A morte da rainha foi encoberta com um falso motivo, poucos sabiam da verdade sobre o que acontecera há dezesseis anos. O rei contraíra uma doença desconhecida que o deixava extremamente fraco, seu reino definhava com seu corpo.

Com a chegada de um rigoroso inverno, a fome e a corrupção destruíam o reino rapidamente. O frio congelara os rios, acabara com as plantações e afastara os animais. Era comum que, em caminhadas pelo reino, os que conseguiam sobreviver encontrassem os corpos congelados dos que não tiveram tanta sorte.

Naqueles meses em que o inverno levava tudo, os cidadãos roubavam uns dos outros e alguns acabavam sendo presos. O rei já desistira de punir os ladrões, concentrava sua guarda em qualquer rumor de bruxaria, apenas pelo trauma de anos atrás.

— Vamos, West, antes que nos descubram novamente. — O príncipe apressava o amigo pelos corredores que levavam até o calabouço do castelo, onde os prisioneiros dividiam as celas com insetos e doenças, aguardando a execução em praça pública. Cada passo pelos corredores úmidos e abafados era como uma morte lenta para qualquer pessoa, mas a ambição dos dois rapazes era mais alta.

— Ajude com isso. — West fala jogando alguns de seus materiais para o príncipe. O jovem era filho de um padre, totalmente contra os ensinamentos da igreja que o impediam de estudar o que realmente queria. Desde pequeno desenvolvera um mórbido interesse pela morte, o que o levou a estudar o corpo humano.

Usando a luz dançante de um lampião, os dois andavam entre as celas com os prisioneiros adormecidos e em estado deplorável. O local possuía um silêncio fúnebre que os fazia sussurrar quando conversavam.

— Quem está aí? — A voz vinha de uma cela isolada das outras. A moça estava próxima a grade que a separava do corredor e logo chamou a atenção de West. Ela sorriu tentando demonstrar uma gentileza sincera. — Acho que os senhores não deveriam estar aqui.

— Senhorita, poderia me dar seu corpo?

— O que? — Ela dá alguns passos para trás, afastando-se do rapaz que estava com o rosto colado ao portão que os separava.

— Me perdoe, não foi o que quis dizer. — West ri e logo trata de explicar seu objetivo. Queria o corpo da moça para estudo, depois que estivesse morta.

— Irei morrer em breve?

— Amanhã à tarde, por decapitação em praça pública.

— Que deselegante.

— Não, West. Algo me diz que esta senhorita não irá morrer por decapitação. — O príncipe, que antes apenas observava a conversa do amigo com a prisioneira, entra na conversa. — Será a fogueira.

— Uma bruxa? Está bem vestida demais pra isso. — Olha para a moça e depois volta a olhar para o príncipe. — Seu pai continua com essa paranoia? É um velho louco mesmo. Olhe pra ela, parece uma bruxa pra você?

— Certamente é uma bruxa. — O príncipe logo declara sua conclusão ao observá-la por poucos segundos. Cabelos e roupas escuros, a pele sem marcas do frio e, em seus olhos, algo chamara sua atenção.

— Não seria ótimo que uma bruxa lhe ajudasse a ter tudo o que deseja? — Ela se aproxima rápido, tentando atiçar o desejo dos dois. — Poder, honra, glória, força, riquezas, posso dar-lhes o que quiser. O mundo será seu se assim desejar.

— Basta tirá-la daí, certo? — O príncipe pergunta com um tom levemente sarcástico na voz.

Sem mais tempo para negociação, os guardas estavam voltando de sua patrulha. Os dois rapazes tiveram de sair as pressas para não serem vistos, teriam muito o que explicar. A bruxa ficara na cela, quieta em um dos cantos, como se os dois não estivessem ali há poucos minutos.

Logo que o sol nasceu na manhã seguinte, os servos do rei foram até seu quarto e o encontraram sem vida. Entre suas mãos e enterrada em seu peito, a adaga da bruxa que matara anos antes. Em seu testamento, como últimos pedidos, que seu filho assumisse o trono o mais rápido possível, salvasse o reino e guardasse consigo a adaga que o rei considerava um troféu. Feita com prata, tinha a lâmina marcada com símbolos estranhos e cravejada com uma pedra vermelha, realmente tinha a aparência de um troféu.

