Cem Mil Anos-Luz
6 2. Sky Mirroring
Notas iniciais
“Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.”
Fernando Pessoa“There’s no room to hide / ‘cause I know, I know, I know, know better /
Ain’t no wrong that’s gonna last forever.”
Young & Restless (SIAMÉS)O dia de Ley Wander começou com a notícia inesperada de que um transporte auxiliar da Esquadra havia pousado em Tellus. Era discreto demais para os gostos de Wina, mas desde que entrara para o Governo-Geral, ela parecia tentar se distanciar dos padrões do passado. O histórico de uma socialite raithuana não pegava bem em alguém com acesso a recursos públicos da Administração Interplanetária.
Então, supor que Wina tinha vindo pessoalmente a Kedi Vorcia foi um erro honesto, nada tão improvável, ainda mais dado o teor estritamente confidencial de sua última conversa. Ou talvez ele só quisesse muito revê-la, não por saudade, arrependimento ou qualquer espécie de carência romântica, mas sim porque o desejo de mostrar a ex-parceiros o quão melhor do que eles você está após a separação é uma constante universal. Talvez com um pouco mais de tempo, Sir Isaac Newton teria descoberto essa última lei antes de morrer. Ou talvez não, porque isso exigiria alguma experiência com relacionamentos que ele perceptivelmente não tinha. Bom, apesar de nunca ter se envolvido com ninguém, ter destruído o único retrato de Robert Hooke na Royal Society demonstra que Sir Isaac Newton tinha certa experiência com desprezo e vingança.
Wander fez questão de, mesmo com o pouco tempo disponível, organizar a mais refinada recepção. Mais seguranças na entrada, gráficos de produtividade em exibição em todos os holopôsteres dos andares destinados ao recebimento de convidados e clientes, e, se Garrival Eisen não tivesse deixado o planeta dois dias antes, Wander faria questão de atrasar o amigo para mostrar um pouco de suas boas relações. Ter planejado um jantar talvez escapasse um pouco do limite profissional. Mas quem poderia culpá-lo? Wina deveria ver do que tinha aberto mão.
É claro que Ley Wander estava errado. Se chegasse aos ouvidos de Wina Wangi que o ex-marido pensou que ela se deslocaria de seu confortável gabinete em Morai Nora e pisaria na areia morta de Kedi Vorcia em outro sistema estelar só por causa de uma chantagem tão amadora, ela não se surpreenderia. Se ele a conhecesse o mínimo para saber que ela jamais desceria tão baixo, eles ainda estariam casados.
Wander percebeu seu erro observando por trás dos vidros de seu escritório no mezanino da entrada social da instalação, pairando sobre a recepção com a intenção de impressionar investidores e colegas de classe social. Tinha se esforçado à toa para três pessoas aleatórias, meras oficiais subalternas de uma nave qualquer.
Tinha que admitir, era surpreendente que Wina confiasse a solução de uma vulnerabilidade tão vital a outras pessoas. Afinal, se ela fosse um pouco mais aberta, eles ainda estariam casados. Ele teria deixado a secretária Kimmei lidar com as recém-chegadas sem maiores interesses, mas uma delas capturou sua atenção ao se comunicar com Kimmei em sinais.
A coisa mais interessante sobre a soldado vorcia era que, de longe, ela quase não parecia uma vorcia, com os cabelos escuros tão longos quanto os da raithuana ao lado dela, mas trançados de forma bem mais simples. Só com um pouco de atenção ele percebeu os catéteres sob a gola alta do uniforme.
Wander abriu um sorriso entretido, que logo se contorceu com uma pontada de irritação, e bebeu o resto do vanhri raithuano em um só gole.
Wander podia até fazer boas jogadas, mas Wina sempre jogava com cartas marcadas.
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Imari apresentou para a recepcionista o documento que justificava a entrada delas na instalação. Se algum empreendimento tinha risco de afetar relações entre planetas, o Governo-Geral assumia a responsabilidade de inspecioná-los, sem prejuízo da autoridade local, e a Esquadra era a ferramenta pela qual isso acontecia. Jamais entrariam ali se fosse solo raithuano, mas uma instalação raithuana em solo vorcia era outra situação. Por isso Imari tinha chamado Tamura para a operação, os documentos até seriam aceitos, mas a ausência de um Oficial Especialista levantaria perguntas que Imari preferia não precisar responder.
