Closer

4 4 - O terceiro ensaio: Sobre amor - Eros.


Notas iniciais
Oi de novo. Tudo de boas? Gratidão pelos comentários nos capítulos anteriores. Boa leitura e espero que se divirta. :)

Yuri deitou em sua cama e respirou fundo. Amanhã encontraria Otabek novamente. Uma semana tinha passado muito depressa, mas não era ruim. Veria aquele homem de novo e dançaria para ele. Sabia que aquelas lentes eram extensões daqueles olhos e o jeito que ele via o mundo era interessante. As fotos na cozinha de Otabek, depois deles dois jogando video-game juntos e por fim as fotos do parque... Todas ficaram lindas. Ele nem se reconhecia nelas. Era assim que o fotógrafo lhe via? Yuri se sentia bonito aos olhos dele e confortável em sua presença.

Não encontraria outra pessoa como aquela tão facilmente, então não tinha tempo a perder dizendo que não estava atraído pelo fotógrafo, embora assumir isso em voz alta fosse bem diferente. Mas queria conquista-lo, queria faze-lo ficar e se esforçaria para virar sua cabeça, até que Otabek fizesse todo o esforço de correr atrás dele e dizer que não poderia viver sem ele. Era um bom plano. Mas por causa da ansiedade que ele causava, não conseguia dormir, portanto foi arrumar a mochila, colocando seus collants e ficando pronto para amanhã. Com tudo certo, deitou na cama novamente. Tepa, a gata himalaia, subiu no seu colo e foi fazendo carinho nela que Yuri dormiu.

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

Otabek estaria mentindo se dissesse que não estava nervoso. A música que tinha escolhido para aquele dia estava planejada há tempos, assim como Sobre Amor: Ágape e as outras subsequentes, mas diante da intensidade de Yuri na semana anterior, as coisas se tornavam mais difíceis. O tema que tinha em mente hoje podia botar tudo a perder no seu autocontrole.

Focava em questões práticas como iluminação quando Yuri chegou, cumprimentando-o de forma amena. Respondeu de forma prática e educada, carregando o equipamento para o estúdio da dança. Yuri pareceu não se abalar por aquilo e entrou com o fotógrafo, deixando suas coisas em cima de uma mesa e descendo com ele e ajudando a carregar as coisas para dentro.

"Você parece tenso." Yuri comentou enquanto Otabek ajeitava rapidamente as câmeras ao redor do estúdio espaçoso e quadrado de paredes negras.

"E você parece relaxado." Otabek comentou, lidando com a mesa de iluminação do local.

Alugara aquele estúdio justamente por causa das luzes profissionais já equipadas ali. Aos poucos foi conseguindo lidar com três focos de luz quentes tanto na cor quanto na capacidade de gerar calor. Aquilo fez o russo ligar as quatro centrais de ar-condicionado em 16º graus.

"Você pode ficar no centro da sala, por favor?" O fotógrafo pediu, enquanto pegava a câmera fotográfica e iniciava os testes com a luz.

Yuri se posicionou onde foi pedido e para não morrer de tédio, pegou o celular. Otabek parecia focado em qualquer coisa que não fosse ele e as questões técnicas exigiam atenção. Uma hora teria seu momento com o fotógrafo. Ou talvez simplesmente estivesse indo com sede demais ao pote que poderia estar vazio. Deu de ombros e esperou, fuçando as redes sociais no processo.

"Posso botar alguma música?" Yuri perguntou, entediado.

"Não. Quero você focado." Otabek respondeu de forma seca.

"Porra, Otabek, focado não é entediado." O bailarino respondeu. "Eu sei que eu cheguei cedo demais, mas eu queria te..."

Notou que o fotógrafo o olhou com interesse. Ele mesmo se interrompeu quando percebeu o que estava prestes a dizer. Não iria assumir que queria ver Otabek. Jamais. Isto estava fora de cogitação. Também não queria acelerar, porque elas estavam rápidas até demais já. Notava que ficava confortável até demais na presença de Altin, mas pela forma que o outro agia podia não ser recíproco.

