Closer

3 3 - O segundo ensaio: Sobre amor - Ágape.


Notas iniciais
Oi, gente bonita. Como vai essa força? Desejo a todos um bom capítulo. E até as notas finais. :)

Era terça de manhã cedo quando chegou no local marcado por Otabek. Era um estúdio de dança bem equipado, recentemente reformado a julgar pelo cheiro de tinta sutil que o lugar tinha e bem localizado. Teria que dar seu melhor para poder fazer jus ao investimento.

"Precisa de ajuda?" Yuri perguntou.

"Preciso de você pronto." Otabek respondeu, enquanto ajustava as câmeras. "Na próxima vez talvez eu precise, mas hoje vamos filmar com a luz natural. Ela combina com você e com o que tenho em mente."

"O que eu vou dançar?" Yuri perguntou, subitamente nervoso.

"Ainda não." Altin respondeu. "Tudo na hora certa."

Aquilo aumentou a ansiedade de Yuri, que não teve muito tempo para pensar nisso.

"O que você vai vestir?" O fotógrafo perguntou.

"Você não me disse o que queria, então eu trouxe basicamente collants. Um branco, um preto, um cor de pele e um com estampa de oncinha." Yuri listou, perdido.

Otabek desviou o olhar da câmera e olhou para Yuri com interesse. O louro talvez não devesse ter contado do collant de animal print, mas agora não tinha volta.

"Use o branco." O fotógrafo disse, olhando-o com intensidade. "E deixe o cabelo solto. Trouxe maquiagem?"

Yuri fez que sim com a cabeça, ansioso por instruções que o tirassem dali.

"Quero algo básico. E que destaque seus olhos de forma discreta, nada escuro." Otabek parecia pensar com muita dedicação. "Corado e brilhante, como uma fada selvagem em um dia de sol. Vamos usar a luz do dia que entra pelas janelas de vidro para filmar."

Yuri ficou corado com as instruções. Uma fada selvagem? Aquilo era interessante. Podia fazer algo sobre isso. O bailarino se recolheu a um canto e começou a se trocar, acostumado a fazer isso na frente dos outros. Otabek, por sua vez, não estava exatamente acostumado com aquilo, então se pegou olhando o corpo alvo, esguio e musculoso do rapaz, enquanto corava e pensava como ele era belo e cativante sem nem fazer esforço. A máquina pendurada em seu pescoço ganhou utilidade em suas mãos e Otabek começou a fotografar Yuri sentado no chão e se maquiando.

O bailarino fez força para agir naturalmente com as lentes do fotógrafo captando cada detalhe de si. Mas era extremamente incômodo, especialmente porque Otabek parecia não deixar escapar nada.

"O que diabos pensa que está fazendo?" Yuri perguntou, nervoso e irritado.

"Testando a luz." Otabek respondeu, registrando tudo.

O bailarino corou, focado no cabelo. Dividiu as madeixas em quatro partes e fez uma trança boxer frouxa em cada, mas indo até o meio da cabeça, deixando o comprimento solto. Usou o pente para deixar a parte solta bagunçada e também fez algo parecido com as tranças. Ainda estava tudo arrumado, mas perfeitamente bagunçado.

"Como estou?" Yuri perguntou, olhando para Otabek com olhos interessados e inquisidores.

O dedo do fotógrafo agiu automaticamente pegando aquele clique. Baixou a máquina e avaliou Yuri detalhadamente. Gostou do cabelo. Era diferente do que ele tinha instruído, mas era melhor e mais coerente com o tema. Ofereceu a mão ao bailarino e o ajudou a levantar, levando-o para o centro da luz. Bateu as fotos necessárias para testar e depois testou a filmagem. Yuri corou com o olhar inconformado de Otabek e se perguntou o que tinha de errado consigo.

O fotógrafo buscou na maquiagem do bailarino alguma coisa. Depois procurou algo na própria bolsa. Lavou a mão, desenroscou a tampa do produto que tinha pego na mochila e depois pegou o que Yuri reconhecia ser seu blush. Viu o rapaz arranhar sua maquiagem e misturar com um pouco da manteiga de cacau, misturando na tampa do reparador labial. Aproximou-se e usou indicador para passar o resultado da mistura nos lábios de Yuri, que corava violentamente com a respiração presa. Notou que os lábios cheios de Otabek também estavam pronunciados e também que queria beija-lo. Foi quando o contato daquele dedo na sua pele se desfez e o clima também, embora o coração do bailarino ainda estivesse sobressaltado.

