Cem Mil Anos-Luz
5 Interlúdio I
Notas iniciais
As conversas com Yavanna eram frequentes, mas não muito substanciais. Naymee tinha muita dificuldade de conseguir alguma informação, porque Yavanna não era ingênua. Qualquer ser pensante, ao se ver livre de um laboratório de pesquisa, não confiaria cegamente em outros membros da mesma organização. Mas ela tinha sido direta e firme sobre a necessidade de retornar ao planeta natal, Anuradhira, e Naymee achou um pedido razoável.
“Você concorda”, diziam as letras brancas na tela escura do monitor, “mas percebo que o curso deste receptáculo está no caminho contrário.”
— A Vanguarda tem uma parada obrigatória urgente em Riesztak, mas assim que a fizermos, seguiremos rumo a Anuradhira.
“Urgência é algo que tenho mais propriedade para definir do que vocês.”
— Imagino.
“Você certamente compreende, capitã, que estou lhe pedindo por mera educação.”
— Escute — Naymee suspirou, recostando-se na cadeira diante da tela. — Como toda a Super-Região, eu tenho o maior respeito pelos seus. A senhora tem minha total cooperação, mas em troca eu também peço a sua. Se tentar tomar a minha nave, eu garanto que seremos uma nuvem de destroços bem antes de chegarmos a Anuradhira.
Naymee não tinha certeza do quanto um ser sintético descorporalizado de meio milhão de anos era capaz de ler suas expressões, mas a resposta demorou um pouco mais que o normal. Naturalmente, a diferença entre blefes e ameaças reais era orgânico demais para que seres sintéticos lembrassem da sensação. E o blefe não era tão improvável assim, a Esquadra de fato preferia destruir suas naves do que permitir que sua tecnologia passasse a outras mãos, e Naymee tinha o mesmo apego pela sua nave, embora odiasse admitir.
“É incomum que seu povo se mostre materialista, muito menos possessivo”, respondeu, por fim, deixando vago se tinha acreditado ou não.
Nesse momento, o pergarol de Naymee indicou uma chamada de prioridade que adiantou o fim da conversa.
— É, eu sou bastante incomum, já me disseram isso antes. Agora, se me der licença…
Em sua sala, Naymee respondeu à chamada, exibindo em um holograma o busto de alguém que não era diretamente sua chefe, mas, por uma série de favores que Naymee lhe devia, incluindo o fato de ainda permanecer como capitã da Vanguarda, parecia achar que sim.
— Diretora Wangi — cumprimentou.
— Capitã Naymeeneraham — ela respondeu no mesmo tom de inconveniente que Naymee havia usado.
Wina Wangi era uma boa década e meia mais velha que Naymee, mas uma vida de cuidados cosméticos raithuanos e habilidades sobrenaturais com maquiagem tornava a diferença imperceptível. Originária de Raithua Naam, ela tinha um ar um tanto antiquado, com os cabelos escuros e lisos bem presos em um coque formal e nenhum fio fora do lugar. O rosto em forma de coração era inundado por pequenas piscinas rosadas sob os olhos da mesma cor. Um triângulo de batom vermelho no centro do lábio inferior era a única coisa que se destacava da maquiagem nude, e a gola assimétrica das roupas vermelhas deixava descoberto o ombro esquerdo, onde mais das características sardas róseas se mostravam.
— Li o seu relatório. Tem certeza que ele é esse “Rigmery”?
Naymee cruzou os braços, quase ofendida com a pergunta.
— Algumas vozes não dá para esquecer, Wangi. Além disso, a única coisa que parecia interessante em Ashaam era a synthrana de quem lhe falei. Isso parece o tipo de coisa que ele… Rigmery… vai atrás. — Ainda era estranho dar nome a quem por tanto tempo tinha sido apenas uma sombra. Uma lenda sussurrada entre viajantes e refugiados nos hangares de espaçoportos. — Aliás, o que uma synthrana fazia em um laboratório da Esquadra?
— É confidencial — respondeu com a naturalidade de quem já tinha dito isso muitas vezes. — Vou mandar um grupo para recolhê-la.
— Não será possível. Ela requisitou o salvo-conduto, estamos indo a Anuradhira.
Wina Wangi deu um longo suspiro como se pudesse prever a inutilidade da discussão mesmo antes de iniciá-la, mas era seu trabalho tentar.
— Naymeeneraham, querida, analise a situação. Você encontrou a synthrana…
— Yavanna.
— Perdão?
— O nome dela. Yavanna Neerlara.
— Neerlara? — perguntou, levemente surpreendida. — Que seja. Você encontrou Yavanna em um laboratório do Governo-Geral que nem você deveria ter acesso. O que os synthraros vão achar quando souberem? Além disso, pelo tempo que ela passou em Ashaam I, certamente tem informações confidenciais do Governo-Geral. Não pode devolvê-la para Anuradhira.
