Chamas do Coração
2 A emergência
— 911, qual sua emergência? — perguntou a atendente com sua calma habitual.
— Tem uma casa pegando fogo! — exclamou uma voz feminina de tom maduro do outro lado da linha. — Precisamos de ajuda depressa... — a mulher ofegou fazendo o telefone chiar, pelos ruídos era considerável que ela estivesse em movimento.
— Certo... — disse a atendente de pronto, tentando assumir o controle da situação. — Peço que mantenha a calma e me informe o local do incidente.
A atendente posicionou seus dedos sobre o teclado a sua frente, aguardando que a mulher lhe desse as referências para preenchimento do sistema.
— Rua St. Albany... é 260 — a voz da mulher transpassava confusão, o pavor parecia tê-la feito esquecer até mesmo o endereço em que estava. — ... em Gardenville, eu acho que...
Antes que a frase pudesse ser completada, um som estrondoso ressoou perpassando os fones da operadora. Uma explosão nitidamente audível. Em resposta, a atendente dera um solavanco na cadeira ao ser surpreendida pelo barulho vindo do outro lado de seu headset. Então, com uns ruídos ao fundo a ligação se encerrou antes que ela pudesse obter mais informações.
Em horários após a meia noite, as atendentes tinham costume de receber trotes, chamadas sobre acidentes de trânsito ou brigas na vizinhança, mas aquela ligação sobre um incêndio as quase 03:30 da madrugada deixou Gloria um tanto cismada. De fato, era uma denúncia que já tinha recebido outras vezes, mas o horário e principalmente o local, lhe deixara uma pontada de inquietação.
Em Gardenville? se questionou. Mas aquele bairro é tão pacato.
Na verdade, a moça estava certa, o bairro em questão fora moradia de alguns de seus amigos próximos, e como era habitado em sua grande parte por idosos e casais, o local transmitia uma aura de aconchego e harmonia. As pessoas eram solícitas, e se comportavam como se fizessem parte de uma grande família. Em suma, conheciam sobre a vida um do outro devido a longa estadia no bairro. As casas bem conservadas, juntamente com o zelo da jardinagem ao redor, faziam com que os imóveis parecessem ter saído do catálogo de uma revista. A estranheza viera justamente porque Gardenville era um bairro exemplar. Apesar de não ser alto padrão, era conhecido por sua estética simples e sofisticada.
Gloria, no entanto, não poderia se dar ao luxo do sentimentalismo naquele momento, devia seguir o protocolo à risca. Sendo assim, com a destreza que adquirira em quase quatro anos de função, preencheu as informações e acionou o corpo de bombeiros com tanto foco que mal respirava. Assim que encaminhou a ocorrência, seus punhos se fecharam a mera lembrança do estrondo emitido instantes atrás, e quando pudera notar, suas colegas de trabalho lhe encaravam com olhar afetado.
— Vai ficar tudo bem... — afirmou Gloria com sorriso frouxo às demais atendentes, suas bochechas proeminentes perdendo a rosácea habitual.
Aquele telefonema lhe deixara tão desassossegada, que ela tivera de fazer uma pausa de sua pequena mesa.
A caminho da copa, seu cérebro tentou se lembrar se conhecia algum residente do endereço informado, no entanto, não obtivera sucesso, além do bairro aquele número não lhe era familiar, possivelmente uma das ruas próximas as quais já havia passeado.
A longos goles de café morno, enquanto se recostava na pia de mármore, Gloria foi se aconselhando de que independente do ocorrido, os bombeiros dariam o seu melhor e tudo não passaria de um pequeno infortúnio. Terminado de bebericar seu café, lançara seu copo de isopor a esmo na lixeira perto da porta, e saíra da sala respirando fundo.
Opa, cuidado! Exclamara uma voz inesperadamente.
Por centímetros Gloria se livrou de esbarrar em uma das funcionárias, uma loira de estatura mediana que soltou uma exclamação ao esbarrão iminente. Estava tão absorta em pensamentos que iria até mesmo colidir com sua colega de trabalho.
— Ei Gloria, espere — disse a garota se virando em meio a soleira da porta. Gloria se voltou para observá-la. — Recebemos mais três ligações do mesmo endereço – a expressão da garota transmitia uma certa preocupação. —... achei que devia saber. — Acrescentou cerrando os lábios.
Gloria abriu a boca sutilmente como para proferir alguma palavra, mas nada dissera, apenas assentira de contragosto e dera meia volta em direção a sua mesa.
Era de praxe que as atendentes tivessem imparcialidade para com os atendimentos. Isso colocaria sua razão em ação e permitiria um pensamento mais analítico, para que não perdessem o controle durante um uma demanda de tamanha complexidade. Estranhamente, no entanto, Gloria sentiu algo diferente após aquele contato, mas estava convencida que era devido à proximidade com bairro.
