espevitado e exagerado em suas falas e ações. Sabia que ele era grandinho e já sabia se cuidar, mas, assim como Gaara já a tinha como uma irmã caçula para si, Sakura também tinha Naruto.
Estava tão feliz com a relação que havia estabelecido com seus garotos ali que era difícil pensar em abandoná-los. Sabia que eles fariam sucesso — disso tinha certeza —, mas, enquanto pudesse tê-los por perto, iria aproveitar.
Se fosse suficientemente bem no simulado que faria na sexta, suas chances de cursar medicina na universidade local aumentariam ainda mais. Ela daria um jeito de continuar ali, com os rapazes. Estudaria o curso dos sonhos e ainda teria ótimas companhias pela casa.
Isso sem falar, é claro, nas garotas. Sakura não gostava nem de imaginar uma vida sem Ino todos os dias ao seu lado, ou sem o resto das garotas para fofocar e fazer suas confidências. Quando mais nova, na infância, nunca tivera amigas. Durante sua fase sombria, as relações que tinha nunca eram de amizade de verdade. Estava sempre rodeada de pessoas, porém, eram todos perdidos em quem ela se escorava e que também se escoravam de volta.
Pela primeira vez, desde o internato, experimentava fazer parte de um círculo de amizades genuíno. Havia se afeiçoado a todos e faria o que pudesse e estivesse ao seu alcance para não perder esse elo.
Tostava o sexto sanduíche — faria no mínimo dez — e cantarolava pela cozinha, quando o telefone tocou.
Sakura revirou os olhos. Tinha deixado seu celular no quarto propositalmente para que as inúmeras mensagens de Ino e Tenten não lhe incomodassem enquanto cozinhava. Com certeza o tico e o teco tinham trabalhado juntos, decidido dar uma saidinha em pleno começo da semana e ligavam para intimá-la a comparecer seja lá onde fosse.
Limpou as mãos e pegou o telefone já pensando em uma boa desculpa para dispensá-las.
— Alô? — Sakura tinha as mãos na cintura. Só esperava para ver qual voz soaria do outro lado. Apostava em Tenten. Ela era realmente muito persuasiva.
— Olá, boa tarde. Estou ligando em nome de Shikamaru Nara, da gravadora Senju Records. Procuramos o representante da banda Nameless — a voz feminina soou extremamente profissional do outro lado da linha.
Sakura sentiu todo o sangue fugir de suas veias e voltar abruptamente. Os lábios empalideceram e os olhos quase saltaram da face.
— Eu… Um momento, eu… Vou chamá-lo. Por favor, continue na linha! — disse a última parte com certo desespero, arrancando um pequeno riso da moça que lhe falava.
— Fique tranquila.
Sakura abaixou o telefone e o colocou com a escuta para baixo, apoiado sobre a estante. Subiu as escadas com as mãos sobre a boca. O olhar incrédulo.
— Pessoal… — bateu nas portas baixinho e devagar. — Gente, depressa… — gradativamente, ia aumentando os tapas. — Pessoal! Por favor! Depressa!
Sasuke foi o primeiro a despontar no corredor, preocupado com os gritos de Sakura. Gaara veio depois, também assustado e Naruto, quando apareceu com a cabeça cheia de espuma e uma toalha enrolada na cintura, quase arrancou uma gargalhada dela.
— O que houve? — Sasuke tomou a frente, chegando mais perto. Sakura colocou as mãos ao redor do rosto e os presenteou com o maior dos seus sorrisos.
— Eles ligaram. Querem falar com vocês.
— O quê? — Naruto gritou.
— Achei que ligariam pro celular do Gaara! — Sasuke levou a mão à testa, arregalando os olhos.
Gaara não precisou de mais nada. Ainda tinha o celular grudado na mão quando desceu correndo, afobado. Pegou o telefone depressa e respirou fundo antes de falar e deixar toda sua ansiedade aparente.