— Eu não entendo muito de política, mas o salvo-conduto não é um direito diplomático dos synthraros há, sei lá, mais de cinco mil anos? Eu acho que não levar Yavanna para lá os deixaria bem mais irritados do que o que quer que tenham tentado fazer com ela em Ashaam.
— O salvo-conduto é para o retorno da peregrinação, e se ela é da geração Neerlara, a peregrinação dela terminou há muito tempo.
— Não força, Diretora Wangi, você sabe muito bem que o sentido foi ampliado com o tempo.
— Não é exatamente uma discricionariedade minha permitir que você a entregue para Anuradhira, e mesmo que fosse, seria uma grande estupidez. E eu não posso viver passando a mão na sua cabeça toda vez que você decide algo sozinha. Você não é mais uma capitã civil, rainha em sua nave, Naymeeneraham. Você é um componente bem pequeno em uma cadeia de dimensões galácticas. Até eu sou, também. Já não teve tempo suficiente para entender isso?
Naymee ouvia com seriedade. Ninguém gostava de ouvir sermão, mas esse discurso, o mesmo discurso que Viltri repetia tão incansavelmente para ela, era o que mais lhe irritava. Por que era tão difícil acreditar que ela tinha a mesma consideração pelas suas funções que qualquer outro capitão? Como se entrar para a Esquadra tivesse sido uma espécie de castigo forçado sobre ela, em vez de uma escolha para que pudesse continuar perto do que era importante para ela. Às vezes ela regia por suas próprias visões, mas nunca de uma maneira que acabasse prejudicando seus deveres.
Apesar disso, Naymee engoliu a irritação com facilidade e sorriu, porque não era nada mais que justo fazer Wina se preocupar também.
— Não, acho que ainda não foi suficiente. E não é exatamente por esse motivo que a senhora gosta de mim, Diretora Wangi? — Wangi não se comoveu, mas, ainda que insatisfeita, não tentou negar que muitas vezes favorecia a capitã da Vanguarda. — Olha, acompanhe meu raciocínio. Nós estamos falando dos synthraros. Todo mundo sabe que não existem segredos para eles, eu já perdi as contas de quantos arquivos parasitas encontrei nos meus equipamentos. O que quer que tenha acontecido em Ashaam, existe uma boa chance de que eles já saibam. É mais seguro presumir que sim. Você joga Kyujn? Não? Bem, eles já conhecem as cartas que você tem na sua mão, não adianta mais blefar. O que aconteceu em Ashaam, aconteceu. Eles já sabem, ponto final. Vamos levar Yavanna a Anuradhira, porque não existe cara-de-pau no mundo que vá enganá-los agora.
— Sempre que você começa com sua diplomacia de mesa de bar eu acabo cumprindo hora extra — resmungou Wina, pressionando as têmporas, exibindo as unhas em um impecável esmalte vermelho-escuro. Apesar da provocação, Naymee conhecia aquele olhar. Wina estava no mínimo entretida com a ideia. Não olhou para Naymee novamente enquanto racionalizava uma forma de tirar a responsabilidade do Governo-Geral sobre o que quer que tivesse acontecido no laboratório. — Os cientistas não tinham comunicação com autoridades do Governo que pudessem provar a oficialidade das operações. Eles prenderam Yavanna por conta própria. A estação não foi atacada por Rigmery, mas pela Esquadra ao descobrir os crimes deles e encontrar resistência à prisão. Correto, capitã?
Naymee não gostava do raciocínio de Wangi, mas tinha que concordar com ela dessa vez. Incriminar os mortos era uma covardia necessária.
— É como eu me lembro que aconteceu.
O capitão Mirant não seria problema, mas as testemunhas de Ashaam II teriam de ser persuadidas. Menos como quem se resigna com uma desventura e mais como quem vê uma oportunidade, Wina assentiu com satisfação. Incidentes diplomáticos com os synthraros eram sempre brutais. Não havia defesa possível contra eles, que praticamente respiravam linhas de código muito mais antigas e mais desenvolvidas do que qualquer sistema de segurança conhecido. O fato de Naymee ainda estar no comando da própria nave ao menos sugeria a boa vontade de Yavanna, que poderia facilmente ter hackeado seus sistemas, travado todas as portas e desativado o suporte de vida de cada um dos setores.
— Então faça como preferir — disse. — De qualquer forma, não foi para falar de Yavanna ou Rigmery que eu lhe chamei. Preciso que resolva uma situação delicada com o corporativista Ley Wander. Também conhecido como meu ex-marido.
Pega de surpresa com a guinada de noventa graus na trajetória da conversa, Naymee encarou Wina por alguns instantes silenciosos, esperando que o assunto se revelasse uma piada. Mas não lembrava de Wina já ter feito uma piada no horário de trabalho.
— Isso parece um assunto totalmente pessoal.
