Clockwork Souls
8 Capítulo 8
– Me desculpe, você pode repetir essa última parte novamente? – Erik levantou os olhos para a mulher, eles estavam em uma pequena sala dentro do bar onde Loth havia sido morto. Ela era a terceira pessoa a ser entrevistada, Erik não deixaria essa morte extremamente suspeita passar despercebida, pelo menos não dessa vez. As pessoas haviam se assustado quando ele exigiu uma averiguação, aparentemente, ninguém dava a menor importância para os homicídios que ali ocorriam, quando perguntou o motivo, riram para ele e o perguntaram se gostaria de ser o último policial honesto, Erik não precisou responder para que soubessem que a resposta era um sonoro não. Honestamente, Capitão Tunke não podia esperar para voltar a exercer sua desonesta função no exército.
– Sobre a bebida? Acredito que fosse cerveja senhor, já disse. Não prestei atenção quando ele a derrubou no chão. Foi horrível, isso é tudo que posso dizer. Me afastei quando ele começou a se engasgar, fui trazer água. Quando voltei só pude assistir de longe enquanto tentavam aquela manobra estranha em seu peito.
Erik suspirou massageando seu osso nasal. Havia sido igual com os outros entrevistados, ninguém sabia de nada, contavam que havia sido horrível, que tudo ocorreu muito rápido, mas pouco diziam sobre as conexões de Loth ou quem de suspeito aparecera no bar aquela noite. Tunke almejava conseguir maiores informações com o filho do sujeito, mas havia permitido que ele tivesse alguns momentos para seu luto; "de toda forma, já não posso esperar mais", decidira. Ele se levantou e dispensou a mulher com quem falava. No momento seguinte se viu perguntando às poucas pessoas do bar aonde Pierre havia ido, o informaram que ele fora à funerária e que não o haviam visto desde então. Erik forçou-se a ir no local indicado, mas não encontrara nem sinal de Pierre. O capitão voltou-se ao hábito com o qual se acostumara nos últimos dias: sair perguntando.
Já passava do meio-dia e não tinha nenhuma resposta. Seus pés batiam pesadamente no chão demonstrando sua ira. Erik já se aproximava novamente do bar de Loth quando avistou uma figura conhecida: era Nico, o braço reluzindo sob o sol. O capitão apoiou-se sorrateiramente ao lado da parede do estabelecimento para ter uma melhor visão do rapaz, ele não estava sozinho. Uma outra figura masculina estava à sua frente, Erik deduziu que eles tinham idades próximas, o rapaz tinha cabelos castanho avermelhados e um estranho óculos com lupas e lentes de aumento acomodado sobre a aba de seu curto chapéu. Quando Tunke voltou a olhar para Nico, surpreendeu-se com o que não tinha notado antes: o loiro chorava, o rapaz desconhecido parecia tentar consolá-lo e em dado momento chegou mesmo a abraçá-lo, todavia Nico parecia nervoso, falava acima de seu tom afável normal e embora o local onde Erik estivivesse não permitisse que nada fosse ouvido além de murmúrios indecifráveis, ele foi capaz de escutar as palavras "irmão" e "morto".
Erik deu alguns passos para tentar ouvir a conversa quando tropeçou em algo; o Capitão virou-se para olhar o que havia sido seu obstáculo e observou um gato, ele tinha uma pata mecânica, brilhantes pêlos amarelados e não parecia feliz em ter sido atropelado. Erik abaixou-se para examiná-lo e repentinamente o animal pulou em sua face conseguindo provocar um leve arranhão em seu pescoço antes que Erik conseguisse derrubá-lo.
– O que pensa que está fazendo? – O Capitão girou sobre si mesmo e deu de cara com a figura desconhecida que observava momentos antes. O rapaz abaixou-se permitindo que a visão de Nico se tornasse clara, o loiro secava o rosto com a mão humana e tinha os olhos vermelhos, quando o estranho retomou a compostura segurava o gato em seu colo.
– Erik? – Nico deu um passo para o lado, – O que houve?
– Ora, isso é justamente o que vim perguntar à vocês. – Erik descartou a possibilidade de perguntar à Nico se o outro rapaz o estava importunando após o que testemunhara antes, o menino agora checava o gato em seus braços como se procurasse por ferimentos.
– N-Nada... Digo... Esse é Timothy, – Nico apontou para o garoto ao seu lado, – esse é Tobias. – ele apontou para o gato.
