Chá verde
2 II. Encanto nativo
Em toda a minha vida eu só tive uma namorada cujo nome era Nataly Smirnov, nós ficamos juntos por dois anos antes dela se mudar para os Estados Unidos e o nosso relacionamento não conseguir resistir à distância. No fim ela terminou comigo por não ter o mesmo sentimento de outrora, doeu me afastar, mas se o sentimento tinha mudado não havia motivos para continuarmos.
No entanto, diante dessa nova emoção eu cheguei à conclusão que nada se comparava aquela atração que me instiga a caminhar por terrenos desconhecidos. O meu pai havia me dito que a adolescência provocava um vórtice de emoções e que era sábio se ter prudência ao experimentá-las, mas eu só pensava em querer reencontrar a nativa de cabelos escuros.
As características daquela bonita garota povoavam a minha mente o porquê de ter despertado tanto interesse eu ainda não sabia, entretanto, estava realmente disposto a entender.
Quando eu tive a oportunidade de sair sozinho, voltei à loja, fingindo interesse nas lembrancinhas expostas na vitrine, disfarcei minhas olhadas a procura da nativa. O que encontrei foi apenas a mesma mulher que atendeu a minha mãe ao lado de um homem em seus 40 e tantos, sem encontrar quem eu procurava sair da loja.
A minha mãe, Anna e o guia estavam me esperando no píer do bangalô para iniciar a excursão por jet-ski.
Após uma olhada desconfiada ela me perguntou.
— Onde você estava?
Eu não iria dizer a verdade por saber da sua reação ao me ver falando com a nativa.
— Andando por aí.
Ela não disse nada ainda naquele jeito cismado. O guia me passou o colete de salva-vidas, enquanto Anna estava distraída com a vista paradisíaca, eu o vesti.
Anna foi a primeira a se acomodar no jet-ski de cor azul, a minha mãe no jet-ski de cor vermelha, o guia no de cor verde e eu no preto. Com toda a atenção nós ouvimos as instruções de segurança do guia para finalmente sairmos acelerando pela lagoa de águas cristalinas.
Que aventura!
O vento no rosto, endorfina no cérebro e adrenalina no sangue.
Voe pelas águas passando pelos bangalôs, avistei alguns iates e veleiros ao longe, passei pelas encostas cobertas de esmeraldas do Monte Otemanu, e após uma breve parada eu soube através do guia que o pico mais alto da ilha se encontrava aliem 727 metros de altura. Antes de sair acelerando para curtir a experiência, na verdade, eu não queria ouvir histórias, eu queria gastar todo o meu tempo disponível deslizando sobre as águas.
Já na metade do passeio eu não resisti e sem o colete de salva-vidas cair de cabeça na água, Anna me seguiu e minha mãe nos observava.
— Com toda certeza eu voltarei a esse lugar. Comentou-a.
Eu já não tinha essa certeza, lugares assim são caros e eu não gostava de gastar um dinheiro que não era meu.
— Não é a sua primeira vez aqui, não é?
Livre do colete, Anna movia os braços para frente e os levava para as laterais, enquanto empurrava a água para trás numa clara intenção de se manter mais perto.
— Sim. Na única viagem que o meu pai marcou para nós virmos ele teve que desmarcar e depois ficou adiando por inúmeros motivos que surgiam.
— O importante é que você está aqui agora tendo essa experiência incrível.
— Não tenho como discordar.
Porque eu não podia ser amigo dela? Anna era uma garota legal e também era uma ótima companhia. Nadamos por mais alguns minutos maravilhados pela vista, pelo clima, pela sensação prazerosa e por toda descarga de energia que emanava de nós.
O traslado de retorno nos levou de volta ao píer do nosso quarto e um delicioso almoço que variava entre carne vermelha e branca esperava por nós, estávamos famintos.
Mamãe olhava de Anna para mim, sem disfarçar.
— Você é uma moça tão linda Anna, me impressiona que ainda não tenha um namorado.
Desde quando a minha mãe era tão invasiva na vida de alguém que não fosse eu?
Anna ficou quieta e pela sua expressão estava constrangida, mas tentava demonstrar gentileza ao responder o questionamento com um dar de ombros.
Aproveitei a fome e comi com pressa, eu fugiria assim que conseguisse não queria ouvir a minha mãe interrogar a garota. Numa das minhas últimas garfadas eu me levantei, pois me veio a ideia de tentar uma videochamada com o meu pai. Infelizmente, não conseguir, assim como também não conseguir esquecer a nativa, eu queria me aproximar, falar com ela, entretanto, para isso acontecer eu precisava encontrá-la e também precisava criar boas desculpas para não ser descoberto. A melhor hora para tentar sair de fininho era pela manhã, à vista disso, eu era o primeiro a deitar para conseguir ser o primeiro a levantar.
