Closer
30 A Xereta
Notas iniciais

— Parece tão difícil, mano — a voz infantil do moleque de menos de seis anos parecia, de certa, forma, aflita.
— Não é difícil, Sasuke. Olhe só — o irmão mais velho segurou os dedos gordinhos de Sasuke e posicionou-os no braço do violão bonito que ele segurava.
Era de uma madeira clara e brilhosa. Os desenhos em filigranas ao redor da boca eram lindos e a madeira mais escura na parte de trás o deixava ainda mais charmoso.
Sasuke praticamente sumia atrás do instrumento. Itachi achou graça.
— Itachi, assim meu dedo dói!
— Reclamão! Seus dedos ainda são muito curtinhos — Itachi riu. — Espera, vamos tentar assim… — ele trocou as posições dos dedos de Sasuke nas cordas. — Agora passe a sua outra mão nas cordas perto do buraco. Desse jeito, ó — Itachi deslizou graciosamente os dedos e Sasuke se viu encantado pelo som.
Com dificuldade, o pequeno também passou os dedos pelo mesmo lugar. Claro, o som acabou saindo meio feio e torto, contudo, para Sasuke, aquele havia sido o som mais lindo do mundo!
E ele havia feito aquilo.
— Esse é o acorde de D — Sasuke tocou mais uma vez. — Isso! Assim. Você já está aprendendo!
Itachi bagunçou os cabelos escuros do caçula e o viu rir empolgado. Os enormes olhos negros o encaravam com um brilho sem igual.
— Eu vou tocar igual você, mano!
— Não, Sasuke. Vai tocar melhor. Eu não sabia nem segurar um violão quando tinha seis anos — riu.
Sasuke estufou o peito e sorriu ainda mais. Nunca estivera tão orgulhoso e cheio de si. Ora, então quer dizer que superaria seu irmãozão no assunto “música”?
— Eu quero aprender outro acorde!
— Calma, Sasuke. Você precisa ser paciente. Precisa aprender e aperfeiçoar um de cada vez.
— Não, eu quero tocar uma música. Quero agora! Eu quero tocar aquela lá da dona Aranha. Aquela que subiu pela parede. A mamãe gosta — Itachi explodiu numa risada e Sasuke inflou as bochechas infantis, deixando-as vermelhas.
Não era por ser cinco anos mais velho que Itachi poderia rir de sua cara. Aquilo era uma afronta!
— Ei, rapazinho. Não é assim que funciona. Eu também demorei e ainda estou aprendendo. Mas não se preocupe, Sasuke. Prometo que vou te ensinar a tocar tudo o que eu sei — levantou-se e começou a guardar o violão de volta no case.
— Tudo? — os olhos pareciam duas jabuticabas enormes de tão pretinhos.
— Tudo — ele refletiu por alguns segundos. — E, quando você aprender todos os acordes, eu te dou meu violão.
Sasuke só faltou explodir de felicidade.
Empenhou-se tanto que não foi surpresa quando, uma semana depois, já conseguia tocar cinco acordes diferentes.
Faria de tudo para ganhar aquele violão.
(...)
Sasuke despertou atordoado. Porém, não ergueu o corpo de repente e nem soltou um grito. Apenas abriu os olhos num ímpeto, soltando todo o ar preso em seus pulmões.
Dedicou bons segundos a tentar normalizar sua respiração.
Os olhos estavam úmidos, ele pôde sentir.
Há tempos não sonhava com Itachi. Talvez a conversa na capelinha que tivera na noite anterior ainda estivesse muito viva em sua memória.
Esfregou o rosto num gesto de impaciência. Era cedo. Pra quem havia dormido perto das cinco da manhã, acordar antes das nove era um incômodo terrível.
Mas, de qualquer forma, ele não conseguiria dormir novamente.
Resignado, levantou-se da cama e aproveitou o horário para usar o banheiro à vontade. Poderia até cochilar durante um banho que ninguém o incomodaria. Só despertariam depois do meio-dia.
