Chá verde

3 III. Você é sempre assim tão sério?


Ela não havia notado que alguém a observava, e eu não queria ser descoberto, vê-la daquele jeito me fazia querer apenas acompanhar seus movimentos como um mero espectador. Antes de ela perceber a minha presença eu queria observá-la numa tentativa de entender o meu deslumbramento, entretanto, sua reação aterrorizada foi completamente inesperada, ela só não gritou por eu ter agido por impulso e tampar a sua boca.

— Por favor, não grite. — Pedi aflito.

Um escândalo seria o meu fim. Se a minha mãe descobrisse pensaria que eu a estava desafiando.

Os olhos escuros refletidos pela iluminação do fogo, tão significativos me encaravam sobressaltados, o toque das suas mãos macias vieram para cima das minhas, a respiração quente e acelerada vinha de encontro à lateral da minha mão ainda sobre a sua boca.

— Há uma semana falei com você numa loja, você se lembra?

Ela permaneceu imóvel de olhar confuso, impossibilitada de falar, acenou de maneira afirmativa com a cabeça.

— Soltarei você mais, por favor, não grite.

Mirei-a de maneira suplicante, por favor, não termine o que ainda nem começou bela garota…

Ela cautelosamente assentiu mais uma vez, com confiança eu lentamente removi a minha palma da sua boca. O que ela fez em seguida me pegou completamente desprevenido, de maneira súbita ela puxou fôlego e iniciou um princípio de grito.

Diante da minha falta de reação, ela desatou a rir, seu riso era expansivo e contagiante.

O rosto moreno inspirava uma energia de garota audaciosa, me levou a pensar que eu havia encontrado uma figura excêntrica.

— Você deveria ter olhado a sua cara. — Falou entre risadas.

Sorri encabulado meio sem jeito.

— Você me pegou nessa.

Ela ficou séria ao jogar o cabelo para o lado.

— Não é normal por aqui ver um turista encurralando alguém.

Sentir-me desconfortável eu só não queria que ela gritasse.

— Me desculpa pela minha inconveniência, eu não tive a...

Ela fez uma careta ao me cortar. — Você é interessante, mas é tão certinho. Disse ao me analisar de cima a baixo.

Será que aquela sensação que eu estava sentindo era a mesma que as mulheres sentiam quando os homens a olhavam dos pés à cabeça?

— Eu só estou brincando com você. Sorriu amplamente.

Meu semblante preocupado fora substituído pela tranquilidade.

— Você é sempre assim tão sério?

Eu era?

Analisei meu comportamento reservado, nenhum amigo, sem namorada, talvez eu fosse mesmo.

Dei de ombros.

— E você é sempre tão desinibida?

Ela virou o corpo de um jeito suave.

— Talvez. — Fez charme com os ombros.

Eu não sabia o que aquela jovem mulher possuía que me intrigava tanto, levei as minhas mãos aos bolsos.

— Qual é o seu nome?

Os lábios carnudos lentamente se repuxaram em um sorriso.

— Aurora.

Aurora era um bonito nome e possuía sutileza, parecia combinar com o seu espírito livre.

— Então, vai ficar só me olhando? Usou um tom divertido.

Fiquei perplexo, encarar alguém não é um jeito legal de começar uma conversa.

— O que quer que eu faça?

Ela sorriu perspicaz, como se eu tivesse deixado passar algo.

— Quem é você?

Eu ainda não havia me apresentado.

— Sou Alek.

Aurora sorriu mais uma vez ao se aproximar da fogueira.

— E o que faz aqui?

Olha quem fala, era bem eu que estava numa praia, sozinha e a noite.

— Eu vim olhar as estrelas. — Olhei para cima.

O que não era mentira, à noite e o céu estrelado sem dúvidas eram fenômenos fascinantes e mereciam ser contemplados.

— Idem.

O vento na praia esvoaçava seus cabelos, eu a observei se abaixar para mexer na fogueira com um pedaço de graveto, as chamas se atiçaram conforme o vento soprava, ela deixou o graveto de lado ao limpar as mãos e sentar-se sobre seus joelhos.

— O que você gosta de fazer?

Eu não queria ser supérfluo.

— Gosto de ler. As minhas mãos tocaram o solo arenoso.

— Está envolvido em alguma leitura?

— Recentemente terminei de reler a origem das espécies.

— Fala sobre o quê?

Mirei-a surpreso.

— Você não conhece Darwin?

Ela negou.

— Charles Darwin e Alfred Wallace foram dois britânicos responsáveis pela teoria da evolução por seleção natural. Que se trata de um processo evolutivo em que se afirma que o meio ambiente atua como um selecionador das características, perpetuando através dos organismos mais aptos a capacidade de adaptação necessária para se sobreviver de acordo com o ambiente.