— Mas não é. — Wina estreitou os olhos em uma careta de julgamento. — É um assunto do Governo-Geral. Como muitos raithuanos, Ley não entende muito bem que minha posição no Governo-Geral me separa de relações familiares. Pelo visto, ele também não entende o que “divórcio” significa, mas isso tem a ver unicamente com o fato dele ser um imbecil. Então ele acha que eu devo relevar certos detalhes questionáveis da corporação dele. E como ele sempre foi muito gentil e muito educado, ele achou que a melhor forma de me convencer a fazer vista grossa fosse me chantagear. Dá para acreditar?
— Ahn… Não? — Naymee respondeu, incerta. Wina estava especialmente falante, de forma que ela precisava separar as informações relevantes da bagagem trazida da terapia de casal. — Algo sério?
Wina cruzou os braços.
— Sim. Esqueletos no armário, nisso somos recíprocos. Eu preciso que elimine esse problema, por quaisquer meios necessários. Vou enviar os detalhes.
— Espera, eu não tenho como fazer isso agora! Incidente diplomático com Anuradhira, lembra? Eu mandaria o Viltri, mas ele recebeu uma missão especial do Almirantado.
Wina fechou os olhos por uns segundos, fazendo um gesto de desdém que, para Naymee, pareceu um tanto calculado. Wina tinha o incômodo hábito de exigir algo inviável antes de oferecer uma sugestão mais tolerante, que na verdade sempre tinha sido o que queria.
— Vocês também não podem só chegar batendo na porta e pedir com educação para ele entregar o material. A sede da corporação fica em Kedi Vorcia e está com a revisão de licença pendente. Acho que é uma boa ideia você mandar a sua vorcia.
*
Imari tinha sido vítima de uma grande injustiça!
Sim, era verdade que ela tinha ignorado uma ou duas — ou quatro ou cinco — ordens diretas quando irrompeu pelo hangar de transporte alguns dias atrás com Leif e Lince em seu encalço, mas estava fazendo seu trabalho. Ela era a chefe de segurança, faz favor! Então mesmo que Naymee não parecesse nada satisfeita com a interrupção súbita de sua conversa com a synthrana, a suspensão parecia uma punição exagerada.
Imari não gostou nada disso, e em parte culpava Viltri. Tinha mandado um alerta para os oficiais de comando, mas enquanto Ananke e Naymeemeraham não perceberam a tempo, Viltri visualizou e não se incomodou em dizer “Nah, a gente já sabe disso, está sob controle”. Se ele tivesse respondido ao menos com uma figurinha de polegar para cima já seria o suficiente para ela entender que a synthrana não era um risco. Então sim, sua suspensão de três dias tinha sido culpa dele. E sim, foi Imari quem misturou duzentos gramas de sal no pote de zhai j’vi que só o Primeiro Oficial gostava. Olho por olho.
Então, por tudo isso, lhe surpreendeu muito receber uma missão delicada como essa. Quando Naymee bateu na sua porta com um arquivo confidencial em mãos e uma missão em Kedi Vorcia, a ser concluída por “quaisquer meios necessários”, ainda que a capitã visivelmente desaprovasse a própria escolha de palavras, Imari não pôde evitar a suspeita.
Existia uma lógica sobre como as missões eram distribuídas na Esquadra, um padrão que normalmente considerava a experiência prévia do soldado em situações semelhantes ou o serviço exemplar distinto dos demais. Imari não tinha experiência o bastante para ter se destacado dessa forma, o que sugeria a última opção: um gesto de confiança de um superior. E não parecia ser a capitã.
Imari se deitou na sua câmara para estudar as informações do arquivo. Ley Wander, empresário e industrial, atualmente sediado em Kedi Vorcia, em uma região que os “extravorcias” passaram a chamar de Tellus. Havia um mapa com a localização, mas mapas das terras emersas diferiam tanto dos mapas submarinos que Imari não conseguiu reconhecer a localização. Parecia tão… vazio. O Kedi Vorcia que ela conhecia fervilhava com informações. Aldeias, cidades, cânions, vulcões, lagos e cavernas submersas, correntes marítimas, recifes e floras algosas. Acima das águas, apenas terras entediantes onde no máximo se encontravam regiões espaçadas de gramíneas. E empreendimentos raithuanos.
“Ela falou com você?” A pergunta apareceu no topo da tela em uma notificação. Era Leif. Ele também não estava em bons lençóis com a capitã por ter acompanhado Imari, mas tinha sido liberado do “castigo” um pouco mais cedo por uma intervenção de Viltri, que precisava do médico para uma missão especial. Eles sairiam assim que a Vanguarda chegasse a Riesztak.
“Não sobre a synthrara. Veio apenas me passar uma missão”, respondeu, sem se distrair do arquivo da missão.
O Grupo Wander havia se estabelecido em Tellus há pouco mais de trinta anos, na época em que Ley Wander e Wina Wangi ainda eram recém-casados e iludidos. Objetivo: estudo pré-colonização, para determinar a viabilidade de habitação de longa duração no planeta.
Leif começou a digitar uma resposta, mas desistiu. Recomeçou e enviou outra mensagem logo depois. “Ela deve ter um bom motivo para preferir que ninguém soubesse.”
