Chá verde

17 XVII. Gotas do oceano


Despertei completamente perdido no tempo, sem saber se era dia ou noite, o lugar estava iluminado, acostumei à vista no ambiente de janelas fechadas, eu estava numa cama de hospital, e me sentia o pior de todos os homens.

Entrou no quarto uma jovem mulher de coque e vestida de branco.

— Como o senhor está se sentindo?

Tentei movimentar o braço esquerdo, porém, o encontrei imobilizado por uma tipoia.

— Cuidado. Disse ela. — O senhor sofreu uma subluxação no ombro e terá que ter cuidado ao movê-lo por algum tempo.

Olhei novamente para a base do meu braço, em seguida para a enfermeira.

— Desculpe.

A enfermeira ruborizou e desviou o olhar.

Tentei me lembrar do que havia me levado até ali.

A porcaria da picape...

— O senhor lembra-se do que aconteceu?

Assenti.

— Está sentindo alguma dor?

— Não.

— Ainda está sob efeito do medicamento que inibe a dor, precisa de algo?

Neguei.

— Tudo bem, daqui a pouco o doutor virá vê-lo.

A jovem enfermeira saiu um pouco dispersa.

A minha cabeça só queria entender o porquê daquela fatalidade ter acontecido comigo justo naquele momento.

Anna...

Suspirei.

Alguns minutos depois o médico entrou no quarto ele era um senhor de meia-idade educado e bastante profissional, contou-me que eu tive sorte em sair do acidente com apenas um corte no supercílio e uma subluxação no ombro.

Foi-me prescrito o diclofenaco para caso eu venha sentir dor, recebi recomendações de repouso devido ao braço.

Sair do hospital com uma tipoia estabilizadora de estofada Velpeau, que servia para limitar os movimentos do ombro.

Eu deveria ir para casa, mas eu sabia que a minha família não estava lá, o táxi seguia em direção a casa grande onde Anna e Abbie estavam.

Paguei a corrida e com cuidado sair do carro, no jardim Kátia Stepanov irrigava a aquarela de flores.

Ela me olhou inexpressiva.

— Oi Kátia, eu vim falar com a Anna. — Falei direto sem lhe dar oportunidade de inventar uma desculpa como “ela não está aqui.”

Ela ponderou por segundos e suspirou.

Vamos Kátia... Ajuda-me a recuperar o meu amor...

— Está no antigo quarto.

Olhei-a de maneira agradecida. Entrei como um louco em casa e fui direto para a escada.

— Sr. Dushkin...

Uma das empregadas me chamou, mas eu só queria ver a Anna.

Eu precisava falar com ela, tinha tanto a dizer...

O amplo espaço de portas fechadas me era familiar a sensação de déjà-vu dos nossos momentos compartilhados naquele lugar me trouxe confiança...

Entrei num rompante no quarto, o semblante chocado da minha mulher foi cômico. Ela estava sentada no chão com as pernas em formato de Sukhasana, segurava no ar uma fotografia sem porta retrato.

Eu só queria segurá-la em meus braços e trazê-la para perto, mas do jeito que ela estava irritada comigo, eu não seria bem recebido.

— O que aconteceu com você? Perguntou assim que seus olhos azuis caíram sobre o meu braço repousado na tipoia.

Nem sequer pensei em meu braço afetado.

— Para me manter longe de você meu amor, só estando impossibilitado.

Ela ruborizou e quase sorriu, no entanto, vi sua expressão se fechar.

— Não me venha com galanteios, estou irritada com você. Deixou a fotografia de lado.

— Eu sei que está, mas as minhas palavras não deixam de ser verdadeiras.

Ela se levantou e ficou por alguns minutos apenas me olhando com um olhar melancólico.

— Você deveria ter me dito a verdade quando eu perguntei, mas não, você escolheu esconder seu romance interrompido com a garota da Polinésia, você me enganou Aleksandr! E não estou falando da sua ex-namorada ser a atual namorada do Ivan, o que dói foi descobrir da pior maneira possível que você ainda possui sentimentos por ela.

Encarei-a surpreso.

— Não foi assim, Anna deixa-me...

Ela ignorou-me ao manter distância, para finalmente virar e me olhar tristemente de um jeito que me doeu a alma.

— Se queria tanto estar com ela porque gastou tanto tempo comigo? O que eu fiz a você, afinal?

Anna estava vermelha, eu nunca a vi em tal estado.

— Teria me poupado tantas noites de insônia. Tocou a lateral do seu rosto e continuou. — Teria me poupado de estar passando por tudo isso agora, era só ter falado!

