Cinderella

10 O grande sequestro de Rapunzel do segundo andar de uma casa


Quando o casal entrou no veículo e deu a partida, a rosada se despediu, balançando a mão até ver o carro virar a esquina.

O sol já dava adeus a grande cidade. Terminando de conferir se estava tudo na mochila, Momoi ouviu o celular tocar em cima da cama, logo depois pedrinhas começaram a ser jogadas em sua janela. Aproximando-se da mesma, conseguiu ver a equipe de resgate já a postos, Daiki se preparava para tacar mais uma pedra, dessa vez maior e com uma cara que não tinha boas intenções.

— Dai-chan! Quer quebrar por acaso?- Satsuki chamou a atenção, sendo ignorada pelo moreno. Akashi segurou o braço do maior, que o olhou irritado, e o repreendeu com os olhos.

Murasakibara olhava com puro tédio para o telefone enquanto digitava algo, e novamente mais e mais mensagens foram chegando no celular da rosada.

Os amigos estavam mais adiantados do que deviam, era para terem chegado um pouco mais tarde, já de noite. Se notasse as roupas que os mesmos usavam, esse deveria ser o plano mesmo; blusas de manga, calças de moletom, toucas e até luvas pretas para se disfarçarem na escuridão da noite. Sem dúvida alguma deveria ter sido ideia de Kise.

— A mochila.- erguendo o olhar, Seijuro a lembrou. Afastando-se da janela, a rosada pegou a ‘pequena’ mala que havia feito, dentro os vestidos dos garotos, sua própria fantasia, o roteiro com as falas grifadas em cores diferentes – cada uma representando um membro da geração dos milagres – e por fim a tiara pro fim da peça. Seu pai havia liberado, com a condição que esta ficasse em total segurança com Akashi ou Kuroko, os únicos responsáveis de verdade do grupo. Com o máximo de cuidado possível, apoiou-se na janela e segurando a alça da mochila, a deu para Atsushi. O arroxeado a colocou ao lado do ruivo e voltou para perto da parede, olhando pra cima.

— Isso vai ser difícil.- afirmou, já se arrependendo de quando aceitou participar sem pensar direito.

~.~.~

Ao mesmo tempo que o OGRSAUC estava em andamento, Kuroko, junto de Kise e Shintarou, preparava o cenário no colégio.

Os passos do azulado que andava no palco ecoavam no auditório, o barulho parando quando chegou ao centro. Alguns alunos arrumavam o lugar para receber os convidados que assistiriam as peças feitas, já conhecidas como a sua ou criadas. Segundo o que tinha ouvido enquanto passava despercebido – não intencionalmente – pela secretária do colégio, o evento seria uma maneira de motivar os alunos em suas carreiras profissionais, principalmente aos que pertenciam clube de teatro.

Cada estudante havia ganhado convites para dar a quem desejavam que visse, Tetsuya por sinal havia dados os seus para seus pais e avó, e alguns como Momoi e Seijuro os venderam. O espetáculo lotaria, afinal não era pouca gente que participaria.

De repente, se sentiu tonto. Já fazia tempo desde que subiu no palco e se apresentou para alguém, muito tempo. A última vez deve ter sido antes mesmo de conhecer os amigos, bem como Kise havia dito, durante a época que ele fazia teatro.

Somente a ideia de ter todos os olhares voltados para si já o fazia querer sair correndo dali. Não tinha pensado nisso quando quis ser a Cinderela.

— Kurokocchi?- sentiu Kise cutucando seu ombro, o tirando de seus pensamentos. — Está tudo bem?- olhou o maior de cima a baixo. O loiro já estava de peruca e maquiado, de uma maneira nada discreta.

— Sim, estou.- piscou e olhou pra trás, notando que Shintarou estava igual ao copista. As irmãs da Cinderella eram exageradas – isso combinava com a personalidade de ambos –, mas sem a fantasia o azulado já se controlava ao máximo para não rir, quando entrassem no palco então…

— Vem, vamos te maquiar.- o azulado arregalou o olho. — O que? Espera se apresentar desse jeito? Nananinanão, anda, vou mostrar as habilidades que ganhei convivendo com três mulheres na mesma casa.- e Ryota o puxo para fora do palco, ainda falando sobre suas habilidades.

