Chá verde

18 XVIII. Trapaça


Quem pensaria que um dia eu chegaria a amar a residência dos meus sogros? A casa dos Stepanov se tornou o meu lugar preferido já que a minha mulher e filha estavam lá, eu passava horas a fio em entretenimento com Abbie e tentando me aproximar de Anna que se mantinha educada, porém reservada só conversava comigo quando eu falava diretamente com ela.

A nossa primeira conversa foi malsucedida, tentei outras vezes que infelizmente não deram muito certo.

Eu estava sentado na varanda de vidro da frente, dali eu observava Kátia trabalhar no jardim com Anna e Abbie a ajudando. A minha mulher usava um bonito macacão marrom que destacava suas belas curvas. Por mais que eu a olhasse ela desviava a vista.

— Eu queria entender o real motivo de você ter trocado uma família tão linda como essa. — Gerard apontou em direção a sua filha e neta. — Por uma simples aventura.

Quantas vezes eu terei que repetir que não havia feito nada!

Aparentemente eu já havia sido condenado sem sequer ter tido um julgamento.

Esperei alguns segundos e pacientemente lhe disse.

— Gerard, eu não traí a sua filha, nunca faria nada do gênero com a Anna, eu a amo e não medirei esforços para recuperar a minha família. Falei decidido.

O Stepanov me olhava profundamente, a cor cinza dos seus olhos faria qualquer um temê-lo por serem letais como os de um felino. Sustentei seu olhar completamente ciente dos meus sentimentos e na sinceridade das minhas palavras.

Ele esboçou uma espécie de sorriso ao dizer.

— Boa sorte você vai precisar.

Tive a sensação de que algo passou despercebido, mas o que seria?

Vieram os dias, alguns mais fáceis que outros, todavia, eu sentia falta da nossa casa, da nossa rotina, de acordar ao lado da minha mulher, da sua espontaneidade, de pôr a minha filha na cama e lhe dar um beijo de boa noite na testa.

Numa das minhas constantes visitas à minha família, cheguei ao momento em que Anna e Abbie estavam sentadas no sofá distraídas com a televisão. Logo de início notei que se tratava de um filme infantil.

Após uma recepção calorosa da minha filha, fui puxado pela mão para sentar no sofá também, Abbie ficou entre mim e Anna, e se manteve atenta às cenas do Toy Story. Anna mal se movia no lugar, e tudo o que eu queria era me aproximar mais dela, ao lembrar-me de um tempo em que eu não a queria perto me fazia refletir em toda a ironia que havia naquela situação.

O destino brincou com a minha cara ao me fazer ter convívio com os pais de Anna. Eu que tinha tanta resistência a ir naquela casa se pudesse moraria ali, eu faria tudo para ficar perto da minha família, no entanto, eu não ficava tanto tempo ao lado delas como eu gostaria, pela empresa e por ter que fazer fisioterapia para recuperar o movimento completo do braço.

Naquele dia eu estava empolgado, Anna aceitou o meu convite de ir comigo à fisioterapia.

Apesar da situação delicada que passávamos Anna ainda se preocupava comigo e dirigiu até o centro clínico.

Apresentei-a ao fisioterapeuta.

— Doutor Rubens, essa é a minha mulher Anna Dushkin.

Anna me olhou esquisita, entretanto, não falou nada.

Sim. Baby, nós somos casados e se depender de mim, continuaremos até o fim das nossas vidas, eu amo você com todo o meu coração.

Eu esperava que os meus olhos expressassem todo o amor que eu possuía e que Anna lesse a minha emoção neles, e assim foi.

Completamente embaraçada, ela rapidamente desviou os olhos.

— Prazer. Dr.

— Igualmente. Sra. Dushkin.

Os exercícios que eu fazia envolviam pequenas atividades de coordenação dos movimentos para fortalecer a musculatura do meu ombro.

