Closer
27 Festival
Notas iniciais

Nervosismo. Se Sakura pudesse se descrever com uma palavra, essa seria a escolhida.
Ela estava uma pilha de nervos.
Os braços cruzados rentes ao peito não disfarçavam a tremedeira. Os olhos arregalados, que miravam o palco ainda ocupado, não deixavam de transparecer a ansiedade. Os lábios inferiores, firmemente presos sob os dentes, logo ficariam roxos se ela não afrouxasse o aperto.
Akatsuki estava apresentando sua última música. Konan brilhava em um cover maravilhoso de Rock ‘n Roll, de Avril Lavigne. Impressionava-se com o quanto ela levantava o público. Seu estômago revirou quando os viu se despedirem com tantos aplausos de volta.
Nameless seria a próxima.
Sakura sentiu como se estivesse geando dentro de si e piscou com força. Arrancou os óculos do rosto e o afundou entre as mãos.
Ainda teriam um pequeno intervalo antes de entrarem.
— Puta que pariu, vocês arrebentaram — Naruto elogiou quando a outra banda passava por eles para se retirarem de vez dos bastidores.
— Valeu, cara! — Hidan devolveu o cumprimento, agarrando forte a mão de Naruto e o puxando contra seu ombro.
— Você estava incrível lá em cima, Konan — Sakura tentou seu máximo para sorrir sem formar uma careta horrenda.
— Obrigada, obrigada — ela respirou fundo, passando a mão pelos cabelos bagunçados. — Kakuzu, me arruma uma água, pelo amor de Deus. Tenho certeza que você vai me botar no chinelo quando entrar lá — apontou sorridente para o palco e o pequeno sorriso de Sakura sumiu de vez.
— Puxa, está tão cheio, não é? — ela tentava focalizar em qualquer coisa que não fossem os inúmeros rostinhos logo ali embaixo, mas estava difícil.
O festival era em praça pública. Promovia encontros entre músicos da região e amantes de uma boa música. Um evento anual muito esperado. Vários artistas amadores costumavam se inscrever para performar durante a tarde e início da noite em alguns dos palcos laterais que se distribuíam pela enorme praça. E, de fato, Gaara tinha dado o nome da banda tempos antes. Porém, todos os músicos e bandas que se apresentavam no grande palco principal eram contatados pelos próprios organizadores do evento. O que era uma honra sem tamanho. Ser pago para tocar em um festival público era bom demais para ser verdade.
O cachê era alto e o horário era perfeito. Os shows do palco principal só aconteciam mais à noite e o deles seria às 21h30min. Como todo bom festival musical, aquele também tinha um tema. E, felizmente para Nameless, as pessoas iam até lá para se acabarem com um bom rock e derivados.
— Meninas — Kakuzu disse todo educado enquanto oferecia a elas duas garrafinhas d’água.
— Ah, eu não… — Sakura começou, mas foi cortada.
— Pra hidratar essas preciosas cordas vocais — piscou e rapidamente sumiu dali.
Sakura olhou da água para a plateia mais uma vez.
— Não esquenta. Tem bastante gente, mas não são muito exigentes, tsc… — Konan bebeu um longo gole de sua água e secou os lábios com as costas da mão. — E, também, pra quem já arrasou no The Rock, isso é fichinha.
— Já faz um tempo… — ela pensou. — Jesus, preciso da Ino com uma bebida forte.
— Hm, já estamos descendo. Quer que eu a procure pra você?
— Oh, vocês ainda estão...? — Sakura mexeu as mãos de maneira estranha, beirando o cômico.
— O quê? Não! — ela riu. — Ino é garota de uma foda só. E que foda, viu? — sussurrou a última parte apenas para que Sakura pudesse ouvi-la. — Enfim, ficar com ela foi ótimo. Foi por causa dela que eu e Yahiko nos acertamos — ela ergueu a garrafinha d’água na direção do ruivo e ele sorriu discreto. — O que ela te deu na última apresentação?
— Bacardi — Sakura fez uma careta.
— Certo, logo ela aparece aqui com duas doses — riu.
— Konan, você não vem? — Hidan, que antes conversava animadamente com Naruto, de repente a chamava.