Voltei a insistir no dia seguinte, esperei por meia hora, mas nada mudou, a moça parecia ter sumido.
Eu não poderia pedir ajuda a minha mãe, muito menos a Anna, nós não tínhamos intimidades para confissões, eu teria que contar com ajuda dos céus.
Se o meu pai estivesse aqui, eu teria alguém com quem desabafar o que começava a consumir a minha mente, só me restava manter tudo guardado em meus pensamentos.
Diariamente a minha mãe ou a Anna me chamavam para algum passeio ecológico na ilha, após as minhas negativas iniciais eu comecei a ir para qualquer lugar que elas me chamassem, nós já tínhamos ido até olhar os canhões da Segunda Guerra Mundial.
Turismo não é apenas entretenimento, também é história, é conhecer a cultura de outros povos.
— Aleksandr. Após o café da manhã Anna me chamou na saída do nosso Resort. — Eu realmente não quero invadir o seu espaço, apesar de ter feito isso algumas vezes. Ela franziu o cenho.
Anna sempre me chamava por Aleksandr. Sim. Era o meu nome, mas quando cresci sendo apenas Alek era mais fácil se acostumar.
— Há quanto tempo nos conhecemos? Perguntei pacientemente.
Ela ponderou de olhos pequenos.
— Desde os 12.
Puxa! Eu pensava ser menos, eu me lembrava dela desde a última festa da empresa, tantas pessoas, tantos rostos desconhecidos e um adolescente deslocado.
— Por que você me chama de Aleksandr?
Sua surpresa foi caricata ou eu estava enganado sobre a sua inaptidão para atuação ou ela realmente foi pega desprevenida.
— Por ser o seu nome? Devolveu em forma de pergunta. Ela transparece confusão. Realmente, contra fatos não havia argumentos.
— Não tem problema se quiser me chamar apenas de Alek como todos os outros.
Anna me lançou um sorriso discreto assentido e deu curtos passos para longe a saia se movimentava com o vento.
— Como todos os outros…
Pensei ter ouvido sussurrar para si mesmo ao se abraçar, será que eu imaginei?
Ela me confundia, em alguns aspectos eu até gostava dela como amiga, na verdade, eu aprendi a gostar já que a minha mãe por motivos profissionais se ausentava com frequência como naquele dia ao se despedir de nós preocupada com a exposição de Anna ao sol. Anna não poderia passar tanto tempo ao ar livre como nos dias iniciais devido à pele que estava vermelha e até irritada nem parecia que usava protetor solar, apesar das minhas desconfianças sobre esse assunto não comentei.
— Você aceita ver um filme comigo? Os olhos dela eram suplicantes.
Querer eu não queria, mas pela situação eu aceitei para fazer companhia a ela.
— Vamos sim.
Aquele olhar suplicante deu espaço a uma alegria desenfreada, ela ficou tão animada que pulou em cima de mim.
— Obrigada, Aleksandr. Anna me beijou no rosto.
A minha mente gritava.
Pare!
Desvencilhei-me do seu corpo um pouco sem graça, joguei os cabelos para trás.
— Qual filme você quer assistir?
Anna estava mais vermelha do que o normal. Talvez estivesse arrependida pelo ato impulsivo.
— Tudo bem?
Sem me olhar ela engoliu em seco.
— Sim. Eu estou.
— Então?
— Ainda não escolhi, nós podemos ver na TV do meu quarto? Quero me deitar um pouco.
Só me dei conta que nunca vi o quarto de Anna naquele momento, tinha o mesmo padrão do meu quarto na típica decoração polinésia, era extremamente limpo e organizado. Anna ligou a TV e ofereceu o controle para mim numa clara intenção.
Ela parecia gostar de filmes românticos e eu detestava nunca que eu iria ver um filme meloso com ela.
— Vamos de terror?
Ela me olhou espantada, porém concordou.
Eu escolhi um clássico.
Foi uma péssima ideia. A garota tinha medo e a cada cena de ‘suspense’ ela levava um susto daqueles. Dava-me dó por não saber antes da escolha do filme que ela era medrosa mais me dava graça também pelo seu exagero e por fim me dava incômodo, ela não precisava colar em mim.
Quem se assustava com o Chucky?
Mais perto do que o necessário, Anna permanecia quieta mal se me mexia, nossas pernas se tocavam, algo visto como normal por estarmos próximo, mas a força estranha que emanava da área de contato me fez querer puxar a perna para longe. Entretanto, eu não o faço, só fiquei o mais imovel possível como a própria Anna se portava.
