Cigana
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Cigana
Capitulo 15
O som do grilo cantando era predominante em meio ao pesado silêncio da noite. Nem os passos pesados das botas do rei foram fortes o suficiente para suplantá-lo, tão pouco a balburdia que dominava o castelo, conseguiu abafar a musica do pequeno inseto que apenas dava sua contribuição agourenta para aquele momento. As luzes das tochas faziam sombras fantasmagóricas que davam a impressão de haver uma pequena multidão que se aglomerava ao lado do corpo caído, perto de uma arvore pequena de hibisco. As sombras, a principio enormes, foram diminuindo a medida em que eles se aproximavam dela.
Que estava tão branca quanto as suas vestes de dormir, que mais se assemelhava a uma aparição. Os olhos, de um azul muito claro, estavam arregalados olhando para o noturno do céu sem estrelas, que tinha somente a lua como sua única companhia naquela noite inusitada. O brilho da rainha da noite resplandecia nos cabelos de um amarelo opaco os tornando também prateados. E para completar aquela imagem estranha de se olhar, da princesa caída no chão e com os braços abertos, o rosto sem vida trazia a expressão de surpresa que se misturava ao medo.
O uivo lamurioso veio de trás, fazendo com que o rei tirasse seus olhos do corpo e voltasse sua cabeça, gesto este acompanhado por dois de seus guardas. A figura negra e sinistra do padre aproximou-se deles. Os cabelos ralos, que mal cobriam a cabeça, indicavam que o homem já tinha uma idade avançada. Ele veio com passos lentos e com as mãos erguidas trazia a um crucifixo.
Sua reza era lamentosa.
Sentindo-se a autoridade naquele momento, padre Newton abaixou-se até o corpo da jovem pedindo a intervenção divina. E teve seu momento interrompido pela gargalhada debochada de Nadja, que até aquele instante a tudo via com seus olhos ligeiros, mas que não pôde conter-se com toda encenação do clérigo do reino.
Edward caminhou até o corpo de sua noiva, pouco se importando para a guerra que se formou entre o padre e a cigana. Ele olhou com atenção para a pobre moça sem vida, a constatar uma pequena mancha que se formara abaixo do seu corpo no lado esquerdo. Com um gesto ele sinalizou que um dos guardas trouxesse uma tocha mais para perto do corpo e com cuidado, Edward a moveu de lado. A mancha de sangue se alastrou ainda mais, a constatar que a morte fora recente e, o que ele temia, de fato Irina Volturi fora assassinada. De forma covarde, pois ao que tudo indicava, ela fora apunhalada pelas costas e a lamina se cravara em seus pulmões a atingir seu coração.
_Com a autoridade a mim imposta, eu clamo pelo fogo do céu! – a voz ranhosa e idosa do padre tremulou ao redor da cabeça do rei que estava absorto com a imagem de Irina.
_Só se for para incinerar a si mesmo, seu velho tolo!
_Clamo pelo fogo purificador e pela clemência do altíssimo, pois temos entre nós a presença demônio.
Nadja riu ruidosamente e se aproximou do rei que olhava de forma intensa para a defunta. Mas, ao se atentar na expressão dos olhos claros de Irina, algo a incomodou.
_Ela foi traída! — Edward olhou rápido para Nadja.
_Como? – uma mão pequena da cigana pousou na face branca que começava a esfriar e fechou os olhos arregalados, encerrando assim a expressão do medo da morte. O toque na pele de Irina a fez tremer. Nadja sentiu que algo estava errado.
_Ela é muito jovem para morrer. Sem conhecer a felicidade ou ao amor...
Edward tomou para si a mão de Nadja e quando falou, havia emoção em sua voz:_De fato, Irina era muito jovem para qualquer coisa. Alguém enfiou em suas costelas a uma adaga, da forma mais covarde possível, visto que ela era pequena e fraca. Não consigo imaginar quem poderia fazer tamanha barbárie. Mas vou descobrir e esta pessoa irá se arrepender por haver nascido.
Depois, Edward ergueu-se e saiu a passos largos, deixando Nadja a olhar para o corpo de Irina. Ela sentia que algo de ruim estava batendo em sua face, mas que não conseguia ver com clareza quem ou o que poderia ser. As lamurias e admoestações do padre ganharam volume ainda maior com a saída repentina do soberano rei e ele ousou expulsar Nadja do palácio.