Imari interrompeu a leitura, meio sem acreditar que Leif tinha dito isso. O contexto sofria com a falta que a entonação fazia em uma conversa escrita, mas quando Leif apenas se despediu, pois a Vanguarda havia chegado em Riesztak, Imari entendeu que ele havia falado com um tom de resignação. “É, ela deve ter um bom motivo, vida que segue.”
Para Imari, a situação ainda parecia injusta. E até um pouco insultante, se fosse sincera, porque significava que tinha sido suspensa por ser inesperadamente competente. Será que todos os capitães eram assim?
Imari balançou a cabeça, afastando o pensamento. Estava caçando problemas. Deveria se concentrar nos problemas que faziam a gentileza de aparecer sozinhos, ao menos por enquanto, e o que estes escondiam nas entrelinhas.
*
Visitar a sala de Tamura faria parte da rotina diária de Lince por pelo menos três semanas. Uma rotina bastante detalhada, onde as tarefas eram organizadas por cores de acordo com o grau de importância e obrigatoriedade. Por causa da pilha de planilhas semelhantes na mesa dela, Lince soube que ele não era um caso único, organizar os horários de todos os membros da tripulação era parte do trabalho dela. Mas o resto da tripulação não precisava de uma rotina de “aulas” para aprender a viver na Super-Região.
Sem levantar os olhos para Lince, Tamura consultou o relógio enquanto escrevia algo em uma folha de papel.
— Está cinco minutos adiantado — disse, como se fosse algo ruim. Apontou para a cadeira na frente de sua mesa e continuou rabiscando com a caneta sem dizer mais nada, o que deu a Lince cinco raros minutos à toa para observar a sala.
Depois de três dias com essas aulas, Lince tinha aprendido algumas coisas sobre Tamura. Ela era bastante analógica. A tripulação inteira se organizava por agendas virtuais e telas holográficas, mas ela tinha uma inclinação ao mundo físico: planilhas de horários impressas em sua mesa, uma parede completamente ocupada por post-its coloridos em colunas bem definidas atrás da mesa dela, e, ainda que Lince não tivesse aprendido ainda os símbolos da escrita, ou melhor, das escritas da Super-Região, ele supôs, pela manipulação dos símbolos, que ela rabiscava uma regra de três na caderneta em vez de utilizar uma calculadora.
— Szauratia — ela chamou.
A auxiliar, uma mulher de aparência um tanto inquietante, entrou na sala. O tom azulado da pele, mais escura que a de Imari, mais clara que a de Viltri, não era mais um motivo de estranhamento para Lince, porém, sua constituição óssea parecia maior do que deveria ser, como se pertencesse a uma espécie mais corpulenta vestindo a pele de uma pessoa esguia. Na primeira vez que a vira, com as maçãs do rosto e a testa proeminentes, Lince quase pensou que ela estava usando um elmo.
Tamura estendeu algumas das planilhas para ela.
— Novos horários para o corpo médico. O do Leif só começa na próxima semana, ele saiu em campo. Não aprovei os currículos que Mohtro selecionou, diga a ele para continuar procurando, de preferência alguém que não tenha aprendido medicina como auxiliar em clínicas clandestinas.
— É difícil encontrar médicos de verdade como freelancers, Especialista Eisenyoung — Szauratia respondeu. — Leif foi o único que apareceu em meses.
— Então vocês sabem que é possível encontrar. Também informe a Esquadra que temos mais um tripulante kaani — Tamura olhou brevemente para Lince —, então vamos precisar de mais 340.000 litros de oxigênio por mês. Aproximadamente.
Quando Szauratia se afastou, Tamura voltou a atenção para Lince. Os cinco minutos haviam passado e era exatamente a hora que tinham combinado.
— Antes de tudo, eu consegui um pergarol para você — falou, retirando o dispositivo de pulso da primeira gaveta da mesa. — Se acontecer de você ficar sozinho com alguém que não saiba da sua origem terráquea, o que deve evitar sempre que possível, vai conseguir se comunicar.
Tamura manipulou o equipamento apenas para selecionar a linguagem adequada para Lince antes de entregá-lo com um gesto quase ríspido, perfeitamente no limite entre entregar e jogar.
— Releve a demora, normalmente temos um estoque, mas o Taifeiro Dekstar vive perdendo o dele. Como é que se perde um dispositivo acoplado no seu braço? Se eu receber mais uma requisição dele, vou fazer ele guardar num lugar bem difícil de esquecer. E você não perca também! Sabe o quanto isso custa para a Esquadra?
— Posso assegurar que não estou planejando perder, Tenente.
Tamura inclinou a cabeça como se tentasse decidir se Lince tinha sido sarcástico ou não, mas logo decidiu que não ligava o bastante, apenas desviou o rosto e pegou mais folhas de outra gaveta.
A falta do aparelho não tinha sido um grande problema para Lince nos últimos três dias. Enquanto Tamura preparava a planilha dele, Lince tinha passado a maior parte do tempo na cabine que lhe cederam. Em parte para evitar interações sociais com os tripulantes que desconheciam sua origem terrestre e que não podiam ser informados da língua que precisavam adicionar no tradutor.
