Notas iniciais
Quase no fim...

CAPÍTULO XIV


— Quem mandou estas rosas? — Hermione perguntou para Molly, a encarregada do vestuário quando entrou no camarim do teatro na noite de estreia, e notou um vaso enorme de ro­sas amarelas no lugar de honra entre meia dúzia de buquês.

— Creio que há um cartão — Molly respondeu.

Mas Hermione não precisava ler o cartão para saber quem en­viara as rosas amarelas. Será que isso significava que, apesar de ter lhe pedido que não viesse, Draco estava na estreia?

Oh, Deus...!

Sentou-se abruptamente diante da penteadeira pegando com mão trêmula o cartão que acompanhava as lindas flores amarelas para ler: "Acho que é de praxe dizer antes de entrar em palco 'quebre uma perna', mas realmente prefiro que não quebre nada. Quer jantar comigo depois?".

O cartão não estava assinado, mas depois da conversa de três semanas atrás, Hermione sabia que só Draco poderia ter man­dado as rosas amarelas.

Mas por que teria feito isso?

E por que, depois de Hermione ter deixado tão claro que não queria estar a sós com ele novamente, Draco a convidava para jantar depois da estreia da peça?

Ela não iria, é claro.

Não podia ir.

Porque por mais que tentasse, sua reação à chegada da­quelas rosas amarelas dizia-lhe que não tinha conseguido reconstruir suas defesas contra Draco naquelas últimas três semanas.

E talvez jamais conseguisse...

(...)


— Você foi maravilhosa, Hermione! — Ronald abraçou-a orgu­lhosamente, depois de abrir caminho entre a multidão que lotava o camarim.

— Obrigada. — Hermione estava exultante ainda excitada demais pelo seu triunfo para perguntar o que seu ex-marido fazia ali.

De pé nos bastidores mais cedo, esperando sua primeira entrada em cena, uma calma absoluta tinha descido sobre ela e Hermione esqueceu tudo e todos se concentrando no seu desempenho.

O aplauso espontâneo, seguido de numerosas chamadas à cena para receber mais aplausos e depois a vinda do diretor ao palco para entregar-lhe um buquê antes de abraçá-la e beijá-la tinham sido mais do que o bastante para convencê-la de seu sucesso.

— Tinha razão, Hermione, aqui é seu lugar. — Ronald disse.

— Isto aqui está uma loucura — ele riu baixinho quando ainda mais pessoas tentaram entrar no camarim. — Quer me encon­trar para almoçar amanhã? Tenho algo importante para lhe dizer. — ele acrescentou, persuasivo, quando ela tentou recusar. Ela não queria encontrar Ronald amanhã; tinha ainda me­nos a dizer-lhe do que a Draco, mas o apelo no rosto dele era irresistível.

— Está bem, Ronald. Vou almoçar com você amanhã. — concordou relutante.

Ele sorriu, satisfeito.

— Às 13h no Gregory's? — mencionou o nome do res­taurante onde ela jantara com Draco fazia três semanas.

— Às 13h no Spencer's — ela corrigiu, preferindo um restaurante onde ela e Ronald às vezes jantavam no passado quando estavam em Londres. — Realmente tenho de ir ago­ra, Ron. — ela disse, rindo ao ouvir estouros de rolhas de várias garrafas de champanhe.

— Claro que tem. — ele concordou. — Esta é, definiti­vamente, a sua noite. Mas estou ansioso para vê-la amanhã. — deu-lhe outro abraço antes de beijá-la levemente nos lábios.

De repente, Hermione percebeu que um silêncio mortal caíra sobre o aposento, repleto de risadas e vozes falando alto, momentos antes. Ela se afastou lentamente de Ronald e olhou para a porta.

Draco!

Ele estava à porta, segurando uma garrafa de champanhe, muito alto, o cabelo loiro sedoso incrivelmente bonito vestindo traje de noite preto, camisa branca e gravata bor­boleta preta — e uma rude expressão enigmática no rosto arrogante.

O aposento estava cheio, com outros membros do elenco, o diretor e a equipe técnica, assim como amigos e familiares — e todos, sem exceção, fitavam o ator famoso de pé à en­trada do camarim de Hermione Granger.

— Todos para fora, vamos dar espaço para Hermione — Flitwick, o diretor, gritou com autoridade, enxotando todos de lá.

— Por favor, não saiam por minha causa. — Draco disse cortesmente.

Mas todos saíram do camarim, deixando apenas Hermione, Ronald e Draco... E um silêncio embaraçoso.

— Também estou de saída. — Ronald comentou, sorrindo tristemente para Hermione antes de se dirigir para a porta. Pa­rou diante de Draco e os dois se entreolharam num desafio mudo antes de Ronald falar novamente.