– O que há de errado, por que estava chorando? – Nico retraiu-se, Timothy colocou o gato no chão e cruzou os braços sustentando-se como uma muralha entre Erik e Nico.
– Acho... Acho que... – ele tomou fôlego; o seu pássaro mecânico saiu de trás de seu chapéu, piou. Quando Erik voltou a atenção para Nico após a pausa, ele percebeu um olhar segredativo sendo trocado com o outro rapaz.
– Loth. – Tim interviu e Tunke compreendeu rapidamente.
– Oh... Vocês eram próximos? – sua visão sobre Nico mudou de um instante para o outro, agora o loiro parecia poder ser o poço de informações que Erik tanto procurava. – Meus pêsames.
– Acho que p-pode-se dizer que éramos. – Nico concluiu.
– Permita que eu pague um café para vocês, pela tragédia. – Erik sugeriu, mais uma troca de olhares entre os rapazes.
– Tudo bem.
***
Eles entraram em um estabelecimento qualquer, haviam quadros nas paredes e pequenas gravuras de flores robóticas nos tecidos das mesas. Nada disso era indelével para Erik além de Nico, entretanto. Quando o café foi finalmente servido o capitão começou seus circunlóquios como quem nada quisesse:
– Sabem, estou promovendo uma investigação sobre a morte de Loth. – soltou, o que atraiu a atenção de ambos.
– É mesmo? – perguntou Tim, – O que descobriu até agora?
– Para falar a verdade, não muito. Esperava que vocês pudessem me ajudar já que Nico era próximo à ele. – os meninos trocaram olhares novamente, pareciam ter um dialeto particular, como se não precisassem de palavras. Aquele abuso de miradas estava chegando aos nervos de Erik, pareciam uma piada interna, de repente o Capitão se viu suspeitando de Nico e seu misterioso comparsa. – O que? Viram algo? Estavam aqui ontem?
– Eu... estava, – disse Nico. – mas não vi nada. Não soube de nada até ontem à noite.
– Você estava mas não viu nada?
– Nós moramos em Sollaria. Vimos aqui só para mantimentos e materiais.
Erik ergueu as sombrancelhas.
– Bem, essa informação não explica nada. Na verdade, só levanta suspeitas. Por que estava aqui se mora na montanha?
– Pedi a ele que comprasse materiais – Tim interviu, veloz.
– Na hora do incidente?
– Eu aproveitei para jantar.
– O que sabe sobre Loth?
Nico tomou fôlego, parecia à beira de um colapso, além de ter muito o que esconder. Tim parecia estar perdendo a paciência.
– Não acha que é um tanto indelicado interrogar alguém que acabou de perder um próximo? – o olhar do moreno era ardiloso, ele cruzou os braços sobre a mesa.
Erik levou o café aos lábios e tomou um longo gole pensando em sua resposta.
– Acho que é válido confirmar se o tal próximo foi realmente perdido despropositadamente.
Nico, que olhava para o café à sua frente, ergueu os olhos, Tim fez de suas sombrancelhas uma linha contínua e balançou a cabeça negativamente antes de prorromper:
– Pelo amor! Você deve estar louco. Olhe para ele. Nico não seria capaz de matar uma abelha. – as mãos que estavam na mesa fecharam-se em um punho, – Disse que está investigando por aqui, não é? Se tivesse algum juízo já teria obtido alguma informação.
– Controle seu cachorro, Nico. – Erik suspirou voltando a olhar para Nico que nada disse. Tim, todavia, pareceu tomar consciência de si e relaxou olhando para o pássaro que voava acima do amigo.
– O que quero dizer é que está ignorando suspeitos óbvios. Como o povo do salgueiro.
– Acha que o povo do salgueiro está promovendo atentados? – Erik parecia incrédulo.
– Bem... Eles já tiveram problemas comigo, consigo imaginá-los vindo atrás de meu pa... Próximo. – Nico disse, entrando sem veemência na conversa, seus olhos já não estavam vermelhos.
– E também faz sentido ao que tem a ver com o rei, não que isso tenha a ver contigo, – Erik teve a impressão de que Tim piscou para ele. – mas devido a guerra e tudo mais.
– Acham que o povo do salgueiro é responsável por isso tudo? – O Capitão odiava admitir mas tudo começava a se encaixar em sua mente.
– Dizem que nem todos os decendentes são intoxicados por aço. – Tim concluiu, parecendo imerso em problemas particulares.