— Ainda dá tempo de curtir o festival — secou a garrafa e a jogou em um canto qualquer. — Vai beber? — apontou para a água nas mãos de Sakura que negou. — Então logo a gente se vê! — agarrou a garrafa ainda cheia da amiga e foi embora.
— Ok... — e Sakura viu sua única distração indo embora.
Checou o visor do celular uma última vez. Entrariam em 7 minutos. Suspirou e fechou os olhos, repassando a setlist em sua mente. Teriam 45 minutos no palco, assim como todas as outras bandas. Cantariam onze músicas muito bem selecionadas. Não solaria todas. Sasuke cantaria duas e ainda duetariam mais duas. Bohemian Like You realmente havia agradado na voz dos dois e pretendiam fazer uma pequena parceria na penúltima música.
Seriam a segunda banda da noite, ou seja, se à Akatsuki cabia abrir o show, a eles cabia animar o público e mantê-los na vibe. Por isso haviam selecionado músicas mais agitadas. Nada com melodias muito profundas e lentas. Isso ficaria para a última banda, a que fecharia tudo.
— Sasuke abre, duetamos, eu canto, duetamos, Sasuke fecha. Sasuke abre, duetamos… — repetia quase como um mantra a ordem que haviam combinado.
— Nameless? — todos olharam na direção do rapaz miúdo todo vestido de preto com um tablet em mãos e um fone nos ouvidos. — Vocês entram em cinco minutos.
— Certo — Naruto respondeu tão animado que sua voz subiu uma oitava.
Ainda afobada, Sakura passou a mão pelos cabelos propositalmente bagunçados, os despenteando ainda mais.
— Não sei pra quê todo esse drama — Ino praticamente se materializara ao seu lado.
— Oi?
— Ai, esse seu nervosismo. Você sabe que vai arrasar, gata. Fica aí, toda se roendo, pra depois subir lá e dar o maior show. Se você não fosse boa, não estaria aqui, não acha? — estendeu um copo grande com uma bebida azul piscina para a amiga. — Bebe aí. É docinho e gostoso pra porra.
Sakura mirou aquele copo estendido em sua direção e, depois, voltou o olhar para Ino. A amiga tinha razão. Por Deus, ela estava totalmente certa!
Ficava lá, toda medrosa e, assim que subia no palco, parecia se esquecer da vida.
Já havia experimentado a sensação de dominar um palco e tinha adorado. Não seria diferente naquele momento, certo?
— Obrigada, Ino — sorriu.
— Obrigada é o cacete. Tá me devendo quinze pilas — apontou a bebida.
— Não, Ino. De verdade, obrigada — recitou novamente, em meio à risada.
— Hm, está um pedacinho de pecado nessa roupa. Fiz um trabalho muito bom — espalmou a mão direita na nádega de Sakura.
— Mas que porra… — resmungou.
— Com você e com os rapazes. Nem acredito que demorei tanto pra perceber minha verdadeira vocação!
A história de cursar moda realmente havia subido à cabeça de Ino. Tinha feito questão de escolher todos os figurinos daquela noite para toda a banda. E, claro, como a garota empenhada que era, estudara as músicas, o estilo e o festival.
O resultado não poderia ser melhor. Todos estavam esplêndidos.
— Vou descendo. Logo vocês entram — Ino apontou para a outra entrada do palco onde um homem ajeitava um colete de taxinhas no corpo e procurava por um microfone que devia estar por ali. — Já serão anunciados. Quero berrar muito lá de baixo.
Sakura assentiu e Ino sumiu da mesma forma que havia surgido.
Suspirou vendo o tal homem ainda procurando o microfone perdido.
Prendeu a respiração e, quando estava prestes a soltar, sentiu outro tapa arder em sua bunda. Bem mais forte daquela vez.
— Droga, Ino, pare com isso — virou-se com a maior carranca, mas foi obrigada a desfazê-la por uma cara de surpresa impagável.
Sasuke a encarava com o maior sorriso cafajeste estampado na cara.
— Tenho certeza que Ino bate com mais força — não era verdade, mas valia a piadinha. — Está nervosa — não era uma pergunta.
— Não estou — respondeu mesmo assim.
— Sim, está — reafirmou. — Sakura, nem é você que vai começar a apresentação.
— Com essa sua cara de cu junto da primeira música, tenho certeza que caberá a mim e ao meu inegável carisma o trabalho de simpatizar com o público — viu o homem que os anunciaria finalmente encontrando o microfone e suspirando aliviado ao checar o relógio em seu pulso.