Enquanto Kimmei, a recepcionista, conferia a disponibilidade de um guia para apresentá-las às instalações, Imari sentiu um toque em seu ombro. Quando virou o rosto para Ananke, a navegadora desceu a mão e tocou com três dedos o antebraço em um gesto discreto.
“Eisenyoung.”
Imari olhou para Tamura, que, alheia ao sinal trocado, não cruzou o olhar com o dela. Tamura tinha as mãos enterradas fundo nos bolsos, o maxilar tenso de dentes cerrados e os olhos fixos no tampo de madeira do balcão como se pudesse enxergar o que Kimmei fazia no computador oculto atrás dele. Mas não era dela que Ananke estava falando, e sim de um segurança na parede distante. Uma parte da tatuagem no antebraço ficou visível pelo tempo em que ele reposicionou uma braçadeira tática. Ele não era o único, ao menos metade da segurança parecia ser composta de Eisenyoungs.
Obviamente, Tamura tinha percebido também. Fazia sentido Ananke informar da presença deles caso o trio arranjasse problemas, mas Imari não entendeu o desconforto de Tamura.
— Desculpem a demora — Kimmei interrompeu o silêncio, com um sorriso de quem tem boas notícias. — Parece que vocês terão uma excelente visitação, pois o próprio Diretor Wander será seu guia! Por favor, entrem na porta à direita e aguardem.
Imari agradeceu com um prático aceno de cabeça e se dirigiu com as outras para a porta indicada, ladeada por dois seguranças, com apenas Anke ao seu lado. Tamura havia ficado um passo atrás e, quando as alcançou, tinha trocado de posição com Imari, ficando no centro do trio, ainda sem dizer nada.
Os seguranças as seguiram com o olhar, mas Imari ouviu um deles cuspir uma palavra com um tom de indiferença quando já estavam longe demais para o seu tradutor capturar o significado. Rhindrevha.
Imari estava preparada para um chá de cadeira; em vez disso, um homem bem vestido com um terno cor de chumbo feito sob medida, sobre um colete preto com brocados de um verde tão intenso quanto o que tingia as maçãs de seu rosto e o das esmeraldas em seus olhos já as aguardava. Ele não moveu um músculo até elas se aproximarem, mas o olhar não as deixou em momento algum, e o sorriso era tão artificial quanto imutável, como as feições esculpidas em uma estátua de madeira nobre.
— Meu nome é Ley Wander, sou o diretor das instalações aqui em Tellus. — Ele revezava a quem se dirigia, apesar de ter tido o instinto de considerar Ananke como a líder do grupo, talvez pela insígnia de oficial, talvez por ser uma raithuana como ele, ou uma mistura das duas coisas. Mas foi sobre Imari que sua atenção pairou ao dizer a palavra Tellus, apenas rapidamente, como quem espeta uma agulha em outra pessoa. — Peço que perdoem a recepção inadequada, não esperávamos por sua visita, mas imagino que seja essa mesmo a intenção da Inteligência com suas inspeções, não é? Quem tenho a honra de receber?
— Eu sou… — Imari iniciou, mas ele ergueu as mãos em um gesto de desculpas, quase envergonhado consigo mesmo.
— Eu sinto muito, eu não entendo a língua vorcia.
— Você trabalha em Kedi Vorcia há anos e não tem um intérprete? — Ananke perguntou.
— Eu tenho um intérprete, mas, como eu disse, sua visita não era esperada. Se eu tivesse sido informado da necessidade dele hoje, ele estaria aqui.
Imari franziu a testa, surpresa, mas abaixou as mãos. Tinha muitas coisas que as pessoas não sabiam sobre os vorcias, porque eles não andam por aí espalhando segredos da espécie para qualquer um, mas, nesse ponto, já deveria ser senso comum que não é possível mentir para um vorcia. Palavras são só uma parte da comunicação e o povo de Imari era mestre em todas as outras.
Mesmo assim, era a segunda vez no mesmo dia que alguém mentia para ela. Naymee e Wander. Estava começando a parecer pessoal.
Imari decidiu seguir a deixa para ver onde ele as levaria. Sinalizou para que Ananke as apresentasse, mas Wander demorou a direcionar sua atenção para a navegadora. Cumprimentou cada uma delas com um meneio respeitoso, demorando um pouco mais com Ananke.