Mas, também, porque, por mais curiosos que fossem aqueles novos povos, Lince se preocupava muito mais em conhecer o lugar em que estava, a tal da Super-Região. Tinha lido tanta coisa nesses dois dias, sobre tantos planetas, tantas culturas, eventos históricos e avanços tecnológicos, que apenas metade tinha ficado na sua cabeça, e metade desta metade era de forma bem superficial. E, é claro, ele tinha lido sobre singularidades e anomalias espaciais. Tudo o que conseguiu encontrar, inclusive matérias inúteis, com conceitos físicos no mínimo questionáveis de sites que pareciam bastante com fóruns conspiracionistas, mas que ele leu mesmo assim, porque é importante conhecer a face da estupidez para nunca caminhar desavisado ao lado dela.
— Falando no Dex, ele não faz nada como taifeiro, a cozinha é aberta para a gente se virar, mas ao menos ele marcou os estoques da forma que eu pedi, então você vai conseguir preparar sua comida sozinho. Tudo o que estiver com um adesivo verde na embalagem é de composição bastante similar com a comida da Terra. O que tem adesivo amarelo não vai te matar, mas o valor nutricional é quase nulo para você. E não toque nos de adesivo vermelho, sob risco de envenenamento, indigestão, reações alérgicas diversas e… perda de visão, olfato ou paladar.
Lince não achou muito positivo o fato de ter sido Dekstar o encarregado de uma tarefa tão delicada, não quando Tamura tinha acabado de dizer o quanto o achava incompetente.
— Você supervisionou?
— Claro, nada aqui pode ficar nas mãos de uma pessoa só — respondeu, continuando a leitura dos efeitos nada agradáveis dos alimentos alienígenas demais para o organismo de Lince. Deixou a folha de lado e se recostou em uma postura um pouco mais à vontade. — Então, o que você leu ontem?
Lince tinha se acostumado a chamar aqueles momentos de aulas, mas na verdade eram apenas conversas. Ele tinha estranhado no começo, mas parou para pensar na situação contrária. Como ele “explicaria” a Terra para alguém que nunca tivesse pisado nela ou ouvido falar dos humanos, quando tudo lá lhe parecia tão básico, natural e comum? Às vezes, o óbvio precisa ser dito, mas, justamente por ser óbvio, costuma ser esquecido. Não era melhor deixar que o estranho decidisse o que não entendia e fazer as perguntas certas? Como uma criança fazendo perguntas conforme as dúvidas surgiam. Lince não gostava de se ver no lugar da criança nessa metáfora, mas, precisava admitir que existia certo fascínio em descobrir uma parte do mundo que, mesmo aos 26 anos de idade, ele ainda poderia conhecer pela primeira vez.
— Apenas matérias de noticiários. Procurei os maiores de cada povo, o que não foi tão restritivo quanto eu esperava, e li uma matéria de cada um dos dez primeiros da lista.
No primeiro dia, Lince tinha se dedicado inteiramente à questão das singularidades, o que os deixou com pouco assunto para discutir. Astrofísica não era uma área na qual Tamura se destacava e, segundo ela, um pouco de cultura geral era bem mais urgente, então ela exigiu que Lince sempre viesse com um assunto menos acadêmico em mente.
— Alguma delas chamou sua atenção?
Praticamente tudo, mas a maioria das dúvidas Lince conseguiu deduzir por conta própria. Uma pesquisa se desenvolvia como o padrão de uma teia de aranha, cada questão sobre a qual lia o levava a mais outras três e assim por diante. Às vezes uma respondia a outra, às vezes não.
— Tem uma guerra acontecendo.
— Tem várias. O universo é um lugar bem grande, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
— Mas só uma envolve o Governo-Geral inteiro como uma das partes, não? A dos yeranoa? — Tamura assentiu sem interrompê-lo, como se para obrigá-lo a preencher o silêncio por conta própria. — O que isso implica, quando vocês têm tanta liberdade de ir de um planeta para outro como se não fosse nada?
Tamura deu de ombros de leve.
— Não implica grande coisa, na verdade. A guerra não é contra Yetoni ou os yeranoa, mas sim contra uma parcela deles, os Asherah R’Tari. — O tradutor no pulso de Lince, apesar de manter o termo na língua original, piscou com uma nota que dizia “Asherah R’Tari (Irmãos dos Partidos)”. O termo era um hiperlink para uma página maior, que Lince salvou para ler depois. Podia ser o assunto do dia seguinte. — Não significa que os yeranoa vão matar todo extrayetoniano que virem, ou que o G. Geral vai prender todo yeranoa fora de seu planeta-natal. Mas os conflitos são imprevisíveis, e é perigoso visitar Yetoni por isso, principalmente para nós, da Esquadra.
— E qual o motivo disso?
