Cigana
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Cigana
Capitulo 13
O sol acariciava a face branca de contornos suaves com ternura. Os lábios cheios, com um risco na parte de baixo, que indicava ter sido agredido, estavam entreabertos. Para não lhe infligir ainda mais dor, ele ordenara que o percurso fosse feito um pouco mais lentamente. E com seus braços fortes a rodeou, sentindo a maciez do corpo pequeno e machucado dela.
Ela sentiu o calor forte emanar do corpo firme e bem torneado que lhe transmitia segurança. O cheiro de homem, com um suor leve e másculo, veio impregnado com o bouquet de flores silvestres misturado ao leve ardido da hortelã.
Todo ele era acolhedor!
E seu nariz, sem dono e insolente, afundou-se no peito largo que o acolheu muitíssimo bem. Lá, ela suspirou e se deixou levar pelo trotar suave da montaria, embalada pelo calor dos braços carinhosos e sonhou um sono sem sonhos.
A balburdia das vozes se misturou aos relinchos dos animais a despertando do limbo neutro algum tempo depois. Quando suas orbes marrons voltaram a olhar o mundo, ela passava por baixo de um arco gigantesco. Curiosa, ergueu seu nariz do conforto do peito acolhedor e notou que adentravam as portas de um enorme palácio.
Não o mesmo, que ela deixara na manhã daquele dia.
E o sol que se despedia lentamente com seus tons alaranjados, cobria com um brilho estranho a companhia de cavaleiros que acabara de chegar ao reino, tendo no centro, o príncipe soberbo e sua convidada especial. Vozes rápidas soavam em uma cacofonia disforme, ordens eram dadas, passos rápidos e pesados soavam perto dela, que ainda mantinha a cabeça recostada no peito forte, ouvindo o som que se igualava ao trovão que cortava o céu em dia de tempestade saindo dele e, sentindo arrepios a percorrer-lhe o corpo.
_Chamem a curandeira. Preparem o quarto de banho de minha irmã e chamem também suas aias, rápido!
Nadja ergueu suas vista a olhar para o rosto que transmitia o verbo de forma tão autoritária. A voz era poderosa, mas, escondia uma doçura muito mal disfarçada, que somente servia de chamariz. Uma força atrativa feito abelha no mel. O rosto era moreno, não como dos homens ciganos, mas com aquele tom de terra que alguns gadjos carregavam de gerações e gerações. O queixo reto e forte anunciava a boca larga e bem desenhada. E o hálito que escapava dela, era atrativo.
Alguém a tirou de cima do enorme cavalo e dos braços fortes e protetores, para depois, feito a uma criança pequena, sem idéias ou condução, ela ser passada de braço em braço até voltar para os braços dele novamente e com voz pastosa, Nadja protestou:
_Posso andar! — aquilo a surpreendeu, pois não imagina que estivesse assim, tão cansada. E uma inquietude a dominou, pois sua voz era seu espírito, livre e sem dono.
_E, eu posso continuar a carregá-la! – a voz, com doçura a embalou e Nadja se deixou levar. Eles adentraram os portões, passaram pelos atentos sentinelas e uma infinidade de pessoas estranhas que a olhavam com um misto de curiosidade e espanto. Vozes sussurraram coisas, como se fossem uma língua estranha de uma terra estranha. O frio das paredes do castelo penetraram na pele dela a fazendo estremecer e, assustada, Nadja se perguntou onde estava seu calor, sua força. Ela foi conduzida por ele escadas acima, por um corredor largo já iluminado pelas luzes bruxuleantes das tochas e, finalmente, adentraram em um aposento ricamente posto.
_Esta segura em meu palácio. Estes são os aposentos de minha irmã, a rainha Irina Volturi. As aias de minha irmã cuidaram de ti, bela cigana.
Ela foi posta com delicadeza sobre lençóis brancos que logo absorveram a terra misturada ao sangue de seu corpo. Seus olhos não viam a riqueza dos moveis ou a sutileza dos tons virginais. Eles olhavam para o azul profundo dos olhos dele.
_A quem devo agradecer tamanha atenção?
_Felix Volturi, seu criado!