Após a sessão, eu aproveitei a guarda baixa de Anna para convidá-la a ir até o The Ponds com muita insistência, a minha mulher aceitou ir comigo, Anna amava aquele lugar e fazia tanto tempo que não íamos naquele espaço que ela chamava Oásis megalópole.

A ilustração paisagística do ambiente se destacava numa lagoa que em climas propícios servia como lar de alguns patos, já no inverno era comum usá-lo como pista de patinação.

De repente, eu nos vi numa configuração diferente.

Mesmo diante de todo o caos que estava a minha vida, a minha mulher e eu nunca havíamos deixado passar um aniversário de casamento em Branco, nós sempre fazíamos alguma comemoração que era organizada um ano por mim e no ano seguinte por ela. Aquele ano eu era o responsável, sorte a minha, pois duvidaria que ela fizesse algo. Obviamente, devido a nossa atual situação, Anna não imaginaria que eu fosse planejar, no entanto, eu tinha algo em mente.

Fiz reservas no White Rabbit, antes de ter que lidar com a negação da minha mulher, eu estava determinado a continuar, depois de muita insistência minha para que Anna aceitasse o meu convite, finalmente, eu a esperava na sala da mansão, Abbie estava quieta demais ao meu lado.

— Por que o meu sorriso está tão quieta?

Os olhos me fitavam suavemente.

— Por quanto tempo a mamãe e eu vamos ficar aqui?

Perdi brevemente a fala devido à pergunta inesperada que me deixou com um nó invisível na garganta.

Eu gostaria de ter uma resposta, na verdade, uma excelente resposta para aquela pergunta, entretanto, eu não tinha.

— Tenha um pouquinho mais de paciência, sim? Beijei-lhe a testa. — Você vai ficar bem.

Anna entrou na sala, ela estava séria, mas a sua seriedade não diminuía a minha satisfação por estar ali à sua espera.

— Vamos?

Anna estava linda demais, naquela composição de blusa de gola alta na cor vermelha e jeans escuro.

Despedi-me da minha filha com o coração já saudoso, porém, com a esperança que chegará o dia em que voltaremos a ser uma família.

Olhei novamente para Anna, ao dizer.

— Vamos.

O caminho até o carro foi feito em silêncio, Anna seguia na minha frente com os passos lentos, aquele Jeans ficou ótima nela. Anna alcançou o carro antes que eu pudesse abrir a porta para ela.

O clima quieto de fora possuía contraste com o lado oculto que carregava a minha tempestade interna. Anna evitava me olhar nos olhos, parecia estar inquieta.

— Aonde vamos?

Lancei um sorriso misterioso.

— Você verá.

Anna levantou a sobrancelha de um jeito questionador, mas não disse nada.

Nós enfrentamos um pouco de trânsito, porém chegamos no horário, o restaurante está localizado no 16.º andar de um bonito prédio no centro de Moscou, as vidraças do lugar nos possibilitam olhar em direção a um dos arranha-céus conhecidos como as sete irmãs de Stálin.

— White Rabbit.

— Lugar do nosso primeiro almoço em comemoração a um ano de casamento.

Anna me lançou um olhar incógnito, suas esferas brilhavam em meio a uma intensidade que eu tinha esperança ser vislumbre de um perdão, mas eu estava enganado, pois, em seguida a vi endurecer o olhar.

Tão transparente como se fosse dito em palavras, os seus olhos revelavam o que eu não queria.

— Por favor, Anna... Falei de um jeito suave, se ela quisesse que eu implorasse, assim o faria.

Por favor, meu amor, não me tire essa oportunidade de estar com você...

Ela mordeu os lábios ao desviar os olhos.

— Certo.

Eu não tinha o costume de sorrir, mas naquele momento dei um sorriso satisfeito, Anna sorriu fraco como se tivesse sido pega desprevenida.

