Closer
35 Demo
Notas iniciais

Sakura terminava de checar a grande bolsa térmica que levaria na viagem. Tinha água, sanduíches, biscoitinhos e alguns energéticos. Ficariam duas horas na estrada, enfurnados os cinco no mesmo carro; o de Sasuke. E, pelo que Naruto dizia sobre o histórico do amigo de odiar paradas, achou melhor prevenir para que o ambiente não acabasse ficando rude demais para seu gosto.
Nunca vira Naruto e Sasuke boquejarem tanto um com o outro como vinham fazendo desde o anúncio do encontro com Shikamaru Nara.
Gaara tinha lhe dito sobre ter algo a ver com a fragilidade do ego estressado dos dois e como pareciam ter nascido para se importunarem em momentos de grande tensão, mas também a tinha acalmado ao dizer que era assim que funcionavam e, se não berrassem um com o outro a cada 30 segundos, provavelmente iriam explodir.
— Neji já chegou, as bonecas ainda vão demorar muito? — Sasuke surgiu pela porta de entrada, impaciente.
De acordo com o horário combinado, estavam 7 minutos atrasados.
Naruto, sentado no sofá amarrando seus cadarços, revirou os olhos tão forte que Sakura, de onde estava, duvidou por um segundo de que eles voltariam ao lugar.
— Tá com pressa pra pegar a mulher na cama com outro, corno? Eu, hein… — resmungou sem olhá-lo e Sasuke, nervoso, focou toda sua atenção no amigo desbocado.
— O que foi que v-
— Estamos prontos, Sasuke — Sakura praticamente se jogou da cozinha para a sala quando ouviu o afronte. — Gaara só precisou atender uma ligação rápida — ela tirou um tubo roxo de uma outra bolsa menor que estava presa em seu ombro, espremendo um pouco de um creme branco na ponta dos dedos e fazendo menção de tocar as amuras de Sasuke com aquilo.
— Que droga é essa? — foi a vez dela rolar os olhos.
— Vamos, está bastante sol. Se dirigir sem passar pelo menos um pouquinho de filtro solar, vai ficar todo assado depois — ela correu os dedos pelas maçãs, nariz e testa dele, sorrindo ao terminar. — Que bonzinho.
Sasuke tremeu os olhos por uns segundos enquanto via aquele ar gracioso rondando Sakura. Eram momentos como aquele que o faziam ter certeza de que ela deveria acompanhá-los não só naquela bendita audição, mas durante todo o percurso.
— Sakura, eu também quero! — Naruto pediu e ela riu.
— É claro, Naruto — curvou-se para ele, passando uma generosa camada nas mesmas áreas em que tinha passado em Sasuke. — Ninguém quer bater papo com empresário exibindo uma cara descascada.
Ela riu e depois perguntou algo ao amigo loiro que o fez arregalar os olhos e subir depressa pro segundo andar, dizendo que ia chamar Gaara.
— Ele foi pegar as “baquetas da sorte”, não brigue com ele, ok? — Sakura pediu risonha assim que Naruto sumiu de suas vistas.
Sasuke pendeu a cabeça para um dos lados, deixando que aquela história dos sete minutos de atraso fosse substituída em sua mente pela imagem de Sakura procurando alguma bobagem em sua bolsa enorme.
O frescor daquela presença era incrível. Sakura era como uma doce brisa primaveril que passava por entre eles e sussurrava, baixinho, o que eles precisavam ouvir.
— Estou oficialmente sem anti-eméticos. Teremos algum enjoadinho à bordo? — ela o olhou com aquela expressão divertida que não deixava seu rosto desde a ligação. — O que foi?
Sasuke negou, achando graça nos olhos verdes o encarando com tanta curiosidade e nos cabelos tão cor-de-rosa presos sob um lenço vermelho.
— Nada. Ainda bem que vai conosco — concluiu com um sorriso que, ele não sabia, mas Sakura havia apelidado carinhosamente de “sorrisinho mata calcinha”.
Quase vira a famosa covinha se formar. Quase.
— Ora… — ela fitou o chão, tinha sido pega de surpresa. Suas bochechas estavam esquentando e ela podia sentir. — Fico feliz de poder fazer isso por vocês. E, também, eu sequer tinha aula hoje, então…
É claro que não. Era dia de teste, não de aula.
Sakura estava evitando pensar naquilo, mas, sinceramente, sempre que via os garotos animados com tudo, simplesmente se esquecia do peso em sua consciência.
Estava fazendo aquilo porque queria e ponto. Não teria arrependimentos.
Neji, de repente, passou pela porta. Estava visivelmente nervoso e nem os óculos escuros escondendo-lhe os olhos conseguiam disfarçar.
— E então? Quando saímos? — esfregou as mãos e trocou o apoio de peso do corpo entre os pés. Sakura conseguia ver o suor se formando abaixo das axilas.
— Saímos agora mesmo — Sasuke disse alto e próximo da escada, fazendo sua voz ecoar pelo andar de cima. — Quem quiser atrasar, pode ficar e ir de ônibus que eu pego na rodoviária — disse ácido.