"...Ter alguma utilidade pra você." Yuri completou a frase, como se falasse algo banal. "Posso ver o teste de foto?"

Otabek fez força para não mostrar sua frustração por expectativas irreais que criou em sua cabeça em relação a Yuri e mostrou o visor da câmera para este, que disse:

"Meu cabelo não funciona com essa luz."

Altin avaliou a luz amarelada e acrescentou tons de laranja e vermelho. Yuri voltou ao centro da sala, ouviu o clique da foto sendo tirada e voltou para o lado do moreno, que remexia uma bolsa.

"Prenda o cabelo, tire a blusa e vista isso." Otabek disse, concentrado em conseguir o ambiente perfeito.

Yuri olhou sério e inquisidor para a saia vermelha, longa e cheia com uma fenda particularmente grande e depois para o fotógrafo. Ele realmente era um pervertido, mas poderia usar isso a seu favor. Tirou a blusa, prendeu o cabelo em um rabo de cavalo baixo e vestiu a saia, indo para o foco de luz. Viu que a foto foi tirada e tentou sair do lugar:

"Não se mexa!" Otabek demandou, sério.

Ele acrescentou mais quatro focos de luz amarelados, um em cada canto do estúdio. Nos últimos ajustes e na verificação das câmeras, tudo parecia certo.

"Ok, acho que temos a luz." Ele disse, desligando a luz cênica logo em seguida, ligando a luz comum da sala.

Yuri olhou a foto de teste pela câmera e pareceu satisfeito, mas teria que fazer algo carregado para maquiagem aparecer e fazer jus ao rosto decente que tinha.

"O que tem em mente para maquiagem?" O bailarino perguntou, ansiando por alguma ação.

Otabek lhe deu uma sacola e uma maleta de oncinha:

"Eu quero o cabelo preso e uma maquiagem inspirada na dança flamenca, mas nada exagerado nos olhos, apenas o suficiente para destacá-los. E batom vermelho."

Yuri abriu a maleta, viu um kit completo e profissional de maquiagem nunca antes usado, e soltou um assovio longo e admirado, enquanto pegava o espelho:

"Belo arsenal de maquiagem, cara."

Ele começou a pentear os cabelos, fazendo habilmente um coque baixo com algumas mechas presas de forma frouxa. Botou também a grande rosa vermelha no penteado e teria que ser sincero, aquele vermelho sangue ficava bem com o louro das suas madeixas. Sabia que Otabek registrava tudo de forma atenta, mas os ombros pareciam rijos.

"Você dormiu bem?" O bailarino disse, soando curiosamente casual. "Está tenso."

Aquilo pegou Otabek de surpresa. Não queria estar ansioso demais para ver Yuri dançar e poder registrar tudo, mas estava. Contava com a intensidade dele e agora que sabia o quanto o rapaz se entregava ao que fazia depois do ensaio passado sentiu que era inevitável ficar nervoso. Verdade fosse dita, ele tinha medo das consequências emocionais daquela situação toda.

"Podia ter dormido melhor, mas não consegui." Ele respondeu, sem parar com o seu trabalho.

"Trabalho?" Yuri perguntou, terminando de preparar a pele e se dedicando os olhos.

"Digamos que sim." O fotógrafo respondeu, notando com aprovação que Yuri sabia usar todos os pincéis e itens que a vendedora o empurrara como fundamentais, enquanto tirava de foco o fato de estar nervoso por conta do bailarino.

"Cara, cê não tá virado, né?" O bailarino perguntou, guardando o pincel de blush e pegando o lápis de contornar a boca.

