Cinderella

9 O plano do imperador é absoluto


Momoi olhava atentamente para Akashi, que permanecia em silêncio ignorando mais uma das brigas sem noção entre Kise e Aomine.

Desde que o ruivo chegara no colégio, este não havia dito uma palavra. Sequer havia falado com Kuroko, não interferira nas ideias loucas que surgiram no grupo, e parecia que estava em outro universo quando deveria estudar no horário que o professor faltou, rabiscando coisas no caderno e, hora ou outra, fechava a cara logo depois sorria de uma maneira um pouco estranha e maléfica.

Eles nem se aproximavam quando isso acontecia.

Quando o sinal do intervalo tocou, tirando do fundo da alma a coragem necessária, a rosada aproximou do ruivo ainda distraído acompanhada de Tetsuya, claro. Caso algo desse errado, ao menos teria uma testemunha no local.

Parando em frente a mesa, conseguiu ver o que Seijuro fazia no caderno. Um desenho retangular na vertical que, pelos números ao lado, media exatamente a altura da janela de seu quarto para o chão do jardim, a medida que ela tinha o mandado no dia anterior. E algumas coisas escritas com aquela letra perfeitamente feita envolvendo seus nomes.

— Akashi-kun…?- o chamou.

Os olhos heterocromáticos por uma questão de segundos alargaram, talvez tivesse o assustado, logo voltando ao normal e deixando a folha, vendo Satsuki e Tetsuya.

— Sim?- sua voz estava até rouca de tanto tempo sem falar, não que ele falasse muito igual a Ryota.

Atsushi entrou na sala de aula com uma sacola em mãos, e andando na direção do trio, entregou-a para Kuroko.

O azulado tirou de dentro uma garrafa d’água e ofereceu para o ruivo. — Está quase sem voz.- comentou enquanto via Akashi beber a água.- Melhor?- perguntou e o garoto de olhos heterocromáticos assentiu.

— Sim, obrigado.- pegou a borda da folha em que estava anotando e puxou, arrancando-a do caderno. — Poderia chamar todos aqui, Satsuki?- assim que pediu, a rosada confirmou e saiu correndo para o outro lado da sala, parando a discussão do moreno e o loiro e os arrastando para a mesa do ruivo, com Midorima andando ao seu lado.

Quando voltaram, levantando do lugar, Akashi olhou para o grupo e começou a falar.

— Era pra essa peça ser algo simples de se fazer.- começou.- Mas tivemos alguns muitos problemas, como o acidente da escada, que quase rendeu uma suspensão para os responsáveis.- dirigiu o olhar para Daiki, vendo este cruzar os braços virar o rosto. — O cenário.- continuou citando os desastres e Kise engasgou com a própria saliva, a cor de seu rosto fugiu. — E agora o castigo que Satsuki nos fez o favor de ganhar.

— Eu não fiz por querer! Juro!

— Mas já está feito, e a menos que possa voltar no tempo e impedir isso, coisa que tenho certeza que não pode, não considerarei isso.- a interrompeu de falar e Momoi apenas se calou. Assim que percebeu que havia todos voltado a prestar atenção, voltou a falar. — Eu poderia falar com os pais dela, porém não importa o que eu dissesse, eles não deixariam.

— Aka-chin não conseguiria?- erguendo uma sobrancelha Murasakibara repetiu resumidamente o que ouvira.

— Talvez sim, mas seriam baixas as possibilidades.- antes mesmo que a ideia de que o ruivo não seria capaz de algo passasse pela mente dos outros, Tetsuya explicou. — Não se trata de um trabalho avaliativo, então eles não concordariam.

— Não tem como falar que é um?- Midorima sugeriu enquanto limpava os óculos manchados, atraindo o olhar de Momoi.

Suspirando exasperadamente, a rosada colocou as mãos no rosto. — Eu não pensei nisso! Ela já sabe que não é. E mesmo que fosse, ou ela ou meu pai viriam aqui para confirmar.

— Esperava isso de Ryota ou Daiki, mas não de você.- Akashi cruzou os braços e sorriu sacana. — Shintarou, mentir é feio, não é mesmo Ryota?

Puxando o ombro do moreno, que reclamou tanto pela fala de Seijuro quanto pela força usada por Kise, o loiro se aproximou de sua orelha – Ele está mandando indireta pra mim? — perguntou sussurrando.

— Sim.- Aomine respondeu seco, o afastando e indo para o lado de Kuroko.

Kise olhou para o às, chocado. — Como é que é? Kurokocchi, eu menti?- o azulado negou com a cabeça. — Viu só? Não!

— Kise-kun, você omitiu algo do Akashi-kun, isso é pior que mentir.

— Isso é cruel, Kurokocchi! Eu não menti nem omiti, apenas não contei.- começou com o drama.- Nós nos esforçamos tanto, me sentiria mal se vocês se sentissem mal por causa disso! Então não contei para não se magoarem.

Devolvendo os óculos ao rosto, Midorima olhou para o loiro. — Sabe o significado de ‘omitir’?

— Bem!- Seijuro bateu palmas para a atenção retornar para si e continuou. — Não podemos voltar e mudar isso, e ninguém vai morrer. — Ryota suspirou aliviado. — Ainda.