O fotógrafo pegava a câmera de forma esquisita por não usar o indicador manchado de maquiagem e batia a foto, já afastado. Depois verificou nas câmeras e disse:

"Perfeito! Seus lábios estavam mortos, mas agora tem o destaque que merece."

Yuri, correu para o espelho, nervoso, e olhou-se, vendo que seus lábios estavam avermelhados. Ele mesmo estava todo vermelho. O cabelo, a maquiagem, os lábios e a forma com que respirava descompassado. Parecia realmente selvagem, mas de alguma forma, gostava daquilo. Tocou os lábios... E seu foco se perdeu ao perceber que Otabek o fotografava através do espelho. Ele tinha um sorrisinho satisfeito e sem malícia nos lábios.

"O que foi, seu idiota? Ainda não cansou de bater foto?" Yuri resmungou, desfazendo o clima de encantamento por estar nervoso, afinal foi pego em um momento que considerava muito íntimo.

"Quando eu vejo algo interessante, preciso registrar, não importa o que custe." Otabek respondeu, seguro e confiante, segurando a máquina de fotografia de última geração de maneira que Yuri considerava muito sexy. "Vá alongar e aquecer, Yuri. Quando estiver pronto, vamos começar."

O bailarino começou os alongamentos básicos, deixando que aquilo o relaxasse, enquanto via Otabek limpar o dedo. Foi quando se tocou do que foi dito.

"Como assim 'vamos começar'? Eu não vou ouvir a música antes de dançar?" O dançarino perguntou, soando estressado.

Otabek olhou para o dançarino e ficou curioso não só com que ele disse, mas com a flexibilidade do garoto. As pernas do fotógrafo doeram só de pensar em tentar fazer a abertura do jeito que ele fazia de um jeito tão absurdo e... Flexível até demais. E ele fazia tudo parecer tão fácil que aquele tipo de pergunta não fazia sentido:

"Você não consegue improvisar?"

Aquela pergunta, aquele tom, aquele jeito... Era como se ele duvidasse das suas habilidades. Aquilo lhe fez ficar com tanto ódio que nem se Otabek tirasse aquele suéter azul escuro, a blusa branca e a calça preta, ficando de boxer ou até sem ela, Yuri o perdoaria. E lá estava o bailarino desejando o fotógrafo de novo. Aquilo o fez ficar com mais ódio ainda. Não era para desejar aquele homem, era para ficar com raiva dele:

"Você sabe como a porra de uma improvisação funciona, seu idiota?"

O barulho das lentes se abrindo e fechando foi ouvida e o bailarino resmungou, o tom de voz elevado:

"Você não vai parar de tirar essas merdas de fotos até quando não deveria, seu mentecapto!?"

Otabek simplesmente abriu a boca, surpreso, e depois começou a rir livremente, de olhos fechados. Mentecapto era uma palavra interessante e um bom meio de lhe chamar de demente. Aquele rapaz não cansava de surpreende-lo. O barulho artificial de máquina fotográfica o despertou do transe. Viu Yuri com o celular na mão e uma cara de travesso, parecendo um gatinho que tinha aprontado alguma. Otabek registrou aquela postura inesperada com a câmera e pediu para olhar a foto.

"Você tem talento, Yuri." Otabek disse, bem próximo ao bailarino. "Se puder me enviar, agradeço."

O louro, corado com a proximidade, mexeu os dedos com velocidade e o celular de Otabek apitou. O fotógrafo continuou perto dele e disse, a voz grave e envolvente:

"Eu sei como improviso funciona, mas quero captar sua reação à música de forma crua e primária. Tudo bem instintivo. Quero você por inteiro, até no menor dos detalhes."

Yuri sentia as pernas tremerem, olhando para ele. Otabek Altin o queria por inteiro e a possiblidade de que aquela palavra carregasse segundas intenções mexia com ele a ponto de fazê-lo parecer um adolescente inexperiente lidando com o primeiro flerte, embora já fosse um homem adulto e experiente. Será que o cazaque sabia o quanto era atraente, especialmente quando falava assim de suas paixões e convicções? E quando ele falava de Yuri daquele jeito, era tensão sexual pura, exatamente como ele descrevera: cru, primário, instintivo.