Otabek batia as fotos automaticamente, focando, na verdade nos lábios de Yuri e na forma que ele passava lápis e depois o batom, ambos em tom de vermelho sangue, como a rosa que ele tinha no cabelo. Se na semana anterior aquela boca parecia morta, agora ela chamava tanta atenção que o fotógrafo não conseguia desviar dela ou ignorar seu desejo por aquela parte do corpo do rapaz. Agora aquele bailarino parecia o demônio tentando-o. Não se culparia por não conseguir dormir na noite anterior. Mas nada daquilo tinha volta.

Yuri se levantou e baixou a máquina de Otabek, deixando-o sem defesas.

"Está bom assim?"

Otabek sabia que ele falava da maquiagem, mas ele só conseguia olhar para boca do russo. Balançou a cabeça, engolindo em seco. Se nada desse errado, Otabek Altin era um homem seduzido por aquela dança, mais do que já se sentia em relação ao bailarino. E se ele fosse honesto, aquilo era tudo o que ele queria desde o começo quando escolheu aquela música, ficando tão excitado com tudo aquilo que se sentia tenso de medo de ser tão transparente.

"Se importa se eu me alongar e aquecer antes de ouvir a música?"

Yuri gostou de ver o fotógrafo enfeitiçado o deixando fazer o que quisesse. Quando planejara seduzi-lo na noite anterior, não esperava que o universo fosse conspirar dessa forma. Tirou a saia que vestira apenas por teste, os sapatos e a calça jeans surrada, ciente de que a cueca justa que usava destacava suas nádegas. Vestia o short curto do collant preto sentindo o olhar do outro em si, mas sem ouvir um clique de lentes sequer. Gostava daquilo. Era bom ter aquele homem como seu refém e inverter os papéis daquele jogo só para variar. Alongou e aqueceu sem pressa. Tinha tudo sob controle, ciente de que aquele homem secava sua bunda destacada pelo collant que mais parecia uma segunda pele em seu corpo.

Enquanto isso, Otabek foi beber água gelada e esfregou a garrafa praticamente congelada em seu rosto, sentindo que o gelo derretia de tão quente, vermelho e ansioso que estava. Sentia-se um adolescente seduzido enquanto Yuri mais parecia um deus. Sem pedir licença, saiu da sala e foi tomar um pouco de ar puro. Apreciava como o outono estava mais gelado que o esperado, pois aquilo ajudaria a recobrar o juízo. Baixou a cabeça e molhou-a com a garrafa de água que ainda tinha em mãos, lavando o rosto. Balançou a cabeça para tirar o excesso. Entrou na sala e bebeu mais água gelada, sentindo o líquido rasgar a garganta e esfriar o corpo a força.

"Você tá bem, cara?" Yuri perguntou, jogando uma toalha de rosto para Otabek.

O fotógrafo enxugou o cabelo, esfregou o rosto, recobrando o controle ao ver que Yuri estava devidamente vestido, alongado e aquecido. Tentava não ficar olhando para a perna musculosa e atraente à mostra do outro, que aparecia pela fenda da saia.

"Estou. Você está pronto?" Altin respondeu, sério, pegando a câmera e ligando a luz cênica.

Yuri acenou positivamente com a cabeça, respirou fundo, dissipando a tensão, e deixou o corpo em prontidão. Uma minúscula parte de si não conseguiu evitar ficar triste por Otabek parecer incomodado por estar atraído pelo russo, mas agora ambos não tinham controle sobre aquilo, então o bailarino teria que fazer seu trabalho, faria até o fim.

Otabek tirou o casaco e ligou as câmeras, apreciando o frio quase congelante do ar-condicionado que batia em suas costas e o mantinha acordado. Aquilo seria útil. Agora iria trabalhar, portanto não teria tempo para devaneios adolescentes.

"Música em três, dois..."

"Otabek, o que quer de mim hoje?" O bailarino perguntou, soando neutro por causa da sua concentração.

"...Um." O fotógrafo disse, ignorando a pergunta. O que queria do louro não podia ser dito em voz alta.

