Cidade Sitiada
5 Capítulo 04: Witchblade, a dama letal
Notas iniciais
Leiam e fiquem espantados com as revelações!
Exatos dez dias haviam se passado e Edward e Bella se encontravam ainda em Buenos Aires, pois ninguém entrava ou saía da cidade agora que o governo de Cristina Kirchner decretara estado de emergência e sítio em razão das centenas de fatos estranhos ocorridos naqueles últimos tempos passados e do fato de que as autoridades não sabiam nem por onde começar a investigar.
Ao mesmo tempo, Edward recebia constantes ajudas de L para descobrir prováveis suspeitos de quem pudesse estar causando tamanha confusão, porém, nenhuma delas surtia o efeito esperado e isso estava deixando tanto o misterioso detetive quanto Cullen sem saber aonde ir, o que indicava que o responsável era extremamente astuto e estava um passo à frente.
O que ocorria? Misteriosos discursos trabalhistas antigos que tocavam em rádios sem aviso prévio, interrompendo transmissões, imagens fantasmagóricas em aparelhos televisivos avisando de uma futura catástrofe que deveria ser impedida, um “anjo branco” de véu roubando brinquedos, eletrodomésticos e afins de lojas de departamentos sem deixar um único rastro de digitais ou portas arrombadas e destinando os frutos do roubo aos pobres, pessoas pálidas, alguns que muitos velhos reconheceram como sindicalistas mortos, andando pelas ruas sem barulho algum, uma criatura furiosa batendo em portas na madrugada, manequins macabros como o do posto de gasolina aterrorizando pela cidade e tantos outros acontecimentos que colocaram a capital argentina e arredores em estado de alerta vermelho.
A situação era tal que os passageiros dos voos que haviam chegado dois dias atrás ou tinham sido enviados para outras cidades ou estavam praticamente ilhados no aeroporto internacional, um deles ligando desesperadamente para um celular: — Atende logo essa merda de telefone!
– Meu Deus, Leona – Molina, na delegacia perto do fim de seu plantão, apertou o celular contra a mão e depois usou um dedo para o botão verde: — Eu acho que dessa vez vou precisar da sua ajuda. Não posso com toda essa gentarada morta sem ajuda.
– José Armando, dá um jeito de me tirar dessa porra lotada! Faz dois dias que não sei o que é dormir em uma cama decente ou tomar um banho sem ter que dividir o banheiro feminino com um bando de não sei quantas! Não vou poder te ajudar se não estiver por perto caso você não se lembre disso – disse Leona.
– Certo, só preciso de mais uns dez minutos. Ainda estou em plantão e o delegado Porcel é muito durão com essa coisa de horários, você sabe – bufou Molina reprimindo um bocejo.
– Como eu não saberia? Ah pelo amor de Deus, meu irmão, você tem mesmo que fazer parte da polícia? – bufou Leona.
– Às vezes acontecem casos impossíveis e alguém precisa resolver se a polícia não pode, você deve saber – disse Molina que logo falou baixinho: — Leona, preciso desligar, o Porcel tá vindo e se me vir no celular, terei problemas.
A mulher assentiu e desligou após despedir-se enquanto o delegado chegava: — Como estão as coisas, Molina?
– Tudo bem, só a minha irmã que enviou um SMS avisando que chegou na cidade, mas que não pode sair do aeroporto por causa desse decreto da Kirchner – disse o detetive.
– Nem me diz isso, José Armando. Essa história de aparições e vozes misteriosas deixou a cidade em estado de pânico e só os muito corajosos, como nós, saem de casa para trabalhar ou fazer qualquer coisa. Tem uns malucos dizendo que esse pode ser o fim do mundo, acredita? – o delegado dizia enquanto analisava o revólver e logo sorriu: – Mas é para isso que eu tenho essa belezinha calibre 38.
– Se o senhor soubesse que essa arma de nada serve nesse caso, não ficaria tão confiante – pensou Molina com alguma tristeza, porém, tinha a certeza de que Deus protegeria Porcel, pois ele era um homem justo, bondoso e incorruptível.
De repente, seu celular tocou e Porcel disse: — Atenda e depois pode ir. Está quase na sua hora.