Assim seguindo as ordens do rei, a adaga foi tirada de seu peito e devidamente limpa para ser entregue ao seu filho. A cerimônia de coroação foi feita as pressas e nenhum dos reinos aliados ficou sabendo sobre o falecimento do rei. Junto da coroa, o príncipe que agora era rei, recebeu a adaga.

Cuidar do reino não seria uma tarefa fácil, a Igreja já começava a fazer pressão sobre o novo rei e parte do povo o achava muito jovem para reinar. Em seus momentos de reflexão, lembrou do que a bruxa lhe falara na noite anterior "O mundo será seu se assim desejar". Lembrava também dos rumores que envolviam seu pai, o reino e a misteriosa morte de sua mãe.

— West, eu quero a vida daquela bruxa. — O rei fala ao amigo que havia ficado no salão após a coroação. Sem entender os motivos de Dharok, Guthan West apenas aceitou a vontade do rei e foi falar com o capitão da guarda, aquele que liderava as execuções.

A bruxa foi mantida no calabouço após as execuções de seus ex-companheiros enquanto o rei dava explicações ao capitão da guarda e ao padre, pai de West.

— Não pode deixá-la viva, é uma bruxa perigosa. — O capitão fala com desprezo na voz, sentindo algum poder por ser mais velho do que o rei. — Respeite a vontade de seu pai, que foi quem mandou prendê-la e executá-la.

— Eu sou seu rei, posso fazer o que quiser e meu desejo é deixar a bruxa viva.

— Isso vai contra os mandamentos de Deus, a bruxa acabará levando vossa alteza para o inferno junto dela. — O padre também tenta convencer o rei de que sua decisão estava errada.

— Já dei minha ordem. A bruxa ficará viva e se eu souber de alguma coisa, — Ele fixa os olhos no Capitão e no Padre. — vocês podem acabar sofrendo um acidente. Agora, West, traga a bruxa para cá e mande colocá-la em um quarto decente.

— Vossa alteza, permita-me dizer que é uma ofensa para a Igreja o senhor mantê-la no castelo, protegida e tão próxima.

— Não, não permito. Saiam daqui.

Seguindo as ordens do rei, os três saem do salão. West desce ao calabouço e o rei segue para seus aposentos, amanhã iria lidar com a bruxa e com os problemas que seu pai havia deixado no reino.

— Senhorita, irei levá-la ao seu quarto. — West abre o portão que ainda aprisionava a bruxa. Ela, que estava estranhando aquele dia desde que não havia sido executada com os companheiros, seguiu o que o rapaz dizia.

— O que está acontecendo? — A bruxa fala após longos minutos em silêncio. — Por que estou aqui? Melhor, por que estou viva?

— Ordens do rei.

— O rei? Aquele que me condenou?

— Não, o rei Dharok. Foi coroado hoje, com a morte de seu pai.

— Ah, o rei está morto? — A jovem bruxa abre um sorriso maldoso. — Sinto muito. Muito interessante saber que temos um novo rei.

— Amanhã ele irá explicar tudo para a senhorita. — West encerra a conversa e sai do quarto, deixando-a sozinha com seus pensamentos.

A bruxa estava ao aposento ao lado do quarto do rei. Estava longe dele, mas mesmo longe conseguia escutar sua respiração pesada. Não conseguia dormir e já se faziam algumas horas que o rei a tinha salvo e ainda não soubera o motivo disso, nem sequer havia tido a oportunidade de falar com ele.

Mais uma vez ouvira a respiração pesada do rei, uma respiração de uma infortuna solidão. A bruxa começou a pensar novamente, agora ela sabia. Ambos, mesmo que perto de qualquer um, se sentiam solitários. O rei envolto de tantos súditos falsos que não conseguiriam prover-lhe a companhia para preencher o seu peito e a bruxa que fora exilada da sociedade por ninguém entendê-la ou fazê-la se sentir menos só.