Gaara desceu imediatamente, abotoando os punhos de sua camisa social propositalmente com uma abertura no peito. Naruto veio atrás, atrasando o passo apenas para ouvir mais um grito furioso de Sasuke.
— Você também gosta de provocar, né? — Sakura comentou baixinho quando ele passou por si e Naruto respondeu com um sorriso debochado.
— Não vejo a hora de sairmos no soco… — sussurrou de volta e riram, parando na hora em que Sasuke, já lá na frente, se virou para encará-los.
Como não precisariam levar qualquer instrumento e o carro de Sasuke era o mais espaçoso de todos, decidiram rachar a gasolina e irem todos juntos. Isso para o desespero do Uchiha que, sinceramente, começava a pensar se valeria a pena usar seu réu primário quando viu Naruto indo direto pro banco da frente.
— Onde estão seus modos, Naruto? — Gaara, notando a chegada de mais um atrito, se intrometeu. — Sakura está cheia de parafernálias para a viagem.
— Nossa, que mancada. Quer ir na frente, Sakura?
— Ah, não prec-
— É claro que ela quer, paspalho. Xispa daí — Sasuke resmungou e Naruto saiu o respondendo, mas foi ignorado.
— Obrigada, Naruto — agradeceu com um sorriso que morreu assim que ela tentou puxar o cinto de segurança. — Só pode ser brincadeira…
Sasuke a olhou de esguelha enquanto bufava e xingava baixinho um impropério. Ainda bem que ela estava ali, no banco da frente. Seria, no mínimo, interessante.
Como sempre, dobrou o corpo sobre o dela e puxou o cinto com precisão. Sakura cruzou os braços, indignada. Era revoltante como aquela porcaria de cinto de segurança se recusava a funcionar com ela.
— Todos prontos? — Neji confirmou enquanto Gaara já enfiava fones de ouvido e Naruto começava a procurar por alguma coisa na bolsa térmica de Sakura. — Ótimo, estou vazando. É bom terem ido ao banheiro.
E Sasuke arrancou, deixando para trás uma marca de pneu na calçada de saída do sobrado.
Precisava compensar os tais sete minutos de atraso.
— ὡѼὠ —
Estavam quase chegando ao seu destino e a viagem havia sido ótima. Salvo Naruto levando uma patada ali e acolá de Sasuke, tudo correra deliciosamente bem.
Foram conversando animados lá atrás e Sakura sempre se virava de forma que pudesse conversar com os rapazes do fundo e, é claro, com o motorista. Particularmente, seu rapaz favorito.
Sasuke não falava muito. Só quando a pergunta era diretamente para si ou quando ia dar um xingo em Naruto e sua folga. Mas exibia um mínimo sorriso de entendimento sempre que via Sakura o encarando. Como numa afirmação muda de que ele estava a ouvindo e gostava daquilo.
Estava absurdamente lindo com os cabelos propositalmente desalinhados, a jaqueta negra de couro, a camisa branca e óculos escuros que deviam ter sido feitos sob medida para casar tão certinho com aquele rosto.
— Certo, vamos repassar — Sakura estava virada para Gaara. Conversavam já tinha uns bons minutos.
Embora a promessa de um contrato com a gravadora mais aclamada mundialmente fosse um sonho muito próximo, ainda não era tão certeiro assim.
Gaara havia conversado mais com Temari e com a assistente do figurão Nara. Ele tinha ficado bastante impressionado com o que eles fizeram no palco do Hooligans, porém, queria ver o material original que eles poderiam oferecer. Só aí teria certeza absoluta do sucesso dos rapazes para, então, direcioná-los para o estágio final. Para isso, estavam indo num dos estúdios profissionais da gravadora. Conversariam, se apresentariam, tomariam um café e então Shikamaru daria seu veredito.
Estavam todos muito ansiosos. Tinham preparado nove autorais. A maioria, de Sasuke. Treinaram o máximo que puderam durante o curto intervalo de tempo que tiveram, mas, sinceramente, não tinha como ficar mais perfeito.
Sakura, que comparecera a todos os ensaios, havia ficado genuinamente impressionada. Se aqueles quatro sabiam o que fazer numa música de outro artista, provaram-se imbatíveis quando o assunto era fazer o próprio som.
Depois de ouvir na primeira vez, lembrava-se de ter ficado surpresa por nunca tê-los visto numa apresentação cem por cento autoral. Eram tão incríveis quanto poderiam ser.
Ela e Gaara debatiam as músicas que compunham a setlist da apresentação. Nas mãos dela, o caderninho negro de Sasuke. Ele havia levado para dar uma revisada nas letras antes da apresentação. Ainda não estava acostumado com aquilo de tocar para alguém suas músicas autorais.
Sakura apontava algumas observações para Gaara e ele comentava de volta. Falavam sobre a ordem, a entrada e o encerramento. Aquele papo todo estava deixando Neji maluco, Naruto, inquieto e Sasuke, nervoso.
— Certo, então vamos trocar a posição dessas duas — ele apontou algo no caderno e Sakura concordou. — Assim mantemos o ritmo nas três últimas e fechamos muito melhor.
— Sim, isso! Assim vocês podem… Ei! — Sakura reclamou quando Sasuke puxou o caderno de suas mãos e o fechou.
— Nada de mudanças de última hora.