Quando finalmente saiu de dentro do cômodo envolto numa nuvem de vapor, percebeu ter passado quase uma hora embaixo do chuveiro. Os dedos estavam até enrugados. O problema era que não se sentia mais relaxado.
Sua cabeça estava cheia e vazia ao mesmo tempo. Era frustrante.
Talvez pudesse transpassar aquela pequena angústia pessoal para o papel.
Decidido, abriu a gaveta onde sempre guardava seu estimado livreto de composições. E qual não foi sua surpresa ao não encontrá-lo lá?
Estranhou. Tirou alguns papéis a mais da gaveta, pensando que o caderno negro poderia estar no fundo. Zero. Procurou por sua mesa, entre seus livros e até entre os materiais universitários.
Encontrou exatamente o que mais temia. Nada.
— Onde deixei aquele caralho? — Nervoso, desceu as escadas para procurar pelos cômodos do andar de baixo.
Esticou o corpo procurando pela estante e até passou os dedos no topo do móvel. Talvez os rapazes estivessem querendo sacaneá-lo. Vez ou outra faziam brincadeirinhas. Ele mesmo já havia participado de uma quando escondera as chaves do carro de Sakura.
Na sala não encontrou o caderno. Contudo, acabou achando três livros espalhados. Dois relativamente grossos e um que era um pouco mais fino. Pelos nomes e capas, eram livros de estudo.
— Psicologia Social: o homem em movimento… — curioso, folheou rapidamente os outros. — Hm, são todos sobre psicologia. Isso tem cara de Sakura.
Fazia o estilo de Sakura ler livros daqueles durante suas sessões de estudo. Ainda mais quando abriu o segundo livro numa página quase completamente grifada com marca-texto rosa. Mas ela sempre fora muito cuidadosa com seus livros e materiais. Realmente, devia estar muito avoada para largar livros ali pela sala.
Sasuke quase podia visualizar a menina sentada na poltrona com o livro da tal psicologia social aberto em seu colo e os olhos pesados de sono.
Deixou-os empilhados ao lado da TV. Avisaria a Sakura assim que a visse.
Voltou a focar na sua tarefa original, porém, o sucesso não veio.
— Mas que porra… — o desespero era tanto que já se via em frente à geladeira, procurando por entre as prateleiras.
— O que tanto procura aí dentro, Sasuke? — Gaara entrou na cozinha, flagrando o amigo pendurado no eletrodoméstico.
— Ah, nada. Viu um caderno preto por aí?
— Aquele onde você compõe? — Sasuke assentiu. — Deve estar na casa do Neji. — Gaara mentia com a maior cara lavada.
— Droga, eu não devia deixar por lá. A cadela dele vai destruir meu caderno se achar.
Gaara acenou e o empurrou da frente da geladeira. Sasuke estava bloqueando seu acesso à comida e aquilo não o agradava.
— De qualquer forma, vamos ensaiar amanhã quando ele voltar da casa da Tenten — a boca estava cheia de alguma comida que Sasuke nem mesmo tivera tempo para identificar. — Se quer escrever, use qualquer pedaço de papel.
Sasuke fez uma careta. Neji e Tenten provavelmente estavam se acabando de trepar em algum lugar. Era aniversário de namoro e ele fora bem específico quanto a incomodá-lo naquele dia.
— Bom dia, rapazes — Sakura vinha toda alegrinha e já devidamente vestida. — Já são quase dez da manhã, mas o bom dia ainda vale, né?
Gaara e Sasuke passaram os olhos pela roupa que ela vestia. Estava claro que não ficaria ali por muito tempo.
— Vai a algum lugar? — A pergunta saiu da boca de Sasuke antes que ele pudesse segurar.
— Uhum. Tenho um compromisso. Vou passar no mercado na volta. Querem algo? — Perguntou enquanto empurrava Gaara que, de repente, era quem bloqueava a porta do refrigerador.
— Não.