Suas lamentações me iram, ela queria ter ficado longe de mim? Justo ela que havia posto tanta fé em nosso amor.

— Eu fiquei por te amar mulher! Finalmente consegui dizer.

Anna ficou imóvel.

— Você acredita que eu ficaria com você todos esses anos se não te amasse?

Silêncio.

Eu ri sem humor.

— Se você acredita que sim, realmente você não conhece o seu marido. — Estamos juntos há tanto tempo e eu nunca ousei tocar em outra mulher, você me é suficiente.

Anna me lançou um olhar acusatório.

— Tão suficiente que te vi numa cena no mínimo suspeita com a namorada do meu primo.

— Não houve traição!

Anna deu alguns passos para perto.

— Diga-me uma coisa.

Esperei.

Ela tocou seus próprios lábios, pensativa.

— Naquela noite em que você não quis me tocar, você estava pensando nela, não é?

Nós não estávamos em uma boa ocasião para falar daquele assunto.

— Anna não faz isso...

— Apenas responda.

A verdade doeria tanto nela como em mim. Após um curto silêncio eu disse.

— Eu estava confuso, fazia muito anos que não a...

— Então você realmente estava pensando nela. Falou decepcionada.

Uma história interrompida foram anos sem qualquer informação, na verdade, eu fiquei surpreso com o seu aparecimento repentino.

— Não do jeito que você está pensando...

Um suspiro alto.

— Eu não quero ouvir mais nada, só vai embora Aleksandr, deixa-me em paz.

Uma gota de oceano caiu dos seus olhos tristes e distantes, seguida de outras lágrimas.

Isso não terminaria assim, nós ficaríamos juntos, somos parte de um todo.

— Anna, eu...

Tentei tocá-la, entretanto, ela virou de costas.

— Deixa-me em paz. — Suplicou baixinho.

Anna estava ferida aquela conversa não foi como eu esperava e por amá-la de todo o coração sair do quarto, minha Abbie estava no andar de baixo e ficou tão feliz ao me ver que correu para os meus braços.

Abaixei-me para recebê-la.

— Oi, minha princesa. — A abracei com o braço bom e cheirei seus cabelos sedosos.

— O que houve com o seu “blaço”?

— Papai o machucou, amor, mas vai ficar bom logo, logo.

— Veio nos buscar?

Aquela frase doeu em meu coração, saber que eu não podia fazer isso, como explicar a sua filha todo aquele caos?

Resolvi investigar.

— O que a sua mãe falou para você?

— Que nós vamos passar um tempo aqui na casa do vovô.

— Isso mesmo.

— Por quê?

— Sua mãe está com saudade do seu vovô e vovó, então decidiu ficar um tempo aqui. Tentei sorrir.

— O senhor vai ficar sozinho e dodói? Perguntou cheia de dó.

— Papai não está dodói, meu bebê, só machucou o braço.

Convenci Abbie que eu ficaria bem, ela queria ir para casa com a sua mãe para cuidar do pai machucado.

Tão pequena e tão caridosa.

Por mais que eu não quisesse mexer na história do furacão Aurora que havia retornado para bagunçar a minha vida. Eu não a odiava pelo que ela fez comigo, eu não cumpri nenhuma das promessas feitas a ela. Eu não lutei pelo que eu queria não a amei como ela merecia, sem ter a intenção de machucá-la mesmo assim o fiz. A imaturidade juvenil consegue destruir bem mais do que apenas si próprio.

Eu não tinha palavras para dizer o quanto eu me arrependia da tempestade que provoquei. Meu relacionamento com a minha mãe, Aurora, Anna e até mesmo com o Ivan que era tão inocente naquela história quanto a minha Anna era devastador.

Deparar-me com a figura masculina de Ivan em frente à minha porta me trouxe a certeza que nós teríamos uma conversa difícil.

As olheiras fundas indicavam sua falta de sono e eu poderia imaginar o motivo.

De supetão ele me deu um soco na cara.

Eu não revidei se ele se sentisse melhor após o ato eu não me importaria se ele quisesse quebrar o meu nariz.

— Pensei muito antes de tomar a decisão de vir até aqui. Pausa. — Mas achei que o mínimo que eu merecia era saber de toda a verdade.

Era justo

— Você dormiu com a minha namorada?

Ele me bate e depois se dá ao trabalho de perguntar.

Silêncio.

Antes de tudo ele precisava saber da história desde o começo.

— Você está tendo um caso com a minha mulher! Gritou cheio de raiva.

— Não! Eu não estou.

Ele deu um passo para frente e me olhou friamente.