"Se chegarmos a conclusão de que isso não funciona, podemos tentar de outras formas."

"Ok." Yuri falou fracamente.

Embora se odiasse pela reação, estava feliz por conseguir falar algo. Aproveitou a deixa e pediu mais uns minutos para se aquecer e principalmente se acalmar. Enquanto isso, Otabek mexia no celular e olhava a foto que Yuri tirara de si. A qualidade da foto poderia deixar a desejar por conta do aparelho de celular simples do bailarino, mas o conteúdo dela era interessante. Há anos não ria assim e não se lembrava de ter visto a si mesmo daquela forma. O russo captara a essência de seu trabalho e por conta disso, resolveu publicar a foto em seu Instagram pessoal com a legenda "Trabalhando. Por @yuri_plisetsky" e marcou o garoto na foto, sorrindo com carinho.

"Estou pronto." O bailarino disse, cortando a linha de pensamento do fotógrafo.

Yuri ficou impressionado ao ver como a expressão suave e divertida de Altin se tornou séria e concentrada quando ele o chamou. Viu Otabek ativar todas as câmeras que tinha posto pelo estúdio por controle remoto, verificar se todas funcionavam e ajustar sua máquina fotográfica.

"Se pudesse resumir em uma palavra o que espera de mim, Otabek, qual seria?" Yuri perguntou, ligeiramente nervoso e inseguro.

Não queria decepciona-lo, então deixou o corpo em prontidão e respirou fundo.

"Pureza." O fotógrafo respondeu, olhando profundamente para o bailarino com aqueles olhos que pareciam lhe ver a alma. "Vou dar o play em três... Dois... Um... "

Yuri fechou os olhos e ouviu a música. Esperava que seu corpo se movesse de acordo com a melodia, mas falhou. A voz da soprano se fez ouvir e emendou em um solo de órgão que paralisaram o bailarino completamente. Ao invés disso, o corpo começou a tremer. Aquela música o lembrava da mãe e do tempo em que tinha que ir para a igreja ortodoxa russa forçado. Ele não queria estar lá. Tinha cinco anos e só queria sair para brincar com os amigos ao invés de orar para que um homem que ele desconhecia voltasse. Na verdade, nada daquilo fazia muito sentido racionalmente, mas sua mágoa por aquele homem era uma memória física forte demais para conter. E por querer brincar, sua mãe lhe botava no eixo com beliscões. A dor das pequenas agressões se acumularam pelo corpo inteiro, que não esquecia aquela sensações e as multiplicava, passando pelo tronco, pernas bochechas, braços, pernas e se multiplicando pelo corpo inteiro de forma simultânea mesmo depois de tantos anos. Lembrava da sua mãe dizendo para calar a boca e rezar com ela para seu "pai" voltar e perdoar Yuri por ter nascido. O que tinha de errado em querer brincar? Ele pensou, com os olhos vidrados, o choque exposto.

A música lhe atingia com tantas memórias dolorosas, enquanto a voz da soprano evoluía, criando em seu peito uma massa disforme que o afogava em coisas que gostaria de não lembrar. Não conseguia sequer piscar, sentindo as lágrimas escorrerem, livres e grossas pelo seu rosto. Não notou o abraço que dava em si mesmo e como seu corpo tremia. Respirar se tornou difícil, então buscou oxigênio pela boca, soluçando. Chorava livremente, chocado e estático por ver desenterradas tantas memórias. Não tinha força para lutar contra elas, então simplesmente deixou fluir, expulsando esses demônios de vez. Não era sua culpa, não era sua culpa... Não era sua culpa mesmo?, ele pensou caindo de joelhos e sentindo um alívio mínimo quando a música acabou.

O primeiro reflexo de Otabek quando Yuri soltou as primeiras lágrimas foi de largar a câmera e abraça-lo, mas não podia. Ambos ali faziam um trabalho e via ali toda a pureza que pedia. Além disso, sabia de alguma forma que o russo não o perdoaria se fizesse isso. O bailarino chorava, mas seus olhos continuavam frios e duros como aço, lutando para sobreviver ao que quer que sua mente invocasse. E ele lutava para captar toda a beleza que via ali. Sua libertação parecia evoluir com música e os soluços cortavam o coração. Ao fim da música, o bailarino pareceu desabar, caindo nos próprios joelhos, frágil e esgotado.