O rapaz agradeceu e atendeu: — Edward?... Quando? ... Tem certeza, Lisandro?... Tudo bem, hoje levo a Maruja para casa e aproveito para convidá-lo, a senhora Bella e a nossa amiga também, para irem no “La Chacarita”, o pub que fica a duas quadras e meia do cemitério da Chacarita.
– No “La Chacarita”?! Eu não passo perto de cemitério de noite nem que me paguem um milhão de pesos! – Porcel respirou fundo.
– O senhor deveria mesmo é se preocupar com os vivos porque os mortos não fazem nada – disse o rapaz após se despedir e terminar a ligação.
– Tem certeza que esse é o melhor lugar para ir com os turistas? Sei lá, quando passo por aquele pub, todo mundo me olha como se visse um pedaço de carne. Isso me arrepia até os ossos. Só gente muito da esquisita frequenta aquele lugar – Porcel disse enquanto pegava um sanduíche da geladeira do escritório.
– Poetas, cantores e escritores chegados à boemia e policiais saídos dos plantões. Se o senhor quiser vir comigo, considere-se convidado – sorriu o detetive que logo depois disse que iria ao aeroporto buscar a irmã e que talvez ela fosse com eles.
– Olha, eu vou pensar e depois te ligo, sim? – o delegado sorriu amarelo, pois embora não quisesse admitir, morria de medo de cemitérios, até mesmo de lugares próximos a eles.
Molina assentiu e Porcel saiu para comer seu lanche, ao que o detetive se viu obrigado a rir, pois o que o delegado Antonino Porcel tinha de corajoso também tinha de muito medroso, porém, considerava seu chefe um homem verdadeiramente digno de ser chamado de “ser humano”, pois sempre ajudava todos os que precisavam de conforto após perder entes queridos vitimados pelo crime e encaminhava crianças órfãs para a adoção quando os pais eram assassinados, no que ele havia adotado uma menina chamada Chinita quinze anos atrás.
Entretanto, Molina quisera que seu chefe fosse junto porque já estava mais do que na hora dele finalmente saber quem eram ele e Lisandro de fato. Aquela seria uma noite difícil, mas era preciso colocar as cartas na mesa de uma vez por todas se ele e os outros quisessem que essa situação fosse resolvida e que a cidade voltasse à normalidade de outrora.
...
– Tudo está indo de acordo com o plano. Nunca esqueci cada um dos dias em que o sol não nasceu para mim – dizia um que anotava cuidadosamente em um bloco.
As dolorosas lembranças daquela época doíam-lhe de tal forma que mesmo o menor dos movimentos causava-lhe excruciante dor. A maldição que aquela maldita Morresi, segundo suas sujas palavras, jogara-lhe nunca iria embora a não ser que ele se arrependesse de seus pecados de vida ou pudesse tornar possível que seu aliado tomasse o controle dos vampiros da Argentina e matasse todos os familiares restantes dos famosos caçadores de demônios.
Apesar das imensas diferenças, os Morresi e Leopoldo Belmondo tinham inúmeros acordos para exterminar demônios e afins que incomodavam a população, o que incluía vampiros que desobedecessem as rígidas leis de convivência impostas pelas mãos de ferro do vampiro espanhol que chegara, ainda um simples mortal, ao então desconhecido território ainda pertencente ao reino da Espanha em 1502.
– Por que? Eu realmente mereço isso? – ele olhava seu rosto decadente no espelho e dizia: — Como eu posso me arrepender de colocar ordem nas coisas? Que tipo de noção aquela bruxa Morresi tinha sobre mim ou o que eu fazia?
A maldição lhe tirara toda e qualquer forma de demonstrar emoções e ele sequer tinha o direito de ter algum tipo de tranquilidade. Não podia nem ao menos dobrar um dedo sem que a dor imposta pela praga o fizesse berrar para paredes vazias.
Outro, seu aliado, o observava: — Nós dois pagamos por ser quem éramos, agora os outros pagarão por terem nos feito pagar. Espere e verá, tudo dará certo.
Eles não imaginavam, ainda, que uma verdadeira coalizão estava se aprontando para dar cabo dos horrendos planos.
...
– Ir com você e o Lisandro ao “La Chacarita”, nós três? – Maruja ficara surpresa ao receber o convite após chegar em casa com a carona de Molina.