— Ponto pra você — ela ouviu o estalar do pescoço de Sasuke e suspirou. — Fiquem prontos — ordenou ao se virar para os amigos que ainda papeavam como se nada grande estivesse para acontecer.
Formaram uma pequena fila atrás de Sasuke. Sakura logo atrás, encarando a estampa agressiva nas costas da jaqueta de Sasuke. Ino acertara em cheio.
No palco, um cara de moicano vermelho berrava com o pessoal e eles entravam no clima. Quando o nome “Nameless” saiu da boca dele, todos vibraram. Urros e ovações podiam ser ouvidos por toda a praça. Até os que não faziam ideia do que ou quem era Nameless, gritavam junto.
Sakura sentiu um calor bom a envolver. Querendo ou não, mesmo que ela não fosse um membro real da banda, mesmo que só estivesse ali para — como ela gostava de acreditar — ajudar os rapazes, ela ainda fazia parte daquilo.
E era bom demais saber que todas aquelas pessoas estavam ansiosas para ouvir as músicas que tocariam.
Uma sensação boa de orgulho com algo a mais que ela não soube identificar.
Sasuke entrou com os passos firmes que só ele tinha. Era como se o palco fosse apenas seu e ele tivesse permitido que outras pessoas o ocupassem por misericórdia.
Quando as costas dele estavam perigosamente longe demais, Sakura se tocou de que já deveria ter entrado. Foi um pouco apressada, quase tropeçou no cadarço intencionalmente solto dos coturnos. Ela bem tentou não sorrir, mas fora em vão. Assim que ouviu o grito do público, automaticamente pareceu ter enfiado um cabide na boca.
Gaara veio em seguida. O canto da boca soerguido em um riso sedutor. Ao ouvir um assobio seguido da palavra “gostoso” berrada em alto e bom som, ele jogou um beijo para a plateia e ousou dar uma piscadinha. Naruto vinha atrás, brincando com as baquetas, batucando o ar e atrasando o passo de Neji que, por mais que estivesse tão calmo por fora, por dentro estava uma verdadeira pilha de nervos.
Ficou estipulado que Sakura comandaria a segunda guitarra naquela primeira e na última música, enquanto Sasuke solava no vocal. Indo cada um pra sua posição, esperaram Sasuke se ajeitar com o microfone.
Sem cumprimento algum, Sasuke simplesmente virou a cabeça para os parceiros e acenou para começarem.
Sakura estava certa no fim das contas. Sobraria para ela interagir com o público.
Quando Naruto puxou as batidas de We Don’t Have To Dance, de Andy Black, os berros, que haviam cessado por alguns segundos, voltaram com força total. E aquilo só piorou quando ouviram a voz de Sasuke saindo dos enormes alto-falantes laterais.
Discos arranhados, Steve Miller Band
Pescoços e mãos tatuadas
Oh, como você não afoga na tempestade?
Arrependimentos recentes, suor de vodka
O sol se pôs e nós vamos ficar exaustos e tão longe da costa
Era assustador e, ao mesmo tempo, reconfortante como a voz de Sasuke combinava com a música. O tempo musical estava perfeito. Tudo ia às mil maravilhas.
Quando ia entrar no refrão, Sasuke pode ouvir a plateia acompanhando o ritmo com palmas e, inevitavelmente, aquilo o fez sorrir e umedecer os lábios na tentativa de continuar com a cara fechada que usava para interpretar aquela música.
Você nunca vai entender
Eu sou um perigo pra mim mesmo
Eu vou te explicar de um jeito fácil
Isso é um inferno, isso é um inferno
Você está olhando e murmurando
Você acha que eu sou outra pessoa
Isso é um inferno, sim
Literalmente um inferno
De seu lugar, Sakura podia ver as veias do pescoço másculo de Sasuke começarem a saltar com tamanha vontade que ele cantava. Por um segundo, atrapalhou os dedos nas cordas e deu graças a Deus por não ter sido um erro aparente demais. Seria vergonhoso ter que explicar que havia errado por culpa de Sasuke e sua maldita voz gostosa pra caralho.
