Notas iniciais
Não está tão emocionante, mas vamos lá!

A luz é simplesmente muito forte. Por um momento, me senti cego. Meus olhos ardiam, e o ar me levantou, me empurrando contra a parede.
Sinto as minhas forças se esvaírem, saírem de mim. O prédio está mais quente, e sei que está em chamas. Daqui a pouco bombeiros e policiais estarão aqui. Não quero arrumar encrenca, então me levanto, reunindo todas as minhas forças.
Não sei se vou conseguir. Continuo tentando.
Olho para a vigia. Ela está deitada e frágil. Não posso dizer se está morta, na verdade. Mas não tenho tempo para confirmar. A policia está a dez quadras daqui. Eu ouvi, mas nào sei da onde.
O rádio diz para vir imediatamente três unidades... já avisaram os bombeiros. A explosão demoliu a parte leste do prédio, e atingiu uma circunferência de cinco metros tudo que estivesse perto. Eles disseram isso pelo rádio. Os bombeiros vão atrasar na fábrica, porque tem que apagar a presença de fogo na floresta.
Uma voz de noticiário me atinge.
Policiais já estão a caminho do incêndio. A explosão aconteceu por volta de meia noite e meia. O cientista federal, Yorima Horaime, confirmou que a causa foi criminosa. Três viaturas foram até lá, para acalmar as vinte e nove pessoas por perto da explosão que tiveram suas casas queimadas.
Isso não estava no plano. Se Edward tivesse me contado o que era que ele procurava, o que ele faria, talvez tudo isso pudesse ter sido evitado...
Me levanto e corro. Pulo os destroços. No caminho, eu alcanço as viaturas. Não tem mais por onde passar. Tento pular novamente, e o tempo passa lentamente.
Olho para os rostos dos policiais, gritando e atirando. As balas passam, uma ao lado da minha orelha, outra perto do meu braço, pelo lado da perna, uma tem que me atingir.
A dor agoniza meu braço direito, mas eu continuo correndo. E corro. Não sei como posso me desviar das balas, mas eu consigo.
Preciso me esconder.
Chego em casa, e tiro minha máscara. Ela está bem rasgada, furos pelo tecido preto de ladrão. Não acredito que isso aconteceu e eu estou vivo. Deve ser muita sorte minha.
Pelo que aconteceu, talvez não.
Entro em casa, e tento explicar para minha mãe o meu sumiço. Algo como: Leyland esqueceu de pegar o seu casaco na aula de química, que aliás, é no último andar, e nossa escola é desprovida de elevadores. Sei que é um exagero enorme colocar elevadores em escolas, mas na maioria das vezes a minha desculpa por chegar atrasado na aula de química é o fato que nós não temos elevador.
Troco de roupa, guardo as roupas cheias de cinza dentro do armário, tomo um banho( estou fedendo pra porra) e coloco um jeans qualquer, uma camiseta do Green Day, e chego na escola pelo ônibus de sempre.
Esqueci de tomar café da manhã, mas não importa em comparação aos milhares de desabrigados por causa de um incêndio que a única razão foi a idiotice do Edward.
É, eu estou puto. É, eu vou foder com a raça dele.
—Ei, Jackie, o que aconteceu com a sua mão?- pergunta Leyland.
Olho para minha mão. Ela está parcialmente preta, principalmente onde eu segurei aquela maldita pedra. Tem até alguns resquícios da pedra roxa.
—Nada.- eu digo, me sentando do seu lado. -Só queimei passando a roupa.
Ele sorri. -Eu que achava que eu era azarado.
—Mas você é, sim.- digo. Ele só não é azarado em fazer os outros gostarem dele. Tem todo o jeito de conseguir alguém rir. Ele não precisa de beleza para isso. Apenas seu cabelo preto desajeitado e sorriso largo com dentes irregulares.
Um dia ele se dá bem, é o que eu sempre digo pra ele.
—Ei.- ele me chama, e aponta para uma garota de cabelos morenos na frente. Acho que já vi ela em algum lugar... -Ela é nova. Faltou o primeiro dia. Sabe por quê?
—Não- respondo.
—Nem eu, mas ela quebrou o braço em algo. E é bem gostosa.- ele fala. Não consigo ver ela de frente, mas ela vira a cabeça em nossa direção.
—Parece que ela tá ouvindo.- eu digo. Aquele rosto parece familiar, sim. De onde será que eu tinha visto ela?
O sino toca quando saímos da escola. É agonizante. O barulho está tão alto...
TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMM!!!!!!!!
—Aaaaaaarrrrrgh!- eu tampo os ouvidos o mais forte que eu puder. Desde quando eu tenho super-audição? Será que é isso?
—Porra, Jack, cê tá bem?- pergunta Leyland. -Que bosta tá acontecendo com você?
—Essa merda tá alta!-eu grito. -Desliga!
E o sinal para. Meu ouvido ainda está estragado. Olho para trás: alguém tinha caído do ônibus. Me levanto para ajudar.
Dou uma ajuda para ela. Quando ela é levantada, sei quem é.
É a garota nova.
—Ops- ela diz, tímida. -Quase que eu quebro o outro braço.
—Como foi que você caiu?
—Acho que eu tô meio desastrada hoje. -ela coloca uma mecha do cabelo atrás da orelha. -Valeu.
—O dia pode melhorar.- eu falo. Ela sorri. -Eu sou Jack. Jack Steggerson.
—Caitlin. Caitlin Roddley. Até mais então.
Eu não sei o que dizer.
—Até...- me sinto um idiota. Leyland se aproxima. Ele chega bem perto, e sussurra:
—Cara, ela tá na sua.
—Duvido.
Mas não deixo de sorrir. Continuamos a andar.
Três horários depois, ainda tentando desvendar a minha audição avançada, guardo as coisas no armário. Está na hora da aula de física. É o que? Sexta? Tomara. Sendo assim, eu fecho o armário, e acompanho Leyland até a aula. Ele não para de falar.
—Você viu aquela explosão? É claro que viu.- ele fala, quase falando sozinho. –Todo mundo viu. Foi um som devastador. Muitas pessoas foram afetadas.
Eu paro.-Afetadas? Como assim?
—Você não soube. Cara, trinta casas ao redor tiveram pessoas com queimaduras de segundo grau. Algumas estão com tipos de vírus no corpo.
Não sei se me sinto bem por estar vivo ou mal por saber que isso tudo era parcialmente minha culpa. Como isso foi acontecer?
Ainda penso na palavra.
Afetadas.