_Não tens autoridade para me dirigir a palavra quanto mais dar ordens aos homens do rei! – Nadja já erguida, colocou suas mãos na cintura e incentivou a expulsão.:_Pois muito bem, vim montada no mesmo cavalo do grande rei, vosso soberano. Desafio aquele que tenha culhões a desfazer aquilo que o rei fez, me colocando para fora deste palácio. Ninguém?! Que decepção, quando for rainha darei um jeito em vocês.
Nadja passou rebolando por entre os homens do rei e se deparou com os olhos frios da rainha mãe que a tudo via de longe. Esta aproximou-se da cigana com revolta no olhar.
_A desgraça se abateu sobre nós desde que colocou aos seus pés pela primeira vez neste castelo. Se tens algo de bom dentro de si, parta!
_Não pedi para vir até aqui hoje, tão pouco tenho culpa pelo o que aconteceu com a princesa. Que verdadeiramente, foi uma inocente na mão de um predador, que se encontra escondido entre vós.
_Ousa transferir tua culpa para outra pessoa? Irina morreu nas mãos de um dos seus! Somente trouxe transtorno e a desgraça sobre este reino. O padre tem toda razão, é o demônio que veio nos atormentar.
_Seu padre é seco e sem amor! Incapaz de olhar para si mesmo sem repudiar-se. Alguém que não se aceita, jamais deveria ser ouvido. E se tenho que ser acusada de algo, que seja a de não tentar ser feliz! Então, não posso ser acusada de nada, pois que busco todos os dias a minha felicidade e sou generosa também, pois que levo alegria aos outros com a minha dança, sem nada cobrar em troca.
_Leva a luxuria do corpo e a devassidão!
_Levo a natureza da alma, livre e viva! A pior morte é a morte em vida, aquela que aprisiona e tolda seu espírito. Seu filho é sábio, pois que não se deixa enganar pela mentira. Não desejo ter a ti como inimiga, pois que em breve seremos parentes. Acalma teu coração, a verdade logo virá a tona e verás com teus olhos quem traz a desgraça para este reino. – Nadja sacudiu suas saias e saiu da frente da rainha mãe sem importar-se com a reverência adequada. Ela caminhou ereta por entre os súditos do rei, sentido os olhares nada amistosos e ouvindo os murmúrios depreciativos. Sua personalidade indomada não permitia que ela se abatesse pela falta de simpatia do povo do reino, pois somente uma palavra para ela importava, a palavra do rei Edward.
Ela caminhou pelos corredores do castelo sem ter aos seus passos impedidos. O fato era que ninguém assim ousava, pois como ela mesma havia sinalizado, fora trazida para dentro do castelo pelo próprio rei e, com conforto ao dividir a mesma montaria. Ela se dirigiu até o grande salão, onde pela primeira vez estivera frente a frente a enfrentar a fúria do soberano daquele castelo. Que hoje não era muito diferente daquele dia, mas não era ela a responsável pelo tom enfurecido que se ouvia através dos corredores. Guiada pela voz tempestiva e cheia de autoridade de Edward, que clamava pela ordem de sua casa ao questionar sobre os olhos atentos dos vigias do palácio.
_Que devo ter a cegos a me cercarem! Como um homem poderia ter pulado os muros e se aproximado da princesa que estava no jardim, na área mais restrita do meu palácio a matando?! E ninguém viu a este intruso....nem quando ele entrou ou quando saiu......por certo que tenho a homens cegos a me cercarem, definitivamente!
Nadja entrou silenciosa, a olhar tudo e a todos e sua atenção se deteve na figura da mulher que tinha a um brilho estranho no olhar. Os pêlos da cigana arrepiaram-se e feito a um gato arisco, ela se moveu lentamente a ficar a um canto do grande salão. Seus instintos diziam para ela ouvir somente. E sua voz saiu por entre seus dentes feito a um chiado, no momento em que ouviu a voz macia da mulher que se dirigiu ao rei, sem autorização.
_Meu rei! – a mulher se abaixou em reverência ao soberano, para depois voltar a falar, de forma lenta:_Eu estava lá, com a minha protegida, quando fomos assaltadas pelo homem que tirou a vida da princesa...
Edward voltou-se para a mulher que lhe trazia informações consistentes, era a ama da princesa Irina.
_Como te chamas?
_Sou apenas uma serva, meu senhor, me chamo Denali.
_Erga-te Denali, e diga a teu rei, o que viste naquele jardim!
A voz de Denali ganhou força com aquela ordem, preenchendo o grande salão do rei. Tornando-se a atenção principal de todos, até mesmo da rainha que adentrou o salão ladeada pelo padre.