– Como Amélia. – Nico acrescentou.
O Capitão olhou para o líquido escuro em sua xícara, o povo do salgueiro e o povo da indústria eram rivais desde que Erik entrara em sua fraldas, ele havia visto a guerra, ele havia testemunhado tudo e agora sentia-se um pouco retrógrado em não ter levado essas questões à fundo. A verdade era que temia levá-las, todos sabiam que Salgueiro era um pequeno mundo à parte dentro de Campelle, ninguém falava sobre eles ou apresentava interesse, ninguém queria relações com eles ou adicionava a região em seu roteiro de viagens. Para ser honesto, Salgueiro era uma região óbvia ao que se pensa suspeito, e Erik havia pensado nela se a ideia de ir para Planalto da Névoa, ainda que terrível, não tivesse parecido mais confortável, mais conhecida. De qualquer maneira, ele ansiava pelo fim daquela jornada e encontrar o responsável pelos atentados era seu único objetivo agora, se tivesse que ir até Salgueiro para encontrá-lo, nada podia fazer. A ideia de que um sujeito comum de Planalto, um ninguém, Loth, havia sofrido da mesma agressão que seu rei, Cornelius, sofrera, o causava um arrepio na espinha. O assassino parecia ilógico, e era impossível não ligar falta de sentido à forma que o resto do mundo enxergava o povo de Salgueiro. Erik terminou o café em um gole e encarou os rapazes.
– Será que podem me levar à essa Amélia?
Eles pareceram surpresos.
– O que está pensando? Em ir para Salgueiro? – os olhos cor de mel de Tim continham um interesse acusador, quase pecaminoso.
– Sim. – Erik respondeu simplesmente.
Fez-se uma pausa em silêncio e estática.
– Posso ir com você? Assim pode checar se tenho hábitos de assassino – Nico perguntou, cauteloso.
– Melhor: – Tim interviu, colocando uma mão sobre o ombro de Nico e torcendo os lábios em um meio-sorriso – só lhe apresentamos a moça se nos levar com você.
Erik revirou os olhos; assentiu.
***
Erik esperava ao lado de fora do café onde estavam. Nico disse ter algo a resolver e chamou Tim à um canto, eles conversavam casualmente, de maneira automática ainda que Nico parecesse um tanto nervoso, Erik concluiu que deviam ser amigos de longa data. O gato de Tim sentava sobre as patas traseiras ao seu lado esquerdo, Nico conversava com Tim ao lado direito e só agora o Capitão notava a semelhança entre os dois, loiros à princípio, o braço mecânico em notoriedade, até os olhos azuis ambos os indivíduos compartilhavam. Erik soltou um riso nasal à própria observação, mas então ponderou se Nico era tal qual o gato na personalidade e se, como antes, parecesse inofensivo até partir para um ataque desprevenido. Concluiu que muitas criaturas eram assim, principalmente naquela província. Perdoou o gato.
– Podemos? – Tim perguntou ao se reaproximar.
– Aonde Nico vai?
– Nico? Imagino que matar outros donos de bar, sabe como são os assassinos – Tim riu, começando a andar. Erik reprovou o sarcasmo. – Ele vai visitar um mecânico, está na hora de fazer a manutenção em seu braço, antes da viagem, mas tenho que te guiar afinal.
– Sabe qual é a origem do tal braço?
– Ah... Sim. Sou eu.
Erik assustou-se.
– Você o aleijou?
Tim o encarou como se tivesse ouvido a pior piada existente.
– Não... Eu o fiz a prótese.
– Ah, certo. – passou-se um instante até que Erik se incomodasse com o silêncio mal utilizado. – Por que querem ir para Salgueiro?
– Temos questões mal resolvidas com aquele povo. – Timothy olhou para Erik parecendo o examinar – Tem muita sorte de que Nico queira ir, sabia? Ele sabe a língua deles. Não acho que Amelia saiba.
Erik permaneceu calado por alguns instantes, sentindo que finalmente tinha um norte em sua bússola, mesmo que não soubesse o endereço do lugar para aone caminhavam naquele instante. O Capitão olhou para trás e percebeu que Tobias caminhava silenciosamente atrás de Tim como um fantasma, quando aprimorou o olhar notou que ele carregava um pássaro morto em sua mandíbula, um pássaro inteiramente orgânico, natural, uma profecia para o povo do salgueiro. Um calafrio percorreu sua espinha, Erik apertou o passo.
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