Nós não temos que falar
Nós não temos que dançar
Nós não temos que sorrir
Nós não temos que fazer amigos
É um prazer te conhecer
Nunca mais vamos nos encontrar
Nós não temos que falar
Nós não temos que dançar (x2)
Era fato que aquela carranca de Sasuke e a antipatia estampada nela combinava demais com a música. Aquela falsa arrogância só fazia o público pirar ainda mais.
Garrafas se quebram, eu levanto minha mão
Como você consegue ainda ficar de pé?
E porque esse veneno traz tanta satisfação? Oh
Fingindo sorrisos e confiança
Dirigindo por milhas só para pegar esse entusiasmo
Eu não aguento mais
Começando a se animar, Sasuke passou a se mexer pelo palco. Exalava confiança pelos poros. Aproveitou o momento de solo instrumental para ajeitar os cabelos, arrancar a jaqueta e amarrá-la à cintura. O calor da noite começava a afetá-lo.
(Yeah, yeah, yeah, yeah)
(Hey, hey, hey, hey, hey)
Você nunca vai entender
Eu sou um perigo pra mim mesmo
Eu vou te explicar de um jeito fácil
Isso é um inferno, isso é um inferno
Você está olhando e murmurando
Você acha que eu sou outra pessoa
Isso é um inferno, sim
Literalmente um inferno
Nós não temos que falar (x2)
Nós não temos que dançar
Antes de finalizar de vez, agachou-se na beirada do palco e fechou os olhos, sussurrando baixinho as últimas palavras e arrancando suspiros de muitas e muitos por ali.
Nós não temos que falar
Falar, falar, falar, falar, falar, falar, falar
Enquanto se levantava e já se preparava para a próxima música, o público seguia eufórico. Aquela entrada havia sido mais que digna. Apenas uma música e todos já estavam pulando como loucos.
Mal haviam terminado de aplaudir uma, a segunda começou e só conseguiu arrancar mais e mais gritos. Quando deram início a Bohemian Like You, apenas Sasuke cantava e Sakura, sorrateiramente, ajeitava a guitarra em seu suporte e tirava um dos microfones usados para backing vocal do pedestal.
Ela se aproximar de Sasuke e jogar o braço despretensiosamente sobre o ombro dele foi o suficiente para que entendessem que aquele seria um dueto maravilhoso.
Ao encerrarem a segunda música, Sasuke tratou de deixar Sakura sozinha no vocal e correu para sua guitarra. Porém, daquela vez, antes de começarem a próxima, ela fez o favor de interagir um pouco com o público. Claro, não poderiam desperdiçar muito tempo com falatório. Apenas um rápido “Boa noite, pessoal!” muito animado.
Não demorou para que ela desse entrada na terceira música. Basket Case, da Green Day, foi a música que fez até quem estava sentado pular. No palco, Sakura fazia caretas e gestos estranhos para seguir a música. Duetar com Sasuke havia sido o suficiente para que se soltasse. E, caso não, One Way Or Another, da Blondie, foi a garantia de que sim, Sakura estava soltinha feito arroz de vó.
Quem não vibrou e não cantou com Na Na Na, de My Chemical Romance, mentiu. Sakura arrastava o público com uma facilidade impressionante quando estava distraída em sua performance. Sua animação parecia se transferir para todos. Naruto pirava na bateria e, já completamente envolvida pelo momento, Sakura passeava pelos rapazes e fazia interações.
Gritou para Neji o imperativo dos verbos de Admirável Chip Novo, tocou guitarra no ar junto de Gaara quando cantou Highway To Hell e aproveitou para fazer o público enlouquecer ao máximo, jogou os cabelos e balançou o quadril perto de Sasuke enquanto interpretava Cherry Bomb e caiu de joelhos no chão enquanto praticamente encarnava Joan Jett para cantar I Hate Myself For Loving You.
Ainda ajoelhada, tentava recuperar o fôlego e sorria boba. Continuava sendo aplaudida. Mesmo que estivessem tocando a céu aberto e a noite não estivesse tão quente, uma fina camada de suor já se fazia presente em seu corpo. Conseguiu beber um copo d’água antes da penúltima música, onde voltaria a duetar com Sasuke.
Teve tempo suficiente para se recuperar, visto que ele começaria a música. O estardalhaço foi geral quando reconheceram o acorde inicial de R U Mine?, da Arctic Monkeys. Sasuke saiu cheio de marra de seu lugar. Não segurava mais nenhuma guitarra, mas tinha um microfone e cantava para Sakura, olhando em seus olhos, quase como se quisesse lhe tirar alguma informação.