– Qual o problema? Apesar de tudo o que está acontecendo, não temos porque deixar de nos divertir. Você vai, não é, Leona? – sorriu o detetive olhando pelo retrovisor ao passo que ela disse: — Se eu puder tomar um banho decente e descansar nem que seja uma hora e meia, talvez eu vá.
– Tudo bem, mas com tudo isso, não sei se os Cullens irão aceitar. Mas darei um jeito de convencê-los – Maruja sorriu levemente e logo disse: — Realmente, tive muito gosto em te reencontrar, Leona.
– Igualmente, Maruja. Você ficou ainda mais bonita desde aquele tempo da formatura da Academia – sorriu a jovem.
A policial agradeceu e logo saiu do carro, dizendo que em uma hora ou noventa minutos estaria no pub com o casal.
Pelo menos quinze minutos depois de um merecido lanche, Maruja dera o convite e Edward e Bella se olharam pensando se era realmente bom eles saírem para um pub bar com a cidade em pânico, porém, pensaram que um pouco de diversão talvez os fizesse ficar mais calmos e com mais cabeça para pensar no que fariam e em que desculpas dariam para os familiares, caso ligassem perguntando algo, isso se eles já não soubessem do estado de emergência decretado por Cristina Kirchner em Buenos Aires e arredores.
– Aceitaremos então, Maruja. Ver uns rostos diferentes, ouvir música, dançar, etc. Quem sabe seja melhor, assim aliviamos as tensões – Edward sorriu e Bella fez o mesmo, feliz, pois apesar de tudo, sempre havia uma luz ao fim do túnel.
Definitivamente aquele pub bar não era um lugar comum. Só de olhar para quem estava nas mesas e servindo-as, era perceptível que algo estava errado ou pelo menos era incomum, o que me fazia questionar porque exatamente aquele lugar havia sido escolhido por Molina para nos levar. Uma estranha sensação começava a tomar conta de mim e talvez aquela noite não seria tão boa como eu inicialmente desejara.
Junto comigo estavam minha amada Isabella, os policiais detetives Maruja, com seus traços fortes e exóticos, Lisandro, com seu preto e bem aparado bigode que dava à boca um estranho aspecto sorridente e Molina, junto com a irmã Leona, que tinha uma incrível semelhança com Rosalie, minha cunhada e o delegado Porcel, que suava nervosamente, provavelmente desejando não estar ali. Confesso que compartilhava do nervosismo dele e ele só ficou pior quando uma senhorita trajada como uma dançarina de zamba gaucha, um ritmo bem popular na Argentina, perguntou o que queríamos consumir.
Cada um de nós deu uma resposta diferente, porém, a de Lisandro me deu um susto: ele pedira algo que se chamava “Drink A+ com chocolate misturado”. Perguntei o que era aquilo e ele me disse que era um drinque parecido com sangria, mas que era misturado de acordo com o pedido dos clientes, o que estranhei, considerando que a sangria não era uma bebida que variava muito. Porém, olhar para aquele detetive me dava uma estranha sensação de “deja vù” e de repente as imagens antigas que vi ao apertar o rubi escarlate vieram em minha mente.
Lisandro tinha cabelos escuros como a noite, um bigode bem aparado e não muito farto, uma pele branca luzidia e pálida, era alto e sua figura era esbelta e um tanto aristocrática, que me fazia tentar entender o que exatamente alguém daquele porte fazia na polícia. A mesma coisa eu me perguntava de Molina, que embora parecesse a pessoa mais impossivelmente apagada do planeta por conta de sua aparência um tanto executiva demais, tinha um felino lampejo nos olhos, como se estivesse em constante temporada de caça.
Entretanto, meus pensamentos se viram interrompidos por uma música que começara a tocar e assim, por um tempo que pareceu longo demais, meus ouvidos foram escutando tangos, boleros, milongas, chacareras, chamamés, valsas, zambas gauchas, cumbias, românticas ou dançantes, músicas folclóricas, rocks, pops e outros tantos e variados ritmos em uma estranha e interessante mistura de antiguidade e modernidade que me seduziam e levavam a um fantástico mundo que tinha a noite como sua mais colorida face com vários corpos dançando alegremente em pares enquanto o dia parecia cinzento e sem graça com sua correria louca desenfreada.