— O Naruto tá reclamando desde quarta sobre os Cup Noddles dele que acabaram — Gaara cedeu ao empurrão e Sakura. — Também estamos sem shampoo.
— Ah, pode deixar. Sei bem qual shampoo vocês usam — agarrou a maçã mais vermelhinha que viu. — Sasuke, quando voltar, preciso te mostrar uma coisa.
O leve soerguer de sobrancelha que Sasuke lançou foi o suficiente para Sakura morder a maçã e sorrir, dizendo:
— Sim, você. Preciso ir ou vou acabar me atrasando. Até logo — e passou feito um furacão pela porta.
— Ela, Ino e Karin vão sair pra aprontar alguma coisa.
— Como sabe?
— Ino me contou — Gaara deu de ombros e voltou a vasculhar o refrigerador.
— Tsc, casou com a geladeira? Também tô com fome!
— ὡѼὠ —
Neji não sabia para onde olhar. Alternava sua atenção para todas as direções. Mas, não tinha como negar, era nos olhos dela que queria focar.
— Neji, olha pra mim… — a voz manhosa de Tenten o deixava ainda mais fora de si.
Ficou receoso. Se realmente decidisse acompanhá-la com os olhos, gozaria na hora.
A diaba tinha o melhor boquete que já provara na vida.
Contudo, não poderia arriscar. Precisava vigiar. Precisava…
— Ninguém irá nos ver — disse convicta, parando o sexo oral por alguns segundos e encostando a cabeça na coxa do rapaz. Usou o dedão para continuar o atiçando, acariciando a glande molhada e inchada.
— Tenten — respirou fundo e se segurou o máximo que pôde, mas os movimentos involuntários de seu quadril eram bastante reveladores. — Não faz isso comigo, não...
— Estamos bem escondidos. Foque seus olhos em mim. Quero que me veja te engolir todo — devassa, correu a língua da cabeça até as bolas.
Neji só faltou desmaiar.
Tenten o metia em cada uma que não sabia se ria ou se chorava.
Estavam comemorando mais um ano de namoro. O terceiro. E, como sempre, Tenten costumava planejar um dia agitado e com coisas fora do comum para tirá-los da rotina.
No primeiro ano, havia sido laser tag, tirolesa e, para fechar a noite, um mergulho bastante romântico antes do jantar. No segundo, resolveram escalar um enorme rochedo e passar uma semana no meio do mato sem qualquer comunicação com o mundo exterior. Só eles, um acampamento e um riacho onde fizeram muito mais que tomar banho.
Mas, naquele ano… Ah, naquele ano Tenten havia se superado.
Não tinha como evitar. Uma hora ou outra, o relacionamento cairia na rotina. E Tenten já estava farta do sexo baunilha que vinham fazendo.
Tudo bem, um coito confortável é maravilhoso, mas sempre?
Por isso resolvera listar quinze lugares absurdos pela cidade onde ela e Neji trocariam qualquer tipo de experiência sexual.
E, a cada novo lugar, Neji se perguntava onde havia amarrado seu burro. Sentia-se como um criminoso pervertido.
Ele gostava de sexo baunilha. Era bom, satisfatório para ambos. Qual era o problema em um papai e mamãe certeiro?
Porém, quando Tenten colocava uma coisa na cabeça, nem Cristo encarnado tirava.
O duro era que, devia admitir, aquela adrenalina toda e o medo de serem pegos estavam deixando tudo bom demais. Pra ajudar, Tenten havia comprado dados eróticos.
Estavam no décimo lugar da lista. Um parque público. Escondidos atrás de umas árvores. Nos dados jogados no chão, as palavras “sexo oral” em um e “ele” em outro ainda eram exibidas.
Neji queria continuar vigiando, como queria. Mas era difícil demais quando tinha uma namorada gostosa pra cacete engolindo seu pau sem dó nem piedade.
Ok, estava retirando tudo o que pensava sobre sexo baunilha.
Sexo louco era mil vezes melhor.