Yuri fechou os olhos e inspirou. Tinha decido não dançar enquanto não ouvisse a música inteira. O russo entendeu a inspiração do figurino e da maquiagem. Sua mente vagou sem rumo, buscando passos no seu repertório, mas nada definitivo. Gostava de como o violino, o violão, o arcordeon e o clarinete pareciam duelar amigavelmente por atenção, todos clamando por seduzir o ouvinte, cada um no seu tempo. Cada um em uma energia e um tom diferente.

A cintura mexeu sozinha, testando alguns compassos, mas nada definitivo que chamasse a atenção. Mas não conseguia evitar um sorrisinho confiante de canto. Estava sendo seduzido pela música e pelas suas mudanças, até que ela chegou em uma crescente e uma ligeira quebra, fazendo Yuri saber que teria que ter Otabek em suas mãos ali para logo em seguida, brincar com ele e dispensá-lo, mas ainda deixá-lo querendo mais. Podia fazer aquilo, ele concluiu ao fim da música.

"Otabek, qual é o nome dessa música?" Yuri perguntou suavemente, imerso no clima.

"Sobre o amor: Eros." Otabek respondeu, sem emoções aparentes. "Música em três..."

Eros? Era o que Yuri queria ouvir e era o que Altin teria. Preparou a pose inicial: o corpo inclinado para frente, a bunda empinada, a saia segura pela mão direita e toda a energia sexual e sedutora que tinha em si exalando por todos os poros de seu corpo.

"...dois, um." Altin completou, dando o play.

Otabek começou a registrar tudo, mas quase perdeu o foco quando Yuri mexeu as mãos de forma delicada em movimentos suaves que guiavam seus olhos por todo aquele corpo bonito, enquanto a saia caindo dava um efeito interessante que compunha lindamente a foto. A evolução começou lenta e marcada por passos firmes, a cintura se movendo em movimentos circulares. O bailarino girou lentamente no próprio eixo, rebolando de forma indecente. Mas quando Otabek desviou os olhos e, por consequência, suas lentes dos quadris do rapaz, pegou os olhos verde-azulados firmes e ardentes, capazes de roubar sua alma.

O bailarino evoluía por toda sala de forma impecável, obedecendo os limites da luz e sendo tecnicamente perfeito, mas nada disso importava, porque a paixão era tudo que fisgava Otabek nos rodopios esteticamente enfeitiçantes, os olhares penetrantes e sedutores, o sorriso sexy e o cabelo louro que se soltava do coque de forma rebelde como o dono, compondo aquela cena de forma irresistível. Yuri parecia uma entidade, um demônio sexual que lhe roubava o juízo, especialmente no momento em que passou a mão pelos lábios em um movimento sensual e borrou o batom de forma proposital, como se ganhasse um beijo e expressando seu prazer pelo fato com o rosto em êxtase... Beijo que Otabek daria com toda a boa vontade, mesmo que disso dependesse sua vida.

Yuri deu uma sequência de giros rápidos, aproveitando-se da ponteira que usava, apreciando, ainda que de relance, o movimento bonito que a saia fazia no ar. Parou, virando-se para Otabek e fazendo um movimento como se o empurrase, desprezando-o depois de usá-lo para seu prazer, e virando-se de costas, como quem ia embora, mexendo a saia e os quadris, usando as mãos com movimentos espiralados do flamenco até formar a pose final em que olhava Otabek de lado, por cima do ombro esquerdo, com o olhar oblíquo e sensual, desafiando-o a implorar por mais, enquanto a mão direita segurava a saia ao alto, revelando uma parte de sua bela perna alva e de músculos firmes.

A música parou e o silêncio permaneceu, quebrado apenas pelos dois homens arfantes. Com um floreio bonito, Yuri desfez a pose e fez uma mesura delicada em agradecimento, simplesmente porque gostaria de tirar um sarro gostoso com Otabek.