— Olha, eu vou confessar que não sou a pessoa mais politizada nessa nave, mas os AR’T devem ver o crescimento do G. Geral como uma “ameaça imperialista” ou algo assim — respondeu, com um tom de desdém na expressão utilizada. — Yetoni ainda tenta manter as relações pacíficas com a gente, mesmo que não sejam membros do G. Geral, mas membros da Esquadra devem sempre ficar alertas. Inclusive você. Assim como eu, você é um kaani a serviço da Esquadra. É como os dois lados irão lhe ver.
Lince não respondeu de imediato, mesmo com o olhar incisivo de Tamura claramente o instigando a voltar a falar. Olhou novamente os post-its coloridos atrás dela, eles tinham palavras irreconhecíveis, mas demonstravam uma veneração metodológica curiosa. Uma fileira de nomes, outra de horários e locais de trabalho, outra de horários e locais de lazer, e até seus horários de sono. Lince se pegou pensando, e não pela primeira vez, no que faria alguém como ela se dar ao trabalho de acobertar tamanho descumprimento da lei.
— E por quê? — perguntou, cruzando os braços. Longe de tentar fazê-la reconsiderar, mas tinha chegado na parte importante da conversa e Tamura era muito arisca para que ele arriscasse continuar em silêncio. Então, quando ela estreitou os olhos para o questionamento, Lince continuou: — Não me entenda mal. Sou grato por terem me oferecido uma opção em vez de me entregarem imediatamente, mas também não consigo entender por que vocês estão fazendo isso.
— Isso importa? — Tamura franziu a testa, não com a habitual impaciência, mas como se a dúvida fosse genuína. — Estar aqui não é o que você prefere?
— Estamos aqui para que eu compreenda vocês, não é? Acho que isso faz parte. Por que você tem feito tudo isso?
— Porque Naymeeneraham é minha capitã.
— Mas ela está desobedecendo a lei, isso não é mais importante? Você não poderia só denunciá-la?
— Mas ela é minha capitã. Se tivesse sido ideia de Viltri ou Ananke, eu já teria denunciado. É diferente.
— Diferente como? Eles também são seus superiores.
Tamura desviou brevemente o olhar, e Lince teve a certeza de ter visto, por menos de um segundo, um ar de hesitação. Então ela o encarou de novo, parecendo mais irritada que o normal.
— É diferente.
Ele assentiu, embora ainda não compreendesse. Talvez devesse mudar o sujeito da conversa.
— E por que a capitã está se arriscando assim por mim?
— Porque ela é burra. — Tamura respondeu com descaso, deixando-o em dúvida se essa era mesmo sua opinião ou se o ponto sensível da pergunta anterior ainda a afetava. — Por mim, você não estaria aqui. Não é pessoal, eu pensaria isso de qualquer humano. Vocês não têm nada a oferecer. Não valem o esforço, entende? Naymeeneraham tem seus motivos para adotar você, não importa que eu discorde, mas aí você vai ter que perguntar para ela.
Lince cerrou os punhos dentro dos bolsos do macacão padrão oferecido aos tripulantes, mas se manteve impassível. Era uma lógica bastante ilógica. Se apenas fizesse sentido contatar povos mais desenvolvidos, e estes também tivessem a mesma regra, a única resposta seria sempre o silêncio e a indiferença de quem passa por animais esperneantes dentro das jaulas de um zoológico. Nenhuma voz nunca alcançaria os ouvidos de ninguém. E a humanidade estava gritando por companhia há muito tempo. Seria decepcionante se todos partilhassem daquela mesma visão.
Mas qual seria o ponto de dizer isso? Sentia que qualquer linha de argumentação com Tamura levaria apenas a uma discussão bastante vã. Ela mesma já tinha virado o rosto para outros assuntos, folheando algo, apertando os lábios ao ponto de torná-los uma linha reta. Fez um gesto vago em sua direção antes de perguntar:
— De qualquer forma, como era sua rotina na Terra? Você tem algum hobby? Se sim, mantê-lo seria uma boa ideia, pode ajudar com o estresse. Temos salas de recreação, academia, etc.
Para alguém que não o queria ali, ela era bem considerativa.
Às vezes. Nem sempre.
Seria ótimo se ela se decidisse.
— Nada? Hobbies são importantes. É parte do meu trabalho evitar que as pessoas surtem dentro de uma nave, separadas do vácuo do espaço por paredes de apenas 10 centímetros de espessura.
Ainda pensando na visão depreciativa quanto aos humanos, Lince apenas respondeu:
— Mas eu não estou surtando.
— Ainda. Sinceramente? Kuzgun liberou você, mas ainda acho que você está em choque. Em algum momento a ficha vai cair, você vai perceber que você nunca mais vai voltar para casa. Nunca mais vai ver sua família, seus amigos… Você perdeu até mesmo as coisas pequenas. Nunca mais vai comer as comidas que gosta, porque elas não existem aqui, nunca mais vai ver o mesmo céu noturno ou ouvir os sons dos mesmos animais. Isso parece triste.