Enquanto era arrastado, Kuroko riu minimamente. A sensação de pânico que estava sentindo havia passado.

~.~.~

— Ei, ei, ei! Cuidado ai!

Era uma situação um pouco, não, muito cômica.

Qualquer carro que passasse na rua diminuía a velocidade e olhava pros três adolescentes. Claro, porque não o faria, sendo que dois deles com mais de um metro e oitenta vestidos de preto tentavam se equilibrar numa parede enquanto uma garota apenas olhava e ria das muitas falhas deles.

Assim, esses desavisados nem imaginavam que o grandioso OGRSAUC estava em andamento, em sua última parte por sinal.

De longe, Akashi apenas olhava com tédio pra cena em sua frente, apesar do celular em mãos gravando com o flash ligado destruir toda sua face de sério. Não era A cara de homem de negócios, era a Cara de responsável do grupo, foi o que Momoi notou enquanto fazia a mesma coisa que o ruivo: gravar as falhas idiotas dos amigos.

Por outro lado, Daiki e Murasakibara eram os que menos se divertiam. Em algum momento, passou na cabeça da rosada que eles poderiam a ajudar a descer tipo uma escada, e lá estava o moreno, tentando subir nos ombros do arroxeado.

— Mine-chin, vou te jogar no chão se puxar meu cabelo de novo.- Atsushi ameaçou, já irritado com a falta de cuidado do Ás.

— E eu vou fazer questão de cair em cima do Akashi se isso acontecer.- olhou pro menor que se aproximava, ainda segurando o celular.

Seijuro checou as horas no aparelho, optando por fingir que não escutou o moreno para não matá-lo. — Andem mais rápido, falta quase uma hora e meia. Contando que Satsuki mora não muito longe da escola não vai demorar pra chegar lá, mas ainda teremos que nos arrumar, então vai nos sobrar mais ou menos uns 20 ou 30 minutos.- fez os cálculos de cabeça, e falou em voz alta, o suficiente pra Momoi ouvir e se desesperar.

— Meia hora!?- perguntou – ou afirmou, estava muito preocupada pra pensar nisso –, se apoiando mais na janela pra ver a situação atual não muito diferente de antes, a única mudança era o moreno dessa vez quase tendo algum sucesso, até escorregar nas costas do maior. Suspirou fundo. — Gente, eu vou pular.- disse com convicção, subindo na janela e deixando metade do corpo pra fora da residência.

— Oi?! Não era mais fácil falar logo isso e fazer, caralho?!- Aomine se irritou, liberando um dos palavrões que raramente dizia na presença do ruivo sem querer.

Coçando a nuca, Momoi riu timidamente. — Eu só pensei nisso agora.

— Tá, tá, pula logo.- o moreno a apressou.

— Mas… vocês não vão deixar eu cair, certo?

— Momo-chin, eu te seguro. E Mine-chin vai ajudar.- a garantindo que estaria em segurança, Murasakibara parou o mais perto possível da parede, mas o suficiente pra ela cair em seus braços e Aomine fez o mesmo.

Desbloqueando o celular, Seijuro afastou e ajeitou a câmera pra gravar tudo. Mesmo se algo de errado acontecesse, quando assistirem o vídeo, no futuro, ririam muito.

— Vou contar até 3, ai você pula.- o ruivo avisou e começou a contagem, e Satsuki a repetiu em sua mente enquanto regulava a respiração.

— 3…

Apertou a borda da janela, preparando o impulso.

— 2…

Fechou os olhos, deixando nas mãos dos amigos se sua morte do segundo andar da casa seria agora ou não. Preferiu confiar nos dois, imaginando que caso morresse sua mãe a buscaria no inferno e a colocaria em outro castigo, dessa vez por ter morrido, e a mataria de novo.

A maneira que a mulher demonstrava seu amor por ela era um pouco estranha, mas linda.