"Foi bom para você?" Yuri perguntou, ficando ciente de que a voz estava grave e sensual pela energia que ele desprendeu e pelo cansaço.

"Ótimo." Otabek respondeu, engolindo em seco, inconsciente de que seu ser denunciava seu desejo por aquele homem.

Respirando fundo, engolindo em seco e recuperando sua postura profissional, Otabek ligou a luz comum, desfazendo o clima essencialmente sexual entre eles ao apagar a luz cênica.

"Temos o que precisamos por hoje." Ele disse, soando neutro e indecifrável.

O bailarino assentiu, desfazendo-se da personagem que arrebatara o fotógrafo e voltando a ser o velho Yuri Plisetsky, que agora estava mais inseguro do que nunca, com medo de ter ido com mais vontade e agressividade do que deveria. Desfez o resto do cabelo enquanto caminhava para o canto, deixando-o solto e tirou a saia, ciente de que Otabek desligava as câmeras e começava a arrumar tudo para irem embora dali. Aproveitou-se do banheiro do estúdio e tomou um banho rápido, não querendo mais abusar da sorte ou do fotojornalista. Apenas queria ir para casa e curtir a tristeza que sentia por ter estragado tudo. Encontrou a sala de dança vazia, exceto pelas suas coisas. A essa altura, Otabek deveria estar longe.

Mas a maleta de maquiagem estava ali. Por que diabos alguém esqueceria algo tão valioso? Pegou-a, determinado a devolver para Otabek semana que vem. Deu boa noite a recepcionista e saiu pela porta do estúdio, conformado com sua derrota, procurando o ponto de ônibus mais próximo.

"Yuri!?"

O bailarino parou ao ouvir a voz grossa e quente chamar seu nome, arrepiando-se pela surpresa, pela ansiedade e o desejo que a voz do outro o causava ao chamar seu nome daquele jeito. Viu Otabek encostado na pickup negra, a mão esquerda no bolso e a direita mexendo no celular distraído. Definitivamente era uma visão bonita aquele homem sendo naturalmente sedutor e atraente.

"Janta comigo?" O moreno perguntou, neutro, mas relaxado.

Yuri sorriu, travesso. Andou em direção ao carro, dizendo:

"Se você me levar para um desses restaurantes de playboy riquinho de novo eu te mato, Otabek Altin."

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

Yuri estava satisfeito com o jantar que compartilhava com Otabek. Estavam em um restaurante simples na beira de uma rodovia, afastados do centro da cidade. O bailarino comia um sanduíche de filé com queijo, batata frita com mais queijo e milkshake de chocolate, enquanto Otabek comia um chesseburger com batatas fritas e refrigerante.

"Tem uma coisa que eu ainda não me conformo, Otabek." Yuri começou, engolindo um pedaço particularmente grande do sanduíche. "Você não bebe?"

O moreno olhou para o bailarino, surpreso.

"Não quando eu tenho que dirigir ou trabalhar." Ele respondeu, comendo mais batatas. "E você?"

"As dores de cabeça são horríveis. Eu trabalho amanhã." Yuri respondeu. "Mas eu quero saber mais sobre você, já que você sabe tudo sobre mim."

"Não é verdade." O moreno retrucou, divertido. "Eu não sei sua cor preferida, seus livros e essas coisas."

"Você sabe o que realmente importa, porra." O bailarino retrucou de forma significativa, apontando para o cazaque com uma batata frita quase murcha. "Acontece que eu não sei nada sobre você. E você ser cazaque não conta."

"Não tem muito para ser contado. Nada de extraordinário aconteceu na minha vida nesse sentido." O moreno disse, desconfortável.

"Já vai ficar de merdinha, Otabek? Puta merda, hein?" Yuri resmungou, chateado.

"Eu tive uma família comum, sabe? Pai e mãe super amorosos e apoiadores que tentaram desenvolver todas as minha habilidades ao máximo." O moreno falou, bebendo um gole longo de refrigerante e pedindo outro para a garçonete de meia-idade. "Essas coisas de..."