— Estou encantado em conhecer mais uma Zreindel. Se me permite o comentário, o fruto realmente não cai longe da árvore — disse ele, com um sorriso galanteador que Ananke prontamente espelhou, embora a resposta tenha sido menos doce.
— Não está conhecendo uma Zreindel, diretor Wander, mas sim uma Oficial da Esquadra.
Ele aquiesceu, encolhendo os ombros com a expressão despreocupada de um amigo provocando outro. Mas ter evitado cumprimentá-la com um antiquado beijo no dorso da mão já era prova de que ele sabia disso muito bem.
— Minha esposa costuma dizer algo parecido, mas admito que ainda não me acostumei aos novos modos. Devem conhecê-la, imagino. Wina Wangi, diretora do Gabinete de Inteligência.
Wander desprendeu uma olhadela para Imari, antes de continuar a conversa com Ananke.
— Apenas de nome, infelizmente.
— Acredito que ainda terão a chance. Podemos começar?
Wander começou a andar, fazendo um breve resumo da estrutura de Tellus. Ele falava alto, mas na maioria das vezes, se referia a Ananke, que dava corda fazendo perguntas dignas de uma aspirante a cientista entrando em um estabelecimento do ramo pela primeira vez. Ela parecia tão interessada que a única dica de que não estava simplesmente expondo um lado intelectual-acadêmico oculto era o fato de suas perguntas serem razoavelmente vagas, evitando propositalmente assuntos que deixariam nítida sua leiguice.
Eles seguiam um pouco mais a frente, então Tamura olhou para Imari e apontou para Wander pelas costas com desdém, sinalizando: “Impressão minha ou esse puto está lhe provocando?”
Imari arregalou os olhos em um misto de concordância e descrença. Era tão deliberado que a confundia sobre as intenções dele. Tinha conhecido muitos raithuanos no curso de formação da Esquadra e sabia que eles tinham um hábito de soberba sutil que não era nada parecido com aquilo, mas duvidava bastante que fosse uma falta de habilidade social de Wander. Ele não teria chegado à posição em que estava se não soubesse ser sutil.
“Cuidado com o que fala. Certeza que ele entende.”
“O único gesto que ele parece capaz de entender é um soco.”
“Agora não” respondeu, porque Tamura falou com seriedade demais para presumir que fosse brincadeira. “Vamos ver o que ele nos mostra, primeiro. E o que não nos mostra.”
Depois disso, Imari não teve tanta chance de trocar palavras com Tamura durante a visita. Sendo a Especialista do grupo, ela logo teve que interferir na conversa de Wander e Ananke para fazer perguntas mais técnicas. Tamura era bem menos espontânea que Anke e parecia riscar perguntas de uma lista mental.
— Qual a natureza deste empreendimento? — Tamura perguntou em dado momento, avaliando um relatório de impacto ambiental exposto como hologramas em um painel transparente na sala de gerenciamento de sistemas.
— Muito aqui é confidencial. A autorização para a vistoria não explicou o que fazemos?
— Claro que sim, mas quero ouvir de você.
— O que posso dizer é que somos um laboratório de biologia destinado a analisar condições de permanência de vegetação não nativa.
“Você quer dizer ‘estudo pré-colonização’?” Ele acompanhou os gestos de Imari, mas aguardou Ananke traduzir. “Vocês estudam a possibilidade de cultivo e habitação a longo prazo.”
Wander sorriu.
— Entre outras coisas. Mas somos apenas pesquisadores. Não controlamos o que é decidido com base nos nossos resultados.
— O que os locais acham do seu empreendimento? — perguntou Ananke.
— Os vorcias não costumam incomodar quando não provocados. Nós nos atemos à terra e eles ao mar. É um mundo grande o bastante para ambos.
— Tem algo que não estou vendo aqui? — interrompeu Tamura, que não parecia interessada na moralidade da ocupação. — O que alimenta todas as operações desse lugar? Qual a fonte de energia?
Wander tirou o holograma das mãos dela e moveu algumas coisas na tela antes de devolver.
— Não estamos aqui há tantos anos. Ainda lidamos com geradores e combustível importados porque os investidores ainda não têm plena confiança em algo a longo prazo.
— Entendi — disse Tamura, contrariando o sulco que surgiu entre suas sobrancelhas.