— Me diga a verdade. Exigiu.

A verdade era uma só, eu não tinha nada com Aurora há mais de dez anos, não sabia que ela era a namorada do Ivan. Meu erro foi não ter falado sobre o meu passado com a minha mulher.

— Essa é a verdade.

Refletiu.

— Então, você me acha tão idiota para acreditar que a minha prima deixou você e voltou para a casa dos pais simplesmente por descobrir que a minha namorada é a sua ex? Ele usou um tom provocativo.

— Nós tivemos um mal-entendido, mas logo iremos resolver tudo. Disse com uma confiança que eu não sentia.

Eu só estava sendo um papagaio de pirata nas minhas repetições, o que me deixava triste era saber que por mais honesto que eu seja, eles querem acreditar numa “traição”.

— O que quer saber, Ivan? Só pergunte de uma vez.

Ele começou a andar de um lado a outro estranhamente calmo até parar no meu lado esquerdo de um jeito inquisitivo…

— Como você conheceu Aurora?

Nem precisei pensar na resposta.

— Numa viagem à Polinésia Francesa com a minha mãe quando eu tinha 17 anos. — A vi pela primeira vez em uma loja, depois de alguns dias eu a reencontrei na praia e ali foi o nosso começo.

— Por que a deixou?

Suspirei cansado.

— Ivan, isso não tem mais importância.

— Eu preciso saber. Insistiu.

Tentei procurar as palavras certas.

— Eu sabia que a minha mãe não gostava da minha aproximação com a Aurora, então, nós namorávamos escondidos, assim como a própria Aurora não sabia sobre a minha data de retorno.

— Você a deixou. Afirmou de um jeito acusatório. — Você sequer se deu ao trabalho de se despedir da garota que você dizia estar apaixonado.

Ele me olhou com julgamento

— Como pôde ter feito isso? Fazer promessas a uma moça, promessas que você sabia que não conseguiria cumprir.

— Você. Não. Sabe. De. Nada. Falei com raiva contida.

Quem ele pensava que era para se achar no direito de me julgar de se meter na minha vida dessa maneira? Poderia me odiar e acreditar que eu estava tendo um caso com a namorada dele, mesmo não sendo verdade. Mas daí a se meter numa história que ele não fazia parte era demais. O passado me feriu, os desencontros me fizeram entender sobre um autoconhecimento dos meus sentimentos reais e duradouros.

Me vi com a necessidade de continuar. — O plano não era esse, mas a minha mãe descobriu tudo e me trouxe de volta para a Rússia e desde então eu nunca mais a vi.

— Até o dia da festa na casa do meu tio.

Assentir.

— Por qual motivo Anna saiu de casa?

Não queria falar sobre isso, no entanto, também queria me livrar de todo esse peso inútil.

— Aurora foi me procurar no escritório, e Anna nos viu.

— Você... Como pôde?

Mais acusações.

— Eu não fiz nada. Nós apenas conversamos, ela merecia uma explicação por eu não ter voltado por eu a ter abandonado, eu errei em não ter agido como deveria em dá um final naquela história.

Ivan possuía um olhar vazio ao dizer. — Aurora me deixou e voltou para a sua terra.

Meu queixo quase caiu, foi nesse momento que percebi que o meu queixo estava machucado.

— Pela sua cara você não sabia.

Só esperaria que ele não me culpasse mais do que eu me culpo, quantas vidas eu destruiria sem ter a intenção?

Levei os dedos ao canto dos lábios para ver se tinha sangue.

Não estava sangrando.

— Aurora me contou do seu passado, me confessou estar confusa, e me pediu um tempo. — Assim que fiquei sabendo que a minha prima se separou, pensei que você pudesse estar diretamente envolvido nessa decisão.

O início da frase me cortou como uma espada afiada, Anna não poderia acabar com tudo sem ao menos me dar uma oportunidade de diálogo.

— Eu amo a Anna e a única pessoa que eu quero é ela. Falei sincero.

Com anos de atraso o ponto final foi finalmente colocado numa história que já não faz mais sentido.

Ivan Stepanov estava devastado por ter sido deixado, nisso nós éramos iguais. Perdidamente apaixonados e rejeitados.

— Eu amo Aurora, que ama você e você ama Anna. Que bagunça tudo isso se tornou!

Ele já sabia de tudo e mesmo assim não perderia a oportunidade de vir até aqui me confrontar. Quantas vezes eu teria que me defender? Quantas vezes mais eu teria que dizer que tudo o que aconteceu não passou de um acaso do destino?

Eu jamais voltaria a olhar para outra mulher que não fosse a minha.