Otabek apoiou a câmera na mesa de forma cuidadosa e foi em direção a Yuri. Pegou o rapaz nos seus braços e o abraçou de lado, dando um jeito de te-lo entre suas pernas, dando todo o apoio que ele precisava para chorar livremente. O bailarino escondeu o rosto em seu suéter, chorando sem controle, apenas deixando tudo ir, apreciando a firmeza e a segurança dos braços de Otabek. Aos poucos, chorar não fazia mais sentido, então o rapaz olhou para cima e respirou até conseguir manter alguma calma e constância.

"Otabek, que música é essa?" O louro perguntou, sem sair do abraço do mais velho.

"Sobre amor: Ágape." O moreno respondeu, gentil. "Fala sobre amor incondicional."

"O que é amor incondicional para você, Otabek?" O rapaz perguntou, surpreendido com o significado da música que lhe invocara memórias torturosas.

"É a forma que só Deus é capaz de nos amar." O fotógrafo respondeu suavemente depois de um tempo em silêncio.

"Essa música me lembrou da Rússia, da minha família e do meu passado. Três coisas que eu tento ignorar e enterrar com todas as forças." Yuri disse, ainda não olhando para Otabek. "Mas dessa vez eu não consegui."

"Você quer falar sobre isso? Eu estou aqui para te ouvir." A voz do moreno era reconfortante e Yuri adorou como aquela mão grande e forte achou um meio de acariciar sua nuca no abraço, derretendo suas defesas por completo.

"Não gostaria de falar sobre isso." Yuri respondeu, incerto. "Mas talvez eu deva. Eu não sei..."

Otabek simplesmente ficou ali, abraçando o rapaz, acariciando sua nuca, dando-lhe todo o amor que conseguia. Mesmo não sabendo o que era, pelo colapso inconsciente, deveria ser algo grave e importante. Daria todo o apoio necessário, seria o esteio do bailarino. Queria aquilo mais que tudo, talvez até do que as fotos. Queria que Yuri confiasse nele.

"Não é nada demais, sério. É só o drama de sempre, nenhuma novidade." O louro disse, entre soluços, tentando desfazer-se daquela situação incômoda.

Mas Otabek não o largava por nada. E quanto mais ele dizia que não era grande coisa, mais amor e carinho ele lhe dava. Talvez ele pudesse confiar em Otabek, só daquela vez. Talvez só assim o fotógrafo parasse, assim como aquela dor em seu peito.

"Acontece com muita gente: mamãe engravidou de um homem que ela dizia amar quando era muito nova. O cara pulou fora quando descobriu a gravidez e então mamãe passou a me odiar, nunca escondendo isso de mim, especialmente quando bebia. A única pessoa que me amava era meu avô, que sempre dava um jeito de me fazer feliz. Quando ele me visitava, trazia piroshki e me abraçava, dizendo coisas gentis. Quando eu tinha cinco anos, ele descobriu um hematoma em mim..."

"Hematoma?" Otabek perguntou, por reflexo, repreendendo-se mentalmente por interromper o que seria o desabafo de Yuri.

"Mamãe me agredia em pontos que a roupa cobria e dizia que, se o vovô descobrisse, ela ia me bater mais e eu nunca mais o veria, porque ele teria vergonha de mim por eu ser um fraco, um estorvo. Mas ela estava errada. Quando ele descobriu, me levou para casa dele e eu nunca mais a vi. Sei que ela morreu, mas não sei como. Mas isso não importa, porque vovô nunca me deixou nada faltar. Me deu educação, estudo, amor, muito piroshki e me botou para dançar. A assistente social recomendou para ele que eu dançasse e cá estamos."

Otabek abraçou Yuri com mais firmeza, que correspondeu ao abraço, envolvendo o moreno e o trazendo mais para si. Sentia-se bem ali, seguro, confortado e amado. Naquele momento, ter suas defesas ruídas valeu a pena. Só por poder estar ali, nos braços daquela pessoa que tanto lhe oferecia sem pedir nada em troca.

"Seu avô deve estar orgulhoso de você." O moreno disse, transmitindo o orgulho que sentia em sua voz.

Mesmo com as lágrimas rolando, Yuri sorriu por ouvir aquilo. E sentia o afeto naquela voz, como se também estivesse orgulhoso dele. O louro não tinha certeza daquilo, mas queria acreditar fortemente, nem que fosse só por aquele momento.