— Ela é boa demais para nós dois, Malfoy.

Draco inclinou ligeiramente a cabeça.

— Sei disso. — falou com aspereza.

— Espero que saiba.

— Ronald...

— Tudo bem, Hermione — Draco disse antes de se virar para Ronald. — Fico feliz de nos compreendermos. — disse cal­mamente.

Hermione não entendia nada do que se passara entre os dois, qual a mensagem subliminar naquela conversa breve — uma mensagem que a excluía, enquanto era de algum modo, so­bre ela.

Homens!

— Eu a verei às 13h amanhã, Hermione — Ronald disse, antes de fechar a porta ao sair.

Hermione imediatamente se conscientizou de que estava com o vestido preto provocante da cena final e que sua maquia­gem teatral ficava forte demais num camarim apertado.

— Estou uma figura! — Virou-se pegando o removedor, e inclinou-se diante do espelho para começar a limpar o rosto. Olhou para o reflexo de Draco no espelho. — Viu a peça? Ou acabou de chegar?

— Você não está uma figura. — ele garantiu, avançando para dentro do aposento. — E, sim, vi a peça. Você foi mag­nífica. Maravilhosa. Eletrizante! Duvido que alguém tenha tirado os olhos de você o tempo todo em que esteve atuando no palco.

Ela corou de prazer.

— Eu... Recebi as rosas. Obrigada.

Ele mostrou a garrafa de champanhe.

— Ainda tem alguns copos aqui para isto ou eles leva­ram todos quando saíram? — ele perguntou suavemente, enquanto abria a garrafa com destreza.

— Tenho uns aqui. O que teria feito se eu tivesse fra­cassado? — ela provocou, segurando os copos para que ele servisse o champanhe.

— Teria trazido a segunda garrafa que tenho no carro e garantiria que você ficasse muito, muito embriagada.

— Acho que já estou embriagada de sucesso — ela con­fessou, entusiasmada.

Draco ergueu o copo com champanhe.

— A você. — ele brindou, emocionado. — Você foi um triunfo absoluto esta noite, Hermione — tomou um gole, com os olhos presos ao lindo rosto ruborizado.

Ficara literalmente hipnotizado por Hermione desde o pri­meiro instante em que ela pisou no palco naquela noite e o silêncio absoluto da plateia durante a performance dela, se­guido dos aplausos entusiásticos no final, dizia-lhe que não fora o único a admirá-la.

Sempre soube que Hermione sabia representar, mas hoje à noite, no ambiente que ela mais gostava, havia superado de longe os seus desempenhos anteriores no cinema.

— Não quero afastá-la da festa... — ele sorriu tristemente ao ouvir o barulho das comemorações lá fora, no corredor.

Ela riu.

— Isso com certeza vai atravessar esta noite.

— Com certeza — Draco acenou a cabeça.

— Draco, duvido que eu possa sair para jantar antes de mais algumas horas. — ela se desculpou.

Ele já tinha adivinhado isso. Mas esta era a noite de Hermione e ela merecia aproveitar cada instante.

Ele sorriu, tranquilizando-a. Pelo menos Hermione não recusa­ra jantar com ele, só que, naquele momento, não poderia...

— Sendo assim, penso que poderíamos nos encontrar no meu hotel para uma janta mais tarde.

Ela fez uma careta.

— Eu talvez não esteja em condições de jantar mais tarde.

— Então botarei você na cama e tomaremos o café da manhã juntos.

Hermione ficou muito quieta, refletindo sobre o que ele aca­bara de dizer. Era intenção de Draco jantarem juntos no hotel dele? Ou tomarem o café da manhã? — exibiu um sorriso brilhante demais.

— Por que não participa da nossa festa?

— Vi o que aconteceu ainda há pouco. — ele sacudiu a cabeça. — Esta noite é sua, Hermione, você não precisa de Draco Malfoy se intrometendo na sua festa.

O sorriso dela se alargou.

— Sem dúvida a presença dele aumentaria a minha fama! — Draco atirou a cabeça para trás, numa gargalhada.

— Hermione Granger não precisa de fama emprestada. — ele brincou.

Ele parecia diferente, Hermione percebeu franzindo ligeira­mente a testa. Menos áspero. Sem nada daquele sarcasmo e daquele escárnio que demonstrara quando se reencontra­ram três semanas atrás. Mas ele a enervava mesmo assim — ainda a fazia sentir-se cônscia de Draco e das reações de seu corpo à proximidade dele.

Não era uma boa ideia!

Ela mudou de assunto intencionalmente.