— Vocês dois estão nos deixando mais pilhados que o normal e creio que falo por todos quando digo isso — Neji disse.
— Preciso ir ao banheiro, vai demorar? — Naruto jogou a cabeça para trás, pedindo pela quinta vez.
— Sasuke, pare ali. Ele já está pedindo desde que passamos a caixa d’água da cidade vizinha — Sakura apontou uma pequena lanchonete que surgia.
— Não, acabamos de chegar na cidade. Só mais 10 minutos até o estúdio. Ele aguenta.
— Sasuke! Ele não parou de beber água desde que saímos! A bexiga deve estar explodindo. Pare ali, só uma vez. Não custa nada.
— Mas são só 10 minutos! — Sasuke se virou para encará-la, encontrando dois olhos verdes furiosos. Abaixou os ombros e olhou Naruto pelo retrovisor. — Eu não vou nem desligar o carro. Espero por dois minutos.
— Obrigado, teme — ele quase não teve tempo de estacionar. Naruto saiu correndo, apressado.
— Olhe só, tadinho. Devia estar se mijando… — Sakura via, de sua janela, o amigo correr para o primeiro banheiro que encontrasse.
— Claro, você traz esse estoque de bebidas pra um exército! Naruto é igual cachorro, não sabe quando parar de comer e beber. É de se impressionar que ainda tenha sanduíches aí dentro — resmungou sem olhá-la.
Deus que o livrasse de ter que encarar aquele olhar brabo de Sakura outra vez.
— É óbvio! Você nunca para! Não queria parar nem pro Naruto ir ao banheiro — Sasuke fungou e começou a resmungar baixinho.
— E nem precisaria ter parado se você deixasse ele usar a garraf-
— Ninguém vai usar a garrafa enquanto eu estiver no carro, Sasuke! — Sakura disse alto.
Mas que mania que homens tinham de inventar mil e um jeitos de se aliviar sem usar um banheiro! Aquilo tudo era o quê? Medo da privada?
— Pra quem tá reclamando, você aproveitou bastante os energéticos… — Gaara comentou sarcástico, olhando algum joguinho em seu celular.
— Virou umas quatro latinhas. Não sei como ainda não correu pro banheiro junto do Naruto — Neji riu e Sasuke comprimiu os lábios.
Estava mesmo apertado.
— Você não sabe, Neji? Sasuke tem um controle de aço sobre sua bexiga. Ele poderia estar ouvindo agora o som de um riacho correndo cheio de água e, ainda sim, aguentaria as pontas. Ou uma cachoeira desaguando num lago. Ou ondas quebrando no oceano… — Gaara começou a fazer barulho de água corrente e parou para observar o crescente desconforto de Sasuke.
— Droga, Gaara! — Neji esbravejou. — Preciso mijar! Não saiam sem mim — e saiu depressa, quase levando a porta consigo.
— Opa, saiu pela culatra — Gaara riu e voltou a se concentrar. Estava quase na fase final.
— Faz mal ficar segurando o xixi, sabia? — Sakura comentou, olhando para Sasuke de soslaio enquanto pegava uma garrafinha de água gelada.
— Hm.
— Devia aproveitar que metade do carro já desceu e se aliviar também — ela bebeu uma golada gostosa, deixando uma gotinha escapar pelo canto do lábio. Secou delicadamente com as costas da mão.
Sasuke a encarava.
— Aposto que eles têm banheiro no tal estúdio — Sasuke disse e Sakura riu pelo nariz.
— Uhum, e Shikamaru Nara vai esperar o lorde provençal voltar do toalete com toda a paciência do mundo — outro gole, com os olhos colados nos de Sasuke.
Ele estalou a língua no céu da boca e bateu a mão no trinco.
— Eu volto logo — saiu bravo e odiando Sakura e toda sua razão.
O carro só voltou a andar cinco minutos depois, quando Naruto conseguiu permissão pra comprar um doce e Gaara aproveitou pra conseguir umas balinhas de menta. Sasuke só não ficou carrancudo o resto todo da viagem porque estavam muito perto do destino.
O estúdio não era muito próximo do centro. Quando Sasuke avistou o prédio despontando no horizonte, sentiu o estômago gear e se perguntou se mais alguém havia sentido aquilo.
Foi fácil saber que, ao menos com Sakura, tinha sido igual. A matraca se calou quando percebeu que haviam chegado. Estacionaram e saíram, todos em silêncio. A construção era estreita e alta. As paredes se erguiam numa elegante arquitetura minimalista. A fachada era de muito bom gosto. As letras finas que delineavam as palavras “Senju Records Studio” davam um toque quase aristocrático ao cenário.
Não sabiam dizer se aquela primeira impressão tão cheia de pompa e maravilha era mesmo pelo requinte do prédio ou se era a crescente admiração que vinham nutrindo pela gravadora. Talvez uma mistura dos dois fosse a resposta perfeita.
Sasuke tomou a frente, ajeitando a jaqueta e pendurando os óculos escuros na gola da camiseta. Abriu a porta, sentindo que o frescor do ar condicionado junto de outra corrente gelada percorrendo o corpo. Os rapazes o seguiram, com Gaara ao seu lado e Naruto e Neji um passo atrás.