“Se me permite a pergunta, é comum essa quantidade de Eisenyoungs por aqui?”
Novamente, Ananke traduziu a pergunta de Imari. Tamura levantou brevemente o rosto dos relatórios, mas não demonstrou interesse na resposta de Wander.
— Não é porque o planeta está vazio que a segurança não seja uma preocupação, e os agentes da Eisen são recursos valiosos. Mas não, eles chegaram há pouco tempo. Tivemos uma tentativa de espionagem empresarial há algumas semanas. — Ele inclinou a cabeça com um sorriso contido. — Ridículo, não é? Tentar se apropriar da criação de outrem e anunciá-la como sua.
Havia algo de dúbio em cada frase daquele homem, Imari sabia. Durante toda aquela conversa ele havia deixado claro, sem dizer com as palavras exatas, que sabia que elas não estavam ali para uma vistoria oficial e tinham sido enviadas pela Diretora Wangi. Mas ela não entendia por que motivo ele sempre olhava para ela em seus momentos menos sutis, como se sua reação o interessasse mais, mas Imari ainda não havia encontrado sentido no que dizia.
A única certeza era que estava lidando com um homem que sabia algo que não deveria saber.
Algo que ela deveria saber e não sabia.
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O restante da vistoria foi frustrante. Tudo estava certo, o que significava que não tinham um motivo plausível para permanecer no planeta. Felizmente ou infelizmente, ainda era cedo para dizer, Wander foi elegantemente prestativo.
— Nós recebemos muitas visitas importantes, seria pouco razoável não ter como acomodá-las após se deslocarem para um planeta tão isolado. E notei que as senhoras vieram em um transporte auxiliar, mas não há naves da Esquadra em órbita. Inclusive, eu estava esperando uma dessas visitas importantes que desmarcou de última hora. Eu adoraria ser agraciado com suas presenças no jantar. Seria uma pena desperdiçar a comida.
Por discrição, elas aceitaram quartos separados, mas não tinham a menor intenção de usufruir de mais do que um deles. Não quando Wander claramente sabia suas intenções, e era muito fácil se livrar de três agentes da Esquadra em missão extra-oficial num claro caso de improbidade. As suspeitas de Imari logo foram apoiadas pelas opiniões de Ananke e Tamura, que também estavam bem desconfiadas de tanta hospitalidade.
— Definitivamente, é um quarto destinado a visitas importantes — disse Tamura em um tom impressionado com o quarto, que, apesar de pouco mobiliado, demonstrava bom gosto em cada detalhe da decoração de madeira densa e seda tão tradicional de Raithua Naam. Em oposição ao comentário, Tamura sinalizou em vorcia: “Se eu fosse ele, estaria ouvindo.”
Tamura parou diante das amplas janelas de vidro e se virou para as outras, de forma que Ananke e Imari ficavam de costas para os locais estratégicos que poderiam ocultar uma câmera e ainda barravam as mãos de Tamura dessas hipotéticas linhas de visão.
— Nem precisavam se esforçar, a vistoria já ia ser bem favorável. — Ananke riu, concordando, apesar da decoração ser parecida demais com a de sua casa de infância para seu gosto. “Como vamos prosseguir?”
A pergunta foi direcionada à Imari. Ananke podia ter tomado a dianteira na conversa com Wander, mas, até o momento, tinha sido bastante respeitosa com o comando de Imari. Afinal, o comando foi determinado pela Diretora Wangi. A Navegadora podia ser a terceira na hierarquia da Vanguarda, mas a palavra de Wangi era tão intocável quanto as nuvens do céu.
“Mesmo se ficarmos por mais tempo, não temos uma justificativa para andar livremente pela instalação se a falsa vistoria não apontou nada de errado” Imari falou.
“Ele obviamente sabe que estamos aqui pela chantagem. Não podemos apenas ser diretas? Entrar lá e destruir tudo?” Imari encarou Tamura, novamente tentando discernir se era uma piada. Não parecia ser. Estava começando a suspeitar que as dúvidas que tinha sobre os comentários de Tamura não eram menos dúvidas e mais um desejo interno de que ela percebesse sozinha o quão pouco sábia essa abordagem seria. Mas com o silêncio, Tamura apenas argumentou: “É um crime contra o Governo-Geral.”