Os olhos atentos de Aurora estavam curiosos, ela me disse gostar de biologia, então indiquei a leitura para ter uma percepção melhor, se eu tivesse trazido o livro a daria sem pestanejar como presente, mesmo que indiretamente Darwin tivesse me ajudado na minha aproximação.

— Você não acredita que a criação de tudo o que existe partiu de um criador?

Sentei-me com os joelhos dobrados de frente para ela, refletindo sobre o assunto antes de responder.

— Eu acredito que tudo o que existe no mundo foi criado por Deus. — Por essa mesma linha de raciocínio eu incluo que a capacidade do organismo de se adaptar em lugares onde antes ele não conseguia, é por Deus permitir através da evolução.

— Quantos anos você tem Alek? Ela mudou de assunto.

— 17.

— Pensei que tinha mais.

— Quantos anos você pensava que eu tinha?

— 18. Respondeu séria.

Para algumas pessoas ser considerado mais velho poderia ser caso de ofensa. Por outro lado, eu pensava que a idade era apenas um número e o que importava para mim era ter saúde mental.

— Você tem quantos anos?

Ela me encarou meio de lado. — Acabei de completar 18 anos.

Aurora me considerou mais velho e eu achei que ela fosse mais nova, no fim, um ano a mais ou um ano a menos não possuía tanta diferença.

— De que lugar do mundo você veio?

— Moscou na Rússia.

Ela assobiou.

— Você está longe de casa.

— Não é todo dia que se tem a oportunidade de viajar para um lugar tão magnífico como esse.

— Nada melhor do que as férias.

Não se tratava de férias, e sim do trabalho da minha mãe como representante comercial, mas quando eu pensava a respeito o sentido de férias ganhava força.

— Você tem cara de ser filho único. Não era uma pergunta, no entanto, ela estava certa na sua afirmação.

— Você é bastante comunicativa.

Ela sorriu abertamente.

— Eu sou.

Havia algo que precisava ser investigado. Toda essa afeição funcionava como um gerador de ondas magnéticas em meu corpo.

Aurora virou o rosto para mim, segurou na minha mão e disse.

— Estou feliz de ter tido a sorte de conhecer você Alek. Sorriu docemente.

Olhei-a fixamente nos olhos. — Eu também estou. Disposto a concretizar algo, ao ver que eu me aproximava a sua respiração ficou mais forte.

Com centímetros de distância do seu rosto, eu parei.

Antes eu precisava saber de uma coisa.

— Me diz que você não tem namorado. Sussurrei.

Por mais envolvido que eu estivesse eu não beijaria a garota de outro cara.

A sua respiração ofegante bateu no meu rosto.

— Eu não tenho.

Livre de uma possível culpa ou hesitação os nossos lábios se colidiram, uma descarga de hormônios me atravessou o corpo.

Eu me sentia em êxtase, seu cheiro de flor embriagava-me.

O beijo foi ficando mais leve, mais suave, o fôlego retomando. Ainda de olhos fechados, suspirei em deleite.

— Uau!

Eu a entendia muito bem, acreditava que sentia a mesma coisa.

Ao redor da fogueira, nos deitamos na areia para admirar os pontos brilhantes no céu.

Mantive-a em meus braços, sentindo o seu cheiro de flor. Eu queria conhecer mais da Aurora.

— Você mora perto daqui? Perguntei sem desviar o olhar do céu.

— Moro na ilha, mas não do lado de um resort luxuoso.

— Quando eu a verei outra vez?

Aurora inalou o cheiro em meu pescoço.

— Por mais que a gente não esteja fazendo nada de errado, acredito que as pessoas não veriam com bons olhos a nossa aproximação.

Ao me lembrar da reação exagerada da minha mãe, tive que concordar.

— Eu saberei te encontrar. Sorriu misteriosa ao me dar um beijo rápido.

Ela tinha um jeito tão leve e agradável de ser que eu não conseguia controlar a vontade de querer vê-la outra vez, mas nem sempre querer é poder, eu teria que lidar com as pessoas que dividiam o quarto comigo.

— Onde você foi ontem à noite? Evelyn questionou.

— Fui olhar as estrelas.

— E porque não olhou para as estrelas da varanda do bangalô?

— Nem passou pela minha cabeça essa ideia. Dissimulei.

Evelyn me encarou por minutos.

— Eu não quero que você saia sem avisar. O tom de ordem saiu de seus lábios.

A chegada de Anna tirou o foco da minha mãe de mim, silenciosamente eu a agradeci. Mas quando girei nos calcanhares para vê-la, levei um susto.

Anna estava vermelha no nariz, nas maçãs do rosto e pescoço, como usava um vestido floral de alças deu para ver que o colo e os braços seguiam a mesma coloração vermelha.

— O que aconteceu com você? Evelyn não escondeu o sobressalto.

A face da garota estava acanhada. — Eu devo ter exagerado na exposição ao sol.