Sakura vinha por último. Os olhos atentos a cada detalhe. As persianas naquele bonito tom de terracota, as poltronas negras sofisticadas em volta de uma mesa toda em vidro com revistas musicais sobre ela, o vaso de planta meticulosamente ajeitado no canto.
Ao vê-los, prontamente a recepcionista abriu um sorriso. Estava bem vestida com um terninho negro.
— Olá, bom dia. Estamos aqui para uma reunião com Shikamaru Nara — Gaara, galante, apoiou-se contra o balcão.
— Bom dia, Nameless. Sou Jade, é um prazer. O Sr. Nara os aguarda. Por favor — ela saiu de seu posto, andando até o elevador. — Peço que sigam para o terceiro andar.
Todos se entreolharam enquanto entravam no elevador e se despediam da moça simpática com sorrisos e acenos de cabeça.
Nem tomariam um chá de cadeira? Estavam ficando mal acostumados.
Sasuke agradeceu por ter ido ao banheiro na parada obrigatória que fizera. Do contrário, estaria lascado.
Quando as portas se abriram, um rapaz esguio os aguardava. Usava uma camisa de lã bordô de gola alta. Batia delicadamente os dedos na tela de um tablet preto.
— Olá, Nameless. Sejam bem-vindos à Senju Records. O sr. Nara os aguarda no estúdio 04 — apontou com a cabeça. — Por favor… — começou a guiá-los pelo curto caminho, tendo a gentileza de abrir a porta com um trinco engraçado que, Sakura tinha certeza, passaria vergonha se fosse tentar usar.
Foi a última a passar e sentiu quando a porta foi fechada atrás de si. Fechou os olhos por dois segundos e respirou fundo. Precisava se manter calma para mostrar apoio aos rapazes.
Tentou gesticular algo para eles, mas parou ao acompanhar o pomo de adão de Sasuke subir e descer muito lentamente. Mirou para onde ele e todos os outros olhavam. Shikamaru Nara, de repente, era a única presença que se sentia naquele momento.
Sentado num sofá de estofado escuro e almofadas claras, ele acendia um cigarro. Sua perna esquerda dobrada por sobre o joelho direito. Usava uma calça social em risca de giz e uma camisa negra de mangas dobradas até os cotovelos. Deu uma longa tragada enquanto seus olhos calmos iam do isqueiro aos convidados. Sorriu e arqueou uma sobrancelha.
Gaara estava nervoso. Já tinham o visto antes e até trocado algumas palavras no Hooligans, mas Temari estava junto. Sua irmã e namorada do cara.
Mas, ali, eram apenas produtor musical e bandinha de garagem. Encarando-o bem a sua frente, com o cigarro malandro nos lábios pálidos. Não havia outros contextos inseridos se colidindo. Só lhes restava o frio na barriga vindo daquela mistura de ansiedade e receio.
— Finalmente — a voz firme de Shikamaru cortou a sala. — Vocês não sabem o quanto eu estava ansioso por hoje — dizia com muita tranquilidade, tragando sem pressa. — Se soubessem como andam tirando meu sono… — soltou a fumaça em seguida à piada cruel.
Se eles estavam tirando o sono de Shikamaru Nara, imagine só o que ele não estava fazendo com os pobres integrantes da Nameless.
— Sr. Nara, é um prazer — Neji acenou com a cabeça, não sabendo se ele era de apertos de mão.
Ele se levantou, apagando o cigarro contra um cinzeiro apoiado sobre uma estante elegantemente decorada. Estavam numa espécie de antessala do estúdio de gravação.
— O prazer é todo meu. E, por favor, apenas Shikamaru — ele enfiou as mãos nos bolsos, cortando de imediato qualquer contato físico. — Sabem que, para terem chegado até aqui, o que vocês fizeram provavelmente me agradou e muito, não é? — Ele os guiava mais para dentro, chegando na parte em que realmente ficariam.
Shikamaru parou atrás da mesa de mixagem e edição. Naruto ficava até confuso vendo todas aquelas luzes e botões. Separado por um enorme vidro, estava o estúdio propriamente dito, com aparelhagem e instrumentos já montados. Era um lugar grande e confortável, com pufes e almofadas espalhadas, um grande tapete macio no centro e decoração de muito bom gosto.
— Não sabe o quanto nos sentimos lisonjeados. Sabemos o que sua figura representa nesse meio — Gaara falou.
— Ora, parece que andaram fazendo o dever de casa, hm? — ele se apoiou contra a cadeira confortável onde se sentaria. — Confesso que sua presença sempre me confunde, querida — sem dar indícios de que faria aquilo, Shikamaru virou-se completamente para Sakura. — Em qual formação se apresentarão, afinal?
— Ah, eu vim apenas como acompanhante, se me me permite — tímida, ajeitou os cabelos atrás das orelhas.
— Acompanhante, é?
— Sakura conhece nossa música. Ela tem nos ajudado — Sasuke repousou sua mão sobre o ombro dela.
Só então Sakura percebeu que tremia. Tratou de cruzar os braços depressa antes que mais alguém percebesse os dedos nervosos.
— Entendo… Uma pena, realmente… — Shikamaru deixou no ar, fazendo o coração de Sakura tamborilar depressa.