Tamura vinha falando lentamente, quase como se pudesse sentir como era estar na situação dele. Então ela levantou o rosto com um sorriso afiado e deu uma piscadinha. Lince tocou o anel prateado dentro do bolso, mas apenas respirou mais fundo que o normal, mais incomodado por ela propositalmente brincar com tudo isso do que realmente pelas coisas que dizia. Afinal, Lince sabia que voltaria. Ele descobriria como.
— Nada? — ela perguntou.
— Por quê, tem alguma tabela sobre como eu deveria reagir? — devolveu, um tanto ríspido. Esperava cortar o assunto, mas Tamura riu.
— Uau. Você é difícil. Tudo bem. Vai acontecer mais cedo ou mais tarde, mas eu preferiria que fosse cedo, enquanto todos ainda estão a sua disposição para qualquer mínima necessidade sua. Mas o tempo fará todos acharem que você se acostumou. Aí, quando você tentar algo idiota, pode não ter ninguém por perto para impedir.
— Nosso tempo acabou, não?
— Não. Vou acompanhar a Chefe de Segurança Imari em uma missão e ficarei ausente uma semana, então hoje teremos mais tempo. Então? Você tem um hobby?
Lince abriu os braços, sem saber por que ela achava isso tão essencial, mas se podia encerrar a conversa mais cedo, então não era grande coisa.
— Eu praticava astrofotografia.
— Ótimo, você tem um novo céu para isso! Escuta, isso não é algo particular seu, todo mundo aqui precisa ter alguma atividade recreativa. O Dr. Kuzgun é músico e Szauratia canta, as pessoas pedem para eles tocarem na sala de convivência uma vez por mês.
Lince pensou que, se todos ali precisavam manter hobbies, o de Tamura certamente era mandar nas pessoas. Explicava muita coisa.
*
Imari chegou ao hangar de transporte por último, depois de se certificar que todas as suas armas estavam em ordem. Se fosse ingênua, diria para si mesma que o objetivo daquela missão era pacífico. Convencer um empresário raithuano a ceder o que quer que tivesse em mãos para chantagear uma servidora do Governo-Geral. Esperava que a presença de três oficiais fosse o bastante para mostrar que isso não era apenas um crime dos mais graves, tentar interferir nas funções da diretora Wangi, mas também uma tremenda burrice. Se Wander fosse inteligente, a missão não deveria ser difícil, nem violenta.
Mas Imari sentia como se a quebra das ondas nas rochas da praia acontecesse dentro de seu peito. Quase podia sentir o cheiro da maresia quando pensava que em poucas horas estaria novamente em Kedi Vorcia. E mesmo sem nenhuma sugestão do tipo, ela sabia que tinha sido escolhida por algo mais, algo pessoal. Sabia que havia alguma coisa em jogo para ela também, por isso a Diretora do Gabinete de Inteligência havia escolhido uma jovem vorcia recém-formada sem experiência suficiente para comandar uma missão dessa importância.
Então, já no hangar de transporte, ela verificou todas as suas armas uma última vez. O rifle de assalto, a pistola, sua manopla de energia e a faca com cabo de marfim, cujo metal ainda liso e brilhante como um espelho demonstrava que nunca tinha sido usada. Ela não conseguiu decifrar a expressão que viu no rosto refletido no metal. Guardou a faca antes que alguém reparasse nela. Não que realmente quisesse escondê-la, mas coisas assim chamavam atenção em um ambiente dominado por armas de fogo.
Ananke estava distraída conferindo as configurações do Vetorial, enquanto o engenheiro Eliota fazia as correções que ela julgava necessárias, e Tamura estava no banco mais próximo do veículo, com a cabeça repousando contra a parede e os olhos fechados, completamente desinteressada nas tecnicidades que os dois discutiam. Antes que Imari se aproximasse delas, porém, a capitã apareceu. Dispensou a mensura meramente formal de Imari ao alcançá-la.
— Têm tudo o que precisam? A Vanguarda não entrará em órbita como fizemos em Riesztak, não poderemos oferecer suporte depois. — Imari assentiu com um gesto curto de cabeça. — Você já liderou uma missão, Imari?
Dessa vez, a afirmativa veio com menos convicção. Imari apoiou a mochila sobre um ombro para deixar as mãos livres. — Apenas nos exercícios durante a formação.
— Se as coisas fluírem bem, não será muito diferente do que você já faz aqui no corpo de segurança.
Imari não disse nada. A fala de Naymeeneraham pareceu sugerir que o exercício do cargo que Imari ocupava era satisfatório; um pouco irônico, visto que essa missão estava cancelando o período da sua suspensão, e a conversa com Leif voltou a sua mente. — E se fluírem mal?
— Vocês terão a chance de mostrar por que são as melhores combatentes da nave. Mas tente evitar essa possibilidade. Lembre… A Diretora Wangi falou “quaisquer meios necessários”, mas lembre, você tem opções.