O sorriso de Anna era lindo, poderia ser comparado a um sorriso de capa de revista, mas o dela estava, além disso, entretanto, mesmo diante daquele brilho constelar ainda não alcançava suas esferas azuis.

Tentei tocá-la mas ela não deixou uma longa troca de olhar, seguido de um suspiro consternado, eu saí do carro para abrir a sua porta.

A primeira vez que eu fui ao Restaurante White Rabbit foi a minha mulher que me levou, foi ali que descobri seu gosto pelo local. Nós estávamos comemorando um ano de casamento, e tínhamos feito um trato anual de que a cada ano de comemoração cada um de nós teria a função de organizar o aniversário do seu jeito.

A minha memória me trouxe em detalhes o rosto de Anna de cabelo longo e olhar brilhante, nós havíamos acabado de voltar do Brasil, Anna estava tão feliz.

O casamento foi algo muito almejado por ela, todavia, ela nunca me pressionou a tomar qualquer decisão. Por mais errado que eu tenha sido em não oferecer um relacionamento formal a Anna no início da nossa relação. O ato de traí-la nunca aconteceu. Algo me aproximava de Anna cada vez mais, sua gravidez só veio para confirmar o que eu pensava há algum tempo.

Anna me amava, queria ficar comigo, ela lutou por mim, por nós. Eu não poderia não sentir o seu amor ao me tocar.

Mas aquela Anna séria e reservada não parecia ser a mesma Anna de outrora.

Eu havia quebrado o coração dela, havia pedido sua confiança, e por mais inocente que eu fosse, seus olhos me fitavam sem sua característica tão especial, seu amor em sua espontaneidade de ser. Eu inocentemente pensei estar tendo algum progresso com a minha mulher, entretanto, quando um velho pretendente do passado ressurgiu como um fantasma, eu realmente tive medo e o desespero gritou em mim.

O que estava acontecendo na minha vida? Não era castigo demais saber que a minha Anna teria um encontro com outro homem?

Eu estava fervendo de ciúmes e de mãos atadas, vi que a situação estava fora do meu controle, eu me sentia receoso de perder a minha família.

Logo mais a minha Anna iria sair com um ex-namorado que agora a deixava em banho-maria com a típica desculpa de trabalharem juntos.

Ele queria tomar-me a vida, se eu pudesse fazer algo...

Impulsivamente eu me escondi no jardim dos Stepanov, deveria ter traços de masoquismo na minha personalidade, já que insistia em me esconder para ver a cara dele.

Uma BMW prata apareceu na esquina da rua, a velocidade foi diminuindo até parar em frente à casa dos Stepanov, em seguida a porta do motorista foi aberta e uma cabeça loira apareceu tão loira quanto à Anna. A lembrança de um dos ocupantes do jipe retornou a minha mente com força.

Estava um pouco mais velho, todavia ainda se tratava do mesmo motorista loiro de outrora, acompanhei sua caminhada determinada em direção a varanda de entrada, a silhueta de Anna abriu a porta, cordialmente o cumprimentou e o abraçou.

Na hora que eu a vi com ele, fiquei sem saber o que fazer, meus pensamentos gritavam na minha cabeça o porquê de não ser eu ali com ela?

E nada que eu falasse ou fizesse poderia mudar as minhas emoções, com toda a minha convicção eu assumi a mim mesmo que sempre a amei em silêncio, sem realmente dizer o que precisava.

Pouco tempo depois ambos entraram, não poderia mais ver o que acontecia numa irritação não contida agir por impulso ao me aproximar do carro.

As coisas não seriam tão fáceis para aquele Dom Juan, eu não o deixaria ter encontro com a minha mulher, dei um jeito de esvaziar os pneus dele e sorri satisfeito pela minha pequena travessura.

Entrei no carro e dei partida para seguir caminho um pouco menos fulo da vida.

Apenas no dia seguinte quando eu apareci fui saber que eles saíram no carro dela.

O sabor do mel deu lugar ao amargo fel.