De repente, fui acordado de meu devaneio por um por um guinchado alto e sinistro que vinha da rua, que fez com que todos os sons fossem cortados. O delegado Porcel logo largou o copo de refrigerante que tomava: — O que é isso?!
– Isso, delegado, deve ser uma daquelas coisas que andaram aparecendo – disse Molina se levantando rapidamente e sendo seguido por Leona, no que a dupla foi seguida por Porcel, Lisandro e Maruja já com as armas em punho, ao que o delegado disse: — É melhor irmos junto, não queremos vocês dois correndo risco, seja lá qual for a razão pela qual vocês estão saindo.
– Nós entendemos disso melhor que o senhor. Melhor você e Maruja ficarem de fora se não querem se machucar – disse Leona um tanto arrogante ao que Molina fez um gesto para que ela se calasse no que me perguntei a razão pela qual ela não incluíra Lisandro na frase. Também, me questionava a razão de eu e Bella termos ido atrás deles. Eu confesso que tinha certeza de que aquilo não terminaria bem ou no mínimo teríamos alguma visão muito desagradável.
Quando enfim estávamos do lado de fora, o delegado quase desmaiara ao ver um grupo de criaturas diabólicas no meio da rua, acompanhadas por alguns outros que pareciam um grupo de nômades, no que, por algum motivo, me escondi junto com Bella, sentindo que já os conhecia de algum lugar. Foi quando notei que Molina e Leona me olharam pelo canto do olho, como que reconhecendo de onde eu vinha, seja o que fosse que eles estivessem querendo deduzir. Porém, algo me dizia que dois velhos contos da minha família eram verdadeiros.
– Nós queremos saber onde está o Cullen. Recusem-se a responder e vamos dar um jeito em todos, incluindo quem estiver dentro do bar – disse quem estava à frente, uma mulher que parecia saída de um filme de ficção científica.
Em um impulso, saí de onde estava, apesar dos inúmeros protestos verbais de Bella e sabendo o que eram os frequentadores daquele bar e os que estavam lá fora: — Sou eu! Sou Edward Cullen!
Eles me olharam com profundo ódio enquanto duas cenas de terríveis de estaqueamento vinham à minha mente. Meu dom realmente se ampliara, tanto que eu finalmente podia acreditar no que meu tio Carlisle me contava sobre os Cullens do século dezenove, que eram destemidos e habilidosos caçadores de vampiros que eram realmente malignos.
– Mais um passo e suas cabeças vão rolar por essa rua – disse Molina com uma coragem fora do normal.
– Quero só ver, meros tolos mortais! – zombou ela ao que o detetive alto e magro e fechou a mão em punho, no que vi um no pulso bracelete que se converteu em uma luva cheia de escamas metálicas com uma reluzente pedra preciosa vermelha no centro das costas da mão e outra, de cor azul, próximo ao fim do antebraço, que estranhamente Bella reconheceu, exclamando:
– Witchblade!
– Como é?! – perguntou Porcel, confuso como nunca estivera. Admito que também me senti confuso ao ouvir minha amada dizer aquilo. As criaturas ali presentes só ficaram, pelo menos por enquanto, observando enquanto Molina e Leona esperavam para começar uma luta.
– A Dama Letal, a mais mortal arma utilizada pelos caçadores de demônios. Somente o escolhido pelo espírito de Rassilon, seu criador, pode utilizá-la. Minha nossa, nunca pensei que veria isso. A mamãe iria vibrar se visse – disse Isabella no que lembrei que Renée, minha sogra, era estudante de ocultismo e sobrenatural.
De repente, a vampira quis avançar em mim e José Armando levantou uma das pernas, dando um inacreditável giro sobre o eixo do próprio corpo seguido de um incrível chute giratório que fez a cabeça dela literalmente ser arrancada do pescoço, o que causou um tremendo rebuliço dentro do pub bar, já que a vampirada tinha resolvido espionar para ver qual era a situação.
– Meu Deus! Que porra foi essa?! – exclamou o delegado enquanto José Armando, Leona e Lisandro, já mostrando quem era e a que viera, lutavam com os outros vampiros e demônios no meio da rua sem se importar se alguém fosse passar e visse a inacreditável cena.