Quando estava para relaxar de vez e só curtir a língua travessa indo e vindo, seu celular tocou e ele praguejou.
Tenten o soltou com um adorável “pop” e, mais uma vez, recostou-se em sua perna.
— Quem é?
— Meu tio… — ainda estava meio zonzo, porém, conseguiu ler o nome no visor.
— Atenda.
— O quê? — Parou a mão que já ia enfiando o celular no bolso novamente.
— Atenda — repetiu com os olhos luxuriosos. — Olhos em mim.
Neji não estava em condição alguma de negar algo àquela mulher.
Ela viu quando ele engoliu com dificuldade antes de levar o aparelho à orelha.
— Alô? Tio? — Tenten voltou a chupá-lo. Daquela vez, com mais malícia. — Sim. Não, não estou com Hina… Hinat… Hm… — pigarreou, controlando-se. — Eu saí. Não. Estou — Tenten não sabia o que o tio do garoto perguntava, mas via como Neji respondia rápido e num fôlego só, tentando, a todo custo, não denunciar os urros que gostaria de estar dando.
— Não está olhando… — ela sussurrou e pôs mais força na sucção.
— Porra! — Houve um resmungo alto do outro lado da linha. — O quê? Ah, não. Não foi com o senhor, tio. Per… Perdão — já suava. — Eu só… — afastou o celular e o apertou no peito, suspirando. — Isso é muita maldade e você vai me pagar cada segundo.
— Ah, eu espero que sim.
Neji voltou o telefone ao ouvido.
— Tio, estou um pouco ocupado agora. Sim, coisas da faculdade. Ligo logo, sim? — Não esperou pela resposta. Desligou e enfiou no bolso, aproveitando as mãos livres para agarrar o cabelo da namorada. — Caralho, Tenten… — tentou avisar antes que se despejasse na garganta da garota, mas a sucção só aumentou.
Teve que conter o gemido gutural. Os aniversários anteriores estavam sendo humilhados.
Tenten não podia se dar ao luxo de deixar o namorado fazer bagunça. Engoliu cada gota do que lhe foi ofertado e, enquanto Neji normalizava a respiração, ela lhe sorria travessa, masturbando o membro semi ereto bem devagar.
— Espero que esteja pronto para o próximo lugar.
— Qual… Qual é? — Perguntou em meio à respiração pesada.
— Parque de diversões — ela o olhou. — Roda gigante.
— Joga os dados.
— Já? Hm, alguém está animadíssimo e querendo me enganar… — ainda agachada, agarrou os dados, os agitou e jogou ali mesmo. — Masturbação. Ela.
O sorriso que tomou conta do rosto de Neji era de fazer qualquer uma se encharcar.
— Vamos dar várias voltas.
— ὡѼὠ —
Sasuke ouviu quando Sakura chegou. Ouviu o carro, ouviu a porta, ouviu a voz, ouviu o riso, ouviu os passos subindo pela escada.
Empertigou-se em sua cadeira quando a percebeu se aproximando de seu quarto. Os livros em sua mesa, que antes eram estudados, serviriam como disfarce para a ansiedade crescente em seu peito.
Sakura saíra com a promessa de que mostraria algo a ele e Sasuke quase não se aguentava. Não era um rapaz de criar expectativas, mas aquele suspense o estava matando.
Depois do ataque — muito bom, deve-se ressaltar — sofrido na sala, não sabia bem o que esperar de Sakura.
Mesmo com a porta fechada, Sasuke podia ver a sombra de Sakura por baixo. Ela foi chegando perto, muito perto.
E, então, passou.
Pôde ouvir a porta do quarto dela se fechando antes de relaxar os ombros tensos.
Ué?
Ele deveria ir até ela? Será que Sakura teria esquecido? E se fosse algo realmente importante? O melhor era conferir, certo?
Sasuke levantou-se e parou pouco antes de sair do quarto.
Não, não. Se realmente fosse urgente, ela não se esqueceria. Nem deixaria pra depois. Talvez fosse melhor esperar. Nem devia ser algo grandioso.