_Todas as noites a princesa passeava pelo jardim de vosso castelo, infelizmente hoje, eu a deixei por alguns instantes apenas, fui ter com a criada a pedir que trocasse os vasos do quarto da princesa antes desta se recolher e quando voltei eu a vi no chão, já sem vida – a esta parte do relato, a voz falhou e um choro baixo foi ouvido por todos. O que causou comoção na rainha, levando esta aos prantos também e trouxe de volta a voz ranhosa do clérigo que julgou ser o momento para as suas rezas.
_Silêncio! Todos! – a voz de Edward somou acima das demais:_ O que mais?
_Tive tempo somente de gritar, eu corri para a princesa e quando lá chequei, pude ver ainda um vulto negro pulando o muro.
_Poderia ter se engano por certo! Me disseram que foi um cigano o culpado da morte da princesa, mas em nenhum momento vi ligação entre um ou outro.
_Meu rei, assim que me abaixei eu vi este objeto perto do corpo da princesa. – era uma corrente de ouro, com pingentes em formato de lua.
_É a prova incontestável meu rei! Nenhum cristão anda com este adorno maléfico no corpo. Somente os ciganos os tens! – Nadja deu um passo a frente, ela sentiu os olhos do rei sobre ela que assentiu para ele. Não havia como negar, o objeto era cigano. Mesmo assim, ela teve duvidas ainda e retirou-se do grande salão onde a ama da princesa tinha seu momento de atenção sob os olhos do rei. Ela caminhou rápido pelos corredores do castelo. Sua mente trabalhava tão rápido quanto seus pés. Nadja entrou nos aposentos da princesa e procurou não sobre os moveis ou sobre a cama, ela procurou nos lugares menos visíveis para depois deixar que sua decepção tomasse conta de seu ser. Caminhando lentamente, ela subiu na cama da princesa e lá ficou a esperar. No grande salão a balburdia tomava conta e somente cessou quando deu entrada ao recinto o capitão da guarda. Que trazia novidades sobre a caça do assassino.
_Nada encontrei, nem rastro!
_E levas-te todo este tempo para me trazer a esta informação?! – havia impaciência na voz do rei.
_Não meu rei! Que nos deparamos com alguns ciganos...
_Emmett não me teste!
_Não houve um dialogo cordial e tivemos que matá-los.
Era a guerra!
Edward colocou suas mãos na cintura e caminhou até o seu capitão:_Tenho certeza que tudo o fez para evitar tal confronto. Tivemos alguma baixa? – a esta pergunta o grande capitão estufou de seu peito.
_Somente no meu orgulho, por permitir que um rato cigano entrasse em seu castelo, meu rei!
_Como disse, era um rato! E força bruta, muitas vezes, de nada vale para acabar com uma infestação deste tipo. – Edward virou-se, ele passou a dar ordens expressas na condução do funeral da princesa e o pior, ele voltou-se para seu capitão.
_Não poderia confiar isto a outra pessoa que não seja você, meu capitão! Toma de alguns homens e parta de imediato para as terras Volturi, a levar a tristeza ao coração de Aro. – havia pesar na voz de Edward, ele sabia que teria a duas frentes de batalha, pois assim que se findasse o sepultamento de Irina, Aro cairia sobre o seu reino com todo o seu exercito, que era vasto e poderoso. A paz de seu reino se fora.
Ele sabia que deveria ser estratégico naquele momento, pois que com uma morte assim tão vil e covarde, ele não teria apoio dos reinos vizinhos. Com impaciência, ele dispensou a todos e se dirigiu até seus aposentos, pois precisava de um lugar calmo para planejar. Não muito longe de seus aposentos, a porta do quarto da princesa assassinada abriu-se e sua serva pessoal entrou. Assim que ela encerrou a porta atrás de si, um sorriso fulgurou em sua face de beleza ordinária.
_Esta muito feliz para quem acaba de perder sua senhora – Denali não esperava ter companhia naquela noite. Friamente, ela ampliou ainda mais seu sorriso no rosto.
_É a felicidade dos que vivem!
Nadja ergueu-se da cama e colocou seus pés no chão:_Não por muito tempo.
_O deves saber, pois que vejo a corda em teu pescoço ao raiar do dia!
_Verdade?
_És uma tola cigana, achando que com tua dança podes dominar a todos. Saiba que muitos entre nós somos imunes as tuas feitiçarias.
Nadja caminhou para perto de Denali, que jogava longe seu xale e expunha de forma altiva sua figura diante dela.
_Não sei como conseguiu ao cordão de ouro, mas ei de descobrir.