“Tentador, eu admito”, Ananke interrompeu, esboçando um meio sorriso quase diplomático. “Mas, com uma missão não oficial e uma chantagem que não pode ser descoberta, ‘destruir tudo’ pareceria uma sabotagem empresarial imotivada.”
Mesmo com posições e planos de vida tão distintos, uma passagem pela Corte seria um golpe duro para as carreiras das três. Ainda mais considerando que não poderiam nem contar com a proteção de Wangi, que acharia mais vantajoso levar adiante a narrativa do que correr o risco de se expor.
Não, o que elas precisavam era de um motivo justificável para uma invasão menos discreta. Algo que não tivesse nada a ver com Wangi, mas que permitisse abandonar a desculpa da vistoria.
Era um tiro no escuro e, ao mesmo tempo, não era. Um conhecimento sussurrado não por palavras, mas por ideias, fugaz como um traço de nevoeiro ao longe. Como a linha ilusória do horizonte.
“Vocês ficariam bem se eu me ausentasse?” Imari perguntou, de súbito. “Apenas por algumas horas.”
“Aonde você vai?”
“Preciso ver minha casa.”
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Ananke Zreindel tinha passado a última hora andando de um lado a outro do quarto, tentando, com toda a força de vontade que tinha, fazer o tempo andar mais rápido.
Poucas coisas no universo são capazes de influenciar a passagem do tempo — gravidade, velocidade e aquela grandeza matemática ainda não descoberta nas estranhas singularidades espaciais, por exemplo —, e toda vez que Ananke tentava, o universo a lembrava que sua força de vontade não era uma delas.
Ananke já tinha aberto e fechado todas as gavetas da cômoda e as portas dos armários, encontrando apenas lençóis de cama impecáveis com fragrâncias exóticas e ao mesmo tempo familiares de especiarias de Naam. Tinha alterado a iluminação ambiente do quarto três vezes até optar por deixá-la na mesma luz branca forte de quando chegaram. O holograma na parede não era nada além de um mural de propagandas do Grupo Wander cuja ordem repetitiva a deixara entediada após dez minutos de atenção.
Sentia o olhar de Tamura ficando progressivamente mais irritado com aquela inquietação, mas arrancar um comentário dela estava mais difícil do que o normal. Tamura havia se sentado na cabeceira da cama, apoiada contra a parede, e estava na mesma posição desde a saída de Imari. Como raios ela conseguia?
Alguma coisa aconteceria, Ananke tinha certeza. Wander claramente não estava assustado com a presença delas, mesmo sabendo seu motivo real, e elas também não se assustaram com isso, mas não teriam durado tanto tempo na Esquadra sem aprender o que esperar. Era muito fácil se livrar de três pessoas em um planeta remoto, independentemente da patente que ostentam no peito. Por isso, mesmo sem trocar uma palavra, tinham decidido que ocupariam apenas um dos quartos.
O que quer que fosse acontecer, Ananke apenas desejava que fosse logo. Teria mesmo que esperar até o jantar para ter um vislumbre dos planos de Ley Wander? Estava torcendo para que ele fosse tão impaciente quanto parecia.
— Você pode parar?! — Tamura ralhou, finalmente.
— Não estou fazendo nada — respondeu. Inclusive, esse era o problema. Ananke voltou para a janela e olhou para as terras áridas onde Imari tinha desaparecido. Não dava para ver o mar, mas dava para ouvi-lo e sentir seu cheiro. O mar não se deixa ser esquecido. — Sabe, não é a minha primeira vez aqui em Kedi Vorcia.
— É mesmo? — Tamura suspirou, desinteressada. Ananke olhou para ela, estranhando.
— Normalmente, você diz algo tipo “Se eu tiver que ouvir sobre a merda do vulcão vorcia de novo, eu me mato”.
— E mesmo assim, você nunca me poupou. Começo a desconfiar que seja essa a sua intenção.