"Uma família cheia da grana, presumo." Yuri complementou pelo fotógrafo.

"É..." Altin respondeu, evasivo.

"Você não tá envergonhado por ter tido uma infância e adolescência decentes, não é? Porque se for, eu vou virar a mão na tua cara de playboy engomadinho." Yuri disse, cerrando os olhos de forma inquisidora.

Otabek parecia muito concentrado no sanduíche, sem rir de suas gracinhas. Yuri soube que tocara num ponto delicado para o moreno, mesmo que não entendesse exatamente o motivo de ele se comportar assim.

"Para de merdinha, porra. Assim você parece um mimado ingrato do caralho." Yuri resmungou, já soando mais preocupado do que divertido.

"Desculpe." Altin respondeu, sério e baixo, ainda encarando o sanduíche.

Yuri parou um pouco e tentou ser legal com Otabek, apesar de achar desnecessário ele ficar desconfortável por ter tido a infância que o bailarino não teve. Mas não lidaria com isso agora, não quando estava tentando conquistar o moreno para si. Respirou fundo e o encarou inquisidoramente, questionando de forma mais leve e divertida:

"Além do mais, você não tá me contando tudo. Hoje em dia você mora sozinho. Onde estão seus pais?"

"Ficaram no Cazaquistão. Eu saí aos 18 anos de casa." Ele falou de forma menos constrangida, como se tivesse entrado em uma zona de conforto de quem contou essa história antes e tinha tudo organizado na cabeça. "Quis viajar antes de fazer faculdade. Ganhei uma moto e uma câmera de fotografia, então resolvi sair por aí, viajando e fotografando o que eu via."

"Photobiker, huh?" Yuri perguntou, com a sobrancelha levantada, questionando o moreno de forma sarcástica.

"Parecia um bom nome para uma conta de Fotolog.net quando eu era adolescente, então manti para Instagram." Otabek deu de ombros, corado de vergonha. "Eu não esperava nada quando comecei tudo isso, só queria algo novo, diferente. Adrenalina, sabe?"

"E foi assim que você deu a volta na Europa inteira?" Yuri perguntou, recebendo uma olhada desconfiada de Altin. "O que foi? Você não me fala nada, então tenho que fuçar sua vida virtual. É o óbvio, não?"

"Wow..." Otabek respondeu, chocado. E acrescentou, ligeiramente divertido. "Parece que temos um Sherlock Holmes aqui!"

"Eu quero os detalhes, Otabek." Yuri disse, apontando com o catchup para ele. "Me dê os benditos detalhes!"

"Eu rodei a Europa a esmo durante um bom tempo. Em julho de 2011, eu fui parar, aleatoriamente em Oslo, na Noruega. Teve um ataque a bomba e eu estava no local, com a câmera na mão. Eu simplesmente comecei a bater fotos e registrar aquilo."

"Você podia ter morrido!" Yuri respondeu, chocado.

"Mas não morri. Um jornalista me viu batendo as fotos e pediu meus contatos. Foi quando eu vendi minhas primeiras fotos para a imprensa e comecei a fazer dinheiro com o meu hobby." O moreno falou, sem emoções.

"É por isso que as fotos creditadas a você são tão diferentes das que você posta no Instagram ou tinha no seu álbum do Photobucket.com." O loiro disse, pensativo.

"Você achou meu álbum do Photobucket?" Otabek perguntou, chocado. "Eu perdi a senha dessa conta e não lembro o email que usei para fazer o login. Nunca consegui botar meus álbuns em modo privado."

"Isso é o que acontece quando você usa Photobiker pra tudo, bobinho. Não precisa ser nenhuma Sherlock Holmes quando você facilita todo meu trabalho." Yuri respondeu, divertido. Mas seu semblante mudou e ele acrescentou: "Nessa época das suas primeiras fotos que você vendeu... Foi quando você decidiu se meter em zonas de guerra, fronteiras e onde mais houvesse desgraças e tristezas?"