Estaria ele plantando uma semente?
Então aquele era o superpoder dele. Era por isso que era tão bom. Ele sabia como despertar, com pouquíssimas palavras, uma vontade avassaladora de impressioná-lo e continuar a fazê-lo por muito tempo.
Sakura guardou aquela fagulha para si.
— Bom, antes de começarmos, — instintivamente, pegou a carteira de cigarros que carregava consigo. — Alguém aceita? Não me deixem ativar o alarme de incêndio sozinho — brincou, tirando um risinho de Neji.
Ninguém seria louco de recusar um santo cigarro ofertado pelo Sr. Nara. Nem mesmo Sakura. Neji, Naruto e Gaara assistiram, espantados, quando ela, além de aceitar, ainda se curvou para que ele acendesse o fumo, visto que ela não estava com fogo.
— Obrigada — ela sussurrou e ele voltou um sorriso.
— Reservei o dia todo para vocês. Quero que entrem para tocar e façam seu jogo. Tudo será gravado, mas não se preocupem. É apenas pra edição de uma fita demo para os figurões de cima — riu em claro deboche do que ele mesmo havia dito.
Como se alguém um dia não fosse abrir todas as portas possíveis para um artista sob a sombra de Shikamaru Nara.
— Eu fico do lado de cá — Sakura acenou enquanto os garotos entravam. Fazia um sinal de joinha para eles.
— Então não vai mesmo participar? — Shikamaru acendeu o seu, se sentando na cadeira maior e apontando, com o queixo, a que ficava ao lado. Ofereceu a ela um grande fone de ouvido enquanto ajeitava o próprio no pescoço.
— Sou só uma amiga que os ajudou, Sr. Nara… — Sakura também se sentou, meio desconcertada e incerta em dizer suas palavras.
Era muito intimidador uma conversa com um alguém tão importante.
Só então Shikamaru notou que ela carregava algo consigo. Um caderninho de capa negra estava sobre seu colo. As mãos repousavam sobre ele, num resguardo.
— Entendo. Você é como um amuleto da sorte — ela ousou revirar os olhos pro comentário e rir em seguida.
Shikamaru gostou daquilo.
— É nossa groupie — ouviram vindo do sistema de som dos altos falantes da sala e ambos pararam para ver Sasuke apoiado no suporte de microfone mais próximo do vidro.
Shikamaru riu e Sakura corou nas bochechas.
Parando para pensar, realmente se sentia uma groupie boba quando se tratava de Sasuke.
Digo, Nameless. Quando se tratava da Nameless.
— Como funciona aqui, Shikamaru? — Sasuke, depois de também dar uma risada, perguntou sem rodeios.
— Muito bem. Podem tocar e retocar o que e quantas vezes quiserem. Só vou precisar que me avisem antes do início e ao final de cada música. Com vocês, vou analisando e fazendo sugestões. Sintam-se livres para tomar nota ou não — deu de ombros, mas era óbvio que eles seguiriam qualquer coisa dita por ele ao pé da letra. — Os instrumentos já estão todos ajustados. Assim como os microfones. Podem dar uma conferida se quiserem.
Os rapazes trocaram olhares. Cada qual estava já em seu devido lugar. Naruto babava na bateria do estúdio. Neji e Gaara conferiam os cabos. Tudo estava certinho. Sasuke terminava de passar a alça de sua guitarra pelo corpo. Testou as cordas por uns segundos.
— Podemos começar? — Gaara pediu e Shikamaru prontamente apertou uma série de botões daquela mesa gigantesca.
— Bom, vamos ver se eu não estou tão enferrujado, hm? — disse para Sakura e ela riu, tragando mais um pouquinho do cigarro. — Quando quiserem!
Naruto puxou a contagem e Gaara o acompanhou. A música deles logo começou a ecoar pelo estúdio. O som não saía mais dos alto falantes, mas Sakura e Shikamaru podiam ouvir tudo claramente pelos fones enquanto ele clicava, arrastava e fazia sabe-se lá mais o que naquela aparelhagem.
A primeira música era tranquila e introspectiva. Tocaram uma vez e Shikamaru pediu que repetissem o refrão para que ele tentasse uma coisa. Na segunda música, mais agitada, Sasuke e Gaara combinaram um vocal de apoio diferente depois de duas tocadas. A terceira era bastante animada. Sakura se empolgou ao lado de Shikamaru, dizendo que eles quase deixaram-na para fora da seleção de autorais, mas ela havia insistido por ser muito boa.
E ele, como o homem estrategista que era, não prestava atenção só na apresentação incrível que rolava, mas, também, em tudo o que Sakura dizia. Ela tinha comentários espertos, fazia observações válidas e até completara uma das frases de Shikamaru quando ele não conseguiu encontrar o adjetivo sozinho. Viu-se legitimamente impressionado por ela.
Ele havia gostado de Sakura. Manteria um olho nela. Ela não era material para se desperdiçar, e daquilo tinha certeza.
A quarta, falando sobre a estranheza de um relacionamento fracassado, havia sido a mais gostosa de todas. Repetiram três vezes com algumas mudanças aqui e ali e era como se o timbre de Sasuke fosse o único para cantá-la.
