Notas iniciais
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Em tempos de calmaria e prestígio, o reino nunca havia tido um governante tão forte e adorado por seu povo. Acabavam de passar por um rigoroso inverno que massacrara os reinos vizinhos, porém as plantas cresciam mais verdes do que o esperado naquelas terras. O rei deu auxilio aos seus aliados e aproveitava a crise para formar novas alianças com seus inimigos.

Algumas pessoas, de fato, sempre querem estragar o que quer que esteja dando certo de algum modo. O boato espalhava-se rápido, como qualquer fofoca suja. Nos becos e tavernas, dos mais pobres aos mais ricos, todos conheciam a história. Diziam que o Rei prometera a vida de seu primogênito para um demônio, em troca ele poderia passar por todas as adversidades que pudessem comprometer o bem-estar do reino.

Os boatos intensificaram-se e, como era de se esperar, muitos já acreditavam. As infelicidades começaram dois anos depois, quando o príncipe, ainda muito novo, fora acometido por uma febre delirante que o impedia de manter-se acordado. Os melhores médicos e curandeiros foram chamados de terras distantes, mas ninguém podia dizer o que estava acontecendo com a criança.

— Perdoa-me! Eu não achei que seria assim. — O rei falava entre soluços enquanto a esposa cuidava do filho inconsciente. — Fiz a escolha pelo reino e agora meu filho está pagando o preço do pacto.

— Do que está falando?

— A bruxa... a bruxa que foi exilada na floresta.

— As histórias são todas verdadeiras, então?

O silêncio que a rainha obteve como resposta deixou-a horrorizada. A vida de seu próprio filho fora trocada por riquezas. Em busca de salvar a criança, ela partiu para o exílio, a floresta separada do reino por um enorme muro de granito.

Apesar de conhecer as histórias sobre os desprezíveis exilados que eram mandados para serem devorados pelas bestas furiosas da floresta, a infeliz rainha arriscava-se seguindo pela estrada de terra. Enquanto cavalgava, ouvia ao seu redor os sons marcantes da loucura que dominava os exilados, como sussurros e risadas. Seguiu a estrada, vez ou outra encontrava corpos de animais em diferentes estados de putrefação, até chegar a uma pequena cabana improvisada com pedras e galhos.

Lá a rainha encontrou a bruxa de quem seu marido falara. Não tinha a aparência de uma exilada, estava muito lúcida e bem vestida. Tinha a pele marcada com marcas profanas e tinha uma pedra estranha pendurada no pescoço por uma fina corrente prateada.

— Que visita ilustre! — Ironizou a bruxa desviando os olhos do pano em que estava fazendo um bordado. — O que lhe traz a um lugar tão desprezível e perigoso, majestade?

— Você sabe o que está acontecendo. Você sabe do meu filho.

— Ah, sei. Sei tudo sobre tudo. A pobre alma que seu marido entregou ao meu amado.

— Salve-o, cancele o pacto! Sei que tens poderes, ajude-me e farei o que desejar! Qualquer coisa!

A bruxa solta uma risada sarcástica ao aproximar-se da rainha. Ela dissera exatamente as palavras que a serva do demônio queria ouvir. A bruxa concordou em ajudar.

— Qual seu preço? Jóias, terras, ouro, títulos...

— Quero a sua alma. — A bruxa tinha um sorriso em seu rosto e uma adaga prateada nas mãos. — Sua vida pela de seu filho. Não faço milagres, apenas trocas.

— Minha vida pela de meu filho. — A rainha suspirou e depois de algum tempo, baixou a cabeça e concordou com o preço da bruxa.

A protetora mãe era guiada por uma divisão da estrada até uma clareira na floresta. Vários vestígios de sangue e fogo eram vistos naquele grande círculo que era formado por algumas pedras. As ordens da bruxa, a rainha fechou os olhos e estendeu o braço direito. Com uma canção suja, a serva invocara seu senhor. O demônio que ali estava ouviu o pedido da rainha e fez uma marca em seu braço. Uma marca tão profana quanto as que estavam espalhadas pelo corpo da bruxa.

O ritual não durou mais do que meia hora e, enquanto voltavam para a cabana improvisada da bruxa, a rainha reparou pela primeira vez no ventre volumoso da outra mulher.

— Quando for mãe, entenderá o que fiz por meu filho.

— Não dou a mínima para seus motivos, majestade. — A bruxa sorri com raiva explícita guiando a rainha até seu cavalo. — Sou apenas uma serva recebendo as ordens de seu mestre. Você tem um dia, amanhã estará morta e seu filho, saudável.

A rainha partiu sem olhar para trás, não aguentava ficar um minuto a mais dentro daquela floresta. Ao voltar para o castelo, recebeu notícias de que seu filho estava melhorando. Como já era tarde, iria deitar-se com seu marido para passar sua última noite. Em um descuido da rainha, o rei viu a marca profana. Cego pelo medo e raiva, mandou que a rainha fosse executada e escolheu seus melhores homens para irem atrás da bruxa, liderados por ele.

— O meu reino, minha alma, meu filho e agora minha esposa? O que mais você quer, meretriz imunda? — O rei gritava raivoso, prestes a ter sua vingança.

— A culpa é toda sua, que nunca serviu para ser rei ou mesmo pai. — A bruxa novamente tinha um sorriso sarcástico no rosto. — Demos tudo o que nos pediu, acho que sua ambição lhe traiu, não é mesmo?

Ao aproximar-se da bruxa para lhe desferir o golpe final, fora apunhalado pela adaga prateada. O machucado não fora grave, ao contrário do que causara. A bruxa estava morta, decapitada pela espada do rei. Como sua última maldição, a adaga que o rei levara consigo continha um feitiço poderoso, que iria adoentá-lo dentro de alguns anos.