Girou nos calcanhares, pronto para se sentar e voltar a fazer o que estivera fazendo a manhã toda.
Parou de novo.
“Foda-se”, pensou e abriu a porta, determinado a perguntar à garota o que diabos ela tanto queria mostrar.
Deu de cara com uma Sakura de mão estendida, pronta para bater.
— Ah, desculpe, Sasuke.
— Estava indo ao banheiro. O que foi? — Pigarreou quando o tom de voz falhou na mentira deslavada.
— Eu queria te mostrar uma coisa, lembra?
— Ah, é mesmo — sorriu como se só então se lembrasse. — O que era?
— Não tem ninguém em casa, né? Gaara estava saindo quando cheguei, Naruto está com Hinata na biblioteca municipal — ela olhou furtivamente para os lados. — Ótimo, não quero que nos ouçam. Vem cá — puxou-o pela mão até seu quarto.
Instantaneamente, um sorriso safado tomou conta do rosto dele. Estavam mais que evidentes as intenções de Sakura.
Ela com certeza queria terminar o que havia começado na sala. Era tão óbvio que Sasuke se socou mentalmente por não levantar aquela hipótese.
Sakura espalmou a mão no peito do rapaz e o empurrou até a cama. O cafajeste não parava de sorrir. Ela permaneceu em pé, agitando as pernas e tamborilando os dedos na cintura.
— Acho que vai gostar disso. Bom, eu espero. Isso me deixa muito insegura… É que, sabe, tem a chance de você ficar bravo. Talvez odeie, mas…
— Eu te garanto que não tem possibilidade alguma disso acontecer.
Sakura usava uma camisa jeans por cima da regata negra. Riu baixinho e, com calma, pôs-se a retirá-la.
Tudo bem, estava sendo rápida. Sasuke cogitou dizer que adorava preliminares, mas não seria ele a quebrar a onda de Sakura.
E, se dependesse da vontade que estava, nem mesmo precisaria de preliminar.
— Um minuto, Sasuke… — ela deu a volta na cama, indo para perto do criado-mudo no outro lado. Sasuke tentou segui-la com os olhos, mas foi repreendido. — Não olhe!
Então Sakura era tímida? Ok, não esperava aquilo da mulher que o havia enlouquecido em apenas uma noite descontraída de karaokê, mas era completamente compreensível.
Talvez ela tivesse uma surpresa embaixo das roupas. O sorriso se alargava cada vez mais.
Ouviu a gaveta ranger e suspirou. Deus, a cama de Sakura tinha um colchão realmente macio. Com certeza se acabariam ali. Era mesmo maravilhoso que estivessem sozinhos.
E pensar que, no começo de toda aquela loucura, sequer queria abrigá-la.
— Certo, bonitão. Vem aqui — ele ouviu o chamado e prontamente se virou, esperando vê-la com roupas provocantes ou até, na melhor das hipóteses, totalmente nua.
O sorriso foi arrancado de seu rosto na mesma hora.
Sakura lhe sorria sentada na banqueta do piano. Em frente a ela, uma partitura rabiscada e, em seus braços, um caderno negro que ele podia jurar conhecer. Encostado ao lado, o violão dela.
Por mais que tentasse conectar ideias em sua mente pervertida, estava meio difícil compreender.
— O que está esperando? Vem aqui, Sasuke! — Ela apontou para o violão. — Quero te mostrar uma coisa.
Levantou-se com a mesma cara de sempre, mas, no fundo, estava se mordendo. Se não era o que tanto pensava, o que Sakura queria lhe mostrar?
— Eu devo...?
— Ah, sim. Pegue o violão. Tocaremos juntos — ela enfiou os dedos por entre as várias folhas pautadas e puxou uma com cifras. — Dê uma olhada.
Os olhos negros analisaram a cifra por cima e, poucos segundos após o início da análise, voltou sua atenção à Sakura.
— Essa música é minha — ele anunciou.