"Ele sempre me dizia isso." O bailarino respondeu com a voz doce que não reconhecia como sua. "Faleceu quando eu fiz 18 anos. Foi quando Lilia, minha professora de dança desde que eu me dou por gente, me ofereceu a chance de eu vir para cá. Ela disse que queria montar uma companhia fora da Rússia e me queria nela. Como não tinha mais nada a perder, aceitei. E agora sim cá estamos."

Yuri se sentia melhor por ter posto tudo isso para fora. Agora estava tão leve que podia voar, embora ainda quisesse permanecer no abraço do cazaque.

"Amor agape é o meu avô. E Lilia. E até você." O bailarino confessou sem pensar e depois corou violentamente ao notar o que dizia.

Tentava entender o motivo de revelar seus segredos com tanta facilidade para aquele homem. Nada daquilo fazia o menor sentido, mas ele tinha, sem querer, conseguido tocar em sua parte mais frágil e que ele nunca tinha exposto. Com tudo o que acontecia e pela forma com que Otabek reagia, primeiro sendo o profissional e depois sendo o humano que lhe acolhia, não tinha outra opção que não fosse confiar, nem que fosse naquele instante. Mas, mesmo confiando, não podia abusar para sempre de Otabek. E foi quando ele resolveu dar fim naquilo.

"Podemos fingir que nada disso aconteceu?" Yuri perguntou, nervoso, mas resoluto.

O moreno ouviu aquela pergunta e não pôde evitar de se sentir magoado. Agiu errado em algum momento? Tinha sido invasivo? Fez algo que Yuri não gostou? O que quer que fosse, estava feito. Não podia voltar atrás. E nem Yuri poderia tirar isso de si.

"Eu não gostaria, Yuri." Otabek respondeu, sério.

"Tudo bem." O russo disse, desfazendo o abraço, levantando-se e estendendo a mão. "Você sabe de toda a minha vida agora, então só me diga uma coisa: por que você fala russo?"

"Russo é a língua oficial do Cazaquistão junto com cazaque." O moreno disse, aceitando a mão do russo e se levantando, mas sem solta-la.

"Você é cazaque, então... Isso explica o seu sotaque." Yuri disse, sorrindo suavemente, mantendo a mão do fotógrafo na sua. "Posso tentar de novo? É só refazer a maquiagem e..."

"Eu te quero assim." O cazaque respondeu, deixando Yuri sobressaltado e com o coração acelerado pelo duplo sentido da frase. "Não refaça a maquiagem. Dance assim."

Yuri pensou em questionar, mas lembrou que era aquilo que Otabek queria registrar para seu ensaio. Sabia que sua maquiagem poderia estar borrada e ele estaria ainda mais exposto, mas era seu trabalho e aquele homem não o deixava desconfortável por se expor daquela forma.

"Ok, só me dê um minuto para beber água." O loiro pediu, soltando, a contragosto, a mão do cazaque.

"Ok, vou verificar os equipamentos." Otabek disse, se direcionando para as máquinas, parando as gravações.

"Você gravou tudo, não é?" Yuri perguntou, depois do gole de água, notando que o moreno não se deu ao trabalho de negar.

Levou sua garrafa para Otabek, que bebeu dela sem cerimônias, mantendo contato visual durante o ato.

"Obrigado." Ele disse. "Quando você estiver pronto, me avise."

Yuri olhou para o fotógrafo e viu que ele ainda resolvia as questões tecnológicas. Notou também seu suéter ensopado pelo seu choro e corou.

"Desculpa por isso aí." O loiro disse, olhando para o lado e torcendo os lábios de vergonha.

"Tudo bem." O cazaque respondeu, tirando a peça de roupa azul e ficando só com a blusa branca de botões e linho que delineava o corpo de forma sutil e sensual, na opinião do bailarino. "Estava quente mesmo."

Yuri desviou o olhar novamente ao perceber que seus pensamentos não passavam por pureza e amor ágape. Ele se posicionou no centro da sala de dança e anunciou:

"Estou pronto."

Otabek também estava pronto com todas as máquinas gravando e a câmera fotográfica em mãos. Pegou o controle do sistema de som e disse:

"Música em três... Dois... Um."