A quinta e a sexta também seguiram a mesma linha. Eram músicas que refletiam muito bem aquele estilo indie rock que os rapazes ofereciam, mesmo que Shikamaru ainda enxergasse uma boa flexibilidade neles. A sétima foi triste em sua premissa de amor não correspondido e a oitava, com uma letra bastante crítica e política, mostrou uma faceta nova da banda num embalo pós-punk que fazia o produtor ir delineando, cada vez mais, como promoveria a Nameless.
A nona e última música foi um espetáculo. Sakura assistia a tudo com um orgulho que não cabia em si. Shikamaru, que sempre ostentava consigo aquela cara neutra, exibia um meio sorriso de pura satisfação.
Quando acabaram, ela bateu palmas e Shikamaru riu. A empolgação daquela garota era adorável. Imaginava que tipo de imagem lançaria para um alguém como ela.
Sasuke fez um sinal para dizer que tinham finalizado e Shikamaru lhe deu um maneio de cabeça.
— Podem passar essa faixa mais uma vez? Quero testar uma coisa durante a gravação. Mantenham o mesmo ritmo. Sasuke, consegue segurar aquela nota rouca por mais tempo na segunda estrofe? — ele assentiu. — Ótimo, vamos de novo.
Viu Sakura arrumar o fone de ouvido outra vez e abrir aquele caderno negro. Shikamaru havia percebido como ela fizera aquilo durante toda a apresentação. Ele já tinha notado que, entre as muitas palavras rabiscadas nas folhas do caderno, a letra das músicas se formava. Às vezes ela até seguia os versos com o dedo indicador.
— O que é isso que vem lendo? — Pediu quando ela se distraiu admirando os músicos por um segundo.
— Ah, isso? — Sakura fechou o caderno e mostrou a capa. — É o caderno de composições do vocalista. Ele estava dando uma última lida durante a viagem e deixou no meu colo. Acho que eu devia ter deixado no carro… — sorriu amarelo.
— Bobagem, na verdade, é perfeito. Deixe-me dar uma olhada — ela lhe entregou o caderno.
Enquanto ouvia pela segunda vez a última música dos rapazes, ele folheava o caderno de cenho franzido. Sakura não sabia se parava para assistir aos amigos ou Shikamaru.
Ele ia vendo a letra de todas as músicas que já havia ouvido e, também, passava o olho por sobre muitas outras. Não sabia de quando eram aquelas composições, mas enxergava, a cada folha, um grande potencial.
Virou a página uma última vez antes de dar de cara com uma partitura solta enfiada por entre as folhas. Sakura percebeu que tinha algo de errado quando os olhos indiferentes brilharam e uma sobrancelha se arqueou.
Aquilo era um bom sinal?
Sasuke sinalizou novamente o fim da música e Shikamaru anuiu.
— Ficou ótima. Essa era a última?
— Isso.
— E vocês aceitam pedidos? — Shikamaru levantou o caderno e bateu na capa. — Gostei do que vi nessa tal “poeira estelar”.
Sakura quase deixou o queixo ir ao chão. Não fazia ideia de que ele pediria aquilo. Droga, os meninos iriam fatiá-la viva!
— Perdão? — Gaara deu um passo à frente.
— Ah, nem todas as músicas foram passadas pro restante dos integrantes, Sr. Nara — Sasuke tentava parecer o mais calmo possível ao se explicar.
Neji, Naruto e Gaara sequer sabiam que música era aquela. Não teriam como apresentar.
— Oh, entendo. Essas composições são suas, certo? Sasuke?
— Sim, senh-
— Apenas Shikamaru — puxou a partitura solta que se enfiava por entre a letra rabiscada da música que tanto fazia questão de ouvir. — Você também compôs o arranjo pro piano?
Sasuke começava a ficar nervoso com as perguntas tão diretas e bem ditadas de Shikamaru. Sua voz tranquila e expressão cansada o deixava ainda mais confuso.
— Ah, com licença… — Sakura, vendo o cenho de Sasuke franzido em preocupação, tocou Shikamaru no ombro. Ele não retesou. — Essa parte fui eu que ajudei.
— Sim — Sasuke projetou o corpo para frente. Não sabia se Sakura gostaria de ter o nome envolvido naquilo, mas ouvi-la dizendo da própria boca era o sinal verde de que precisava. — Eu e Sakura a compomos juntos. Ainda estávamos fazendo ajustes, não ensaiamos com a banda.
Ambos se olharam e ela lhe sorriu, cúmplice. O rosto preocupado de Sasuke se suavizou e ele relaxou os ombros.
— Toquem pra mim só vocês dois, então — Shikamaru disse óbvio, acendendo mais um cigarro.
Sakura estatelou os olhos. Uma pequena onda de pânico subindo pela sua garganta.
— Ah, Sr. Nara, eu não faço parte da banda formalmente. Eu só-
— Sakura, por favor, já disse para me chamarem apenas de Shikamaru — bronqueou e, em seguida, deixou um riso preguiçoso lhe surgir nos lábios. — Não se preocupem. Eu sequer vou gravar uma demo dela, ok? Só quero ouví-la uma vez. O que me dizem? — juntou as mãos.