Ela parecia apreensiva. Os nós dos dedos que seguravam o caderno estavam brancos. Foi então que percebeu.
Aquele era o seu caderno de composições.
Sakura estava com ele o tempo todo.
— Antes que fique bravo, deixa eu te explicar! — Foi rápida. — Eu peguei o caderno, sim. Foi errado e eu deveria ter pedido sua permissão, mas… — mordeu o lábio inferior. — Olha, toma. Abre na página marcada.
Sasuke tomou o caderno das mãos de Sakura com uma calma que ela pensou que ele não teria. A verdade é que não estava bravo, mas curioso. Com o tempo, já havia aprendido que aquele caderno, tão pessoal, seria mais lido por Naruto, Gaara e Neji que por ele.
A diferença é que os amigos conheciam a fonte de alguns dos sentimentos que o movia a compor certas músicas.
Mas Sakura nem fazia ideia e estava ali, se oferecendo a tocar uma música dele.
Ele abriu onde um clipe de papel estava colocado e correu os olhos pela folha. Virou-a e repetiu o processo. Voltou a folha mais umas cinco vezes, mergulhando nas rimas e palavras que ele jamais havia escrito, mas que soavam tão bem que seria um pecado não apreciá-las.
A caligrafia presente nas páginas se dividia entre letras de forma bem alinhadas escritas a caneta preta e palavras tecidas com uma escrita cursiva e uniforme. O segundo tipo ostentava uma coloração grafite.
Era a letra dela.
Sasuke leu mais uma vez para ter certeza. As palavras cinzentas se enfiavam entre algumas linhas que ele já havia escrito, corrigia algumas palavras para que tivessem uma sonoridade melhor e, aos poucos, construía uma música completa.
— Eu reconheci a melodia. É aquela que tocou pra mim na sala, não é? — Sasuke assentiu, abaixando o caderno. — Quando peguei o caderno, o fiz porque queria te entender um pouco mais. O que já havia escrito dessa música… Sasuke, ela é linda.
— Você terminou a letra — não era uma pergunta.
— Sim, mas… Foi mais uma… Uma ideia, sabe? — Estava constrangida e ele podia ver nas maçãs avermelhadas e mãos nervosas. — Eu escrevi tudo a lápis. Assim você pode apagar.
— Não, eu gostei — olhou a partitura. — Você compôs um arranjo pro piano?
— Achou muito exagero? Ela ficou linda acústica, não precisa de…
— Sakura — ela parou de balançar a cabeça e mexer as mãos nervosas. — Eu quero ouvir.
Ela piscou duas vezes. Certo, era aquele o motivo de tê-lo chamado. Queria que ele ouvisse a música que ela tinha finalizado.
— Ok. Será que me acompanha? — Sakura apontou o violão com o queixo e Sasuke, sem hesitar, o ajeitou no colo. — Entre com o violão só no refrão. Por hora, relaxe e aproveite a parte da letra que conhece.
Sasuke sorriu e Sakura se voltou para o piano, ajeitando-se numa postura impecável. Estava radiante. Pensou que levaria uma bronca. Já havia se preparado para o sermão de “você não deveria mexer no que não é seu!”. Que bela visão era Sasuke lhe incentivando.
Sakura fez um rápido exercício para os dedos, respirou fundo e, sem nem precisar observar a partitura, deu início à introdução composta por ela.
Era muito bonita, Sasuke devia admitir. E o fato de que ela mal olhava para as notas e tocava sem dificuldade alguma, só provava como Sakura havia se dedicado àquela música que nem mesmo era dela. Que nem mesmo lhe dizia respeito. Que nem mesmo era sua responsabilidade.
Havia feito por puro e simples querer.
Com um meneio de cabeça, indicou para que Sasuke começasse. Meio incerto, ele entrou. A primeira parte já tinha decorado. Adequar-se à melodia um pouco mais lenta era o de menos.
Aos poucos, o timbre ia ganhando força e as palavras que Sasuke havia escrito com tanta emoção praticamente flutuavam à sua frente.