_Sou Nadja, sou só e pobre como a terra árida de onde me tiraste. – ela ergueu suas mãos pequenas com as palmas erguidas para cima. As linhas de suas mãos eram firmes, como um rio negro com seus riachos a se destacar nas palmas macias e brancas.:_Vê, nada tenho e nada sou.
_És como o vento, mulher, que traz o fresco do dia ou a fúria da tempestade. Fique e deixem que cuidem de ti, depois voltamos a nos falar.
Um gadjo com a sabedoria de um cigano.
Antes da enorme porta de madeira fechar-se com a saída de Felix, mãos cuidadosas despiram sua única veste.
_Mas, estas nua em pêlos?! – uma das criadas, a mais idosa, não conteve seu espanto ao vislumbrar as tetas rosadas, com marcas roxas que despontaram livres e impertinentes. Nadja ergueu-se da cama macia, ela percebeu que as criadas, algumas, abaixaram suas vistas em sinal de respeito. Já outras a olharam com admiração e surpresa. Mas foi a voz, da mesma criada que lhe questionara que voltara a falar.
_Onde mais lhe dói, filha?
_No orgulho.
_Então, para isto não tenho ungüento.
_E não o preciso, pois para esta ferida, mesmo que ainda aberta, já tratei de fazer com as minhas mãos a justiça corretiva.
Nadja falava da cura que não vinha das folhas e raízes.
_Talvez, de fato, nunca a tenha, se ela veio vestida com a vingança. Apenas que lhe causará ainda mais danos. Agora venha, a água de teu banho esta no ponto, depois lhe trataremos com os ungüentos.
A água cobria seu corpo com delicadeza e pela primeira vez, Nadja se deixou ser conduzida. Seus olhos estavam fixos no brilho amarelo da vela larga que tinha seu corpo derretido lentamente pela chama e impregnava o ambiente com o seu aroma de citronella. De seus olhos lagrimas brotavam e escorriam pela sua face toda vez que a esponja macia tocava em seus ferimentos. Mas de seus lábios nenhum som era ouvido. O banho foi lento e penoso. No seu término, a tina larga continha a água turva, somente.
Nadja foi conduzida novamente para o quarto e lá, elas lhe arranjaram vestes apropriadas a uma mulher da corte o que, causou-lhe riso.
_Mas vejam que debaixo de tanta sujeira se escondia uma bela mulher! — Nadja olhou-se no espelho alto com moldura de bronze e quase não se reconheceu.
_Venha querida, o príncipe lhe aguarda.
Os dias passaram-se lentos.
Em um findar de tarde quente, no meio do salão de festas do palácio, em cima da mesa larga e farta, onde risadas explodiam de bocas variadas, mas, principalmente, do velho rei e seu filho herdeiro, estava ela. Em pé, no centro, com seus pés descalços a entreter a todos que a tudo olhavam embriagados pelos seus gestos lentos e sinuosos. Nadja cantava e dançava na corte do Rei Volturi. Lá, ela era livre e querida.
Sua saia esvoaçava com seu bailado e suas pernas bem torneadas faziam arcos por cima das cabeças dos desavisados a causar ainda mais risos. Sua voz envolvente cantava a uma canção cigana antiga, de um amor incondicional que tinha tudo para não dar certo, mas que a natureza agira a favor dos jovens amantes. Em uma estrofe, ela se aproximou do príncipe, seu salvador, e sorrindo pediu um mimo.
_Já o tens, bela cigana.
_Mas que me prega a um brinquedo por certo, pois que o meu desejo esta em tuas vestes.
_Ela o deseja nu, vossa alteza! – a voz embriagada fora encoberta pelas risadas altas.
_E tenho a certeza de que iríamos ver a um belíssimo exempla de homem! Ao contrário de muitos que aqui estão e já perderam as formas e curvas do corpo e hoje estão a rivalizar com os tonéis de vinho.
Ela falara alto, a encobrir as vozes falastronas:_Mas que desejo somente a fita azul, que adorna vossa túnica, majestade.
Sorrindo, o príncipe herdeiro ergueu-se lentamente e retirou de sua túnica o mimo. Mas vozes alteradas foram ouvidas dos portões e um meirinho adentrou o grande salão a anunciar a chegada de outro rei.