Pelo menos outros três vampiros saíram para dar uma ajuda, mas logo foram impedidos pelo aparecimento inesperado de outro vampiro que era decididamente o maior que eu já vira até o momento: ele tinha pelo menos dois metros e algo de altura, um enorme físico que competia seriamente com o do meu amigo e colega Jacob Black e traços muito semelhantes ao de um famoso cantor de tango, porém, estava muito na cara que ele tinha sangue indígena misturado com seus traços brancos, considerando o cabelo comprido, negro e liso e a expressão atarracada povoada por dois olhos vermelhos e duas presas animalescas.
As habilidades dos dois vampiros do grupo de lutadores eram tais que eu mal conseguia enxergar ele e Lisandro fazendo algo ao passo que eu me impressionava com as impressionantes habilidades de luta e a força de Leona, apesar dela estar usando um salto agulha de quase dez centímetros e Molina, que apesar da magreza, mostrava uma capacidade que eu duvidava que alguém do porte dele tivesse, o que indicava que ele tinha sido muito bem treinado, provavelmente desde uma idade muito tenra. Sem aviso, uma pontada de amargura tomou conta do meu coração.
Quando finalmente a luta havia acabado, passados pelo menos vinte minutos, tendo como saldo final vários corpos de vampiros sem cabeça ou virados em pó por causa da “Dama Letal” ou por causa de Molina e Leona e demônios antes grandes e horrendos virados em uma gosma verde e fedorenta que me nauseou o estômago.
Assim que os dois, que logo descobri serem irmãos pelo modo como se tratavam, se recompuseram, Porcel foi o primeiro a se manifestar: — Como...?! Não pode ser! Mas o que vocês dois fizeram e como?! E o que é essa coisa no seu antebraço, Molina?! E você é...? Ah meu Deus do céu! El fiscal de la Patria! Jesus Cristo!
– Acho melhor entrarmos e conversarmos. Aqui fora não é seguro, pelo menos não agora – a voz de Leopoldo Belmondo chegou aos nossos ouvidos como se cortasse o ar à volta. Tomei um susto tão grande que faltou apenas um pouco para que eu urinasse nas calças enquanto o pobre delegado quase tinha um infarto.
Todos assentiram, embora Maruja e Porcel ainda estivessem em choque com o que acontecera, especialmente ela, como se estivesse revivendo algum pesadelo anterior. Entramos e finalmente pudemos entender um pouco do que tínhamos visto...
– Oras, e se não são os caçadores de demônios Morresi e o descendente dos Cullens da Inglaterra? Eu deveria ter suspeitado quando o vi pela primeira vez, senhor Cullen – disse ele me oferecendo um drinque.
– Morresi? Molina, você é...? – o delegado perguntava espantado ao que José Armando respondeu, interrompendo o raciocínio do chefe: — Filho de Francesco e Elizabeth Morresi, José Armando Molina Morresi. Registrado como filho legítimo.
– Nem pense em dizer que você é simplesmente adotivo. Você é filho dos nossos pais e meu irmão – sorriu Leona enfatizando os possessivos da frase.
– Então eu tenho um vampiro e um caçador de demônios na minha delegacia? Meu Deus, essa definitivamente é a noite mais espantosa da minha vida! – disse o delegado limpando o suor da face nervosa usando um lenço.
– O senhor não pretende nos demitir, não é? – perguntou Lisandro, que eu descobri ser ninguém menos que o político conhecido como “Fiscal de la Patria”, Lisandro de la Torre, que havia cometido suicídio em 1939, com setenta e um anos incompletos, cuja descoberta me causou as seguintes dúvidas: como ele havia se tornado vampiro e rejuvenescera tanto a ponto de parecer alguém com menos de trinta?
– Não tenho razões para perder gente tão preciosa, tenho? – Porcel o olhou como se perguntasse que espécie de besteira ele tinha dito.
– Agora que o senhor sabe sobre nós, coisa que não deveria acontecer, considerando o acordo silencioso que os vampiros-priores têm, terei que tomar uma decisão bem séria com relação a sua pessoa. Entretanto, se você jurar solenemente calar-se para o que sabe, poderei facilitar as coisas – disse Leopoldo ao que eu interrompi mesmo sabendo que tomaria uma bronca: — Por favor, não faça nada contra o delegado Porcel. Eu acho que quanto mais ajuda, melhor. Você certamente sabe que o que estamos enfrentando não é comum nem mesmo ao senhor.