_Vai mesmo?! – Denali riu.: _A única coisa que vai achar é a tua morte, mas veja como o destino é bondoso, podes escolher pela guilhotina de Edward ou pelos punhais de sua raça imunda.
Nadja pulou feito a uma gata e agarrou Denali pelos cabelos.
_O que irei dizer agora, não foi visto nas cartas. Saiba que minha hora esta ainda muito longe e quando ela vier, nem as tuas cinzas existirão mais na face desta terra para assim presenciar. – havia algo de sombrio na forma como ela falou, baixo e firme. Depois ela soltou os cabelos de Denali que cambaleou para frente indo a cair de joelhos no chão.
_Palavras não matam e não tenho medo das tuas, sua imunda!
_A princesa confiava em você!
_E agora o rei confia em mim! E todo o grande reino ouve as minhas palavras. Direi que invadiu meus aposentos e ameaçou a minha vida.
Os olhos de Nadja eram frios e escuros, como o lago que ela gostava de banhar-se. A este pensamento ela lembrou-se de Esteban que tivera um triste fim a beira do lago.
_Ainda não! Mas guarde as minhas palavras, quando eu vier cobrar tua vida, não vai sorrir, vai gritar e ninguém vai te salvar! – Nadja virou-se e saiu do quarto, ela se dirigiu até os aposentos do rei, pois sabia em seu íntimo que lá ela o iria encontrar. Ele estava sentado em uma cadeira recostado pesaroso a olhar pela janela para o céu sem estrelas. O dia ainda estava longe de nascer.
_Sabes que terei que matar a tua gente! – ele ouvira os passos leves, mas fora o perfume do corpo que a denunciara. As mãos pequenas embrenharam-se nos cabelos vastos de Edward. Ele pegou apenas uma e a trouxe de frente para si. Olhar para ela era como olhar para o sol, pois ela o aquecia.
_Parto nesta noite, em busca de respostas. Espero eu, ser mais rápida e consegui-las antes que tua lamina desça impiedosa contra inocentes. – Nadja sentou no colo de Edward e sentiu as mãos grandes apertarem sua cintura.
_Gostaria de dizer que meu palácio é seguro e que deveria aqui ficar.
_Me quer aqui? – ela sussurrou ao pé do ouvido dele e sentiu o volume rígido a roçar o interno de sua coxa.
_Nada tenho a te oferecer. Apenas um reino que esta com os dias contados.
Eles olharam-se com intensidade.
_Vou sumir com os ciganos da face desta terra. Mas Aro Volturi, irá acabar com meu exercito e dizimar meu reino, pois não cuidei como se deveria de sua filha.
As mãos de Edward subiram e seguraram os cabelos de Nadja. Ele queria ver o rosto livre de qualquer interferência e constatar a beleza dos traços finos dela.
_Você é muito bonita! – ele notou com fascinou o rubro que tomou conta das faces de Nadja e o brilho intenso que formou-se em suas orbes as tornando incomum.:_Quero amá-la esta noite como se fosse a ultima vez.
A ponta da língua rosada contornou lentamente o lábio inferior o tornando molhado e suculento:_Teremos muitos dias e muitas noites para o amor, meu rei!
_Não quero amá-la como um rei ama sua amante – a voz estava mais rouca do que o normal – Quero tomá-la como um homem tomaria a mulher amada, com a certeza de que ela lhe pertence somente. Você se daria para mim esta noite, Isabella, sem reservas?
Ela olhou na profundidade dos olhos verdes que a chamavam para o amor, que ia muito além do carnal. Naquele momento, ambos conseguiram ver a verdade de suas almas sem qualquer escudo. Edward sabia o que lhe era reservado ao nascer do dia. Ele enviara seu capitão, seu amigo, como portador da morte até o reino que até poucas horas atrás, ele chamava de amigo. Ele mandara Emmett para a morte, pois sabia que Aro não aceitaria tal noticia pacificamente. Mas ele não poderia enviar outro menor até o grande rei Volturi, sem o ofender ainda mais. Tudo a sua volta estava ruindo, menos a mulher pequena, de carnes rígidas que assombrava seus desejos mais íntimos, mais quentes. Era uma guerra sem vencedores. Edward viu os lábios dela se entreabrindo e a língua rosada o convidando para o beijo. Ele se ergueu com ela enganchada firmemente em sua cintura e caminhou para a cama decidido a amar aquela mulher intensamente. Pois quando o dia nascesse, não haveria lugar para o amor.
Continua...
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