Sasuke e Sakura, mais uma vez, trocaram olhares. Dentro dela, um conflito terrível acontecia.
Poderia pedir que apenas ele tocasse a música, mas não sabia se Sasuke já conhecia toda a letra. Além de que, Shikamaru estava fascinado era na bendita da partitura que tinha deixado ali.
Gaara suspirou, profunda e pesadamente. Tirou a guitarra dos ombros e a encostou.
— Estamos indo, Sakura. Vamos trocar de lado por uns minutos — ele acenou para Neji e Naruto.
Sakura empalideceu. Ainda estapearia Gaara.
Shikamaru a olhava com a mesma cara de sempre. Mas os olhos, tão intensos e grudados em si, quase denunciaram a ânsia que tinha. A pele exalava expectativa.
A última coisa que queria era prejudicar seus meninos. Piscou uma vez com força.
— Ah, certo. Posso tocar uma com Sasuke.
— Pode? — Sasuke disse, impressionado.
— Tudo bem pra você? — Sakura e Shikamaru perguntaram ao mesmo tempo. A voz doce de Sakura saiu quase falha, amedrontada. Por outro lado, a de Shikamaru soou clara e forte.
— É claro — Sasuke respondeu de imediato, amparando aquele olhar assustado de Sakura com sua falsa segurança.
Sakura olhou ao seu redor. Os garotos já estavam todos a cercando. Gaara tocou sua cintura e lhe lançou um olhar pedinte. Ela lhe sorriu em resposta.
O problema não era tocar. Nunca o fora. Ainda mais, tocar com Sasuke. Seria um prazer. O problema era aquilo se tornar um empecilho. Era se envolver demais. Era que deixassem sua presença ser importante demais dentro daquele mundo que deveria ser deles.
Mas, sinceramente, já não via mais como aquilo poderia ser um sacrifício.
Entrou na grande cabine de gravação. Sasuke a esperava, meio ansioso. Batucava os dedos na borda da guitarra, louco para a despendurar dos ombros.
Caminhou até ele, tocando-o num dos cotovelos e indicando, com os olhos, as acomodações de um piano digital bonito e bem equipado um pouco mais ao fundo do estúdio. Duas banquetas ao seu lado e um violão próximo, pendurado à parede na esquerda. No canto, uma pequena poltrona capitonê em amarelo, combinando, num par silencioso, com o banquinho vermelho do piano.
— Vamos? — Sakura sussurrou a ele quando passou e, instintivamente, ele a seguiu.
Shikamaru, sentado em seu lugar, observava todos os movimentos com aquele característico olhar letárgico. Porém, era inegável, estava bastante ansioso para ouvir o que aquele intrigante casal de amigos com uma química absurdamente gritante iria lhe apresentar.
Sakura ajeitou-se na banqueta do piano. Sasuke pegou um dos violões dispostos perto da parede — um preto fosco de braço mais fino e que, ele sabia, devia ter uma ótima acústica — e sentou no banquinho mais próximo de Sakura, de forma que, se tirasse os olhos do instrumento, a primeira visão que teria seria ela.
Haviam tocado aquela música uma única vez juntos. Os olhos verdes e firmes de Sakura procuraram pela afirmação dos de Sasuke de que fariam tudo como daquela vez. Ele, apertando forte a mandíbula contra sua maxila num claro sinal de nervosismo, anuiu.
Ela começou, vacilante. Errou três notas e sentiu a garganta fechar.
— Desculpe, desculpe… — ela pediu, envergonhada, olhando de Sasuke para Shikamaru.
— Relaxe, querida — Shikamaru apertou um botão para falar e Sakura poder ouví-lo de dentro da cabine. — Não estou sequer fazendo a demo. Toque tranquila.
Contou até cinco e retomou a música. Errou uma nota, mas ignorou e seguiu em frente. Sasuke sabia quando deveria entrar, mas, ainda sim, o encarou no momento exato em que a voz masculina e forte ecoou pelo estúdio.
De repente, ambos perceberam onde encontrariam a confiança necessária para finalizar aquela apresentação: nos olhos um do outro. Eram os únicos que conheciam aquela música. Os únicos que já a tinham ouvido e tocado.
Enquanto Shikamaru, Naruto e Neji prestavam uma atenção quase que religiosa à apresentação dos dois, Gaara assistia, com muito empenho, as reações do produtor e, quando Sakura entrou, viu o peito dele subir e descer num arfar disfarçadamente impressionado.
Talvez ele não fosse assim tão difícil de ser lido, afinal.
No meio da música, Sakura praticamente se esqueceu de que era observada e já tocava ferozmente. Sasuke não ficava para trás, com seus acordes e voz marcantes.
Daquela vez, Sasuke não deixou que ela terminasse sozinha; a acompanhou com uma nova sequência de dedilhado que Sakura não conhecia, mas tinha amado.
Ela bateu a última tecla enquanto se encaravam. O silêncio durou três segundos inteiros e, então, Sakura sorriu como nunca antes.
— Parece que a groupie tem bastante talento escondido, não? — Shikamaru quebrou o encanto. — Venham para cá — chamou e Sakura assentiu, saindo depressa da banqueta e quase atropelando Sasuke no seu caminho para fora.
