Clockwork Souls
7 Capítulo 7
O sol estava nascendo quando A Bela Viúva atracou no Porto das Caravelas, o céu era de um tom cinzento e a neblina sobre a água parecia estar tentando devorar a nau. Empoleirada na proa Ani contemplava Campelle com olhos atentos, comparando o que via naquele momento com as imagens que tinha em sua memória. A muitos anos atrás ela havia fugido acreditando que não voltaria a colocar os pés naquele lugar, mas o destino nunca havia seguido suas vontades, esse era o jeito das coisas e como o mundo funcionava e tudo o que ela fazia era tentar achar seu próprio ritmo nesse fluxo incerto.
– Senhorita Janille? Nós já terminamos de descarregar sua bagagem.
– Obrigada Capitão, então é aqui que nos despedimos. – Ela ofereceu sua mão para um aperto amigável e foi surpreendida pelo abraço desajeitado do velho Capitão.
– Tome cuidado senhorita, espero que você encontre aquilo que procura em sua jornada. – E com um sussurro adicionou – Que Yby te acompanhe.
Ani tentou esconder sua expressão surpresa ao ouvir o nome do antigo deus do Povo Salgueiro, mas o Capitão percebeu e assentiu silenciosamente, seu olhar era firme e parecia esconder muitos segredos.
– Eu, hã, obrigada Capitão, espero que sua viagem de volta ao velho continente seja segura.
Ela não se demorou mais e seguiu em direção a tábua de desembarque, a neblina cobria tudo e ela não conseguia enxergar os próprios pés quando pisou em terra firme.
– Adeus senhorita Janille. – A voz do Capitão ecoou através da névoa.
O porto ainda estava deserto a não ser por um grupo de homens que se aproximava da embarcação, ela não queria perder tempo e tratou de ocupar-se com a bagagem empilhando-as num carrinho de madeira, não sabia como conseguiria condução até o vilarejo, mas estava animada. Pelo canto de olho ela percebeu que o grupo de homens havia subido a bordo da embarcação e quando se virou para dar um último adeus ao comandante foi surpreendida por uma figura mascarada parada diante da tábua de embarcação.
– Acho melhor você dar o fora daqui garota. – A figura sacou duas adagas de seu cinto tentando intimidá-la.
Um sorriso se formou no canto dos lábios de Ani.
– Tsc... Tsc... – Ela balançou a cabeça negativamente. – Pessoa errada.
Era sempre assim, subestimada por ser uma garota de porte pequeno, ela aproveitou-se da postura descuidada de seu adversário e avançou desferindo um golpe em seu tórax, a figura cambaleou para trás e Ani não perdeu tempo, chutou para longe uma de suas adagas.
A figura era ágil e conseguiu recuperar-se a tempo de evitar o próximo chute desferido pela garota.
– Parece que você não é só uma nobre do velho continente, huh?
– Parece que você é só um ladrãozinho desavisado mexendo com a pessoa errada.
A garota lançou um soco mirando em seu flanco esquerdo, mas a figura desviou e a acertou de volta com um chute no torso.
– Que língua atrevida.
Ela avançou novamente dessa vez tentando uma rasteira em seu oponente, mas ele desviou com um salto para trás.
– Minha vez.
Ani não pode deixar de perceber que por baixo da máscara um sorriso havia se formado no rosto de seu oponente.
Ele avançou e com um giro desferiu um golpe na coxa de sua adversária pegando-a desprevenida, além de alto ele também era ágil. Ani manteve distância por alguns segundos, sua cabeça pendeu para o lado como se estivesse olhando para algum tipo de criatura exótica.
Então ele atacou novamente, mas dessa vez ela bloqueou o golpe com o braço esquerdo e com o cotovelo direito atingiu a base do externo dele, a luta seguiu-se assim por mais alguns minutos, a garota parecia prever os ataques do seu adversário um segundo antes de acontecerem.
– Quem é você?
– Estou dispensando apresentações no momento.
Naquele instante o restante do grupo de ladrões desceu pela rampa carregando várias sacolas e engradados.
– Chefe, vamos! – Um par de garotos idênticos chamou pela figura mascarada.
– Bom foi ótimo passar um tempo com uma jovem tão... – Ele a olhou dos pés à cabeça – Encantadora.
– Aonde você pensa que vai...
Ela avançou uma última vez em direção ao homem, que correu para longe junto do bando. Antes de desaparecer completamente na neblina ele descobriu parcialmente seu rosto e lançou um olhar curioso na direção de Ani que o encarou de volta com a mesma curiosidade.
– Até mais, ladrãozinho. – Ela disse de maneira debochada.
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