O mundo não sabe da minha existência, pensou o sujeito tacitamente, mas um dia ele saberá.

A figura franzina se levantou do carpete surrado como que erguido por fios, se pondo de pé para o recinto retangular que o cercava. Sob a luz alaranjada que pendia do teto, passou os olhos ao seu redor, observando com afinco cada detalhe.

Em um tom de rigor seu olhar perpassou uma das extremidades do local, onde havia uma cômoda de livros velhos, ladeada por uma fina cama de armar e um cesto de brinquedos, que a essa altura já deviam estar empoeirados. Notara que as paredes, agora revelando sua cor original em certos pontos, exalava um odor de madeira úmida devido à chuva da noite passada. A claridade vinda do exterior do recinto, irrompia por uma janela arredondada no topo da parede junto ao teto, mas sua luz quase não surtia efeito no ambiente.

Terminado de esquadrinhar os quatro cantos, o indivíduo notara que tudo ao seu redor era trivial. Todo aquele ambiente fora sua miragem e sua companhia durante uma década inteira. Poderia até mesmo caminhar por ali de olhos fechados sem temer. Até mesmo os insetos mortos que recolhia a um canto do quarto não eram mais novidade. Simplesmente nada mais lhe agradava naquele recinto. O espaço parecia se comprimir à medida que os anos avançavam, e agora, conseguia atravessar o retângulo em poucos passos.

O que há do outro lado? perguntava-se em tom sonhador. Embora a umidade do ar e a textura do solo lhe causassem certo incomodo, o sujeito passara os últimos dias deitado de costas sobre o grande tapete, as mãos atrás da cabeça, encarando o telhado que se estendia sobre sua imagem como um livro aberto ao meio. Quando chovia, um tamborilar ressoava pelo local como uma trilha sonora acalentadora. Não tenho medo da chuva, o indivíduo afirmava para si mesmo entre as trovoadas, apesar de nunca ter sido tocado por uma gota de chuva sequer.

Fora naquele instante, assim como os clarões emitidos pelo céu enegrecido, que algo horrendo se iluminou dentro de sua mente. Um fervor crescia no âmago daquele ser como uma erva daninha, e de certo seria esse mesmo sentimento que lhe lançaria para fora daquela caixa de madeira, pois feito as peças de um quebra cabeça, o plano na mente do sujeito mirrado estava começando a se encaixar ganhar forma. Havia lido alguns livros que lhe dispuseram para sua distração, e em suas páginas sentira ter encontrado a chave de sua passagem para um lugar antes nunca habitado. Eu irei criar minha própria história, afirmara com intensidade em sua cabeça. Na mente do indivíduo, era apenas uma questão de tempo para que pudesse de fato saber o que havia do outro lado do recinto que o cercava. Portanto, pouco depois de ser colocado para dormir, se pusera de pé de forma silenciosa e decisiva em meio a escuridão.

Apesar da vontade animalesca que pungia dentro de seu peito, o indivíduo galgava descaço pelo espaço, encarando o breu que engolia cada canto do recinto, a fim de fazer o tempo passar mais depressa. De vez em quando fitava as trevas por um longo período, e sentia a mesma lhe encarar de volta. Por vezes, imaginava que algo poderia emergir das sombras e envolvê-lo como uma trepadeira, lhe puxando para o infinito. Tal pensamento trouxera-lhe um sorriso bobo ao rosto pálido.

Somente quando seu coração começara a pulsar mais depressa, ao longo das suas voltas pelo recinto, foi que o sujeito estacou ao centro do quarto se virando na ponta dos pés. Olhou para a pequena janela próximo ao telhado vislumbrando uma ligeira faixa do céu, e presumia que o mesmo estivesse estrelado. Em breve eu poderei lhe ver à vontade, pensou enquanto expirava levemente.

Era uma sensação agridoce perceber que o ninho fora sua gaiola o tempo todo, e isso lhe dera vontade de içar um voo sem volta. De fato, tudo o que sabia até o momento descobrira atrás dessas paredes. Portanto se sentia enganado, como se convencessem um passarinho saldável a acreditar que não podia voar, que não podia tocar o céu mesmo que suas asas estivessem prontas pra isso.

É o melhor pra mim? questionou enquanto serrava os dentes. Não! Esse é o melhor pra vocês.

Os olhos do indivíduo se fecharam na escuridão, e uma lágrima escorrera desimpedida por sua pele tenra. A última peça se encaixara em sua mente lhe possibilitando ver o enredo por completo, e a partir dali não haveria mais volta.

Está na hora de voar passarinho.

Notas finais
Espero que gostem desse Prólogo. Capítulos postados assim que possível.