Sou uma marionete num fio
Ilha de Tracy, diamante viajante do tempo
Poderia esculpir mágoas
Vem te encontrar em alguma manhã aveludada anos mais tarde
Ela é um raio de esperança
Cavaleiro solitário cavalgando em um espaço aberto
Na minha mente, quando ela não está ali ao meu lado
Eu fico louco, pois aqui não é onde eu quero estar
E satisfação parece com uma memória distante
E eu não posso me ajudar
Tudo que eu quero ouvi-la dizer é: Você é meu?
Bem, você é meu?
Você é minha?
Você é minha/meu? Certo
Naquele momento, Sasuke tinha certeza de apenas três coisas: seu nome, sua inevitável morte em algum dia no futuro e de que não existiria mais nenhum vocal no mundo todo que combinasse tanto com o seu quanto o de Sakura.
Acho que o que quero dizer é que preciso do fundo do poço
Sigo imaginando encontros, desejados por vidas inteiras
Injusto não estarmos em algum lugar agindo errado por dias
Grande fuga, perca de noção do tempo e do espaço
Ela é um raio de esperança, subindo no meu desejo
E a emoção da perseguição segue de maneiras misteriosas
Portanto, no caso de eu estar enganado
Eu só quero te ouvir dizer
Você me tem, querido
Você é minha?
Era espantoso como soavam perfeitos juntos. A sonoridade era sem igual. Suas vozes pareciam se enroscar uma na outra. E era tão bom poder ouvi-los juntos que a plateia quase não se pronunciava durante a música.
Esperariam o final para aplaudirem até as mãos se cansarem.
Ela é um raio de esperança
Cavaleiro solitário cavalgando em um espaço aberto
Na minha mente quando ela não está ali ao meu lado
Eu fico louco, pois aqui não é onde eu quero estar
E a satisfação se parece com uma memória distante
E eu não posso me ajudar
Tudo que eu quero ouvi-la dizer é: Você é meu?
Bem, você é meu?
Você é meu amanhã?
Você é minha? Ou só é minha essa noite?
Você é minha/meu?
Você é minha/meu amanhã?
Ou só é minha/meu essa noite?
Terminaram encarando-se intensamente. Todo o negócio de “você é meu?” e “você é minha?” só colaborava para o surto dos espectadores. Sasuke não soube bem dizer quando o momento se desfez, mas se lembrou do sorriso pleno de Sakura antes dela agradecer ao público e voltar para a guitarra mais ao fundo.
Ele estava só no meio do palco novamente. Era meio estranho cantar sozinho logo depois de se sentir tão completo duetando com alguém. Fecharam com Black Veil Brides. E nada melhor que finalizar com In The End.
Deixaram o palco ainda em meio aos berros e gritos e com a certeza de que haviam sido a melhor atração da noite. A próxima banda teria 10 minutos antes de entrarem, mas as pessoas não pareciam querer outra. Elas pediam por mais Nameless. Os berros alucinantes ainda faziam a cabeça de Sakura girar.
Nos bastidores, Naruto era claramente o que ainda estava mais agitado. Abraçou Sakura e a apertou até seus ossos estalarem. Os dois riam como dois patetas. Receberam congratulações dos próximos músicos e desceram com a sensação de dever cumprido.
Sakura sabia que os rapazes eram lindos e tudo o mais, mas nunca pensou que viveria pra ver aquilo e muito menos que riria da situação.
Assim que colocaram os pés no chão, uma penca de pessoas passou a rodeá-los. Entre elas, uma boa parte eram garotas com sorrisos maliciosos. Foi impossível segurar o riso quando uma moça atracou-se a Neji e ele, desesperado, tentou se desvencilhar do aperto antes que sua namorada ciumenta o pegasse.
Gaara parecia estar no céu. Era o mais abraçado por meninas. Ele sorria e respondia sedutoramente qualquer pergunta que lhe fizessem. Sasuke tentava dispersar, mas estava difícil quando era afogado em um mar de mãos danadas. Estava estampado em seu rosto o pedido de socorro que lançou para Naruto que, em vez de ajudar, se arrastou até o amigo e, com ele, mais algumas admiradoras.