— A propósito, parabéns pelo prêmio de Melhor Diretor em Cannes. — Embora, estranhamente, Hermione tivesse lido nos jornais que Draco não estava lá para receber o prêmio pes­soalmente, afinal, e que seu diretor-assistente havia recebido em seu lugar...

— Obrigado. — ele inclinou a cabeça, agradecendo, com o olhar intensamente azul fixo no rosto dela. — Quer jantar comigo mais tarde, Hermione? Preciso lhe dizer algumas coisas. — ele acrescentou roucamente, quando Hermione ensaiou uma recusa cortês. — Explicar...

Era difícil resistir a esta atitude mais suave, menos acusatória. Mais, parecida com o Draco de oito anos atrás. Ou o Draco que pensou conhecer, Hermione lembrou-se firmemente.

Sacudiu a cabeça.

— Realmente não acho que seja uma boa ideia, Draco.

Ele deu um passo à frente e tomou-lhe uma das mãos, le­vando-a aos lábios num beijo demorado, prendendo o olhar dela com o seu.

— Faça apenas esse último favor, Hermione — ele implorou. — Depois disso... Bem, dependerá de você se nos veremos novamente ou não.

Hermione agora estava completamente enervada, a mão formi­gando com o toque daqueles lábios contra a sua pele, cada parte de seu corpo completamente consciente dele, os seios intumescidos e excitados, um começo de calor entre as coxas.

Era a adrenalina, a excitação de uma estreia bem suce­dida e não Draco que causavam isso, disse a si mesma com impaciência.

— Será que podemos nos encontrar em algum momento amanhã? — ela tentou adiar.

Ele ergueu uma sobrancelha loira.

— Creio que já tem um compromisso, às 13h, para al­moçar.

— Poderíamos nos encontrar mais tarde — Hermione sugeriu rapidamente. — Só preciso estar aqui no teatro às 19h.

— Se é o melhor que pode me oferecer...

Ele não podia exatamente culpar Hermione por sua relutância em se encontrar e falar com ele novamente. Não depois do que lhe fizera três semanas atrás.

Ela o examinou intensamente.

— Draco, do que se trata?

Draco não sabia bem quanto devia contar agora. Ali não era o lugar, nem a hora para aquela conversa que desejava ter com Hermione.

Ele se endireitou.

— Redenção, Hermione. — ele admitiu roucamente. — Trata-se de redenção.

Os olhos dela se arregalaram e sua expressão era cau­telosa.

— Agora estou realmente intrigada, Draco — disse len­tamente.

— O bastante para mudar de ideia sobre a janta?

Ela hesitou.

— Talvez. — ela disse afinal, cautelosamente.

Draco sorriu.

— Tenho uma suíte no Ritz, se você resolver se juntar a mim mais tarde, afinal...

Seria uma estupidez fazer isso, Hermione sabia. Não só estu­pidez, mas loucura. Porém, seus sentimentos por ele nunca foram rigorosamente sensatos.

— Veremos. — ela respondeu, sem se comprometer. — Embora eu possa chegar muito tarde. — acrescentou.

— A qualquer hora será ótimo.

Hermione estava realmente intrigada com essa conversa, e nem podia imaginar sobre o que Draco queria conversar. Mas a questão era: estaria intrigada o bastante para se juntar a Draco em seu hotel mais tarde... Ou amanhã de manhã?

A cabeça lhe ditava um "não" firme.

Mas o coração — e todo o resto do corpo formigante — dizia "sim"!

— Como disse, veremos. — ela repetiu. — Agora, se não se importar, tenho de trocar de roupa antes de me juntar aos outros.

Isso era o melhor que podia esperar, Draco sabia. De fato, nessas circunstâncias era até mais do que esperava.

Sabia agora que era o grande culpado por Hermione ter sido magoada o bastante, oito anos atrás para terminar o relacio­namento deles. Pansy podia ter sido o instrumento daquela mágoa, porém Hermione só tinha 20 anos na ocasião; ele conhe­cia bem como as mulheres agiam, conhecia bem Pansy o bastante para prever o que aconteceu e impedir que acontecesse. Depois, embriagar-se e dormir com Pansy no dia do casamento de Hermione só tinha complicado a situação — ele nunca deveria ter feito isso, pois fornecera a Pansy ainda mais munição contra Hermione.

— É claro. — ele aceitou levemente. — Aproveite o resto de sua festa, Hermione... Você merece.

Mas Hermione não aproveitou a festa. Em vez disso, ficou totalmente distraída por sua conversa mais cedo com Draco e não conseguia pensar em outra coisa.

Por que Draco precisava de redenção?

Ou talvez não fosse à sua própria redenção que ele se re­feria...?


Notas finais
Beijos!