Otabek não entendia nada de dança, verdade fosse dita. Mas ele entendia de emoções, pois seu trabalho era capta-las e eterniza-las. Mas quando Yuri levantou a mão aos céus e emendou em uma pirueta graciosa, abraçando a si mesmo ainda de olhos fechados, soube que o que ele veria ali era algo de outro mundo. Aquela oração silenciosa podia alcançar o mundo, fazendo Otabek ficar mais determinado em registra-la.

Yuri deixou o corpo se guiar, permitindo que ele se movesse sozinho para expressar todo o amor que sentia, fazendo a música junto com a melodia. Pensava em seu avô e em Lilia. Por eles fazia os passos mais complicados, os saltos mais difíceis, ocupava toda a sala e usava toda a sua graça e beleza para mostrar o que sentia por eles, imaginando que eles estariam orgulhosos de si até o auge da música. Foi quando em sua mente surgiu Otabek e seus gestos se suavizaram junto com a melodia e sua prece silenciosa, com as mãos entrelaçadas para o alto, pedindo ao universo para ter aquele homem para si.

Otabek seguiu registrando tudo, a adrenalina correndo pelo corpo por ter o privilégio de captar tamanha beleza e vida na sua frente. Tinha sorte. Tinha muita sorte. E teria esse privilégio mais vezes. Viu Yuri desfazer a pose, ainda arfante, e soltar um sorriso satisfeito, a mão na cintura e a outra solta do lado do corpo. Viu o bailarino abrir a boca para falar e esperou suas primeiras palavras depois dessa obra-prima:

"Eu tô com fome pra caralho!" O bailarino disse, olhando diretamente para os olhos de Altin, que ficou chocado, mas depois abriu um minúsculo sorriso de satisfação e diversão.

"Trouxe comida." Foi tudo o que o fotógrafo respondeu, depositando a máquina em cima da mesa próxima e buscando a bolsa térmica que trouxe consigo. "Nossa, três da tarde?!"

Yuri buscou a toalha e enxugou o rosto com delicadeza. Só iria embora quando Otabek o expulsasse dali.

"Conseguiu o que queria?" O bailarino perguntou, testando terreno .

"Sim." O rapaz respondeu, arrumando os potes de comida em uma mesinha.

Se ele já tinha acabado, Yuri estava liberado. Começou a se aprontar para ir embora, triste. Agora sim estava sendo expulso.

"Mas eu pensei que talvez você quisesse ver as fotos do encontro passado enquanto almoça comigo." Otabek o olhou, sério.

"Por que não?" Yuri respondeu, dando de ombros. "Vou só tomar um banho rapidinho."

Otabek viu o bailarino ir ao banheiro e ficou pensando no que ocorreu. Yuri agia como se nada houvesse ocorrido, mas isso não era bom e nem saudável. Mais cedo ele tinha pedido para esquecer aquilo. Sentia-se ligado ao rapaz e se antes não era imune ao bailarino, agora se sentia conectado a ele em níveis mais profundos e definitivamente o queria bem. E queria mais dele.

"O almoço está servido." O fotógrafo disse, entregando-lhe o prato e olhando para Yuri de forma fixa, incomodando o rapaz com aquilo.

Comeram em silêncio, até que o louro não se aguentou e perguntou:

"O que foi, Otabek?"

Yuri conhecia aquele comportamento, o olhar preocupado, o cenho franzido, o medo e o cuidado excessivo com as palavras:

"Você está bem?" O moreno perguntou.

"Não!" Yuri respondeu, insatisfeito.

Aquilo assustou Otabek.

"Você também não, cara." O bailarino disse, chateado. "Se é pra começar com essa merda, eu vou embora e não volto mais."

O moreno o olhou e esperou ele completar:

"Porra, cara, não começa a fazer isso ou eu vou achar que não valeu a pena confiar em você." O loiro pediu, injuriado.

"Assim como?" Altin perguntou.

"Como se eu fosse um fracote de merda, cara. Que porra é essa?" Yuri respondeu, mantendo o tom inconformado. "Tá, eu chorei, e daí? Você acha que eu queria isso? Aí eu contei as coisas e achei que você, diferente de todo mundo, ia encarar numa boa, mas não, você também começou a ficar de merdinha como se eu fosse um fraco. Ou pior, como se eu ainda fosse aquela criança. Para com esse caralho, tá me entendendo?"