Imari desviou o olhar para Ananke e Tamura. — Alguma dica sobre isso?
Vendo que ela apontava para as duas oficiais, Naymee respondeu:
— Zreindel é bem mais receptiva do que parece, e Tamura, gostando ou não, é uma Eisenyoung, use isso a seu favor se necessário.
Não era exatamente esse o sentido da sua pergunta. Estar no comando de duas oficiais com patentes superiores a sua era um pouco estranho para os padrões vorcias — na verdade, para a maioria dos povos —, mas a Esquadra se orgulhava de ser dinâmica, e Naymee já devia achar isso comum.
As patentes eram a lei dentro de uma nave espacial, base militar ou instalações administrativas. Mas fora desses lugares, só existiam duas classes: o comandante e sua equipe. O modelo da Esquadra permitia uma grande variedade de equipes especializadas, selecionando caso a caso os comandantes por suas habilidades ou até interesses pessoais em vez de patentes, e, como efeito colateral, cada soldado da Esquadra acabava desenvolvendo por experiência a mente de um líder.
Pois, apesar dos esforços do Governo-Geral, o universo é um lugar grande demais para se dar ao luxo de uma hierarquia tão rigidamente centralizada, e cada soldado precisava ser capaz de tomar decisões por conta própria quando a situação pedisse.
— Posso perguntar algo, Capitã? — Imari perguntou, ainda olhando para as outras oficiais, então se voltou para Naymee para que ela visse seus gestos e repetiu a pergunta, provavelmente deixando escapar em seu rosto um pouco de ressentimento. Não esperou permissão para continuar: — Você sabia que o Arquivo Parasita era um synthraro desde o início?
Naymeeneraham a encarou com certo choque.
— Acha que eu criei a situação da sua suspensão? — Ela cruzou os braços, a surpresa dando lugar rapidamente a um curto riso sério. — Porque se for isso, gostaria que me explicasse o que eu teria a ganhar armando para você.
Imari franziu o cenho. Era difícil fingir frieza quando suas expressões eram tão essenciais para a comunicação. Leif tinha dito para deixar isso de lado, devia haver algum motivo, mas não era algo fácil.
— Com todo o respeito, capitã, se me convocou para a Vanguarda porque achou que uma recém-formada não questionaria muito, cometeu um erro. Estar na Esquadra é muito importante para mim. Por favor, não prejudique meu futuro na Esquadra por discricionariedades suas.
— Acha que sua suspensão foi injusta? — Naymee perguntou, inclinando a cabeça como se a dúvida fosse genuína, mas, apesar do ligeiro ar de entretenimento, ela não parecia ter se ofendido com a assertividade de Imari. — Por acaso não foi avisada de que eu tinha proibido o acesso ao hangar de carga e, mesmo assim, ignorou?
— Ignorei, óbvio! A minha capitã não deu sinal de que estava ciente da presença do synthraro na nave. Sou a Chefe de Segurança. O risco potencial superava a sua ordem!
Os sinais de Imari quase foram rápidos demais para Naymee entender tudo, tanto que demorou um pouco a responder.
— Eu não cheguei a registrar a sua suspensão. Assim que descobri sobre a synthrana, ficou óbvio que a história não poderia se espalhar, e justificar sua suspensão seria difícil. Mesmo se tivesse registrado, pode ter certeza que a missão que você recebeu será muito mais valiosa para seu futuro na Esquadra do que o prejuízo de uma suspensão. Não se preocupe.
Imari sustentou o olhar cético por uns bons segundos, até Naymee voltar a observar o hangar de transporte. Não lhe passou despercebido que, apesar de não insistir na inocência, Naymee não tinha assumido a culpa. Imari não queria abandonar a discussão, mas quando Ananke avisou que o transporte estava pronto, a Chefe de Segurança pôde apenas torcer para que Viltri não fosse o único que gosta de beber zhai.
[...]
— É um lugar muito bonito — Anke comentou, guiando o Vetorial baixo, quase tocando a água salgada.
Ela estava ocupada com os controles, então Imari não viu utilidade em responder. Mas achava curioso como os extravorcias se contentavam com tão pouco. A terra árida era vazia e monótona demais para quem conhecia as cores vibrantes do fundo do mar. Fora da água, seu mundo parecia meio morto. Seria quase deprimente, se os vorcias não soubessem o quanto essa impressão era errônea. Um sorriso triste despontou no rosto de Imari, lembrando de algo que tinha aprendido há muito tempo.
Da superfície não se veem os vulcões.
Em resposta, um sorriso sábio e maternal a cumprimentou de suas lembranças, junto com o sabor cítrico de antigos cafés-da-manhã. Esse era o verdadeiro mundo, uma aldeia de águas rasas, uma instalação nas profundas bases de um vulcão e o caminho que unia um ao outro.
Vorcias não lidavam com palavras, mas com conceitos, e era essa sua definição de lar. Esse mundo era imenso e forte. Podia não ser visto, mas estava lá. E Imari faria com que todos se lembrassem disso.
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