— Então o que faremos?- Aomine puxou uma cadeira e se jogou, sentando de qualquer maneira. — Cancelar?

— Claro que não. Pode ser loucura, mas Satsuki vai sim participar dessa peça.- o garoto de olhos heterocromáticos afirmou.

— Videochamada?- Atsushi que permanecia quieto, comendo mais um de seus doces, sugeriu.

— Não. Vamos sequestrar ela.

Levantando a mão, a rosada se pronunciou. — Eu voto na ideia do Mukkun!

— Já pensei num plano para isso,- ignorou a garota.- mas vamos apenas precisar que seus pais estejam fora de casa esse sábado. Consegue fazer isso?- Momoi assentiu. — Ótimo, até lá ensaie as frases e gestos direito, não quero que o risco de errar no momento seja maior que tudo.

— Espera, vamos sequestrar mesmo ela? Akashi, está louco? Se descobrirem vai dar um monte de coisa errado!- esquecendo com quem falava, Daiki levantou o tom de voz.

— Nada de errado acontecerá.

— Como pode ter certeza!?

— Vocês não estarão lá na hora, — se dirigiu ao moreno e ao loiro. — e é um plano meu. Meus planos são absolutos.

O grupo silenciou, apenas ouvindo o som de outras conversas, provavelmente direcionadas a eles.

~.~.~

Conseguiu fazer com que eles saiam?

Sábado, no dia da peça, de manhã Akashi ligou para Momoi. Acordando cedo para se preparar para o grande evento da noite, a rosada providenciou tudo necessário para o plano, que já tinha até ganho nome.

O grande sequestro de Rapunzel do segundo andar de uma casa.

Este fornecido por Kise, ou simplesmente OGRSAUC, usando as inicias das palavras sem contar com os ‘de’ e ‘do’. Exagerado e inútil, e a equipe de sequestro não ia usar.

A ES, novamente as siglas desnecessárias para ‘equipe de sequestro’, após muito tempo de briga chegou a ser escolhida a dedo por Akashi. O ruivo, Aomine e Murasakibara ajudariam a rosada fugir de casa pela janela.

— Minha avó acabou me ajudando, ela prometeu não contar nada desde que eu grave a apresentação.- enquanto guardava as roupas numa mochila, Momoi respondeu ao telefone.

Algo simples, a irmã de Shintarou estará presente e vai fazer isso. Aonde ela vai levá-los?

— Visitar meu avô na cidade ao lado, essa tarde eles saem. Na verdade eles vão passar o fim de semana lá, mas amanhã minha tia vai me buscar aqui.

Bom avisar. Sobre pular a janela, Atsushi vai ajudar com isso, mas use uma corda para ter certeza total de sua segurança. Jogue a mochila para Daiki, e quanto antes estiver esperando melhor. Entendeu?

— Sim, senhor!- fez uma reverência para o nada a sua frente. Ouviu passos nas escadas e jogou a mochila em baixo da cama até encostar na parede, a cor preta se camuflando na escuridão. — Tenho que desligar, daqui a pouco ligo de volta.- e desligou.

Bateram à porta, a voz do pai da rosada avisando sua entrada no cômodo. Rapidamente, Momoi se posicionou em frente ao computador, a tela com algumas atividades do colégio e a escrivaninha com papéis e cadernos com cálculos.

— O que está aprontando?- o homem entrou e olhou pra filha.

Satsuki se fez de desentendida, tombando a cabeça e o olhando com dúvida. — Eu acho que não entendi.

— Fui na secretaria do seu colégio ontem. Tinha um cartaz de um evento de teatro lá, e embaixo os nomes das peças.

— Sério?- amaldiçoou o grupo de artes que fazia esses cartazes mentalmente, ainda encarando o pai.

— Cinderela não é seu conto de fadas favorito? Vai ser a princesa?

Satsuki voltou o rosto para as folhas. — Vou ser o príncipe.- sussurrou um pouco decepcionada.

— Então admite que vai participar?

— Ia. Mama me deixou de castigo, lembrado?

— A escutei dizendo que vai ser. Estou errado?- com um jogo simples de palavras ele a pegou, e a reação somente confirmou o que ele já tinha dito. — Concordo com sua mãe em relação ao castigo, e não aprovo que fuja de casa.- se posicionou em relação a tudo que suspeitava. — Mas não tenho moral para dizer isso quando eu fugia de casa para sair com meus amigos quando jovem. Não contarei nada pra sua mãe, não se preocupe.

— Como você…?

— Pode parecer que eu não sei, mas sei.- Momoi ainda o olhava, sem reação. — Brincadeira, ouvi você no celular e juntei algumas partes. Vão gravar certo?- a rosada assentiu. — Se minha mãe ganha uma cópia, também quero ver. Sobe naquele palco e mostre que você quase quebrou aquela tiara com motivo.

— Não era sem motivo…

— Tenho certeza que não.- e saiu do quarto.

Satsuki largou o lápis e andou até a cama, se jogando nela e pegando o celular. Discou o número do ruivo e esperou que ele atendesse, coisa que não demorou.

— Está tudo pronto?

— Sim, não se preocupe.- e agiu como se nada tivesse acontecido. Seu pai sabia e ia colaborar mantendo a boca calada, não tinha com o que se preocupar.