Closer
31 A calmaria na tempestade
Notas iniciais

Existem alguns pequenos pontos no mundo musical que definem a carreira de um artista. Seja um lugar, um show, uma pessoa, uma música, uma obra. Quando lemos a biografia de musicistas famosos, é comum nos depararmos com aqueles momentos de destaque onde tudo pode ter começado ou poderia ter terminado.
Para Nameless, o momento em questão tinha data, endereço e, de brinde, a maior chance de suas vidas.
Hooligans era o nome do momento. Havia começado como um pequeno pub irlandês musical que dava a chance para artistas anônimos mostrarem seus talentos. O clima agradável e divertido passou a ser o atrativo principal e, em pouco tempo, era um lugar importante e de grande nome.
De pequeno pub a enorme franquia, o local preservara seu clima amistoso, mesmo com todas as expansões.
Mas não eram só bandas prestes a decolar que passavam pelas portas de lá. Por ser extremamente bem conceituado, o Hooligans também era um dos pontos de encontro entre jornalistas musicais, empresários e agentes que almejavam encontrar nomes para tentar o estrelato.
O lugar tinha até sido carinhosamente apelidado como Covil dos Figurões.
Contudo, no meio de todos aqueles pescadores ávidos e sedentos por uma boa pesca, existia um que se sobressaía.
Não importava a noite, não importava a banda, não importava o artista. Se Shikamaru Nara comparecesse, o peixe grande sempre seria dele.
Era raro quando Shikamaru resolvia pescar ali no Hooligans, mas, quando acontecia, era de conhecimento geral.
Shikamaru era esperto, era ágil, era estrategista. E se ele estava indo ao Hooligans, era pra ver algo bastante promissor.
Saber que a banda da noite era a tal Nameless que vinha causando um belo rebuliço por onde passava, não ajudava em nada para a calmaria antes da tempestade.
Se Shikamaru Nara estava de olho naqueles garotos, era porque eles valeriam ouro.
A atenção que haviam ganhado nas semanas antes do show decisivo chegava a ser ridícula. Os abutres rodeavam a carne fresca, apenas esperando pela oportunidade.
Por mais que o nome de Nara fosse respeitado no mundo dos bastidores musicais, nada impedia que a concorrência agisse às escondidas.
Por esse e outros motivos os celulares dos quatro rapazes não havia parado de tocar e apitar nos últimos dias. Até Sakura estava sendo incomodada. Temari, a irmã de Gaara, não parava de contatá-lo para dizer como também estava sofrendo incômodos e que aquilo era incrível demais para ser real.
Gaara havia se transformado numa bela pilha de nervos e a coisa só piorou quando, ao rejeitar uma das ofertas que andava recebendo, ganhou um belo ponto de vista para analisar.
“É você quem sabe, garoto. Deveria aproveitar o que estou te oferecendo, afinal, todos do nosso meio sabem que vocês só conseguiram o Nara porque ele foi adestrado pela sua irmãzinha”.
E foi o que bastou para Gaara questionar todo o seu talento e de seus amigos.
Neji era outro que não conseguia disfarçar o nervosismo. Porém, em seu caso, a história era um pouco diferente. O que faria se aquilo desse certo? Como se explicaria para o tio e o pai? Seria forçado a voltar para o Japão? Suava frio só em pensar nas possibilidades.
Tenten, dedicada como era, o acalmava muito bem com suas palavras e um bom sexo. Achava até que Neji andava inventando algumas das crises apenas para se aproveitar da situação.
Mas ela jamais reclamaria.
Naruto, coitado, mais parecia um zumbi. Suas notas só sairiam após o show, ainda tinha provas importantes para fazer e equilibrar os estudos com os ensaios não lhe parecia tão difícil no começo. O único problema era que estava abrindo mão de algo: seu sono. Porém, mesmo levando broncas de Hinata e sermões de Sakura, sabia que valeria a pena. Se com três horas de sono por noite ainda conseguia sorrir da forma que vinha sorrindo, então todos sabiam que ele estava mais que feliz e disposto aquilo.
Contudo, quem mais estava radiante, surpreendentemente era Sasuke. Não que estivesse soltando fogos na cozinha ou saltitando pela escadaria. Mas era visivelmente o mais animado com os ensaios, preocupado com a seleção de músicas e focado na perfeição que deveria ser aquela apresentação.
Estava verdadeiramente empenhado.