"Eu me importar com o seu bem-estar em nada tem a ver com te achar um fraco." Otabek respondeu, sério e compenetrado, fazendo o bailarino querer gritar de agonia. "Eu nunca vi ninguém enfrentar a situação da mesma forma que você. E eu não diria que sua forma foi fraca."

Yuri olhou para o moreno, buscando sinais de pena ou condescendência e não encontrou.

"Do que diabos você está falando?" Ele questionou, nervoso.

"Eu nunca vi alguém lutar com tanta força por algo." Otabek respondeu, dando um gole na sua água. "Você chorava, mas não se rendia e se manteve forte até o final. Algumas batalhas são difíceis demais para se lutar sozinho. Por isso perguntei se você está bem."

"Você queria lutar comigo?" Yuri perguntou, entendendo a nova informação como se fosse um banho de água gelada no verão, que lhe dava um susto, mas acabava relaxando e refrescando seu corpo.

"Eu queria lutar ao seu lado." Otabek falou, a voz grave e calma, que funcionava como uma sorte de tranquilizante para o bailarino. "Você, Yuri Plisetsky, tem olhos de soldado que são inesquecíveis. Foi isso que eu vi e registrei nas fotos."

Os dois se encararam. Yuri travava uma batalha com Otabek, buscando qualquer sinal de pena, o menor que fosse, mas não conseguiu.

"Mas eu talvez tenha feito algo de errado para você falar assim comigo." O moreno falou, sem desviar o olhar. "Não sei o que é, mas acha que consegue me perdoar?"

Yuri bufou para esconder que gostava do jogo de cintura de Otabek.

"Se você não mudar comigo, eu consigo." O bailarino respondeu.

"Se você deixar eu me importar, aceito seu perdão." Otabek respondeu, firme como um touro.

"Que seja, cara. Só não fica de merdinha, pode ser?" Yuri respondeu, tão teimoso quanto o moreno, que não respondeu.

Yuri se sentiu incomodado com o silêncio, questionando se não fora longe demais. Não era seu estilo se questionar isso, então ficou fulo por Otabek Altin fazê-lo fugir de sua personalidade habitual.

"A comida está boa?" O moreno perguntou, cortando a linha de pensamento do bailarino.

"Você que fez?" Yuri retrucou.

"Se estiver boa, talvez eu tenha feito." O moreno retrucou." O moreno retrucou, com uma pontada de bom humor.

"Você comprou?" Yuri perguntou, nervoso pelo fotógrafo ser tão obtuso.

Quando Otabek deu um sorrisinho de canto, o bailarino disse, conformado:

"Eu nunca vou saber, né?"

Pelo menos Otabek não estava de merdinha como antes e isso era um bom sinal.

Notas finais
Olar, meu povo. Gratidão por ter chegado até aqui. Aliás, não sei se deu pra reparar, não temos constância no tamanho dos capítulos, porque eu escrevo a história inteira (ou quase, porque esta ainda não está completa e isso me deixa ainda mais ansiosa) e depois divido tudo. Então meio que sai por arco/ensaio/fato. Por falar em capítulos, eu só faço ficar mais e mais ansiosa na medida em que vamos nos aprofundando na história. Espero estar suprindo expectativas e não decepcionar ninguém, porque o bagulho é doido. Eu sei que eu me diverti muito escrevendo tudo isso, mas a diferença entre escrever e publicar é meio sutil, porque chega a opinião alheia e wow, isso pesa. Mas ok, vou ficar calma, vou ficar de boas, vai ficar tudo bem. E ficar de merdinha/merda é tipo... Hum... Fazer as coisas errado, ficar fazendo besteira, menosprezando ou fazendo algo desagradável ou ser covarde. Ficar de merdinha pode ser tanta coisa que eu só falto do quanto eu amo essa expressão. Espero que não tenha ficado confuso pra ninguém. xD E sim, eu optei por selecionar músicas dos programas de patinação. Teorias de qual vai ser a próxima? Como sempre, comentários, sugestões, feedback, gritaria, críticas (de preferência construtivas, por favor), conversas aleatórias ou até mesmo "Oi, não sou boa de comentários, mas estou gostando da sua história" sempre são bem-vindos. Como disse em capítulos anteriores, a caixa de comentários é serventia da casa. :) E acho que é isso. Gratidão e até a próxima. :)