– Não posso negar que disse algo certo, senhor Edward. Então, señor Porcel, jurará solenemente manter silêncio sobre os segredos da noite? – perguntou o “vampiro-prior” como se conduzisse um ritual enquanto eu só conseguia observar.
– Juro solenemente manter meus lábios calados sobre os segredos noturnos – disse firmemente o delegado, que de repente não parecia mais tão nervoso quanto antes ao passo que eu ficava cada vez mais.
Belmondo sorriu por alguns segundos e logo disse: — Nunca vi juramento tão verdadeiro em minha longa vida. Lisandro tem razão quando diz que você é o melhor no que faz.
– Desculpa as perguntas, mas, como foi que De la Torre ficou tão jovem? E ele não usava barba por causa de uma cicatriz na bochecha causada por um ferimento em um duelo? – Maruja finalmente conseguira dizer algo embora não tivesse tirado os olhos de Leopoldo um segundo sequer. Eu podia dizer o mesmo do vampiro em relação a ela.
Nicolás Lisandro, nome de batismo do vampiro policial detetive, pegou um guardanapo da mesa e logo limpou as bochechas, revelando que estava usando pó de arroz branco e uma cicatriz em uma delas. Confesso que não sabia o que dizer sobre semelhante situação enquanto Bella não conseguia articular uma palavra sem tremer a voz. Dava razão a ela, pois eu me sentia muito pior, mas, precisava manter Isabella calma, por isso escondia meus sentimentos.
Entretanto, ele nada dissera sobre seu processo de vampirização, deixando Maruja no vácuo. Pensei sinceramente que ele estava sendo indelicado com ela, sendo que fazia anos que eles trabalhavam juntos, porém, algo me dizia que o vampiro tinha razões muito fortes para nada dizer, o que me fez pensar em que motivos ele teria para ficar vivo naquele caso porque ao que tudo indicava, ele não exatamente escolhera aquela vida, se é que podia ser chamada com essa palavra.
Foi quando Leopoldo olhou para mim e Bella: — Senhor Cullen, por acaso você tem recebido ajuda de L?
– Sim. Você sabe quem ele é? – perguntei um tanto temeroso.
– Já tentei de tudo para descobrir, mas ele se esconde muito bem. L é definitivamente um enigma cuja resposta nem eu sei decifrar – a resposta dele me fez abrir a boca em um “o” surpreso, pois não era possível que um vampiro tão poderoso pudesse ser “ludibriado” daquela forma.
Logo após ver minha reação, Leopoldo explicara que “L” aparecera há pelos menos cem anos, durante a ocorrência de um misterioso “buraco de minhoca” que aparecera na cidade de Rosario, ao que ele, vestido com elegantes roupas, uma capa negra e uma máscara que cobria toda a cabeça, descobrira que o tal buraco nada mais era do que uma prisão subterrânea criada por um juiz inescrupuloso, que algum tempo antes havia se fingido de morto, para se vingar de seus desafetos. Questionei-me sobre “L” ser um vampiro ou algum humano que “passava o cetro” para alguém a cada algum tempo e lógico, sobre como esse detetive conseguia se esconder do “vampiro-prior” da Argentina.
– Interrompendo a conversa, mas, o que raios está acontecendo em Buenos Aires? Há modo de resolvermos isso? – Porcel queria respostas para poder continuar trabalhando e pelo visto ele parecia determinado em continuar mesmo que aquilo estivesse longe de seu alcance.
– Há modo, mas é preciso dom paranormal de Edward Cullen – disse o vampiro grandalhão no que comecei a tremer.
– Eu sei disso e L já me disse qual provavelmente é o modus operandi de quem possa estar por trás disso, porém, encontrar os amuletos malignos não vai ser tarefa fácil – eu disse e logo expliquei ao delegado, Maruja e Molina qual era a situação por inteiro, deixando o trio horrorizado.
– Eu deveria saber que era isso. Aquele maldito vampiro não dá ponto sem nó. Eu só preciso saber quem é o aliado dele e o esconderijo de ambos. Só assim vamos acabar com isso de uma vez por todas – disse Leopoldo de uma forma fria e cortante.
– E quem é o seu inimigo nesse caso? – Bella enfim conseguia dizer alguma coisa.