Retornando a sua mesa com uma neutralidade ensaiada, recolocou o headset sobre o cabelo preso em um coque, e se manteve disponível para uma nova ocorrência, mesmo com aquela sensação estranha pungindo internamente.
A alguns quilômetros dali, ao norte de Gardenville, um alerta chegara ao posto de bombeiros local, fazendo o comandante Carlos manear sua xicara de chá, que havia acabado de encher devido a ociosidade do plantão. Depositando o objeto sobre um descanso de copo, encarou o registro em seu computador ignorando as gotas da bebida que caíra em sua mesa.
Após uma breve revisão, o homem lançou sinal para seus agentes se direcionarem ao endereço indicado, e pode ouvir o chefe plantonista acionar sua equipe para se dirigirem ao caminhão. O trotar do pelotão era similar ao de uma manada, e era possível até sentir o chão vibrar à medida que galgavam apressados.
A atmosfera de excitação logo se instalou no local quando o alarme sinalizador de emergência começou a soar. Os plantonistas correram para vestir o uniforme de proteção, e um a um desceram o cilindro metálico em direção ao caminhão estacionado no pátio.
Ao perceber a movimentação de somente quatro de seus operários, o supervisor coçou sua careca e se aproximou da cabine do caminhão onde os demais já se ajeitavam em seus locais.
— Onde está o Henry? — indagou o supervisor se esticando para janela traseira.
— Ele se atrasou chefe — respondeu um bombeiro de nariz pontudo próximo a porta do veículo, a boca pendendo para o lado pois não pretendia encrencar o colega.
— Não é possível — resmungou o homem barrigudo levando a mão a testa. — Se virem sem ele, então. — Proferiu as palavras como se as escarrasse, afinal, não poderia tomar muito tempo para iniciar o resgate.
O supervisor dera um tabefe na lataria do veículo indicando que homens deveriam partir, mas antes que o caminhão pudesse arrancar de ré, um vulto desceu do poste como se tivesse caído do teto. Henry que aterrissara com um baque no solo, rumara com celeridade em direção ao veículo. A vestimenta de proteção ocultando seu físico corpulento, os cabelos finos e castanhos balançando junto a cabeça, e o capacete sobre a mão estendida para o alto como em sinalização da sua presença. Graças a sua agilidade pode alcançar o veículo a tempo, mas não conseguira escapar do olhar fulminante do supervisor Gunter.
— Meu filho não estava muito bem senhor, peço desculpas... — explicou-se Henry levemente ofegante, enquanto se içava para dentro da cabine do caminhão, suas últimas palavras sendo abafadas pela sirene. Logo o caminhão vacilou rumando para saída em uma manobra precisa.
Devido ao horário as ruas estavam vazias, e como um sinal nada gentil, o som da sirene e suas luzes invadiam algumas casas ao redor, pintando as paredes de vermelho e azul enquanto seu sonido reverberava por onde passavam. Algumas pessoas até foram retiradas de seus sonhos à medida que o som estridente invadia seus aposentos, e instintivamente se perguntavam, entre resmungos, aonde estariam indo.
Como se atrasara para a função, Henry estava perdido quanto a localidade onde se destinavam. Ele não tinha o costume de chegar atrasado no quartel, todavia, seu filho Nathan de oito anos começou a apresentar uma febre repentina, e mesmo que sua esposa insistisse que estava tudo sob controle, seu instinto protetor fez com que ele tomasse mais tempo do que deveria na beira da cama do filho, e sabia que isso seria motivo para fazer a careca de Gunter pegar fogo.
Infelizmente o supervisor parecia não apreciar a presença do bombeiro, e ele acreditava que isso se devia a um incidente isolado, que ocorrera entre eles na confraternização da empresa, onde o patrão resolveu entornar algumas canecas de cerveja a mais e azarar sua mulher. Henry ainda se arrependia de não ter lhe socado a cara, mas aparentemente ele era o único que sabia manter o profissionalismo, e se lembrava muito bem que o homem nunca lhe pedira desculpas pelo ocorrido.
Voltando de seu devaneio, Henry percebeu que seus colegas nada falavam. Não sabia ao certo de que se devia toda aquela falta de comunicação, mas aqueles não pareciam os mesmos rapazes extrovertidos que ele conhecia.
Nos outros turnos, os homens soltavam alguma piada ou comentário para descontrair a tensão antes do salvamento, tal atitude era como um mantra para eles, pois assim que chegassem ao local da ocorrência o foco seria garantir um bom serviço. De certa forma a descontração e a comunicação fortalecia o vínculo de equipe que eles possuíam. Naquele instante, portanto, exceto o motorista que estava focado na direção do veículo, os demais operários encaravam a paisagem ao redor que passava rápida ao vaguear do automóvel.
Antes mesmo que Henry pudesse questioná-los, Roger, o colega de mandíbula acentuada que estava a sua direita, inclinou-se levemente em sua direção, retendo ar nos pulmões para fazer com que sua voz pudesse ser ouvida além da sirene.