A cada filho que pede um pai
Quando o fardo é pesado demais
Quando o amigo trai
E você sente aos poucos a visão a enturvar
E a esperança evanescer
E você só queria uma chama pra queimar suas memórias
Sasuke parou e Sakura não pensou duas vezes. Assim que a voz do companheiro cessou, a sua reverberou pelo quarto.
Só pra ver, testemunhar
Que nada nesse mundo há de apagar
Pois somos feitos de histórias
Sasuke passou a puxar notas únicas nas cordas do violão, casando com a batida mais leve do piano naquela parte em específico.
Voltou a cantar, aquela parte ele conhecia.
Os ouvidos de Sakura, mais uma vez, se encantaram. Não havia pensado naquele dedilhado, mas Sasuke estava tirando de letra.
Se o mundo lá fora quer te apunhalar
Lembre que seu corpo é só poeira estelar
Tudo que importa é o agora e nada mais
Tudo que nós somos é apenas o que a gente faz
Quem é esse ser que pilota os cometas?
Por que é que desvia do nosso planeta?
Era linda a forma como Sasuke cantava concentrado única e exclusivamente na canção. Deixava Sakura deslumbrada. Mesmo quando ele fechava os olhos para mergulhar de vez no som maravilhoso que faziam, ela podia ver a emoção. Podia sentir a devoção do rapaz para com aquelas palavras.
E Sasuke também não estava diferente. Ele admirava as rimas e encaixes que Sakura conseguira fazer. Ela era incrível. A música era incrível. Tudo era incrível naquele momento.
Só pra ver, testemunhar
O quanto a gente pode suportar
Nos ombros, o peso das memórias.
Puseram tudo de si em seus respectivos instrumentos e vozes.
Sakura arrepiou-se por inteira. Ainda era chocante como suas vozes se abraçavam e se entrelaçavam tão bem.
Se o mundo lá fora quer te apunhalar
Lembre que seu corpo é só poeira estelar
Tudo que importa é o agora e nada mais
Tudo que nós somos é apenas o que a gente faz.
Poeira estelar.
Sakura ainda tocou por alguns segundos e, vagarosamente, foi diminuindo o ritmo. Os acordes baixos do violão lhe acompanharam até pouco antes da finalização total.
Ela baixou a cabeça e a levantou. Suspirou e piscou com força, se preparando para qualquer comentário que Sasuke pudesse lhe oferecer.
Virou-se para ele com um sorriso.
— E então?
Sasuke sentia-se sem fôlego. Ele não tinha palavras.
Estava perfeita.
— Não gostou? — Sakura se precipitou e Sasuke arregalou os olhos, apoiando o violão ao seu lado.
— Sakura, ficou ótima. Ficou… — soltou um suspiro com força e arqueou as sobrancelhas, expressando o quanto estava impressionado. — Ficou boa pra caralho.
Sakura abriu novamente o maior sorriso que tinha.
— Que bom que gostou da sua música, Sasuke.
— Não. Nossa.
— Nossa? — Ela tirou a mão das teclas e pousou no colo.
— Compusemos juntos, afinal — ofertou-lhe um sorriso sincero e o coração de Sakura se derreteu.
Eles haviam composto a música juntos. Os dois. Como uma dupla.
Em toda sua vida, Sasuke só havia composto em conjunto com duas pessoas. Seu irmão e Sakura. E ela nem mesmo sabia.
Ela não sabia e nem precisava saber. Porque Sakura não precisava conhecê-lo para entendê-lo.
E foi quando Sasuke compreendeu aquilo que, pela segunda vez, faltou-lhe o ar.
— Saiba que eu não quis invadir sua privacidade, Sasuke. Não se sinta obrigado a usar essas alterações que fiz e nem nada do tipo — ela recolheu uma perna para dentro do banquinho e apoiou a cabeça no joelho. — Vou entender perfeitamente se…
— Sakura — a garota se calou. — Obrigado.
E não era só pela música que era grato.
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