– O nome dele é Mariano Amenábar e é tão antigo quanto eu. O responsável pela morte da minha família apenas dois anos depois que chegamos a esse território para colonizá-lo em nome de Isabel, a Católica. Foi aqui que eu queria recomeçar depois de falir na Espanha e aqui eu encontrei meu destino – disse ele com tristeza.
– Por que ele agiu assim? – perguntou Bella e logo notei que os outros se perguntavam a mesma coisa, consternados por saberem semelhante monstruosidade cometida.
Belmondo explicou que Amenábar era um general da frota armada do então Império Espanhol que sonhava em desposar a irmã caçula dele, porém, a jovem se apaixonara por um índio e assim Leopoldo acabou por ficar amigo dos indígenas, permitindo que sua pequena favorita se casasse com ele, no que eles tiveram um filho que fora batizado como católico, recebendo o nome de Alfonso, que logo fora apontado como o enorme vampiro ao lado dele.
– Nossa, tio e sobrinho vampiros. Uma família bem incomum – Porcel bem que tentou abafar um riso.
Retomando a palavra, Leopoldo contara que Mariano não gostou nem um pouco do que sua ex-futura pretendente tinha feito e queria vingança. O vampiro disse que logo tratou de esconder a irmã e o sobrinho então bebê, mas que o cunhado se recusou a abandonar a tribo e que se eles tivessem que morrer para defendê-la, o fariam.
Quando o dia da vingança de Amenábar enfim chegara, nem os pais e os outros irmãos de Leopoldo Belmondo escaparam da morte, sendo falsamente acusados de traição por terem colaborado com os índios da região. A irmã e o pequeno Alfonso haviam escapado assim como o vampiro, que encontrara seu destino de sangue ao ser atacado pelo ancião da tribo, que se revelara uma criatura noturna ao que a irmã dele, apavorada, apertou o bebê contra seus braços, mas, surpreendeu-se ao perceber que o velho só atacou a ele e antes de partir, deixara um cetro mágico e as seguintes palavras: < “O destino deste lugar futuramente estará nas mãos dele. Encarrego-te de protegê-lo até os últimos dias de sua existência e quando passar deles, serás a segunda entre os mais poderosos.” >
A história deixou todos de boca aberta, inclusive eu. Mas, ainda havia duas lacunas que precisavam ser preenchidas:
– Senhor Leopoldo, como aconteceu a vampirização desse Mariano? E sua irmã continua entre nós?
– Um rival da tribo onde morei o mordeu. E sim, María Luna continua ao meu lado mesmo após 605 anos e inclusive você não se apresentou, sua mal educada – riu Leopoldo e de repente vimos surgir uma linda espanhola de cabelos escuros de trás de um dos balcões do local: — Soy María Luna Belmondo, hermana de Leopoldo y madre de Alfonso. Gracias, José Armando y Leona, por exterminaren a los demonios. Discúlpenme por no luchar, pero, necesitaba proteger a unos niños que vinieron comer aquí.
Eu e Bella sorrimos enquanto o enorme vampiro sorriu e se levantou para cumprimentar a mãe e as únicas coisas nas quais pude pensar ao vê-lo em pé era em uma intransponível muralha feita com os melhores tijolos e nos antigos filmes western de Hollywood, onde os índios se vestiam com roupas de pele ou couro e Alfonso não era tão diferente.
Foi quando Porcel tomou novamente a frente: — Terminadas as apresentações agora, por favor, vamos falar sobre o que está acontecendo e armar um plano?
– Eu tenho que concordar com o delegado. Agora, é preciso descobrir mais sobre isso e planejar uma estratégia de ataque. Esperar não é mais permitido! – disse Leopoldo determinado.
Apenas alguns minutos depois, estávamos saindo de lá para a casa de Leopoldo, onde poderíamos pensar melhor em tudo o que estava acontecendo e nos preparar para uma provável guerra.
Agora, era tudo, ou nada.
Notas finais
Witchblade:
http://imageshack.us/photo/my-images/171/254646102522witchblades.jpg/
María Luna:
http://imageshack.us/photo/my-images/14/600fullyvonneromain7.jpg/
Cemitérios da Chacarita e Recoleta:
http://www.cementeriochacarita.com.ar/
http://www.cementeriorecoleta.com.ar/
Cristina Kirchner, primeira presidente mulher da Argentina:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristina_Kirchner
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