— O que houve com seu filho? — vociferou o homem se segurando na porta após o caminhão ter passado em uma lombada.
— Febril... — respondeu Henry de prontidão a plenos pulmões. — Mas minha esposa está cuidando dele. – acrescentou.
Roger assentiu com a cabeça dando uma leve piscadela.
Henry aguardou para que o colega dissesse mais alguma coisa, porém o homem se virara para a direção da janela aberta ao seu lado, a forte corrente de ar formada pela velocidade do veículo invadindo a cabine.
Sentindo certa estranheza, Henry abrira a boca para indagar qual seria o local do resgate afinal, mas antes que pudesse proferir alguma palavra, um borrão colorido passou por sua visão através da janela de seu parceiro. As cores não estavam vivas devido a iluminação precária dos postes, mas como um gatilho, a imagem fez o bombeiro olhar ao redor, e assim que focou no para-brisa, começou a reconhecer algumas fachadas.
A loja de conveniência, floricultura e até a donuteria foram reconhecidas por ele. Aquele era um bairro familiar, não muito longe de sua residência. Sabia, pois trafegara na avenida principal diversas vezes, e não estava enganado de que aquele borrão se tratava do parque onde seu filho brincara em demasiado.
Quanto mais rumavam a extensa avenida, ladeados por estabelecimentos e árvores, Henry teve a sensação de seu estomago ser comprimido, e aquilo começou a lhe causar náuseas. Era como se algo quisesse lhe dar um sinal. A febre do filho, o silêncio dos companheiros e até mesmo o tempo em que seu carro demorara para ligar ao sair de casa, tudo poderia aparentar ser cotidiano, mas para ele parecia conter uma certa mensagem subliminar do universo. Era como se dissesse que ele não deveria estar ali, ou então que algo ruim parecia estar prestes a acontecer.
Ele não sabia para qual endereço estavam indo, e a esse ponto já não tinha o ímpeto de questionar, o fato de ter reconhecido o bairro foi o suficiente para causar uma sensação estranha em seu corpo. Havia pessoas que ele conhecia ali, mas não poderia pensar o pior, talvez fosse apenas um nervosismo qualquer se apossando dele, tudo que imaginara ser um sinal talvez fosse mera coincidência.
Não vire a próxima esquerda, pensou Henry, os dentes tão serrados que acentuavam seu maxilar.
Era tarde demais, Rupert, o bombeiro na direção do veículo dera seta para entrar a esquerda na rua St. Albany. A curva intensificou o enjoo de Henry, evoluindo para um zumbido em seu ouvido esquerdo, e tudo que conseguira fazer foi agarrar os joelhos enquanto as casas passavam às pressas em suas laterais.
— Estamos chegando. — Berrou o motorista — Número 260...
Não é possível! Pensou Henry retesado.
Ao se dar conta do endereço, o jovem bombeiro sentira uma onda de frio perpassar sua espinha dorsal, o que ele temia estava de fato acontecendo. Sentado entre dois bombeiros ele não tinha uma visão privilegiada dos arredores, por isso não poderia ter visto com nitidez de onde a fumaça estava vindo. Com o veículo a uma velocidade considerável e sem obstáculos no caminho, a chegada ao local se tornara mais rápida do que o previsto. A falta informação prévia para onde rumavam, fez a informação chegar a ele como um golpe na boca do estomago.
Em instantes as chamas se tornaram mais visíveis. As pessoas ao longe pareciam desajustadas e fora de foco, usando pijamas e andando de um lado para o outro, se afastando somente quando o caminhão parara próximo do local.
— Vamos! — exclamou Rupert abrindo a porta ao seu lado, se lançando em direção ao solo em um pouso similar ao dos heróis nos filmes de ficção.
Aquele grito trouxera Henry de volta ao seu corpo. Após a curva ele parecia ter saído de orbita. Enquanto todos mantinham seu silêncio passível, se preparando internamente para mais uma missão, ele havia perdido seu senso, e tudo ao redor parecia distante e turvo. As lufadas de vento da madrugada de outono tocavam seu rosto e lhe causavam calafrios.
Tomado por calor repentino Henry se lançou para fora do veículo quase como se estivesse em piloto automático. As botas fazendo um som surdo ao acertarem o asfalto abaixo dele. A imagem à sua frente parecia não fazer parte da sua rotina, chegando a se sentir como um espectador de encontro aquele incêndio.
A adrenalina se instaurou nos cinco rapazes. O barulho da sirene se misturava com o crepitar das chamas e o burburinho dos moradores. A fachada da casa estava tomada por um calor infernal. O negrume da fumaça rodopiava para o céu estrelado como se buscasse a liberdade, enquanto as madeiras estalavam e se desprendiam de seus lugares como natureza morta. Naquele momento, tudo que Henry queria era não ter reconhecido a casa.
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