Risonha, Sakura tratou de sumir dali antes que sobrasse pra si. Algumas pessoas do grupinho de fãs a paravam e pediam fotos, elogiavam e uma das meninas até perguntou sobre qual tintura ela usava no cabelo. Quando ia responder, foi pescada por uma mão amiga.
Virou-se pronta pra agradecer a Ino ou quem quer que fosse de suas amigas, mas se surpreendeu ao dar de cara com aquele inconfundível cabelo vermelho e óculos.
— Karin? — não conteve a expressão incrédula em sua face.
Ela riu. Não um riso debochado ou sarcástico. Apenas riu e a abraçou.
Karin abraçou Sakura. Do nada. Simplesmente a puxou para um aperto reconfortante.
— Parabéns, você estava ótima lá em cima — o sorriso não deixava seu rosto.
Se no começo da noite Sakura usaria a palavra “nervosismo” para se descrever, naquele momento, poderia facilmente usar “confusão”.
— Eu… Obrigada, eu…
— Deixa eu te apresentar alguém! — só então Sakura percebeu o rapaz alto ao lado de Karin. — Esse é Suigetsu. Sui, ela é aquela menina que eu te falei. A nova vocalista da banda dos meninos.
Ela estava sendo simpática?
O garoto alto e de cabelos platinados sorriu. As roupas denunciavam que aquele era o lugar onde ele queria e deveria estar. Os fios pareciam macios e eram tão claros, mas tão claros, que Sakura se pegou com vontade de perguntar qual descolorante ele usava.
— Ah, oi! Muito prazer. Sakura, não é? — ele se curvou para cumprimentá-la. — Ouvi falar muito de você. Muito — lançou um olhar para Karin e ela riu baixinho.
— Oi, eu… — ainda estava confusa. — Vocês estão juntos?
— Sim, estamos namorando há um tempinho — ela abraçou o braço do rapaz. — Mas ele já estava de saída. Eu queria bater um papinho com você — Suigetsu levantou as mãos pro ar.
— Certo, Juugo deve estar me procurando — beijou a bochecha da namorada e sumiu no meio das pessoas.
— Vamos ali no bar? — Sakura não teve tempo de responder. Foi puxada.
Mal se sentou, duas doses de tequila foram postas à sua frente. Uma para si e outra para Karin. O barman sorriu.
— Você arrasou. Essa é por conta da casa — piscou e foi atender outros clientes.
Sakura não tinha certeza se queria ouvir algo de Karin. Lembrava-se de como as palavras dela eram rudes ao se dirigir a si. Não teve tempo para sal e limão. Mandou sua dose pra dentro com tudo e já levantou a mão, pedindo outra.
— Então… — riu sem graça. — O que queria me dizer?
Karin sorriu com leveza. Ela parecia outra pessoa. Bom, não em aparência, claro. Continuava extremamente bonita. As roupas curtas seguiam moldando seu corpo com perfeição e o cabelo vermelho ainda balançava com qualquer leve brisa. Porém, a energia era completamente diferente. Sakura não se sentia tão desconfortável ali ao lado dela.
— Eu queria me desculpar. Fui uma vadia nojenta com você — disse de uma vez e também bebeu sua dose.
— O quê?
— Com você, Hinata e Tenten. Inclusive, preciso achá-las. Sei que estão por aqui — acenou para o barman que, provavelmente, não havia visto o chamado de Sakura.
— Por quê? — Sakura seguia espantada.
— Porque aquela Karin que conheceram não é a Karin de agora. Jesus, Tenten e eu nos odiávamos. Nunca nem trocamos dez palavras — riu gostoso.
— Karin…
— Hm, sei que parece estranho. A ex-vocalista da bandinha que começou a fazer sucesso aparece e se faz de boa samaritana e blá, blá, blá… Mas estou sendo sincera. Depois que Sasuke me chutou, percebi que eu não estava muito bem — o barman surgiu e ela pediu duas cervejas, sendo logo atendida.
— Eu não entendo — Sakura tomou um longo gole da bebida amarga.
— Vou ser direta. O problema era como eu me sentia em relação ao Sasuke. Não era saudável o que eu nutria por ele. Terminar foi uma benção. Mesmo que ele tenha me jogado um belo balde de água fria…
— Karin, Sasuke era… — engoliu em seco. — Ele era… Mau?