Ananke soltou um riso curto que dissolveu a seriedade para longe de suas feições. Ela se afastou da janela sem a mesma tensão de antes nos passos, sentou-se aos pés da cama e se jogou para trás no colchão. Até o teto do quarto era ricamente decorado para imitar uma arte complexa escavada na pedra com um cinzel, mas ela sabia que a técnica atual era uma arte virtual que ganhava vida através de uma impressão a laser na cerâmica. Os vestígios escurecidos nas partes mais complexas do padrão denunciavam as queimaduras no material. Tudo melhora e evolui com o tempo, mas a arte resistia ao ímpeto da tecnologia em um acordo de autossacrifício: facilite demais o processo e arte deixa de ser arte. Mas sempre haveria prédios com o acabamento impecável da arte tradicional, ao menos enquanto houvesse quem, por cultura ou por status, estivesse disposto a pagar um artista por centenas de horas de trabalho minucioso.
— Deve ser ótimo trabalhar naquele mezanino, vendo o prédio ganhar vida abaixo dele — comentou, a voz entoando uma casualidade que não sentia realmente.
Tamura respondeu com um muxoxo.
— É de uma arquitetura… incomum. Eu esperaria um lugar com mais privacidade. Segredos corporativos não são sagrados para vocês?
Então ela não achava que as coisas importantes estavam no escritório de Wander. Ananke riu, apesar da leve frustração.
— Costumam ser. Por sinal, você sabe por que Naymee entrou para a Esquadra? É uma história engraçada.
— Não parece uma história que me interessaria.
— Ah, por favor. Você precisa ao menos me dar um motivo para não sair batendo perna pelo prédio!
— Eu nunca sei diferenciar, Navegadora Zreindel, quando você está no seu humor falante convencional de quando você está falando de tudo para evitar um assunto específico. — Tamura apoiou a têmpora em dois dedos, encarando-a de lado com censura. — Se tem algo que realmente quer falar, economize nosso tempo e seja direta.
De onde estava deitada, Ananke enxergava Tamura de cabeça para baixo, e pôde ver pela primeira vez uma estranha cicatriz na lateral inferior de seu queixo. Tamura, como todo Eisenyoung, tinha várias cicatrizes. Não por falta de acesso aos caros e excelentes cicatrizantes do mercado, mas porque a maioria era motivo de orgulho que eles exibiam como um cartão comercial ou portfólio de suas capacidades. Aquela era curta, em um formato estranho de asterisco, e deixou Ananke curiosa pelo que poderia tê-la causado. Cicatrizes sempre a deixavam curiosa. De onde Ananke vinha, elas eram consideradas imperfeições e tratadas para apagá-las da existência. E como tudo que era proibido, se pegava admirando quem decidia deixá-las na pele.
— Também ainda estou decidindo — respondeu, quase sem perceber. Se perguntou se Tamura tinha percebido uma intenção oculta de sua parte mesmo antes da própria Anke percebê-la, ou se aquilo era mais um sintoma da ocasional paranoia que às vezes se apossava da colega: quando Tamura não queria pensar em algo, se convencia de que era nesse algo em que todos estavam pensando. — Mas não queria perguntar antes de ter certeza que significa alguma coisa.
— Que o que significa alguma coisa?
— O fato de você não ter olhado nos olhos de nenhum dos seus irmãos.
Ananke viu o momento exato em que o desinteresse deu lugar a uma tensão cheia de rigidez, e Tamura a encarou com algo mais profundo que a irritação habitual, algo silencioso e inesperadamente sincero.
— Não os chame assim — respondeu, desviando o rosto.
— …Me desculpe? Eu pensei que vocês se tratassem dessa forma.
A Eisen era uma família, não era? A única do seu tipo em Raithua, que não era formada por laços de sangue, com irmãos e irmãs de armas de todos os povos conhecidos. Ananke não imaginava que isso pudesse ser uma ofensa. Crianças costumavam brincar com armas falsas fingindo ser Eisenyoungs em missão, como viam nos filmes de ação, e eles sempre se importavam apenas uns com os outros, com um tipo de lealdade libertadora bastante incomum.
Ainda assim, um deles havia sussurrado rhindrevha. No momento não fez sentido, e Anke pensou que tinha ouvido errado, mas era a sua língua mãe, e aquela era uma palavra que ela mesma já tinha ouvido vezes demais para confundir.
Criança ingrata.
— Eu não sou irmã deles — Tamura completou, como se explicasse tudo.
Então Ananke percebeu que não era ofensa na sua voz, e sim mágoa. Com muito esforço, resistiu ao impulso de perguntar mais detalhes, pois sabia que levaria uma resposta grosseira sobre cuidar da própria vida. Conversar com Tamura sobre coisas pessoais exigia a mesma técnica que estavam usando para evitar os microfones hipotéticos do quarto, precisava arrodear a pergunta verdadeira e disfarçá-la de alguma forma.