— Alô? Sim, representante da Nameless falando — Gaara ajeitou os cabelos. — Sim. Sim… Entendo. Ok. Claro. Perfeitamente… Obrigado, adeus.
Gaara desligou. Os três pares de olhos sobre si estavam atentos a cada movimento. Sentiu o celular vibrar na mão esquerda. Ele respirou fundo, abrindo imediatamente.
— E então? — Sasuke foi o primeiro a perguntar e Naruto projetou o corpo para frente. Sakura espalmou a mão sobre o peito do amigo, sem deixar de encarar Gaara.
Ele não demonstrava qualquer coisa. Por um segundo, Sakura, analisando as respostas curtas e duração da ligação, teve certeza de que tudo tinha ido pelo ralo. Seu peito se inflamou, achando um absurdo aquele produtorzinho metido a besta não reconhecer o talento que ela via ali.
— Gaara, pelo amor de Deus! O que ela disse?
Gaara apenas levantou a tela do celular. Nela, uma mensagem de Temari piscava em letras grandes.
“PARABÉNS!”
— Conseguimos? — Sasuke perguntou, afoito, cortando o curto período de silêncio para assimilar aquele SMS da irmã de Gaara e namorada do jornalista musical que vinha atormentando seus sonhos.
— Temos uma audição privada com Shikamaru Nara para uma apresentação das nossas autorais e para conversar sobre nosso contrato essa semana. Parabéns — Gaara abriu um sorriso charmoso e cafajeste, fazendo Sakura estapeá-lo no peito três vezes e, depois, abraçá-lo.
— Oh, meu Deus! Meu Deus! Gaara! — Sakura tinha os olhos marejados e o riso mais frouxo do mundo no rosto.
Estava fascinantemente radiante.
— Não brinca comigo, cara… — Sasuke murmurou e Naruto bateu no próprio rosto.
— Sasuke, cara, nós conseguimos! Você não ouviu? Conseguimos! — Naruto se pendurou e seu pescoço e, incrivelmente, foi retribuído.
— Eu não acredito, meu Deus! — Sakura puxou Gaara para um caloroso abraço juntando-se à Naruto e Sasuke.
— Como? Onde? — Sasuke conseguiu perguntar num fôlego só de seriedade.
— Sexta, de manhã. Vamos até lá, apresentamos umas músicas autorais e ele vai passar o resto das instruções para o fechamento do contrato — Gaara bateu uma palma. Não disfarçava o sorriso, chegando a agitar as pernas em uns passos de danças ridículos algumas vezes.
Sakura, envergonhada, secou rapidamente os olhos úmidos antes que algum deles percebesse.
— Por Deus, estou tão feliz. Vocês não fazem ideia. Eu vejo tanto potencial em vocês. Essa apresentação vai ser perfeita! Eu vou ficar torcendo para que-
— Você não vai com a gente? — Naruto franziu as sobrancelhas.
— Até a reunião com vocês?
— Sim, Sakura. Você vai conosco, não vai? — Gaara também estranhou.
— Ahn… Eu… — Sakura olhou de um para o outro, até que seus olhos caíram sobre Sasuke no meio. Um pouco mais alto, de ombros repentinamente mais baixos. Os olhos a encarando, profunda e sinceramente.
— Não vai? — Sasuke perguntou com o sorriso que tinha se desfazendo aos poucos.
Sakura sentiu uma secura na boca e um acelerar no coração. Ela tinha tido um papel importante para eles, reconhecia. Mas cabia a ela aquela experiência? Era seu dever estar ao lado deles naquele momento?
A resposta era óbvia.
— Está brincando? — Ela ajeitou os cabelos, sorrindo ainda mais. — É claro que vou. Eu não perderia isso por nada no mundo.
E foi então que viu de novo. Pela segunda vez. O sorriso com covinhas de Sasuke.
Derreteu-se completamente por dentro. No fundo, sabia que estava errada. Mas também sabia que jamais se arrependeria.
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