— 2 e meio…

A rosada se sentia naqueles flashbacks que aconteciam quando o personagem estava prestes a morrer e via sua vida inteira passar diante de seus olhos, e não se arrependia de nada ou de alguma coisa inútil. Bem, Satsuki se arrependia de não poder viver o suficiente para ver a famosa ‘limonada’ de Akakuro.

Mas ela não morreria, confiava em seus amigos.

— 1…

Respirando fundo mais uma vez, Momoi se preparou pra pular.

— … Agora!!

Teria pulado, se o grito do ruivo não a tivesse assustado. Antes de jogar sua vida nas mãos de Daiki e Atsushi, como reflexo seu corpo travou e a impediu de cometer essa loucura.

— Akashi-kun! Eu ia pular!- reclamou e começou a contagem de novo na cabeça. — Se eu machucar você paga a conta do hospital?- uma resposta positiva. — Então aqui vou eu!- gritou e pulou, com os olhos fechados.

~.~.~

Kuroko se olhou no espelho, agora já vestido de Cinderela, antes do baile. O vestido que tinha arranjado não era do seu tamanho, encostava no chão de tão grande que era por sinal, e apesar de velho estava em perfeitas condições, mas nada que fita adesiva e trapos de tecidos não resolvessem.

E aquele sentimento que tinha cada vez que algum membro da geração fazia algo de errado ou arriscado voltou.

— Parece tenso.- Shintarou parou ao seu lado, também de vestido. — Está nervoso?

— Quase isso.- respondeu e viu o esverdeado o enregar uma caixa de sapato.

— Por incrível que pareça, esse é o seu objeto de sorte hoje. Talvez não possa o ajudar na peça, mas vai se sentir melhor com eles, né?- o azulado abriu a caixa e viu o ‘objeto’. Um par de tênis.

— Pode ficar com eles depois de hoje. É um presente.

— Talvez eu consiga usar na peça.- o azulado se lembrou de algo necessário pra peça, e o esverdeado inclinou a cabeça pro lado, confuso.

~.~.~

Em um certo momento, Momoi sentiu o vento bater em seu rosto, depois parando e voltando, um pouco mais forte que antes.

Não sentia dor nenhuma, significava que não tinha se machucado, né? Mas seus bisavós diziam que quando morremos não sentimos que estamos mortos, e perdemos nossos sentidos, então teria morrido? Não, ainda sentia o vento bater em seu rosto e ouvia passos apressados.

— Vai dormir até quando, hein?- Aomine a chamou.

Abrindo os olhos, a rosada entendeu o por quê do vento e dos passos. Estava no colo de Daiki, e esse corria pelas ruas do bairro, Murasakibara e Akashi o acompanhavam carregando a mochila e as coisas que eles próprios tinham levado pro plano.

— Estou viva.- sussurrou, contente e chocada pelo fato dos dois terem sido responsáveis em algum momento da vida.

— Está, e estamos quase chegando no colégio.

— Pode me colocar no chão?

— Quando chegarmos.

— Estou prezando sua reputação.- e não era mentira. Estavam os três de preto, duas mochilas muito suspeitas e correndo por ai carregando uma garota. Se ela mesma visse isso a primeira coisa que viria na sua cabeça seria sequestro.

— Foda-se, estou não nos atrasando.

~.~.~

O OGRSAUC havia sido um sucesso. O grupo já tinha chegado e todos faziam as preparações finais, como a maquiagem, o figurino e revisavam o roteiro. O objeto de sorte de Kuroko seria sim utilizado na peça.

Apenas esperavam a outra peça acabar para subirem no palco e jogarem purpurina em todo canto com o toque de magia do ruivo.

Por uma das frestas deixadas das cortinas, o grupo olhava pra grande plateia. A irmã de Shintarou junto com o ‘namoradinho’, os parentes de Atsushi, os pais de Daiki, as irmas e a mãe de Kise, e a avó e os pais de Tetsuya.

Todos estavam presentes, e aqueles que não fora por causa de algum compromisso importante ou por terem deixado a filha de castigo e estarem a ajudando a participar da peça.

O sino tocou, indicando o final da peça e a introdução da peça interpretada pelo famoso Kiseki no Sedai começou.

Respirando fundo, Kuroko olhou mais uma vez pro resto do grupo. Era agora.