Otabek olhou para Yuri, tentando entender o que ele tinha em mente com tudo aquilo. Não era a primeira vez que ele ouvia aquele tipo de julgamento sobre suas escolhas, embora o bailarino fizesse isso soar diferente. Mas nem por isso parecia melhor. Ele respondeu, apologético:

"Eu me enfiei nesses lugares onde tivessem coisas para serem vistas. E coisas que as pessoas precisassem ver."

Yuri parecia penalizado, fazendo o fotógrafo dizer:

"Não me faça essa cara. Eu precisava ver o mundo como ele é, assim como as pessoas através das minhas lentes. Esses locais me mostraram como as coisas podem ser duras, mas que podemos sobreviver. Mas para sua informação, eu tirava férias. Em novembro de 2015 eu estava em Paris a passeio..."

As sobrancelhas de Yuri se levantaram, chocados:

"Não brinca, cara. O atentado..."

"Sim, o atentado no Bataclã. Foi a primeira vez que eu pensei que talvez estivesse atraindo essas, como você diz, 'merdas’ para minha vida. Mesmo assim peguei minha câmera e fui para lá fazer a cobertura." Otabek respondeu, coçando o queixo.

"Aí você seguiu fazendo suas fotos e, finalmente, você ganhou o Pulitzer ano passado." Yuri falou, trocando de assunto.

"Eu estava no lugar certo na hora certa, Yuri. As guerras, os imigrantes, os soldados... Tudo. Eu estava no lugar certo e na hora certa." Altin disse, parecendo cansado.

A foto do close do rosto daquele soldado miserável não só na aparência, mas também na alma como denunciava seu olhar temeroso, em posição de sentido, chorando antes de entrar entrar na zona de guerra africana ainda o destruía por dentro. Aquela foi sua gota d’água e o motivo da sua mudança. Mas faria de tudo para desviar daquele assunto que era a sua ruína. Yuri pareceu notar isso, porque ele mudou o rumo da conversa:

"É o mesmo com as fotos do Photobiker?" O louro perguntou, interessado. "Essa parada de coincidência, digo."

"Não, não. Essas fotos eu caçava o ângulo correto, a luz perfeita, o enquadramento diferente e a beleza que está escondida em tudo que existe." O fotógrafo respondeu, suavizando a expressão. "Essas fotos me mantiveram são e me lembravam que para cada coisa ruim que acontece tem um lado bom que você ainda não viu."

Era doloroso para ele falar dos assuntos em questão. O desconforto era evidente.Mas Yuri sorriu ao ver que ele não parecia tão mal naquele momento em que falava das fotos do Photobiker. Sem pensar muito, tocou na mão do moreno que estava em cima da mesa e acariciou-a com o polegar.

"Quem está de merdinha agora, hein, Yuri Plisetsky?!" Otabek perguntou por impulso, com um sorrisinho maroto e um olhar penetrante, embora corasse pelo ato de carinho e o apreciasse bastante.

Yuri enrubesceu e tentou quebrar o contato físico, mas Altin virou a palma para cima e agarrou a mão do bailarino com habilidade e gentileza, correspondendo ao carinho, enquanto sorria discretamente e agora sem malícia, com o rosto apoiado na outra mão.

'Mas que se foda se eu tô de merdinha ou não. Isso tudo é muito bom.' Yuri respondeu para si mesmo em pensamento, corando, sorrindo abertamente para o moreno, sendo mais carinhoso ainda e pouco contido com a carícia que fazia na mão do cazaque.

"Você é foda, cara." Yuri disse em algum momento do silêncio confortável que se instalou entre eles, ouvindo um agradecimento tímido do fotógrafo e voltando a si pelo elogio que fez de forma impulsiva. "E eu não digo isso para qualquer um."