Não havia comparecido nenhum dia à faculdade na semana anterior ao show. Ficava em casa ensaiando sozinho fervorosamente, repassando tudo de novo e de novo, anotando, analisando e, óbvio, deixando Sakura de cabelo em pé.
Aguentar um Sasuke lhe torrando a paciência durante toda a noite com assuntos musicais era mais difícil do que ela pensava. Principalmente naquela sexta.
O show seria no sábado e, como se não bastasse ter aturado o Uchiha no seu pé a semana toda, na véspera da apresentação teve que aguentar mais três versões dele lhe cobrindo de perguntas, dúvidas e pedindo por opiniões em coisas que ela nem mesmo sabia se deveria opinar.
— Nós não podemos tirar ou trocar. Já mandamos a lista com as músicas, caralho! — Neji argumentava com Naruto que batia o pé para trocarem uma das músicas selecionadas na última hora.
— Então vamos apresentar assim?
— Assim como? Está ótima! — Gaara defendeu.
— Vocês dois estão doidos. Eu concordo com o Naruto. Uma música trocada não vai machucar! — Sasuke se virou para ficar ao lado do amigo.
— Ah, isso só pode ser brincadeira…
E logo começaram a discutir incansavelmente. Tinham acabado de finalizar um ensaio e não paravam de reclamar uns com os outros. A cacofonia de todas suas vozes juntas berrando na garagem fechada de Neji já estava sendo tão comum às garotas que os assistiam que Ino sequer tirou os olhos do celular, Hinata e Tenten continuaram conversando como se os quatro nem mesmo estivessem ali e Sakura seguia lendo tranquilamente uma revista que havia encontrado.
As vozes masculinas foram aumentando gradativamente, até que:
— Sakura! — Os quatro chamaram ao mesmo tempo.
Ela os olhou por baixo dos cílios. Os quatro pares de olhos esperando que ela milagrosamente surgisse com uma resposta.
Olhou Tenten por um segundo. “Não vou deixar eles te esgotarem”, dissera uma vez. E lá estava ela, rindo da situação, achando graça da pobre Sakura que nem devia ter algo a ver com aquilo.
Suspirou, fechou a revista, descruzou as pernas e se levantou.
— Aonde vai? — Gaara inquiriu.
— Vou pegar uma cerveja. Vocês estão me deixando doida. Garotas, cuidem de seus respectivos pares. Não aguento mais.
— Sakura! — Outro chamado dos quatro e ela apenas balançou a mão ainda de costas, indo para a cozinha.
— Droga, ela tem razão… — Neji passou a mão pelos cabelos. — Sakura não tem nada a ver com essa apresentação.
— Como não tem? — Um Sasuke indignado encostou sua guitarra na parede e pôs-se a marchar para dentro da casa.
— Sasuke! — Gaara ameaçou ir atrás dele.
— Ih, deixa ele. Vai levar uma bronca — Ino decretou. — Hm, vocês vão demorar pra guardar tudo? Tô cansada de ficar presa aqui. Vamos sair pra um barzinho.
— É uma ótima ideia. Vocês precisam relaxar um pouco antes da grande noite — Tenten concordou.
Já dentro da casa, Sakura cantarolava a melodia da última música tocada no ensaio. Abriu a geladeira e pegou uma cerveja ainda se balançando um pouco. Sabia que Sasuke estava a alguns passos de entrar na cozinha. Tinha certeza que o ouvira.
— Quer uma, também? — Nem precisou se virar.
— Não — curto e grosso.
— Tem certeza? Vocês estavam bem tensos há alguns minutos… — azucrinava Sasuke de propósito.
Ele não respondeu. A única certeza de que ele continuava lá, era a respiração pesada.
Sakura, com zelo, desembolsou suas chaves e, com o pequeno abridor de garrafas num chaveiro, abriu sua preciosa cerveja. Tomou um gole e fez careta.
Ela nem mesmo gostava tanto assim de cerveja.
Virou-se sabendo que Sasuke ainda a encarava com uma bela duma carranca de mau humor.
— Hm, ainda aqui? — Bebeu um generoso gole e lhe ofertou um sorriso.
Ah, se ela soubesse a vontade que ele estava de lhe arrancar aquele sorrisinho na cara.
— Estamos todos muito nervosos pra amanhã.
— Sim, eu sei.
— É a única chance que teremos de provar que nossa bandinha de merda pode se tornar alguma coisa — continuava.
— Uhum… — e Sakura, como quem não queria nada, aproximava-se dele com seus passos calmos.
— Tudo tem que estar perfeito.