— O quê? — ela explodiu numa risada sonora. — Se o Sasuke era mau? Jamais. Sakura, ele nunca me desrespeitou em nenhum dos sentidos. Era um cuzão, é verdade. Mas o negócio é que, realmente, não tínhamos nada. Ele nunca me deu motivos pra crer que tínhamos e eu fantasiei um namorico na cabeça. Estava praticamente obcecada por ele — outro gole. — Minha terapeuta disse que…
— Você precisou fazer terapia? — assustou-se.
— Depois do escândalo que aprontei quando Sasuke terminou, meu vizinho veio me chamar de louca. Disse que eu precisava procurar tratamento. Bom, ele não estava errado — riu. — Sabe quem me apoiou nisso? — Sakura negou. — Sasuke.
— Sasuke?
— Liguei pra ele uns dias depois, pedi desculpas e disse que iria me tratar e ser a garota perfeita — negou com a cabeça, como se estivesse decepcionada. — Estava fora da casinha. Ele me disse que não se tratava disso. Foi comigo na primeira consulta. No fim das contas eu precisava mais daquilo do que pensei. Pedi para que ele guardasse segredo. O gozado foi que, pra minha desintoxicação dar certo, precisei da ajuda dele. Olha, ele se provou bem melhor como amigo que como qualquer outra coisa.
— Nossa, Karin. Nem sei o que dizer…
— Eu não gostava disso. Da banda. Fazia por achar que Sasuke magicamente se apaixonaria por mim, desengataríamos em um romance sem precedentes e viveríamos felizes pra sempre numa casa feita de doces. A gente só ficava, não sei de onde tirei que tínhamos algo sério. Ele foi bem claro comigo no começo. Eu também ficava com outros rapazes, mas realmente achava que sentia algo por ele, sabe? — agitou a garrafa quase vazia. — Ele me apresentou o Sui quando a terapeuta disse que era bom que eu conhecesse pessoas novas. Estudam juntos. Ele me apoia e o sentimento que temos é mútuo. Estou genuinamente feliz agora, Sakura. E não queria guardar mágoas de um passado cheio de mesquinharia e infantilidade. Nunca havia visitado um profissional antes e ainda tenho muito o que resolver. Mas, antes de seguir, quero fazer a coisa certa — chamou o garçom e indicou a própria garrafa em um pedido silencioso de mais uma.
— Sakura, estávamos te procurando faz um tempão — Tenten surgiu sorridente ao lado de Hinata, mas os sorrisos logo murcharam. — Ah, oi… — olhou dura para Karin.
— Tenten, há quanto tempo. Hinata, olá. Como estão? — as duas se entreolharam, estranhando aquele comportamento.
— Eu e Karin estávamos batendo um papo. Sabiam que ela está de namorado novo? — Sakura tentou acalmar o clima pesado.
— Namorado de verdade, você quis dizer — riu. — Falando em namorado, deve estar orgulhosa do seu, Tenten. Os rapazes tocaram muito bem lá em cima.
— Eles sempre tocam. O que quer? — foi direto ao ponto e Karin estatelou os olhos antes de rir.
— Sempre muito direta. Entendo. Por que não conversamos? Preciso falar com vocês.
Tenten e Hinata se juntaram a elas desconfiadas. Porém, nem dez minutos de conversa depois, Tenten já estava toda mole e Hinata deixara até uma lágrima cair. Terminariam aquela noite com números de telefone trocados, sorrisos e uma ressaca daquelas, visto que Sakura estava ganhando todas as bebidas por conta da casa ou de algum engraçadinho que tentava se aproximar pagando um drink.
Para tudo ficar perfeito, só faltava uma pessoa: Ino. O problema era que ela estava ocupada demais no meio do povo, analisando minuciosamente todas as beldades com seus olhos de águia. Os dedos brincavam com o canudo do copo de bebida. Os enormes cabelos estavam presos no alto da cabeça em um coque. Não queria nada atrapalhando a visão naquele momento.
Avistou uma morena belíssima. Farta, cheia de curvas e sorriso travesso. A camiseta da AC/DC que usava tinha um maravilhoso decote. Era o alvo.