Os olhos de Nadja brilharam intensamente, pois havia dias que ela não o via e seu coração incontrolável pulou mais alto quando o Rei Cullen adentrou o salão de festas, trajando sua túnica branca e, ladeado por seus guardas pessoais. Seus olhos se encontraram em um silêncio pesado.
Nadja ofegou sorrindo, enquanto amarrava a fita em torno de sua cabeça.
_Rei Edward, futuro marido de minha filha e aliado deste reino, seja bem vindo ao meu castelo!
Edward deu alguns passos mais para o centro do salão e reverenciou ao velho rei que o saudava. Mas, seus olhos dela não desgrudavam sendo percebido por Felix.
_Algo o traz até nossa casa, cunhado?
_Vim sob o alarde de uma guerra que se anuncia em meus portões. O povo cigano se volta contra meu povo neste momento.
Nadja nada dizia, mas de tudo sabia.
_O que diz, meu cunhado?
_Que se esta mulher, que esta a bailar em teu salão, se não partir comigo para esclarecer aquela gente que nada temos com a morte de um de seus lideres, não haverá casamento entre as duas casas, pois não teremos mais paz nesta terra.
Nadja, livre que era, pronunciou-se no meio deles, sem importar-se com sua origem ou condição.:_Nada tenho com o povo cigano, meus laços a muito se desfizeram, já o sabe, nobre rei. Pois que de fato, fui roubada ainda criança de colo e criada na escuridão de minha verdadeira origem.
Os olhos do rei Cullen brilhavam perigosamente, ele se aproximou do corpo pequeno que balançava atrevido:_Mas que parece ter se adaptado muito bem a condição cigana, a julgar por suas roupas e seus atos.
_Tens algo a dizer-me perante esta corte, nobre rei?
_Que és acusada de assassinar um homem em minhas terras. Cigano ou não, eu faço questão de imputar a justiça a quem for.
Nadja ergueu seus braços diante do rei:_Queres a mim? Jogar-me no fundo de uma cela escura?
_Que fazes tu? Está ensandecida?! Procurei-te por todo o reino, eu e teu pobre pai e cá está a dançar sem preocupar-te com os que deixou para trás!
_Deixei para trás a mentira, a falsidade e a brutalidade. Sim, aqui estou a dançar, em especial para o príncipe herdeiro que acaba de me dar a um mimo. Tens tu algo de melhor a me oferecer?
Felix saíra de seu trono e se aproximara dos dois, seus olhos acompanhavam atentos ao rei e sua guarda. Já no rosto do rei Edward a decepção se assomava, pois que de algum modo o jeito atrevido de Nadja o ofendia.
_Então, que esta é tu! A caçar pela noite ou pelo dia a homens, a amá-los ou a matá-los?
_Sou o que sou! Amo e mato na mesma intensidade. Mas que sou generosa também, pois sei retribuir a altura aqueles que me tratam bem. Agora, o que tens a me oferecer, além das tuas celas escuras?
_Achas que percorri esta distância para prendê-la?! Vim atrás da verdade por julgar que tu a terias para mim, mas encontro apenas a ambição em teus olhos e em tuas palavras.
A mão do príncipe Felix pousou no ombro tenso do rei Edward:_Então, cunhado, o que veio aqui fazer? Pois lhe digo que se em teus portões os ciganos lhe ameaçam a paz, aqui não a encontrará se ousar levar Isabella deste reino.
Edward olhou para Felix, para depois voltar a pousar seus olhos no rosto atento de Nadja:_Vejo que conquistou a outro. Fazes coleção de homens?
_Se conquistei a tú também, assim o posso afirmar! – ela falou por entre seus dentes.
_Deixe de jogos, precisa vir comigo, não vê que homens morreram por tua causa?
_Cunhado, ela nada fez, sou testemunha que esta mulher sofreu a agressão mais covarde e desmedida. Eu e minha guarda pessoal a encontramos desfalecida no árido do deserto de tuas terras. Foste tu, que a seduziu e depois a deixou só e desamparada.
continua....
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