Anke se sentou, encarando-a com seriedade, e então perguntou algo sobre a missão. Só assim ela responderia.
— Os Eisenyoungs serão um problema? Além do esperado, quero dizer.
Elas já imaginavam enfrentar alguma segurança, mas não que houvesse um desentendimento pessoal entre os dois lados. Tamura virou o rosto, tentando decidir se a pergunta era de ordem prática ou alguma artimanha emotiva ou sei lá o quê, mas pareceu decidir que não se importava, e confirmou com um lento meneio de cabeça.
— Ótimo — Anke respondeu.
Era tudo o que precisava saber.
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Assim que deixou as dependências de Tellus, Imari teve a confirmação de suas suspeitas. Aquela era uma das muitas regiões de Kedi Vorcia sem uma praia propriamente dita, apenas o encontro contrastante de paredes rochosas com o mar revolto, que ela observou por um instante de hesitação. Ficou de costas para o mar, tentando reconhecer a costa, mas ainda não tinha certeza. A presença dos extra-vorcias havia transformado a região com um jardim de estufas e reservatórios de água escondendo a geografia natural.
Imari tirou as lentes protetoras dos olhos e as guardou em uma caixa selada. Seus olhos não eram feitos para o sol intenso — mesmo que tivesse aprendido na Esquadra que Kedi Vorcia ficava até bem distante de sua estrela, uma gigante azul que brilhava no céu com o tamanho de seu polegar —, e suas lentes não eram feitas para a água. Uma pequena inconveniência para alguém que se aventurava muito além dos limites que a natureza havia determinado. Tirou também os cateteres do pescoço, o que sempre causava um pequeno desconforto, mas se recusava a permanecer com eles na sua própria casa.
Ainda encarando as construções dos estrangeiros, Imari se deixou cair para trás, e, fácil assim, deixou um mundo para entrar em outro.
A verdadeira Kedi Vorcia era tímida e não se mostrava tão perto da costa, onde o mar era tão vazio quanto a terra, mas ninguém nadava tão rápido quanto um vorcia com saudade de casa, e logo a flora marítima começou a aparecer. O deserto subaquático deu lugar a uma planície de algas esparsas e discretas, da cor da areia ou das rochas, agitando-se na mesma direção com a força de uma corrente fria. Com um impulso, Imari alcançou a região, sentindo a força da água levá-la como se o mar também a quisesse de volta.
As correntes marítimas eram o equivalente às estradas dos povos terrestres, mas, diferente delas, só podiam ser aproveitadas, nunca controladas ou construídas. Na sua aldeia, era comum ver carregamentos de comércio serem transportados por elas, sem entregadores, apenas a indicação de onde vinham e para onde deveriam ir. A aldeia seguinte recolhia as entregas destinadas a ela, e as outras continuavam seu caminho até onde a corrente conseguisse levar. Imari não viu sinal algum dessas entregas no momento.
Com um movimento simples da mão, Imari alterou sua trajetória e escapou da corrente no local exato onde um novo desnível do solo se abria, exibindo as múltiplas cores da flora bioluminescente muitos metros abaixo de seus pés.
Ela estava certa. A instalação de Wander não existia no passado, mas ficava bem próxima de sua cidade. No mesmo lugar da cidade dele.
Enquanto descia lentamente até a cidade, a pressão ali um pouco mais forte do que em sua aldeia natal, mas que ela tinha aprendido a suportar, muitos sentimentos cruzaram sua mente. O abraço de uma mãe. O sorriso de um garoto. Uma despedida confusa e sofrida.
Um reencontro que nunca ocorreu.
Um culpado que nunca encontrou.
A cidade estava vazia. O brilho da flora e fauna refletia em ambientes abandonados, arcos de corais que não viam manutenção há tempos, salas, cavernas e alcovas desabitadas, dando o aspecto de uma cidade fantasma. No centro da cidade, um obelisco de coral polido incrustado de cracas e conchas tinha perdido suas formas com o desgaste da água. Imari o tocou com as mãos, depois apoiou a testa contra ele, seu coração desejando entender o que via.
E, em sua própria mente, encontrou as respostas.
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