— Nem pense nisso, Yamanaka — estaria mentindo se dissesse que não se assustou com a chegada repentina de Gaara. Porém, apenas arqueou uma das sobrancelhas tão bem delineadas.
— O que quer, Gaara?
— Quero ela — apontou para a mesma garota que Ino secava.
— Tenha dó! Tem milhares de garotas prontinhas pra sentar na sua pica e você vem de olho na que estou secando há horas?
— Realmente, você é bem desatenta, Ino — estalou a língua. — Tanto que nem percebeu que não era a única querendo algo com ela. Também estou admirando a beleza daquela moça há muito tempo. Então já vim logo deixar claro pra você procurar outra por aí.
Ino soltou uma risada nasal em sinal de claro deboche.
— Gaara, Gaara… Parece até que não me conhece… — bebericou um pouco de sua bebida — Tem certeza que vai querer competir com sua parceira de caça?
— Ino, Ino… Eu é que te pergunto. Sabe que não entro pra perder.
— Ah, querido — riu graciosa e soltou os longos fios do aperto do coque, revelando-se ainda mais sensual. — Então não deveria ter entrado.
— Joga sujo? Ok… — e ele tirou a jaqueta jeans que usava, passou as mãos pelos cabelos rubros e encostou-se sedutoramente no balcão mais próximo dali.
Ino o olhou determinada. Estava feito. A batalha começaria ali.
Então uma música gostosa começou a soar. Era a primeira vez que Ino prestava atenção em algo que vinha do palco depois que Nameless havia saído de lá. A melodia envolvente a fez jogar um beijinho para Gaara e iniciar movimentos corporais. Era muito injusto. Gaara sabia como ela dançava bem e como se remexia feito uma serpente.
Devagar, foi chegando na garota, mas logo parou quando percebeu Gaara indo direto até ela com dois copos de bebida na mão. Ele era rápido. Tratou de pará-lo e roubar um dos copos de sua mão, sorvendo rapidamente o líquido.
— Ino! — ralhou.
— Ninguém disse que não poderíamos atrapalhar um ao outro, hm? — riu e Gaara não resistiu a acompanhá-la. — Só flertes discretos?
— Certo, só flertes discretos… — seria melhor não arriscar com uma Ino a todo vapor.
— Olha só, vamos… — ela parou assim que percebeu os olhos da menina que almejavam em si. Bem, não só em si. Também estavam em Gaara, mas isso era detalhe.
Ino não perdeu tempo. Jogou os cabelos para um dos lados e lançou o sorriso mais cativante que tinha. Nem percebeu Gaara fazendo o mesmo ao seu lado.
De repente a menina passou a encarar somente a garota. Seus olhares se cruzaram e ela a chamou com um dos dedos, aproveitando pra dar uma piscadela.
— Opa, parece que temos um vencedor — soprou baixinho para Gaara que bufou. — Quero que fique olhando enquanto eu a beijo — bateu no peito de Gaara com as costas da mão e andou confiante até a garota.
Trocando sorrisos e toques maliciosos com a moça, Ino fazia questão de encarar o parceiro paralisado perto do balcão de bebidas daquela área da praça.
Gaara estava incrédulo. Nunca havia perdido uma garota pra ninguém! Era inaceitável, incabível, inadmissível, era…
Viu quando a morena sussurrou algo no ouvido de Ino e seu sorriso foi, gradativamente, morrendo. De repente, ela estava voltando para perto de si segurando um riso, era notável. Ah ela não seria capaz de zoá-lo, seria? Seu orgulho já estava tão ferido.
— O nome dela é Nathalie, ela não é daqui e… Ela disse que também queria experimentar meu “amigo ruivinho”.
Instantaneamente, o rosto de Gaara se iluminou.
— Ora, ora… Então parece que foi empate?
— Nem fodendo, Gaara. Essa noite ainda não acabou e, no final de tudo, eu vou estar enrolada com ela nos lençóis e você vai estar em casa, chupando o dedo — cruzou os braços.
— Ah, é? — provocou.
— É.
— Então vamos ver quem ela vai preferir depois de tudo — sorriu galante e passou a andar até sua mais nova conquista.
— Gaara! Ei! — Ino ia atrás, já pensando no trabalho que teria para arrancar da cabeça ruiva que ele não faria nada com aquela garota.
Ino não perderia para Gaara.
Pena que Gaara também não perderia para Ino.
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