— Entendo…
— Se perguntamos pra você, é porque sabemos o quanto você é boa com… Com essas coisas! — Nervoso, Sasuke já começava a bagunçar os cabelos com os dedos involuntariamente.
— Eu me sinto lisonjeada… — os dedos tamborilavam e brincavam delicadamente pelo gargalo da garrafa. — Não vai mesmo querer uma?
— Sakura!
— Vocês estão ensaiando como loucos pra deixar tudo perfeito e adivinha? Já conseguiram — outra golada. — Não podem trocar uma música assim, em cima da hora. Sabe disso.
Os ombros de Sasuke caíram e ele crispou os lábios, como se procurasse uma boa resposta. Mas a única coisa que emitiu, foi o som vindo do fundo de sua garganta.
— Hn.
— Sabe… — aproximava-se cada vez mais. — Há uns meses me apresentei com vocês. Fomos ao festival. Você se lembra?
— É claro que eu me lembro.
— Lembra-se também de como eu estava ansiosa e nervosa? — Soltou um riso nasalado. — Você me ajudou… — Sasuke arqueou uma sobrancelha. Ele sabia muito bem como havia a ajudado.
— É… — faltava muito pouco para Sakura alcançá-lo.
— Talvez aquele meu nervosismo não chegue aos pés do que você e os garotos estão sentindo, mas…
— Mas...?
Com jeito, Sakura cingiu o pescoço do rapaz a sua frente. Os braços e mãos de toques delicados e quentes envolveram-lhe a nuca e ele torceu para que ela não fosse boa em perceber arrepios alheios.
Não era difícil saber as intenções dela. Queria beijá-lo assim como fora beijada quando entrara em pânico alguns dias antes do festival.
E Sasuke não seria nem louco em recusar.
A situação era quase cômica. A inversão repentina de papéis o fazia querer rir. Porém, seus lábios estavam ocupados demais para se repuxarem num sorriso.
Era diferente quando Sakura o beijava — não o contrário. Ela vinha mansa, despretensiosa e, quando dava por si, estava totalmente domado pelos jeitos e sabores. Ela não era só uma coisa como apenas delicada ou apenas selvagem. Sakura era uma mistura de trejeitos onde Sasuke se afundava cada vez mais tentando descobrir cada nuance.
Sem medo, ela escorregou uma das mãos para o rosto dele, o puxando ainda mais. Suas coxas já roçavam às dele. Como se sentisse seu ego ferido por estar sendo conduzido numa dança onde estava claramente mais acostumado a conduzir, Sasuke começou uma lenta caminhada até o balcão. Sakura o acompanhou, andando de costas até sentir a base de sua coluna bater contra o mármore.
Aproveitou o apoio para largar sua cerveja esquecida e que começava a esquentar. Apertou-se ainda mais a ele. Sentia as mãos danadas passeando pela sua cintura e costas, ameaçando uma descida. Não se beijavam com urgência, mas tinham vontade. As bocas se encontravam com sensualidade e provocação.
Sakura sentiu o celular no bolso frontal de Sasuke vibrar e ouviu o seu próprio apitando. Sacou-o e passou o braço pelas costas de Sasuke, tendo uma boa visão do que estava escrito na tela.
— Hm… — empurrou-o devagar e não pôde deixar de notar uma certa resistência por parte de Sasuke. — É a Ino. Vamos dar uma saída.
— O quê? — Sakura quase riu quando ele abriu os olhos e desfez o bico.
— Sair, garotão! Pegue seu casaco e vamos embora. Vocês precisam mesmo relaxar — pulou para o lado, fugindo de uma investida inteligente de Sasuke que parecia ansioso para mais uma sessão de malhos.
— Eu estava muito bem relaxado, se quer saber — resmungou enquanto a seguia para a saída.
— Ora, Sasuke…
Já fazia um tempo desde que não a via com as bochechas coradas. Não podia perder a chance de encher o saco pelo menos um pouquinho!
Segurou-lhe pelo braço mais próximo.
— Não vai oferecer sua ajuda a mais ninguém?
Sakura tossiu forte com a ousadia, mas terminou rindo.
— Seus amigos estão muito bem acompanhados e não vou pegar sapinho do Gaara, obrigada — Voltou ao seu caminho, já chamando Ino e procurando a jaqueta que usava quando chegara ali.
Sasuke balançou a cabeça e, involuntariamente, deixou um discreto sorriso lhe estampar a face.
Aquele negócio do beijo para distrair realmente funcionava.
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