— Estavam escondendo o ouro, é? — Naruto brincou. — Não conhecíamos essa música.
— Ficou incrível! — Neji disse e logo se arrependeu quando os olhos de Shikamaru caíram sobre si.
— Realmente, ficou incrível — ele concordou depois de alguns segundos de silêncio, fazendo com que todos se sentissem extremamente aliviados por dentro com o mínimo sorriso que ele deixou se formar no canto da boca.
Gaara abraçou Sakura pelos ombros. Estava mais feliz que pinto no lixo.
— Obrigado — sussurrou apenas para ela.
— Ah, o que é isso… Vocês foram incríveis em todas as músicas. Só ajudei Sasuke a encerrar — tentava disfarçar o rosto acanhado.
— Bom, rapazes. Acho que não restam dúvidas — ele abaixou o enorme headphone que ainda usava. — Reconheço talento quando o vejo. Entregarei a demo aos meus superiores e meu assistente entra em contato para acertar os detalhes do contrato assim que me responderem.
Como se estivesse ouvindo atrás da porta, o rapaz que os havia levado até a sala apareceu. Ainda tinha o tablet em mãos e parecia aflito.
— Com licença, Sr. Nara. A senhorita Temari ligou. Disse que você não atendia às suas ligações. Parecia nervosa. Ela está na linha 02 — disse rápido e no tom mais profissional que conseguia.
Todos no estúdio fizeram um som sibilante e ardido. Os garotos conheciam o temperamento da irmã mais velha de Gaara de outros carnavais.
— Parece que estamos todos de acordo que terei que atender a ligação sozinho, certo? — Shikamaru fez a piadinha com um sorrisinho debochado no rosto, arrancando uma boa risada de Naruto.
— Nem aqui consigo fugir dos berros dela — Gaara devolveu a brincadeira, rindo e enfiando as mãos nos bolsos. Shikamaru o acompanhou.
— E não se preocupem, rapazes. Lembrem-se: vocês estão quase lá — ele se levantou, ajeitando as calças e puxando mais um cigarro de sua carteira. — Agora, se me dão licença.
Todos assentiram e o rapaz, muito zeloso, começou a guiá-los novamente em direção à porta.
Quando se viu sozinho, Shikamaru caiu novamente sobre a cadeira grande e confortável. Estava cansado, mas satisfeito. De todas as músicas, apenas uma o desagradou. Todas as outras, com uma boa lapidação e o toque sa Senju Records, poderiam facilmente explodir. Eles conheciam sua música e sabiam o que queriam passar com ela. Era exatamente o tipo de artista que ele teria todo o prazer do mundo em representar.
E, fora eles, havia ela. A garota que se comportava como um mero apoio moral, mas que já havia mostrado ser capaz de arrastar uma multidão em cima do palco.
Por mais que as estrelas do dia tivessem sido os garotos, era inegável reconhecer o quanto aquela menina peculiar poderia alcançar se quisesse. Ele realmente reconhecia talento quando o via.
Porém, Shikamaru percebeu, seu indiscutível brilho ainda não era o suficiente. Sakura tinha muito potencial. Potencial até demais. E, por mais que tivesse sentido arrepios nas pernas — arrepios esses que ele negaria até o dia de sua morte — enquanto ela e Sasuke duetavam com, provavelmente, o conjunto de vozes mais harmônicas que ouvira durante um bom tempo, ele sabia só de ouví-la que o lugar dela não era ao lado deles.
Ao menos, não por hora.
Mas Shikamaru era paciente. Muito paciente.
Ao contrário da namorada que ainda o esperava na linha 02. Checou seu celular que vivia no silencioso. Sete chamadas perdidas. Temari devia estar uma fera.
Ergueu o corpo preguiçosamente durante um suspiro resignado, indo até o interfone acoplado à parede que ficava à sua direita. Pressionou o botão que fazia ligação com a recepção.
— Jade? Nameless já passou por aí?
— Boa tarde, Sr. Nara. Ainda não. Preciso avisá-los sobre alguma coisa?
— Não, não. Apenas fique de olho na garota que os acompanha. A de cabelo rosa. Sakura. Quero que descubra seu nome completo e redes sociais. Pretendo fazer uma pesquisa… — pediu solícito.
— Certo, pode deixar — ele ouviu o som das teclas do computador trabalhando depressa. — Mais alguma coisa?
— Oh, sim. Preciso que me ligue à linha 02 — Jade fez o mesmo som ardido que Shikamaru havia ouvido segundos antes.
— Sabe que ela deve estar furiosa, não? — ele passou a mão pelo rosto, exausto.
— Eu sei — a linha ficou muda por cinco segundos e, então, ouviu o discreto bip. — Alô? Oi, meu coração…
— Coração? — a voz berrou do outro lado da linha. — Estou feito louca atrás de você e você se fazendo de morto, Shikamaru! Coração é o que eu vou arrancar do seu peito quando me encontrar pro jantar que eu estou combinando agora já que no almoço eu fui obrigada e comer o bolo que você me deu, seu ordinário!
Droga, havia se esquecido completamente do almoço com Temari.
Seria um longo e doloroso jantar.
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