"Imagino que sim." Otabek respondeu, um sorrisinho de canto deixando a expressão charmosa. "Vamos? Está tarde. Presumo que trabalhe amanhã."

Mesmo infeliz por desfazer o toque e o clima, Yuri sorriu e assentiu, sendo grato pelo carinho e o cuidado do fotógrafo.

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

Yuri passou a semana inteira pensando em Otabek. Lembrava como se questionava se deveria mandar ou não uma mensagem casual depois do jantar, mas resolveu que não queria parecer afobado. Também não mandou mensagem de bom dia, embora quisesse. Mas lá pelas dez e tantas, viu a mensagem de bom dia de Otabek perguntando se ele dormiu bem e corou. Desde então mantinha conversas casuais com Otabek Altin.

"Tudo certo para amanhã?" Yuri perguntou por mensagem, referindo-se ao ensaio.

"Claro. Descanse bem." Otabek respondeu.

"Vai me deixar ouvir a música de amanhã agora? :)" O loiro respondeu, tentando alongar a conversa.

"Você sabe que não. haha" O cazaque respondeu. "Dorme bem, Yuri."

"Você já vai dormir?" O loiro perguntou, curioso.

"Tenho um prazo quase atrasado, mas vai dar tudo certo. Virado eu não vou." O fotógrafo respondeu.

"Acho bom. Seu humor é péssimo quando você tá mal dormido! U_U" O bailarino retrucou pelo simples prazer de provocar.

"Ei! Doeu! haha" O moreno reclamou, mas Yuri sabia que não falava a sério.

"Boa noite, Otabek. Sonhe com as fadas." O bailarino mandou, provocativo.

Do outro lado da tela, Altin sorriu ao ler a mensagem, enquanto bebia café. Sonharia com uma fada selvagem em específico, disso ele tinha certeza.

"Pode contar com isso. Boa noite, Yuri. Durma bem."

Notas finais
Nihao, pessoas. Espero que tenham se divertido e gostado do capítulo tanto quanto eu gostei de escreve-lo. Geralmente eu prefiro fornecer esse tipo de informação no corpo do texto, mas não lembro de tê-lo feito. A fic está sendo escrita como se hoje Otabek Altin tivesse 24 anos, o que faz Yuri ter 20 ou 21, não lembro. Algo por aí. Isso tudo pra poder encaixar a cronologia, os fatos que eles usaram e também as ferramentas e redes sociais de antigamente. Tudo aquilo que muitos leitores que tem lá pelos seus 15 ou 16 anos não vão nem saber que existiram, porque quando a tia aqui chegou na internet ERA TUDO MATO. hahahahahaha [Sim, eu tenho 20 e alguma coisa de idade.] A foto que Otabek descreveu como ganhadora do Pulitzer não existe do jeitinho que está lá no texto. Mas a foto que me inspirou a escrever as coisas daquele jeito, sim: http://www.pulitzer.org/cms/sites/default/files/styles/image_slider/public/2009haiti10.jpg Essa coleção de fotos ganhou um Pulitzer em 2009 e é do fotógrafo Patrick Farrel. Retrata a tragédia natural que ocorreu no Haiti. Galeria completa aqui: http://www.pulitzer.org/winners/patrick-farrell A história conta, até agora, com 9 capítulos e deve ganhar mais 2, no máximo 3. Então paciência comigo, pessoas, ainda tem algum chão pela frente. hahahah Como sempre, a caixa de comentários é serventia da casa. Está aberta a gritos, críticas, sugestões, comentários aleatórios, berros e o que mais seu coração mandar. Favoritos são agradecidos por antecedência, porque não há muito o que fazer sobre isso depois que a coisa já está feita, então grata por favoritarem e comentarem Closer. hahahaha Estou com a ridícula impressão de que falta algo. Mas se eu lembrar, edito. Se eu não lembrar e restar dúvidas, perguntem. E é isso. Até a próxima. o/