— Está doendo querida?

— Não. Só estou vermelha como um tomate.

— Você não quer ir ao médico?

Os olhos gentis me fizeram acreditar que estava tudo bem.

— Não se preocupe Sra. Dushkin. Alguns dias longe dos raios solares resolverão o problema.

Anna estava temporariamente fora das atividades ao ar livre por causa da pele vermelha.

A minha mãe mostrou preocupação com Anna e como forma de cuidado pediu o nosso café da manhã no quarto, com as janelas de vidro espalhadas à vista para oásis vinha de todas as direções.

— Como está a sua pele? Perguntou Evelyn segurando um Croissant pegado minutos antes da pomposa mesa com sucos, chá verde, carnes frias fatiadas, queijos, mamão com frutas vermelhas, coulis de framboesa, iogurte de limão e panquecas.

— Tirando essa vermelhidão não está incomodando.

— Isso é bom.

Numa tentativa de acabar com as suspeitas da minha mãe em relação às minhas saídas, me ofereci a participar de algumas das opções disponíveis dentro do Resort junto com a Anna. Eu queria agradar a minha mãe e como a garota era filha do chefe, Evelyn ficaria feliz por eu trocar os passeios ao ar livre para fazer companhia a ela.

— Eu nunca pensei que perderia um dia de sol por ser caucasiana. Jogou os cabelos para o lado.

Eu achei melhor ficar calado, pois a minha vontade era dizer que se ela tivesse seguido à risca a minha recomendação sobre o uso do protetor solar não estaria passando por isso.

O problema não era ser branca e sim ser descuidada.

O Resort possui uma piscina externa de borda infinita e um bar ao lado, serviço completo de SPA com dois tipos de sauna a seco e a vapor. Circulamos pela academia e seguimos até a bicicleta elíptica, o que começou como um passatempo entre nós, passou a ser uma boa maneira de gastar energia.

Eu não queria entristecer Anna, no entanto, o que era mais divertido naquele lugar envolvia atividade ao ar livre.

— O que você acha de sentarmos naquelas espreguiçadeiras? Apontou com o dedo em direção a cobertura de palha em cima de duas cadeiras posicionadas na praia privativa.

Era tão estranho quando Anna parecia ler a minha mente.

— Claro.

A vista do mar sempre compensa.

Ela caminhou na minha frente com aquele bonito vestido florido, as costas dela também estavam vermelhas.

Ocupei a espreguiçadeira ao lado dela.

— Eu acho que nunca me cansaria dessa vista deslumbrante, mas não tem como não sentir a falta do clima russo.

Será que a Anna falou isso por ter ficado revoltada depois que se queimou no sol?

Puxei uma lufada de ar.

Eu poderia morar ali sem problema nenhum, estou me descobrindo um imigrante.

— Você está diferente.

Sua observação me alertou, será que eu havia deixado passar alguma coisa?

— Como assim diferente? Sondei.

Seus olhos correram sobre o meu rosto.

— Só sei dizer que está. Uma pausa. Um olhar sereno. — Alguma coisa mudou em você.

Ela estava certa, eu estava enfeitiçado por Aurora.

— Deve ser influência desse lugar.

Os olhos dela me miravam apaziguados, todavia, prestavam atenção a cada palavra que saía da minha boca.

Tive um pressentimento forte, e se a Anna soubesse algo sobre Aurora? Será que ela teria coragem de me dizer? Ou correria até a minha mãe? E se eu abordasse o assunto? E se ela pudesse me ajudar a diminuir essa teia de mentiras que eu inventava. Eu iria mesmo envolver alguém que não tinha nada a ver com a história? Será que seria o certo a se fazer?

Não. Provavelmente, em algum momento me causaria problemas.

— Aleksandr?

O que ela falou mesmo? Voltei a concentrar-me nela.

— Sim?

— Eu perguntei se você vai almoçar no restaurante Sands com a sua mãe?

Pense rápido!

— Hum, pensei em dar uma volta por aí, diga a minha mãe para não se preocupar, pois se eu sentir fome um dos quiosques bastará. Completei. — Eu encontro vocês mais tarde no bangalô.

— Está bem.

A personalidade de Anna era mais fácil de contornar por não ter a sequência de questionamentos que aconteceria se fosse a minha mãe em seu lugar.

Afastei-me de Anna com uma ideia em mente, fui à procura de um funcionário para conseguir organizar tudo o que eu precisava. Eu queria fazer uma surpresa a Aurora, a primeira vez que a gente se viu eu a tinha feito um convite, realizar o que eu queria custou uma pequena fortuna ao cartão de débito da minha mãe.

Fui até a praia com esperança de encontrá-la, caminhei até a parte mais afastada. O que eu poderia fazer era sentar na areia, apreciar a vista e esperar que ela fosse até mim.