Perto do final do filme a minha mãe apareceu e ficou surpresa ao me encontrar no quarto de Anna. Ela não tentou esconder o sorriso de satisfação ao me ver ali, uma mãe normal teria ficado preocupada ao encontrar dois adolescentes em cima de uma cama, mas a reação da minha mãe era contrária, provavelmente, ela já tinha notado o meu desinteresse na jovem Stepanov.
O momento de partida estava cada vez mais perto daquele paraíso turístico de areia branca e mar azul-turquesa que já deixava saudades em mim.
Por ter que participar de reuniões comerciais na cidade, a minha mãe alugou um carro para se locomover. Ela nos contou que os negócios iam muito bem. Anna gostava de gastar suas energias se aventurando, eu a seguia.
—Nós temos que aproveitar cada minuto. Ela rodou nos calcanhares.
Eu não era o único encantado pela beleza magnífica do lugar.
Nós iríamos flutuar sobre as águas cristalinas do litoral, como praxe, eu fui sem camiseta já estava bronzeado, Anna tirou a túnica e revelou um maiô de tiras que delineava e afinava a sua cintura.
O Guia de nome Ramon não era o mesmo do dia do passeio de Jet-ski, esse era mais novo e aparentava ser um nativo polinésio com um ou dois anos de diferença entre nós.
Receptivo e comunicativo, ele teve a proeza de tornar Anna um pouco mais falante ao rasgar elogios à ilha, à cultura e ao povo.
O garoto ficou muito feliz ao saber como Anna havia amado o lugar.
Para a prática do “stand-uppaddle”, nós tivemos que pôr o “leash” em formato espiral que era uma espécie de cordinha atracada ao calcanhar direito localizado na parte de trás da prancha. Ambos tivemos a ajuda de um excelente guia para ficarmos de pé na prancha de SUP, Anna mostrou mais destreza que eu, na prática, o remo servia como ferramenta de auxílio na direção, ela segurava o remo na vertical na água em um ângulo para a maior potência na remada.
Anna parecia uma criança e sorria constantemente de um jeito terno, os olhos realçados e brilhosos, combinavam com o mar que transitava entre o azul e o verde, dependia da iluminação do sol. Só ali percebi o quanto Anna era bonita, não pela beleza europeia mas sim pelo conjunto harmonioso, eu nunca conheci uma pessoa tão gentil e doce como ela.
No fim da tarde lá estávamos nós sentados no píer de madeira admirando o brilhante pôr do sol numa (matiz) de vermelho e laranja no horizonte.
— Sentirei saudades daqui. — Confessou Anna contemplando a vista.
Não demoraríamos mais a voltar para casa, não eram férias de verão, eu até me sentia reconfortado em saber que em menos de uma semana nós iríamos embora, aqueles dias foram estranhos para mim. No fim das contas, Anna me saiu uma boa companheira de aventura, a sua personalidade fleumática era agradável, acabamos por encontrar semelhanças em nossas diferenças.
Talvez ao voltarmos para a Rússia nós pudéssemos desenvolver uma amizade… pensei no pai dela e não consegui evitar a careta, sorte a minha que ela não viu.
— Então… hoje terá uma apresentação de dança nativa no restaurante, você vai assistir?
Apreciar a companhia de Anna não me impedia de me sentir algumas vezes sufocado, passávamos a maior parte dos dias juntos, já que a minha mãe sumia misteriosamente.
— Prefiro descansar essa noite. — Falei sem querer ser rude.
Um pouco de tempo sozinho era saudável a qualquer um e foi o que fiz ao me inclinar sobre o guarda corpo do meu bangalô, eu apreciava a beleza melancólica da noite, resistindo à vontade de andar na praia.
A vista noturna do ambiente natural era uma ótima experiência, pois assim como o dia a noite possuía sua singularidade, trazia certa nostalgia ao olharmos para o mar no toque da brisa refrescante, enquanto se observava a lua refletida na água.
A praia se encontrava silenciosa, a maioria dos hóspedes foi assistir ao ‘show’ de dança e apresentação de malabarismo com fogo, curiosamente uma pequena luminosidade flamejante na areia era observada a alguns metros de distância, alguém estaria burlando alguma regra?
Foi quando eu a vi… Os cabelos soltos se agitavam ao vento, vestida como uma ninfa ela representava uma liberdade cativante em seus movimentos.
Toda aquela sensação que pensei ter superado ao vê-la outra vez voltou como um vento impetuoso.
Sentia-me cativado e completamente atraído, eu precisava falar com ela, chegar mais perto, eu iria até lá nem que fosse para falar qualquer coisa. A verdade é que fiquei fascinado desde o primeiro momento que a vi.
Dominado pelo impulso e sem pensar muito sobre o assunto, eu calcei os meus chinelos e sair decidido, do jeito que ela sumia… não se sabe quando eu a veria outra vez.
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